        Elizabeth Thornton

Serie Princesas

A PRINCESA PERFEITA

The Perfect Princess


        Lady Fugitiva
         -Rosamund, no vou deixar que coloque a minhas costas.
         Seus olhos procuraram os dele. No estava sorrindo, mas pensou que era bastante positivo que houvesse um matiz de brincadeira em suas palavras.
         Era mortificante. Tinha vinte e seis anos e se estava sentindo como se fora uma adolescente assustadia.
         Baixando os olhos, rodeou com seus braos o torso dele e comeou a lutar com a atadura. Quando os peitos dela se apertaram contra seu trax, ele se estremeceu.
         -Sinto-o -disse ela-, mas a vendagem tem que estar bem escuro.
         Ela seguiu adiante com a operao. Esta vez ele no se estremeceu, mas sua respirao se fez audvel.
         -Agenta um pouco -disse ela, e atirou forte das duas pontas da atadura. Depois as atou em um n.
         Como viu que ele seguia em silncio, lhe interrogou com o olhar. De novo a estava olhando daquela maneira estranha, como se algum lhe tivesse apunhalado 
pelas costas.
         -No pretendia te fazer danifico -murmurou ela.
         O no respondeu. ficou de p como estava, olhando-a fixamente. Aquele silncio lhe fez eterno.
         -Voc... -disse ele.
         Ela no podia apartar seus olhos dele.
         -Eu...?-acrescentou ela.
         aproximaram-se mais. Suas mos agarraram os braos dela. Ela roou com uma mo seu peito nu. Sua pele era quente. Podia sentir o batimento do corao acelerado 
do corao do Richard. Ou se tratava de seu prprio corao? Pareceu-lhe que apoiar a cara nesse momento sobre seu peito seria a coisa mais natural do mundo.
        
        Prlogo
         Richard Maitland decidiu que ainda no estava preparado para morrer. Embora no tinha muito mais que dizer a respeito. Uma bruma negra se estava fechando 
a seu redor. "Assim que isto  morrer", pensou. Seu crebro lhe estava dizendo que se rendesse e pusesse-se a dormir. por que seguia lutando?
         Seguia lutando porque sua morte seria ignbil, e seu assassino ou seus assassinos ficariam impunes. Tinham sido preparados e ele tinha cansado como um parvo 
em suas mos. Era um lobo solitrio -um fatal defeito de carter, segundo Harper, que, neste caso, tinha razo. Ningum sabia onde estava. No tinha pensado em dizer-lhe 
a ningum porque no era importante e no tinha nada que ver com seu trabalho no Servio de Segurana do Estado. Embora seus amigos no se tragariam o bem cuidado 
cenrio que lhe tinham preparado, no foram ou seja por onde comear a procurar respostas  razo que lhe tinha levado a morte.
         Nem ele mesmo estava seguro se soubesse.
         Quem poderia desejar sua morte?
         Sua risada se transformou em uma tosse seca e lhe chiem, e se abraou o peito com um brao para sufocar uma pontada de dor. feito-se montes de inimigos. 
Soldado, agente secreto, chefe de Estado Mais velha do Servio de Segurana... Um homem de sua posio atraa inimigos igual a um cadver apodrecendo-se atrai as 
moscas.
         E este cru pensamento lhe levou a outro: Lucy.
         A branca neblina ia perdendo intensidade, e sua mente lutava contra um medo que no fazia mais que aumentar. Lucy. Onde estava Lucy? O que tinham feito 
com ela? lembrou-se do menino...
         Podia cheirar o sangue. O ar estava impregnado dela. Do sangue do Lucy e de seu prprio sangue. Tinha que abrir os olhos, tinha que orientar-se.
         Parecia que lhe ia custar uma eternidade conseguir incorporar-se. As luzes piscaram. Viu formas que avanavam e retrocediam no ar. Forou a vista at que 
conseguiu ver claramente. Estava olhando para a cama, e viu o corpo mdio nu de quo jovem estava deitada sobre a cama. Lucy.
         Pareceu-lhe que seus pulmes foram estalar quando tentou gritar em sinal de protesto. Isto no teria que ter acontecido jamais. Ela era inocente. Seu nico 
crime tinha sido lhe conhecer ele. No era mais que uma figurante nesse drama grotesco. Isso era quo nico significava para seus assassinos: uma parte do cenrio 
preparado para que sua prpria morte parecesse mais plausvel.
         Tudo comeava a voltar para sua mente: o menino que o tinha estado esperando ao final das escadas; o bastardo que lhe tinha atacado com uma faca; recordou 
como lhe tinham arrojado a um rinco da habitao, sobre uma cadeira, para que se sangrasse at morrer. Sua mo estava aberta e apertava contra seu peito; algo quente 
e pegajoso jorrava entre seus dedos. Olhou para baixo. Uma grande mancha carmesim estava comeando a estender-se por sua camiseta. Se no fazia algo em seguida, 
logo ia ser muito tarde.
         No podia ficar em p, assim que se apoiou nos joelhos, enquanto com um dos braos rodeando seu peito tratava de impedir que o sangue seguisse emanando.
         Agora que j se sentia mais acordado, e comeava a retornar a sensao de dor, pareceu-lhe como se tivesse um atiador ao vermelho vivo parecido no peito. 
Ignorando o martelar que sentia no interior de sua cabea, tentou deslocar-se apoiado nos joelhos, doloroso centmetro a doloroso centmetro, at que chegou ao lado 
da cama.
         Procurou provas com sua mo livre e encontrou a pistola que tinha cansado entre o colcho e a travessa da cama. Ficavam muito poucas foras, e embora sabia 
que isso podia significar sua morte, apartou o brao com o que se rodeava o peito e utilizou ambas as mos para martelar a arma. Apoiando as costas contra a cama, 
apontou pela janela e apertou o gatilho.
         O impacto da bala provocou ondas sonoras que ricochetearam de parede a parede. Ouviu gritos que vinham de abaixo, e a seguir o rudo de passos que subiam 
apressadamente pela escada. No tinha maneira de saber se quem chegaria de um momento a outro ia ajudar lhe ou se acaso se trataria de um de seus assassinos. Embora 
isso j no importava muito.
         A neblina estava voltando a espessar-se e j no ficavam nem vontades nem energias para lutar contra ela. E a neblina o absorveu como uma enorme onda negra.
         
         
        Captulo 1
         -por que me pediste que me case contigo, Michael?-Imediatamente se arrependeu de ter feito aquela pergunta. Sabia que ia rechaar sua oferta, e agora teria 
que aparentar interesse por sua resposta.
         -Prncipe Michael -corrigiu ele automaticamente-. Porque, lady Rosamund, penso que chegar a ser uma princesa perfeita.
         "Uma princesa perfeita." Essas ltimas palavras chiaram na mente do Rosamund. Assim era como a chamavam nos peridicos desde que o prncipe Michael, do 
pequeno principado do Kolnbourg, tinha-a convertido no objeto de suas cuidados. E a deprimente verdade era que provavelmente poderia ter sido uma princesa perfeita.
         Era filha de um duque e tinha tido uma existncia privilegiada. Desde dia que nasceu, tinha sido educada em todas as atividades femininas que eram essenciais 
para que a esposa de um cavalheiro levasse uma vida adequada a seu status. Nunca tinha ido  escola como as demais moas, no tinha tido noivos, e no a tinham beijado 
nem tinha tido aventuras.
         Se tivesse nascido menino, as coisas teriam sido muito diferentes! Tinha dois irmos, Caspar, o mais velha, e Justin, que era trs anos mais jovem que ela. 
Eles tinham feito coisas emocionantes, como ter realizado o Grand Tour, e tinham lutado pelo rei e por seu pas. Tambm tinham vivido outras coisas emocionantes 
das que se supunha que ela no tinha que saber nada, como tratar com a Condessa, a que todo mundo conhecia como a ltima amante do Caspar, uma mulher altiva, cara 
e com o temperamento de uma tigresa.
         Rosamund esboou um leve sorriso. O carter da Condessa nunca teria sido o apropriado para a filha de um duque. Tinham-na educado para que soubesse comportar-se 
como corresponde com todo mundo, desde Sua Majestade at o ltimo servente. Conhecia as regras do protocolo de cima abaixo, por dentro e por fora. Sempre sabia onde 
sentar-se  mesa, ou por quem podia deixar-se cortejar e por quem no. As conversaes banais eram seu ponto forte, exceto quando sua mente divagava, coisa que lhe 
acontecia de vez em quando, e se esquecia do que estava dizendo. Se tivesse que descrever-se a si mesmo com uma palavra, essa deveria ser... andina.
         Andina. Era uma palavra que se cravou em sua mente desde dia do baile de lady Townsend, quando ouviu de passada a algumas das mulheres jovens que falavam 
sobre seu carter. Possivelmente ningum lhe poderia ter antipatia, disse uma delas, porque era to andina como um sorvete de baunilha. E todas puseram-se a rir 
com a ocorrncia.
         Sua me tinha sido algo menos andina. Conforme diziam todos, Elizabeth Devere no teve pacincia para suportar todas as obrigaes que exigia sua elevada 
posio e no viu nenhuma razo para deixar-se escravizar por elas. Ao final, isso foi sua perdio. Tinha sado a cavalgar sozinha, e se tinha cansado do cavalo 
enquanto saltava uma cerca. Mas no foi o acidente o que a matou, a no ser o fato de que no a pudessem encontrar at a manh seguinte. Caiu doente, com febre, 
e silenciosamente se foi apagando.
         Se sua me tivesse vivido, possivelmente seu pesaroso pai no se teria visto obrigado a ser to estrito com sua nica filha. E possivelmente se sua me 
vivesse ainda, sua nica filha no se haveria sentido to desprotegida durante toda sua vida.
         Todo isso ocorreu vinte anos atrs, mas ainda a sentia falta de. Imaginava o que poderia ter pensado sua me de como tinha evoludo sua filha se a pudesse 
ver agora.
         -Lady Rosamund?
         V, tinha-o voltado a fazer; tinha voltado a esquecer onde se encontrava.
         Olhou ao prncipe Michael e suspirou. Pensou que devia haver algo equivocado nela. O prncipe Michael do Kolnbourg era alto, moreno e de aparncia agradvel. 
Alm disso tinha um ttulo de nobreza, e legies de mulheres tinham tratado de lev-lo a altar. Ento, por que no lhe parecia atrativo?
         Possivelmente porque ela tambm era alta, moria e de aparncia agradvel, alm de ter ttulo de nobreza. Possua tambm uma fortuna prpria, e no era 
absolutamente tola. No fazia falta ser um modelo de inteligncia para deduzir que essa era a razo pela que o prncipe Michael se decidiu a cortej-la. Enquanto 
isso, dentro de um ms cumpriria os vinte e sete anos, e sabia que seu pai estava comeando a se desesperar-se porque no se decidia a aceitar a nenhum de seus pretendentes.
         Entretanto, o que ela queria era um noivo; no um pretendente, a no ser algum que a quisesse por si mesmo. Os pretendentes, segundo sua prpria experincia, 
no eram mais que contveis; anotavam cada assento em seu livro de contas mental antes de decidir-se a fazer uma oferta.
         Michael, o prncipe Michael, era definitivamente um pretendente. Ocupava o quarto lugar entre os herdeiros ao trono e no tinha nenhuma renda a seu nome, 
o qual era uma trgica circunstncia se se consideravam seus caros gostos.
         Nesse momento estavam no estufa do Twickenham House, a manso ducal no Twickenham, aos subrbios de Londres, e Rosamund se tomou uns minutos para ficar 
em circunstncias, deixando que seu olhar se perdesse por uma das janelas. O suave outono acabava de comear e as rvores resplandeciam cheios de cores.
         -Sou uma garota inglesa -disse ela-. Jamais poderia ser feliz em uma terra estrangeira.
         Olhou por cima de seu ombro e o pilhou no momento em que ele olhava seu relgio. Evidentemente, ele se aborrecia tanto como a aborrecia a ela! No lhe surpreendeu: 
lady Rosamund Devere era uma pessoa aborrecida. Em tanto que filha de um duque, tinha sido educada para ser to andina como um sorvete de baunilha. E esse era exatamente 
o tipo de esposa que queria ter o prncipe Michael.
         A princesa perfeita, o andino sorvete de baunilha, da que se podia esperar que nunca serviria uma comida equivocada, diria uma palavra fora de tom ou teria 
uma idia original.
         Sem incomodar-se nem sentir-se violento, o prncipe Michael deslizou seu relgio no bolso de seu colete e lhe dedicou um de seus mais atrativos sorrisos.
         -No tenho nada que objetar a que permanea na Inglaterra quando nos tivermos casado -disse ele-. De fato, estou decidido a fazer da Inglaterra meu lar. 
Este clima eu gosto de muito.
         Assim que ela se decidiu a interpretar seu papel, embora se supunha que no tinha dotes de atriz. Devolveu-lhe um de seus atrativos sorrisos.
         -Estou quase convencida, mas...
         -Mas?
         -Bom, Sua Majestade no pode jogar xadrez. E j sabe, no poderia me casar com um homem que no pode jogar xadrez.
         
         
         A senhora Calliope Tracey colocou a bule na mesa dando um golpe.
         -Xadrez? -perguntou-. O que tem que ver o xadrez com tudo isto?
         Rosamund olhou fixamente a seu amiga por cima do lado de sua taa de ch.
         A noite anterior se alojou no Clarendon, onde estava acostumado a instalar-se quando ia  cidade para realizar algumas compra ou para escapar do mau humor 
de seu pai. O duque, seu pai, no se tinha alegrado ao conhecer a notcia de que suas relaes com o prncipe Michael no foram continuar. Tiveram uma discusso, 
se a um monlogo enlouquecido lhe pode chamar discusso. E seus irmos tampouco tiveram a sorte de sair impunes. Parecia que Sua Excelncia o duque tinha criado 
a trs meninos ingratos, se pessoas de sua idade podem ser chamados meninos. Nenhum dos trs se casou. E seguindo desta maneira as coisas, a linha de descendncia 
acabaria por desaparecer. Aonde foram chegar?
         Como era usual, ela e seus irmos estiveram escutando a papai em um silncio pormenorizado, e a seguir escaparam a fazer precisamente o que eles queriam 
fazer. No caso do Justin se poderia tratar de perseguir anguas, conduzir seu carro de cavalos at Brighton, bater-se com algum em um duelo, participar de alguma 
competio ou passar a noite de farra com seus amigos. No caso do Caspar se trataria sem dvida da Condessa. Mas no havia muitos stios aos que pudesse escapar 
a filha de um duque, embora sempre poderia contar com sua nica amiga, que lhe emprestaria um pouco de ateno. Como assim foi, no sala de jantar da casa do Callie, 
no Manchester Square.
         Essa era outra das conseqncias de ser a filha de um duque: tinha montes de conhecidos, tanto homens como mulheres, mas muito poucos amigos verdadeiros. 
Outros estavam to intimidados por sua fila que a tratavam com tanta deferncia que inclusive a faziam sentir-se violenta. Algo que ela sugerisse sempre era aceita 
sem discusso. Em definitiva, era bastante aborrecido.
         Callie era a exceo. Seu defunto pai ocupou o posto de mordomo do duque quando ficou vivo; ele e Callie chegaram ao castelo Devere, a principal residncia 
do duque do Romsey, no muito depois da trgica morte da me do Rosamund. Ela e Callie se conheciam desde que eram meninas. Tinham sido educadas juntas, no no colgio, 
mas sim pela instrutora do Rosamund. Este acerto tinha agradado tanto ao duque como a seu mordomo, pois Callie teria a vantagem de receber uma educao superior 
a que seu pai podia lhe haver devotado e por sua parte Rosamund poderia desfrutar da companhia do Callie. Embora em um princpio a idia era que se tratasse s duas 
meninas da mesma maneira, isso no sempre tinha sido assim. Ao Callie sempre lhe tinham permitido mais liberdades que ao Rosamund.
         Quando anos mais tarde Callie se casou e se foi dali, comearam a aparecer por casa do Rosamund multides de pretendentes, a maioria deles com a mente posta 
solo em seu dote. Fazia um par de meses os nimos de seu pai se aplacaram e tinha decidido contratar a uma jovem da idade do Rosamund, Prudence Dryden, para que 
fosse seu acompanhante, mas as coisas no saram como Rosamund tinha esperado. A senhorita Dryden no tinha um carter muito aberto. E dado que tampouco Rosamund 
se deixava conhecer facilmente, no tinham chegado a ser nada mais que duas estranhas que se tratavam amavelmente.
         -Roz? -Callie golpeou com a palma da mo sobre a mesa para chamar a ateno do Rosamund-. Ol? Ol?
         -O que? -respondeu sobressaltada.
         -Aonde vai quando aparece essa expresso em sua cara? No que estava pensando?
         -Estava pensando que as garotas correntes o deixam muito fcil. Tm muitas possibilidades. Podem fazer o que quiserem ou ir aonde queiram. J o v, voc 
mesma.
         Callie riu e disse:
         -Isso  absurdo. A triste verdade  que nenhuma mulher o deixa fcil. Desde que nascemos temos a algum homem que tira das rdeas diante de ns. Primeiro 
o pai e logo o marido ou algum irmo. Uma mulher s  realmente livre quando se converte em viva. Deveria seguir meu exemplo.
         Rosamund sorriu com amabilidade. Dizer que a vida para uma mulher comeava quando se convertia em viva era uma das brincadeiras tpicas do Callie, embora 
no caso do Callie era certo. Quando o no chorado tirano que tinha por marido morreu asfixiado em seu prprio vmito durante uma bebedeira de revide, Callie foi 
se viver com o irmo daquele, no Manchester Square, e encontrou sua verdadeira vocao como anfitri do Charles Tracey. Era divertida e extravagante. Que convidassem 
a uma de suas festas era algo muito apreciado, e quase todo mundo a convidava a ela. E tampouco lhe faltavam nunca pretendentes.
         Era o tipo de mulher, pensava Rosamund, que sempre atrai aos homens. Tema uns olhos escuros e expressivos, e um cabelo moreno e escuro que se frisava de 
maneira natural para emoldurar seu rosto entre pequenos saca-rolhas. Alm disso, era to elegante e estava to finamente esculpida como uma figurinha de porcelana. 
Deus no permitia que descendesse de um carro de cavalos sem que algum homem se precipitasse a lhe oferecer sua mo, ou que levasse entre os braos uma chapeleira 
ou deixasse cair um leno sem que algum se aproximasse em seguida a lhe emprestar seus servios. No porque Callie esperasse esse tipo de cuidados, mas sim mas 
bem porque os homens pensavam que era frgil. Embora nada estava mais longe da realidade.
         Era certo que os homens tambm tinham com o Rosamund o mesmo tipo de cuidados, mas isso se devia a que esperavam obter os favores de seu pai. As nicas 
ocasies nas que se sentia diminuta era quando ia flanqueada por seu pai e seus irmos. Algo que apreciava especialmente em seus acompanhantes era precisamente que 
fossem de sua altura; Prudence era to alta como ela.
         -por que sorri? -perguntou Callie.
         -Estava pensando no prncipe Michael. Pelo menos  to alto como eu.
         -Ainda no explicaste o que tem que ver o xadrez com isto. O que te respondeu o prncipe quando lhe disse que jamais poderia te casar com um homem que no 
joga xadrez?
         -No disse "que no joga xadrez", mas sim no pode jogar xadrez". H uma diferena. O que podia dizer? Eu lhe acabava de ganhar uma partida de xadrez. Se 
no tivesse cuidadoso seu relgio, lhe teria deixado partir com cortesia. Mas quando vi que me desprezava dessa maneira, no me preocupei com quo brutal estava 
sendo -Diante o olhar de assombro do Callie, Rosamund acrescentou- Est acostumado a jogar xadrez, e se tem a si mesmo por um perito. Mas lhe fiz saber que no era 
um competidor suficientemente bom para mim.
         -E o que passou ento?
         -Deu meia volta e saiu dali como se fosse um foguete de feira.
         Callie a olhou fixamente e em seguida estalou em gargalhadas. Ao final disse:
         -Vs os jogadores de xadrez so uma raa  parte. Eu nunca tive suficiente pacincia para esse jogo.
         -No, j sei.
         Houve um intervalo de silncio enquanto Callie voltava a encher as taas de ch. Sem levantar a vista da bule, Callie disse:
         -Estes bate-papos tpicos de mulheres me fazem pensar que por fim te est expondo estabelecer seu prprio lar.
         -estive pensando nisso, mas no sei o que poderia ter de bom. No me fui antes de casa, como teriam querido meu pai e meus irmos, porque se teriam instalado 
comigo ou me teriam visitado to freqentemente que no vejo qual teria sido a diferena.
         Callie suspirou.
         -Estou segura de que tem razo. Seu pai e seus irmos lhe protegem muito. Se eles fossem minha famlia, parece-me que lhes teria pego um tiro ou me teria 
pego isso mesma. Graas a Deus, os homens de minha famlia sempre souberam guardar as distncias, exceto Charles,  obvio, mas ele  um encanto. Nunca me arrependi 
que me haver vindo a viver com ele.
         Ao Rosamund no cabia nenhuma dvida de que era certo. Embora tinham uma tia solteirona, Francs, que tambm vivia com eles, Callie era a que dirigia a 
casa. E tambm parecia que era a que dirigia ao Charles, quem, em opinio do duque, deveria ficar firme com ela muito mais freqentemente.
         De repente Callie perguntou:
         -Onde est seu acompanhante, a senhorita como-se-chama?
         -Senhorita Dryden -respondeu Rosamund ligeiramente irritada porque em dois meses Callie no se preocupou em recordar o nome da moa-. Est doente, resfriada, 
e se teve que ficar em cama.
         -Surpreende-me seu pai. Nunca te tinha deixado viajar sozinha -Callie acabou seu ch e deixou sobre a mesa a taa e o pires-. No  que a senhorita Dryden 
seja uma grande companhia. A verdade  que  to inspida...
         -Reservada -disse Rosamund novamente irritada-. A senhorita Dryden  reservada, no inspida. E no viajei sozinha. vim no carro do duque, com todo o complemento 
de choferes e criados armados at os dentes. E agora que j estou aqui, pode ser voc meu acompanhante.
         Callie apoiou o queixo sobre seus dedos entrelaados.
         -J sabe o que penso, Roz, eu em seu lugar me casaria -lhe disse-. No, no, me escute. Essa pode ser a soluo ideal. Ao melhor precipitaste ao rechaar 
ao prncipe Michael. Por isso ouvi que ele, creio que  o marido ideal. -Seus olhos se iluminaram-. Se teria casado contigo e se teria esquecido de ti. Teria sido 
livre para ir e vir quanto gostasse. Sem mais renda. Que mais pode desejar uma mulher?
         -O que me diz do homem perfeito? -respondeu Rosamund secamente.
         -O homem perfeito? -riu Callie-. Roz, isso no existe. E se existisse, a estas alturas j teria que hav-lo encontrado.
         -No, espera um momento! No pense que estou dizendo tolices.
         Callie se acomodou em sua cadeira, estudou o cenho franzido do Rosamund e disse:
         -Sou toda ouvidos. me descreva essa romntica figura que pode conseguir o que nenhum outro homem conseguiu e te conduzir at o altar.
         Rosamund desceu o olhar e observou sua taa de ch como se fosse uma pitonisa lendo o futuro nas folhas que flutuavam no lquido. Uma solitria folha de 
ch emergiu  superfcie. Com o dedo indicador a voltou a empurrar ao fundo. Ao cabo de um momento, esta voltou a aparecer na superfcie.
         -Drat -disse Rosamund-. No consigo me liberar dele.
         -Quem? -perguntou Callie desconcertada.
         -Um que  alto, moreno e de aparncia agradvel.
         -Bom, espero que seja alto. Nada  mais ridculo que uma mulher danando com um homem que no lhe chega  altura dos ombros. E que mais?
         Rosamund deixou com cuidado sua taa de ch sobre a mesa e dedicou ao Callie um de seus mais andinos sorrisos.
         -Bom -disse-, pode chegar a ser como voc (j me entende, direto at o extremo de chegar a ser grosseiro). Nunca tive que me preocupar com saber o que estava 
pensando, porque me o solta sem contemplaes,  cara. No me v como a filha de um duque. No lhe interessa minha fortuna. Todo o tempo me est levando a contrria. 
No pretende conseguir os favores de meu pai ou de meus irmos; se se cruzar com eles as manda ao inferno. Y...
         -E?
         -E quando jogamos a cartas, ao xadrez ou ao que seja, no se zanga porque uma mulher lhe tenha ganho.
         Callie riu.
         -Parece que lhe acreditas tudo o que diz.
         -E o fao. Mas como esse homem ainda no se deixou ver, terei que me arrumar isso contigo. Assim, me diga, o que vamos fazer esta manh?
         Callie ajustou o fechamento de seu bracelete e disse:
         -Temo-me que terei que te deixar reveste uma ou duas horas, porque tenho uma entrevista que no posso anular -Elevou a vista e sorriu- Te diria que me acompanhasse, 
mas seu pai ficaria furioso se o descobrisse.
         Rosamund comeava a sentir-se zangada.
         -Qualquer diria que conhece meu pai melhor que eu. Ladra muito, mas no remi tanto, sabe?  um fanfarro. E se tivesse feito caso sempre de seus aborrecimentos, 
j teria que ter aceito me casar com o prncipe Michael, no acreditas? Assim deixa que eu me preocupe de meu pai e me diga aonde vamos esta manh.
         Callie meneou a cabea.
         -No. brincadeiras aparte, no  o tipo de lugar no que se sentiria cmoda.
         -Bom, me deixe que o eu julgue mesma.
         -De acordo. Vou ao Newgate.
         -Newgate? A priso do Newgate?
         -Sim, a priso.
         Pela mente do Rosamund passou a macabra viso de uma execuo pblica. Observou a seu amiga lhe sustentando o olhar, e pensou que era uma idia que solo 
lhe podia ocorrer a ela. Isso era tpico do Callie. tinha-se a si mesmo por uma pessoa original, por algum que desafiaria ao diabo s pela emoo de faz-lo. Essa 
era uma das razes pelas que estava to solicitada. Tinha um monto de histrias que deixavam a sua audincia to encantada como impressionada. Um no se aborrecia 
nunca com o Callie. Tinha organizado bailes de mscaras dos que se supe que as senhoras no deveriam estar  corrente, e inclusive tinha pirado em globo... Mas 
uma execuo pblica? Isso era ir muito longe.
         As delicadas sobrancelhas do Callie se arquearam:
         -No sei o que est passando por sua cabea, mas estou segura de que te equivoca. trata-se de uma obra de caridade.
         levantou-se e se aproximou da cmoda. Ao cabo de um momento, retornou com um peridico dobrado e o passou ao Rosamund.
         -Primeira pgina, Richard Maitland -disse-. Seu julgamento durou toda a semana. Seguro que ter lido algo disto. Foi achado culpado e condenado  forca.
         Rosamund jogou uma olhada ao peridico e logo olhou ao Callie.
         -No  aquele homem que assassinou a uma das donzelas do George and Drago? No era ela seu amante?
         Callie meneou a cabea.
         -negou que ela fosse seu amante. Diz que solo eram amigos. O pai dela serve com ele na Espanha, e quando aquele morreu, ela pediu ajuda ao Maitland. H 
dito que a moa j estava morta quando entrou em sua habitao, e que um de seus assassinos lhe atacou.
         -Assassinos?
         -Um menino jovem e um homem. No tem lido os peridicos?
         -Sim, mas no recordava os detalhes.
         Callie se moveu impaciente.
         -O moo era parte do compl. Conduziu ao Maitland at a habitao da senhorita Rider, onde o verdadeiro assassino, que estava escondido detrs da porta, 
poderia ter acabado com ele.
         -Pensava que tinha sido um crime passional. No foi isso o que disse o fiscal? Que ela estava disposta a lhe deixar por outro? E havia testemunhas que o 
confirmaram.
         Callie deixou escapar um breve suspiro.
         -Sim, claro, testemunhas, sempre que supusermos que as garonetes e as moos de hotel so testemunhas confiveis.
         Havia momentos em que Callie podia ser realmente irritante, como agora. Quando lhe colocava algo na cabea era capaz de dizer algo com tal de que lhe dessem 
a razo. Rosamund tinha seguido o julgamento nos peridicos, mas sem emprestar muita ateno, j que seu prprio nome estava aparecendo tambm na imprensa como a 
futura princesa do Kolnbourg, e tinha estado preocupada com isso. Mas sim se recordava a si mesmo pensando que Richard Maitland era completamente culpado.
         -As garonetes e as moos de hotel so gente respeitvel, e o jurado lhes acreditou -disse Rosamund.
         -Ah, v! No havia nada respeitvel nessa gente. lhe posso dizer isso solo olhando.  obvio que estive na sala do julgamento. No me perdi nem um s dia. 
         Ao Rosamund no surpreendeu saber que Callie tinha assistido ao julgamento. Era bastante comum entre as mulheres que estavam  ltima, ao menos as mais 
atrevidas, assistir a esse tipo de eventos; e Callie era das mais atrevidas. Ao cabo de um momento, perguntou-lhe:
         -por que foram mentir as testemunhas?
         -Possivelmente algum os tinha subornado. Ou possivelmente tinham medo de dizer a verdade. Maitland disse que tinha inimigos muito poderosos.
         Rosamund sacudiu a cabea.
         -O que? -perguntou Callie.
         -por que est to convencida de que esse homem  inocente?
         -Por ser quem .  um oficial e um cavalheiro. ... foi chefe de Estado Mais velha do Servio de Segurana. Creio em sua palavra muito mais que na das garonetes 
e as moos de hotel. E vou dizer se o a ele, cara a cara. Venha, no fique to impressionada. Estar algemado, e ns no vamos sofrer nenhum dano.
         Rosamund no sabia o suficiente sobre o assunto para lhe levar a contrria, e alm disso sabia muito bem que quando ao Callie lhe colocava algo na cabea 
nada poderia faz-la trocar de opinio.
         -Quais so "ns"? -perguntou.
         -Ah, tia Fran e eu. E ali nos temos que encontrar com o Charles. Assim j v, levar vrios acompanhantes.
         Essa foi uma das ocasies nas que Rosamund pensou que Charles deveria haver-se posto firme com ela, embora no por isso Callie ia escutar lhe.
         Callie estava estudando a expresso do rosto do Rosamund e deixou escapar um suave suspiro:
         -Escuta, Roz. Sinto pena por esse homem, isso  tudo. Todos seus amigos o deixaram sozinho. Unicamente quero que saiba que algum acredita nele. Assim vou 
oferecer lhe uma despedida por todo o alto (champanha, pato assado, trufas e esse tipo de coisas). No me olhe com essa cara de preocupao. Pode que no queira 
me receber. Nesse caso, deixarei-lhe a cesta com a comida ao guardio.
         Houve um intervalo de silncio e logo Callie continuou falando:
         -Supondo que te cruzaria alguma vez com o Maitland quando esteve em Lisboa.
         -Esteve Maitland em Lisboa?
         -Serve na guerra da Espanha. Seu histrico de servio  irrepreensvel. Estava tudo nos peridicos.
         -No, nunca me cruzei com ele. Mas no me surpreende. Meu pai e eu fomos hspedes do embaixador. E os nicos soldados com os que me tropecei foram uns quantos 
membros do alto mando.
         Callie ficou em p.
         -Se quer te arrumar antes de que saiamos, a habitao lavanda est livre. Parece-te que nos vejamos em mais ou menos meia hora? Se no querer vir, no vou 
ofender me. Sei o difcil que pode ficar seu pai quando se esquece de que  a filha de um duque. Enfim, sinta-se como em sua casa. Estaremos de volta em uma hora, 
mais ou menos.
         Rosamund se afundou em sua cadeira, algo que nunca tivesse feito se algum a tivesse podido ver. Pensava que Callie tinha a extraordinria habilidade de 
fazer que se sentisse freqentemente desconjurado. Seu olhar tropeou peridico que Callie lhe tinha trazido. Ao cabo de um momento comeou a folhe-lo com suficiente 
mpeto para chegar a arrancar a pgina.
         Tinha data de 28 de agosto de 1816.
         Rosamund ficou a ler.
         
         
        maitland culpado! sentenciado  forca!
         O coronel Richard Maitland, chefe de Estado Mais velha do Servio de Segurana do Estado, foi declarado hoje no tribunal do Old Bailey culpado do assassinato 
da senhorita Lucille Rider. especulava-se que o jurado poderia recomendar clemncia, em vista do histrico de guerra do acusado, mas sorte petio no chegou ainda 
ao tribunal. Ao ler a sentena, o presidente do tribunal, o senhor Robarts, matizou que se tratava de um crime particularmente brutal, e que os crimes passionais 
no devem ser tolerados jamais em um pas civilizado. Depois de ficar o bon negro, pronunciou a sentena de morte.
         A expresso do Maitland seguiu sendo completamente imperturbvel. No se ouviu nem um comentrio na sala do tribunal quando se leu a sentena. O coronel 
Maitland, que sempre se declarou inocente, foi retirado da sala algemado.
         Muitos dos que estavam nos bancos do Ouam Bailey mostraram sua satisfao pelo veredicto. A opinio geral era que ningum estava por cima da lei, e que 
um homem da posio do coronel Maitland, um homem que tinha jurado defender a lei, devia ser julgado com severidade. 
         Muitos expressaram sua simpatia pela vtima, uma garonete do hotel no que teve lugar o assassinato. Os testemunhos dos amigos da senhorita Rider foram 
em boa medida responsveis pela sentena. Embora Maitland insistiu sempre em que a relao que lhe unia  vtima era do todo inocente, as declaraes dos amigos 
desta em sentido contrrio determinaram que lhe achasse culpado.
         Um alto cargo do Servio de Segurana do Estado, que prefere seguir no anonimato, comentou que o coronel era uma pessoa muito particular, e que dirigia 
o departamento com mo de ferro. Quando lhe perguntou sobre os rumores a respeito dos mtodos, s vezes brutais e pouco ortodoxos, do Maitland, o oficial se negou 
a confirmar ou desmentir esse particular.
         A execuo est prevista para nos dia 30 de agosto s oito e meia da manh na priso do Newgate.
         
         
         Rosamund voltou a ler o artigo e deixou a pgina a um lado. Parecia-lhe que ali no havia nada que lhe fizesse sentir simpatia pelo Richard Maitland. Muitos 
soldados tinham recebido condecoraes, mas isso no podia servir de desculpa para um assassinato. Nem sequer seus prprios colegas no Servio de Segurana tinham 
nada bom que dizer dele.
         Sua defesa, por isso ela recordava, apoiava-se em que tudo tinha sido uma montagem preparada por seus inimigos. O era o verdadeiro objetivo, e no a senhorita 
Rider. Mataram-na a ela para aparentar um crime passional e para evitar que recassem as suspeitas sobre eles; depois os assassinos o tinham apunhalado a ele e o 
tinham abandonado ali para que morresse sangrado. O mau para o Maitland foi que o fiscal fez declarar a um mdico que afirmou que a navalhada que lhe feriu era superficial, 
e que no supunha uma ameaa para sua vida. Uma ferida autoinfligida, como assegurou o fiscal, para convencer s autoridades de sua inocncia. Depois Maitland teria 
atirado a faca pela janela para que no lhe pudesse incriminar. Mas se achou a faca e tirou o chapu a montagem do Maitland.
         A execuo teria lugar ao dia seguinte pela manh. Rosamund sentiu um calafrio que lhe percorreu todo o corpo. Maitland estava comeando a despertar sua 
simpatia. tratava-se uma obra de caridade.
         Se seu pai tivesse sabido que pretendia visitar Newgate o teria proibido de maneira terminante. Mas, por outra parte, tinha vinte e seis anos e a vida ia 
passando sem que desfrutasse dela.
         Deu-lhe voltas a esse pensamento de maneira obsessiva durante um bom momento. De repente tomou uma deciso e se dirigiu escada acima para a habitao lavanda.
         
        Captulo 2
         Se algo no lhe faltava  justia inglesa era rapidez, refletiu Richard Maitland. Lhe tinha acusado de assassinato em solo uma semana, lhe tinha julgado 
e condenado em outra, e lhe tinha sentenciado a morrer na forca dois dias depois. De fato, ao dia seguinte mesmo.  difcil que isso lhe d tempo a um homem para 
planejar uma fuga.
         Acomodou seu esbelto corpo no duro camastro da cela e permitiu que seu olhar se perdesse na elevada janela gradeada que havia no muro, muito alta para que 
ningum pudesse olhar ao exterior atravs dela. Trs novelo mais abaixo estava o ptio da priso, mas da janela fechada no lhe chegava nenhum rudo. Nenhuma paisagem, 
nenhum som, nada de ar fresco e uma mnima luz mortia. Um homem encerrado na cela dos condenados no podia fazer nada mais que pensar em sua vida ou voltar-se louco.
         No era a primeira vez que se enfrentava a uma execuo. Na Espanha o tinham feito prisioneiro quando levava a cabo uma misso secreta entre as linhas inimizades. 
Era espio. Conhecia as regras da guerra. Mas sua morte ento teria sido honrosa, porque estava lutando pelo rei e por seu pas. No havia nenhuma honra em ser pendurado 
por um crime que no tinha cometido.
         A ltima vez lhe salvou a cavalaria, s onze horas antes da execuo. Por todos os demnios, onde estava agora a cavalaria?
         Quando tentou sentarse estremeceu de dor. A ferida de seu peito estava quase curada, mas ainda no tinha cicatrizado completamente, e as condies sanitrias 
na priso eram penosas. Teve sorte de no morrer por envenenamento do sangue. E as autoridades no estavam dispostas a tomar-se muitas molstias por um homem condenado 
a morte. O jovem zelador que o tinha atendido pela manh fez uma piada m ao lhe dizer que a nica padre para essa ferida era o completo repouso. Teria toda a eternidade 
para rir da piada do zelador se no fazia algo para sair dali o antes possvel. E assim que estivesse livre, de uma forma ou outra, tinha que limpar sua reputao 
e descobrir quem tinha assassinado ao Lucy Rider.
         No podia pensar na moa sem que ao momento sentisse arder a raiva em seu interior. Tinha tido todo o tempo do mundo para pensar no passado mais prximo 
e, embora se tinha dado conta muito tarde de que Lucy tinha que ter formado parte do compl contra ele, no podia acabar de aceitar que ela soubesse realmente no 
que estava envolta.
         Para seus inimigos ela no era mais que um peo, e o tinham entregue a um alto preo. Se ele o tivesse sabido, poderia ter evitado a morte do Lucy.
         No podia acreditar que tivesse sido to estpido. Tinha-a acreditado. Ele, Richard Maitland, que podia contar com os dedos de uma mo as pessoas nas que 
confiava. Contou-os com os dedos de sua mo direita: Harper, Hugh Temperar e sua mulher Abbie, Jason Radley... E a se parou. Isso faziam quatro. depois de pens-lo 
um momento, acrescentou-se a si mesmo  lista.
         surpreendeu-se ao dar-se conta de que estava sorrindo, porque malditas as vontades de rir que se podiam ter nesse deprimente entorno. No havia stio ali 
nem para os quatro gatos do dito. O nico alvio contra o aborrecimento era algum visitante ocasional que ia oferecer lhe uma comida de despedida.
         Mas no se tratava de um amigo. De fato, tinha advertido a seus amigos que se mantivessem afastados, no s do Newgate, a no ser inclusive da sala do tribunal. 
O mesmo tinha feito com sua famlia. No queria v-los fazendo um comprido viaje desde o Aberdeen at Londres solo para v-lo naquelas circunstncias. Sabia como 
foram se desenvolver os acontecimentos. Estava convencido de que ia ser declarado culpado e no tinha nenhuma inteno de aceitar este fato passivamente. Se escapava, 
qualquer de seus prximos estaria sob suspeita.
         Massie, um chefe retirado do departamento, tinha-lhe visitado essa manh para lhe dar uma melanclica despedida. Tambm lhe tinha visitado antes do julgamento.
         -Sei que  inocente -disse Massie- e sei que  vtima de um compl. Eu gostaria de te ajudar. me diga por onde tenho que comear a procurar os conspiradores.
         Ao Richard gostava de Massie. Era um bom agente. Tinham muito em comum. O servio de inteligncia era sua profisso. A diferena da maioria de seus colegas, 
no tinham contatos entre os altos cargos que lhes tivessem ajudado a fazer carreira. Tudo o que tinham o tinham conseguido com seu prprio trabalho e com sua inteligncia.
         Entretanto, existia uma diferena importante entre ele e Massie: Massie seguia as regras.
         Mas Massie no era um de seus homens de confiana. Os bons agentes no sempre so o que parecem ser, e se Massie estava trabalhando para seus inimigos, 
seu oferecimento de ajuda no podia ser mais que um truque para descobrir quanto sabia Richard, e assim poder apagar tudo os rastros.
         Apagar os rastros? Quase riu. O menino e o homem tinham desaparecido sem deixar rastro. Tinham apagado to bem os rastros que no tinha nem idia de por 
onde comear a procurar. E tudas as testemunhas haviam dito a verdade em suas declaraes. Lucy fazia bem seu trabalho. Aquilo era uma conspirao. Mas quem estava 
detrs?
         exps-se esta pergunta desde todos os ngulos possveis da noite em que morreu Lucy e ainda no tinha conseguido encontrar nenhuma resposta. E no por falta 
de suspeitos, mas sim mas bem porque havia muitos.
         Sua cabea deu uma sacudida quando ouviu girar a chave na fechadura. Ao momento, a macia porta blindada se deslizou abrindo-se lentamente. No oco da porta 
apareceu o simiesco rosto de um carcereiro uniformizado, que lhe olhava fixamente desde uns olhos desumanos que apareciam sob umas espessas sobrancelhas.
         -Harper -disse Richard, enquanto um leve sorriso ia aparecendo em seu rosto- O que faz por aqui?
         -Estava esperando a que no houvesse mouros na costa. Venha, move o culo. No temos todo o dia.
         O sargento Harper era uma das poucas pessoas nas que Richard confiava, o qual era do mais apropriado, posto que Harper era o guarda-costas do Richard. Isso 
explicava por que Harper estava mais mal-humorado que de costume. O homem ao que tinha jurado proteger tinha desaparecido, como ele mesmo disse, sem que lhe importasse 
nada um cominho, sem dizer uma palavra a seu guarda-costas, e olhe agora onde tinha ido parar.
         Richard e Harper se conheciam desde fazia muito tempo. Os dois tinham servido na Espanha no Servio Secreto de Sua Majestade. No se haviam visto muito 
freqentemente naquela poca, mas as poucas vezes que tinham trabalhado juntos tinham feito que os dois chegassem a respeitar-se profundamente. Eram camaradas. Em 
privado falavam livremente, embora Harper era possivelmente um pouco mais franco do que a seu chefe tivesse gostado. Mas era fcil repreender ao Harper. No tinha 
sido Richard quem lhe ofereceu o posto de guarda-costas. Tinha sido uma recompensa pelos servios emprestados, oferecida pelo primeiro-ministro ao Richard; aps 
o Harper nunca se separou dele.
         Harper olhou com o passar do corredor, disse que estava vazio e se meteu na cela de um salto.
         -te deixe postas as algemas abertas, mas, recorda, no lhe as estorvos at que esteja no lavabo.
         Agora que tinha chegado o momento de escapar, Richard sentiu uma quebra de onda de energia que lhe percorria cada um dos poros de seu corpo. A persistente 
dor no peito se desvaneceu; sua mente estava clara como o cristal; sua respirao comeava a acelerar-se.
         Enquanto Harper abria as esposas dos pulsos e os grilhes dos ps, ps ao Richard  corrente de cada um dos passados do plano de fuga. Harper, o falso vilo 
mal-encarado, tinha sido realmente carcereiro e agora se assegurou de novo esse colocado com a ajuda de seus indesejveis amigos, inclusive antes de que Richard 
fosse condenado a morte. Harper era pessimista por natureza, e em algumas ocasione, como a presente, isso era til. A primeira parte do plano era disfarar ao Richard 
de carcereiro. Harper o escoltaria at o lavabo que havia ao final do corredor, onde aquele encontraria um uniforme completo lhe esperando, includa uma pistola, 
 obvio carregada dentro da boina. Uma vez se houvesse mudado de roupa, baixariam os trs pisos at o ptio da priso e atuariam como se estivessem vigiando aos 
prisioneiros e s visitas. Pouco depois chegaria um novo turno de carcereiros a lhes substituir, e eles deveriam ir ao pavilho dos carcereiros, entre o barraco 
dos guardies e a ltima porta fechada antes da liberdade.
         E aqui chegava a parte mais complicada. Esperavam que na confuso, com tantos carcereiros daqui para l, ningum se desse conta de que entravam no barraco 
dos guardies. E uma vez dentro, deveriam tomar ao guardio da porta como refm e obrigar aos outros a que lhes abrissem essa ltima porta.
         E depois, a liberdade.
          obvio, Harper tinha previsto que todo o plano poderia sair mau. Seu plano dependia de que ningum reconhecesse ao Richard. Por conselho do Harper, aquele 
tinha rechaado essa manh o servio do barbeiro, e uma incipiente barba lhe obscurecia agora as bochechas e o queixo. Tambm era uma vantagem para eles que Newgate 
fosse um lugar escuro e lgubre como... bom, como uma priso. Tinha sido construda para ser impermevel  luz. Mas a liberdade podia no chegar to logo para o 
Richard como este esperava.
         -Preparado? -perguntou Harper.
         -Vamos l, camarada -respondeu Richard sorrindo.
         
         Quando Rosamund entrou no sala de jantar meia hora depois e encontrou ao Charles Tracey discutindo acaloradamente com o Callie e com tia Fran, deu-se conta 
de que algo ia mau. supunha-se que tinham que encontrar-se com o Charles no Newgate.
         Charles era um treintaero alto e esbelto, loiro e com entradas nas tmporas. Rosamund nunca tinha tido muita confiana nele, acaso porque parecia estar 
sempre zangado por algo. A nica coisa que ele nunca julgava, e a que nunca procurava defeitos, era ao Callie, a que estava claro que adorava. Rosamund sentia pena 
por ele, mas, mesmo assim, uma hora em companhia do Charles sempre acabava por deprimi-la.
         Nesse momento Charles estava expressando suas inquietaes a respeito da excurso ao Newgate.
         -Muitas coisas podem sair mau! -disse Charles.
         - absurdo -replicou Callie-. Todo est arrumado. No vou deixar que qualquer pequeno detalhe me detenha.
         -Um pequeno detalhe como qual? -perguntou Rosamund, colocando o xale enquanto se aproximava deles.
         Silncio. Podia ver em suas caras que estavam surpreendidos de v-la ali.
         Charles foi o primeiro em reagir.
         -Lady Rosamund -disse-. Assim eram seu carro e seu chofer os que vi na praa?
         -Pensava que ao final tinha decidido no vir conosco -disse Callie.
         Rosamund respondeu primeiro ao Charles:
         -Como est, Charles? Me alegro de ver-te de novo -Respondeu a formal reverencia dele inclinando levemente a cabea, e ao Callie disse- No recordo te haver 
dito que no pensava ir com vs, mas se se cancelou a visita, no vou zangar me por isso.
         -A visita no se cancelou -disse Callie-. No vou permitir que uma turma de revoltosos me diga o que tenho que fazer.
         -Revoltosos? -Rosamund olhou ao Charles.
         Este assentiu com a cabea.
         -chamaram  tropa para que os dispersem. Estamos falando de um motim, lady Rosamund. H milhares de pessoas nas ruas de Londres. Quando souberam que o prncipe 
regente no estava em sua residncia para receb-los e escutar sua petio, ficaram furiosos. Comearam a atirar pedras s janelas e depois tentaram prender fogo 
 residncia com bolas incendirias.
         -O que  o que pediam?
         -Salrios justos. Baixada dos preos. Trabalho para os parados -disse Charles encolhendo-se de ombros-. A maioria deles so pacficos, mas sempre h uns 
quantos agitadores que tratam de levantar os nimos.
         -A residncia do prncipe regente est a vrias milhas daqui e bastante longe do Newgate -disse Callie.
         Tia Fran, que tinha estado trasteando na cesta que tinha pendurada de um brao, olhou-os.
         -Newgate-disse.
         Havia certo tremor em sua voz.
         -Lembrana os motins do vero de mil setecentos e oitenta -acrescentou tia Fran-. A turfa se desbocou e queimou vrias casas particulares, logo partiram 
at o Newgate e liberaram a todos os prisioneiros.
         -Isso foi faz quase quarenta anos -disse Callie-. As autoridades sabem agora muito melhor que ento como controlar s turfas de amotinados.
         -Mas tia Fran tem razo -disse Charles-. Duvido que haja em todo Londres um chofer que nos queira levar ao Newgate.
         -V! -Callie se parou a pensar um momento, e em seguida lhe iluminou o rosto-. Ento iremos no carro do Rosamund. Com seu chofer e suas moos armadas para 
nos proteger, os amotinados o pensaro duas vezes antes de meter-se com as propriedades do duque. E estou segura do muito que ao Rosamund gosta de fazer esta visita.
         Charles estava perdendo a pacincia.
         -Os amotinados no se metem: atiram pedras e bolas incendirias.
         Rosamund, que tinha tido a inteno de oferecer a carruagem do duque, nesse momento o pensou duas vezes. Teve a horrvel viso do rosto de seu pai observando 
sua nova e flamejante carruagem, construdo segundo suas prprias especificaes, quando visse que o devolviam convertido em um casca de ovo queimado. Construir 
carruagens no era para o duque um entretenimento, era sua vocao.
         -por que no possamos utilizar sua carruagem? -perguntou Rosamund-. De todas formas poderemos levar a meus criados.
         -No lhe havia isso dito? Esto-o reparando.
         Tia Fran estava comeando a observ-los com preocupao.
         -Isso significa que ainda vamos?
         - obvio -respondeu Callie-. Charles, importaria-te pedir que preparem a carruagem do Rosamund para todos? acabaram-se as preocupaes. Esse carro est 
construdo como se fora uma fortaleza. Nele estaremos completamente a salvo.
         Quando Charles saiu da habitao, tia Fran se esclareceu garganta.
         -No poderamos pospor...? No, claro, que parva sou. Se no ir hoje, amanh ser muito tarde.
         Tia Fran no parecia muito mais entusiasmada com a idia de visitar o Richard Maitland do que o estava ela mesma, pensou Rosamund. Mas seu caso era diferente; 
ela se estava provando a si mesmo. Em troca, no entendia por que tia Fran estava to abatida.
         -Senhorita Tracey -perguntou Rosamund-, encontra-se voc bem? A v bastante plida.
         Tia Fran aproveitou a oportunidade como um coelho aoitado que se mete em um buraco.
         -Bom, a verdade  que no me encontro muito bem -respondeu-. No peguei olho em toda a noite.
         Callie suspirou.
         -por que no volta para a cama, tia Fran? Rosamund e eu possamos nos fazer companhia mutuamente.
         Tia Fran no necessitou que o dissessem duas vezes. Deixou a cesta na mesa e saiu tropeando com suas abas em sua precipitao por fugir dali.
         Callie meneou a cabea:
         -No tinha nem idia de que se sentia assim. Bom, agora estamos as duas szinhas, Roz, como nos velhos tempos. Joga voc, senhorita Pusilnime?
         E ao igual a nos velhos tempos, Rosamund se encontrou uma vez mais mordendo o anzol.
          difcil trocar os velhos hbitos.
         
         
         A pedido do Rosamund deixaram a carruagem do duque, com seus choferes e criados, no estbulo Magpie and Stump. Se apareciam por ali os amotinados e ficavam 
violentos, seus choferes e criados poderiam ser atacados. Era melhor para eles, para a carruagem de papai e para os caros cavalos que no estivessem  vista.
         Ao Callie no gostou do atraso. Estavam chegando muito tarde, e o guardio poderia imaginar que no foram se apresentar. Alm disso, as ruas estavam desertas, 
e no entendia por que a carruagem no podia lhes esperar s portas do Newgate.
         Charles se levou ao Rosamund  parte e a fez partcipe da idia que acabava de cruzar por sua mente.
         -As ruas esto desertas -disse- porque certamente se estenderam as ordens dos amotinados. A gente sensata est metida em suas casas, com as portas e as 
janelas trancadas. E ns deveramos ter feito o mesmo.
         -Nenhuma palavra sobre a revolta ao guardio, porque poderia cancelar nossa visita -disse Callie com severidade.
         Entraram no Newgate pela porta privada do barraco do guardio. Callie no tinha do que preocupar-se: o senhor Proudie os estava esperando. Foi amvel e 
simptico, e especialmente servil depois das apresentaes.
         -Lady Rosamund! A filha do duque do Romsey! -exclamou-. Bem, bem.  toda uma honra. Newgate, se  que posso diz-lo assim, est ficando muito de moda entre 
a aristocracia. surpreenderia-se se soubesse quanta gente importante passa por estas portas.
         - verdade -respondeu Rosamund-. Pelo que ouvi, o crime est chegando a todas as classes sociais.
         O guardio a olhou desconcertado, e Callie interveio imediatamente:
         -E o coronel Maitland? recebeu muitas visitas? -E apostilou dirigindo-se ao Rosamund- Olhe, agora no  o momento de fazer o gracioso.
         -Ah, no. No tem nenhum encanto, sabe voc? -soltou o guardio-. No  mais que um assassino comum. Mas se se tratasse do Jack Sheppard ou de algum salteador 
de caminhos como Dick Turpin, seus admiradores estariam fazendo fila em multides para estreitar sua mo. Bom, bom, venham por aqui.
         Em fila da um seguiram ao guardio ao longo de um estreito corredor de pedra, sem janelas, com uma dbil luz que brilhava ao fundo. Rosamund se ajustou 
o xale aos ombros. No era sozinho o sombrio e lgubre desse lugar o que a estava afetando. A atmosfera era ftida, como se a priso fosse uma caixa fechada e os 
prisioneiros e seus carcereiros tivessem estado respirando o mesmo ar desde fazia muito tempo. O aroma era muito nauseabundo, uma horrvel combinao de couve fervida 
e ranosos urina. E cada vez que ouvia fechar uma porta a suas costas, um calafrio percorria seu corpo. Acabava de entrar ali, e quase no via o momento de voltar 
a sair. "Se estivesse em minha mo, encerraria-o e atiraria a chave." Quantas vezes tinha utilizado essa debulhada expresso? "Nunca mais a utilizarei", prometeu-se 
a si mesmo.
         A ltima porta que cruzaram lhes levou at o ptio da priso. No tinha teto, mas as paredes eram to altas que a luz no chegava at os prisioneiros e 
visitantes, que davam voltas daqui para l. A intervalos, com o passar do muro, tinham colocado uns bancos de pedra; em um deles os deixou o guardio.
         -No vamos visitar coronel Maitland em sua cela? -perguntou Rosamund.
         -Ah, no, lady Rosamund -replicou o guardio-. A cela no  apropriada para uma senhorita. Altamente incmoda -acrescentou rendo-. Homens feitos e direitos 
se puseram a choramingar assim que entraram nas celas dos condenados. -Fez um gesto com a cabea em direo aos carcereiros que estavam parados cada poucos metros 
ao redor do permetro do ptio-. Alm disso, aqui  mais seguro. Muitos de meus homens foram soldados de profisso. Primeiro disparam a matar, e logo perguntam. 
Mas aqui no temos prisioneiros violentos dos que devamos nos preocupar. Ladres, malversadores, difamadores, isso  o que temos aqui.
         -O que me diz dos morosos? -perguntou Charles.
         -Esto alojados em uma seo completamente separada do edifcio.
         Dito isto, o guardio fez gestos ao carcereiro mais prximo e lhe disse que lhe acompanhasse  cela do prisioneiro Maitland.
         Quando o guardio e o carcereiro se dirigiram para uma das escadas, Callie se sentou em um dos bancos de pedra; Charles resmungou algo entre dentes e depositou 
no cho a cesta que tinham trazido para o Maitland; e Rosamund se dedicou a observar s pessoas que havia no ptio da priso.
         Pensou que as trs mulheres que havia ali deviam ser algemas e filhas, porque as prisioneiras femininas tinham seu prprio ptio. Uma das algemas estava 
soltando uma reprimenda a seu marido com palavras do mais claras; as outras dois estavam soluando. Todas as pessoas que havia ali pareciam bastante inofensivas, 
e todas dignas de compaixo. No havia alegria ou risadas nesse lugar.
         O que deveriam estar sentindo esses homens e mulheres sobre os que pesava uma sentena de morte estava alm do que ela podia imaginar. Se tivesse estado 
em sua mo, faria, demolir as prises como Newgate at os alicerces.
         Seu olhar se voltou para os carcereiros. No lhe pareceram soldados profissionais. Mas bem lhe pareciam uma turma de bandidos. Levavam uniformizem desalinhados 
e arremedados, e as boinas inclinadas. Falavam entre eles. Tinha conhecido a outros soldados, e esse grupo no parecia absolutamente disciplinado.
         Havia dois deles que a estavam olhando fixamente. o de mais idade tinha uma cara que lhe recordava a das efgies que h no frontn do Twickenham House, 
e o mais jovem... bom, tinha o que seu pai estava acostumado a chamar "presena". No  que fora especialmente de aparncia agradvel, ou excepcionalmente alto, 
mas tinha um olhar de intensa virilidade e de uma fora que podia chegar a ser bastante intimidatria. No parecia uma pessoa inquieta, embora estava todo o momento 
olhando de um lado a outro. Tinha mas bem a tranqilidade despreocupada do depredador que espera em um abrevadero a que aparea sua prisioneira.
         O moveu ligeiramente a cabea e seus olhares se cruzaram. Ela sentiu o poder desse olhar, e sentiu como se ele a houvesse meio doido com uma parte de gelo. 
Observava-a como se no gostasse. No. Era algo mais forte que isso: desprezava-a.
         Ela apartou a vista e disse algo ao Charles, no sabia o que, porque sua mente estava ainda posta naquele homem de olhar duro que no pretendia esconder 
seu desdm. E no sentia saudades, pensou. Ela e Callie foram vestidas de ponta em branco; Callie com sua estola branca de pele de coelho e um manguito a jogo, e 
ela com seus sapatos de cabrito de salto alto, tachonados com miangas de cristal. Provavelmente o carcereiro pensava que as peles do Callie eram de arminho e que 
os miangas de cristal de seus sapatos eram autnticos diamantes. Se ela tivesse sabido que foram ao Newgate, teria se vestido de forma mais modesta.
         O homem de olhar duro devia pensar delas que eram buscadoras de curiosidades, aborrecidas aristocratas que tinham ido ao Newgate para encontrar um pouco 
de excitao em suas enfastiadas vidas. No se acreditaria que se tratava de uma obra de caridade; e tampouco ela acreditava.
         Que demnios estava fazendo ali?
         
         Essa mesma pergunta estava passando pela mente do homem de olhar duro. Que demnios estava fazendo ela ali? Uma arrogante aristocrata bem vestida, com nada 
melhor que fazer que visitar os condenados, ia atirar por terra seus planos. Por sua culpa, o guardio no estaria em seu barraco. E agora Proudie descobriria que 
ele, Richard Maitland, tinha escapado. Em qualquer momento baixaria estrepitosamente essas escadas de pedra e daria o alarme. E ele teria que estar preparado para 
os problemas. perderia-se o elemento surpresa, e ia ser realmente difcil que pudessem tomar ao guardio como refm. Logo foram fechar a priso a cal e canto. No 
haveria mudana de guarda, e ao final os capturariam. Tudo por culpa de lady Rosamund Devere.
          obvio que a tinha reconhecido, "a bela dama sem piedade". Assim a chamavam em Lisboa. No porque no tivesse piedade, mas sim porque era simplesmente 
indiferente a todos. Parecia que Deus no lhe permitia falar com ningum por debaixo da fila de coronel nem mesclar-se com as mulheres dos oficiais. Houve um tempo 
em que admirou sua beleza, mas isso foi antes de que se desse conta de que aquela presena finamente esculpida e aqueles formosos olhos cinzas ocultavam um presuno 
presunoso.
         Tinha ouvido o suficiente para dar-se conta de que ele era o objeto de sua visita, mas isso no parecia ter nenhum sentido. Nunca se tinham encontrado. 
Em Lisboa, um simples soldado como ele -ento solo era tenente- no era considerado apropriado nem para beijar a prega de seu vestido. E se o tivesse tentado, estava 
completamente seguro de que seu elegante sapato teria sado disparado para estelar se em seus dentes.
         Davam-lhe mau espinho os motivos pelos que lady Rosamund estava ali. Muito mau espinho.
         Harper estava comeando a impacientar-se. Pela comissura dos lbios sussurrou:
         -Voc  o oficial ao mando. O que temos que fazer agora?
         -Esperar-disse Richard.
         -A que?
         -A que isto comece a ser um inferno.
         -E ento?
         -Ento, na confuso, tomamos um refm e negociamos nossa sada daqui.
         Harper se voltou:
         -No estar pensando na filha do duque? No pensar em lady Rosamund Devere?
         -O que outro refm prope?
         -Mas se for quase to alta como voc. por que no tomamos  outra moa? Seguro que  muito mais fcil de controlar.  to delicada como um pulso.
         -J, mas no  a filha de um duque. Seu valor de mudana no  o bastante alto. Y...
         Um ligeiro sorriso se insinuou nos lbios do Richard.
         -E?
         -Sempre desejei pr minhas mos sobre lady Rosamund Devere. Esta pode ser minha nica oportunidade. Escuta! A chegam os problemas. Tranqilo, Harper, tranqilo. 
No faa nada at que eu te avise. 
         Um carcereiro desceu precipitadamente pela escada do edifcio e se parou no ptio da priso quase sem flego.
         -Fechem as portas da priso -pigarreou, para em seguida gritar- Feche a priso! Todos os prisioneiros que voltem para suas celas! Que os visitantes fiquem 
no ptio! busca-se ao Richard Maitland!
         Os carcereiros que havia no ptio tiraram suas pistolas e as blandieron de maneira ameaadora diante os presidirios e os visitantes. Houve gritos e exclamaes 
quando uma mulher se agarrou a seu marido e os carcereiros trataram de separ-los. Rosamund ficou paralisada do susto. Richard Maitland se escapou.
         Ento se deu conta; ento entendeu por que aquele carcereiro de olhar duro parecia to intimidatrio.
         Callie se tinha colocado em p.
         -Mas no pode ter escapado. Ningum escapa do Newgate! Rosamund, o que te passa? O que  o que miras to atenta?
         Rosamund deu um passo para trs; logo outro. Richard Maitland -e agora estava segura de que era ele- vinha diretamente para ela empunhando uma pistola. 
Quis gritar, mas solo pde tragar saliva. O depredador indiferente tinha eleito sua prisioneira. Em qualquer momento se equilibraria sobre ela.
         Ento passaram vrias coisas de uma vez. Rosamund deu outro passo para trs, caiu sobre a cesta que Charles tinha deixado junto a seus ps e se golpeou 
a cabea contra o cho de pedra. ouviu-se um disparo. ouviu-se um grito. Logo mais gritos. Richard Maitland caiu sobre ela, e Rosamund se voltou a golpear na cabea.
         Sua voz era to dura como seus olhos e tinha um ligeiro acento escocs.
         -Se resistir Mato aqui mesmo, entende-me?
         No teria podido lutar contra ele embora tivesse querido. O peso de seu corpo a estava esmagando com muita dificuldade podia respirar. A queda a tinha aturdido 
e comeavam a rodar lgrimas de dor por seus olhos. Olhou suas luvas brancas e se deu conta de que estavam salpicados de sangue.
         -por a!, por a! -gritou Harper assinalando para uma das escadas-. Se esto escapando! E por ali vai outro!
         Estas palavras intensificaram o pnico. Alguns dos carcereiros comearam a correr para o teto que cobria as escadas do edifcio; outros foram juntando aos 
prisioneiros e s visitas em um rinco do ptio, fora da linha de fogo.
         Richard ficou em p.
         -feriram  filha do duque -gritou por cima do alvoroo.
         Tambm Callie estava gritando, mas sua voz apenas se fazia ouvir. Rosamund se levantou e procurou com o olhar ao Charles. Por alguma razo, separou-se deles 
e agora estava em um rinco do ptio com outros prisioneiros e com os braos em alto. Ento, diante seu horrorizada olhar, o homem com cara de efgie colocou sua 
pistola nas costelas do Callie. O que acabava de lhe dizer deveu lhe causar uma grande impresso, porque Callie deixou de gritar imediatamente, desceu a cabea e 
se sentou em um dos bancos de pedra. Parecia petrificada.
         Rosamund chiou quando Maitland atirou dela para p-la em p, e a seguir tomou em braos. O desceu a cabea e lhe disse ao ouvido:
         -Se disser uma s palavra, um de meus camaradas matar a seus amigos; e logo eu matarei a ti. Entendido?
         "Um de meus camaradas"? Quantos teria ali?
         -Ouviste-me? Matarei-te.
         Rosamund assentiu com a cabea. Acreditava-lhe. Tinha cara de assassino -sua boca tinha um rictus desumano e seus olhos eram to duros como o pederneira. 
E se a matava a ela, ou ao Callie, no tinha nada que perder; lhe foram pendurar de todas formas.
         estremeceu-se para ouvir seu camarada gritando:
         -Deixem passar  filha do duque! recebeu um disparo! Est ferida!
         Ainda estava atordoada pelo golpe que se deu na cabea contra o cho de pedra, mas se dava conta de que no tinha recebido disparo algum. O nico que lhe 
doa era a cabea. Ao Maitland no podia lhe importar se estava ferida ou no. deu-se conta do que pretendia. Pretendia utiliz-la como refm para escapar dali.
         "No te assuste, no te assuste!", disse-se a si mesmo. Essa terrvel experincia ia acabar em seguida. Uma vez que estivessem fora da priso, j no lhe 
serviria de nada e seguro que a deixaria partir. Tudo o que tinha que fazer era manter a cabea fria.
         E ao melhor no conseguiam escapar. Possivelmente os carcereiros no foram deixar lhe partir. Era possvel que um deles lhe reconhecesse. E ento talvez 
seria capturado e lhe voltariam a meter em sua cela.
         Deixando de lado sua averso ao Newgate e seus horrores, decidiu que seria um grande prazer para ela estar presente  manh seguinte quando o enforcassem.
         ficou consternada ao ver o facilmente que aconteceu os carcereiros. Nenhum deles o reconheceu, j que a levava em braos, bem em alto contra seu peito, 
e mantendo todo o tempo a cabea agachada; de modo que a efgie fez todas as negociaes. Os carcereiros lhes abriam as portas a contra gosto. No sabiam que Maitland 
se escapou, mas sabiam que se deu a ordem de fechar a priso, e representavam que alguns dos prisioneiros podiam haver-se amotinado. Entretanto, reconheceram-na 
a ela como a moa a que tinha estado adulando o guardio, e todas as comporta se abriram como por arte de magia para a filha do duque.
         antes de chegar  sala dos carcereiros seus raptores se pararam a discutir a situao. Maitland disse que jamais conseguiriam sair com a desculpa de que 
ela estava ferida. Os carcereiros a enviariam ao mdico da priso para que examinasse suas feridas. Assim tinham que trocar de histria. Diriam que a filha do duque 
do Romsey se desvaneceu, e que o guardio lhes tinha dado a ordem de lev-la at sua carruagem.
         -Onde est sua carruagem? -perguntou Maitland com essa maneira dura que tinha de olhar e falar.
         No tinha nenhum sentido mentir, assim que o disse.
         E de novo aqueles dois vilos descarados seguiram avanando com ela mais afrescos que uma alface. O guardio jogou uma olhada a seu aspecto aturdido e acabou 
abrindo a ltima porta.
         Quando j estavam na rua, Maitland pareceu cambalear-se sob seu peso. Rosamund no se surpreendeu. Embora no lhe sobrava nem um grama de graxa, depois 
de todo ela media mais de um metro setenta descala. Se queria uma Vnus de bolso, teria que ter raptado ao Callie.
         -Teria que ter pego  outra -disse Richard como se lhe tivesse lido o pensamento. Deixou-a de p no cho de uma maneira no muito cuidadosa-. Creio que 
me hei rompido as costas.  toda uma amazona, no te parece?
         sentiu-se ofendida pelo comentrio, mas estava muda de medo. Naquelas circunstncias no tinha nenhum sentido provocar ao vilo. Ainda podia lhe fazer danifico.
         -O que  isso? -perguntou ele.
         Emprestaram ateno ao que ouviam. Soava como um trovo distante, ou como uma correria de cavalos.
         -Amotinados -respondeu ela entusiasmada-. Vo para a priso. Recomendo-lhe que se esfume. Bom, adeus, coronel Maitland. Acaso nos voltemos a ver em alguma 
outra ocasio -Pendurando do extremo de uma corda, pensou.
         Aqueles desagradveis olhos se fixaram de novo nela, fazendo que seu pulso se acelerasse.
         -No vai a nenhuma parte at que saiba como tentar colocar a meus assassinos a dentro -grunhiu Richard.
         Ela ficou sem palavras, mas solo por um momento.
         -Voc no est bem da cabea! Ter-lhe alcanado alguma bala perdida no meio do alvoroo.
         Agarrou-a pelos pulsos com uma fora que a fez estremecer-se.
         -Voc me dir se for ter que te romper todos os ossos -E dirigindo-se ao outro homem- Onde esto os cavalos?
         -detrs da igreja.
         Comearam a correr para a igreja do Sepulcro. Rosamund com muita dificuldade podia manter o passo deles. Em um par de ocasies esteve a ponto de cair, mas 
o bruto atirou dela agarrando-a por um brao e a levou a rastros.
         Comeava a estar realmente zangada. Zangada como um gato em uma briga. Com esse tipo de raiva que faz aparecer o medo. Ela tinha jogado a seu jogo, e essa 
era a recompensa que obtinha? Sem sua ajuda nunca teria podido escapar do Newgate. Mas, de no hav-lo feito, teria acabado igual a sua primeira vtima.
         Nesse momento apareceu uma quebra de onda de gente na rua, justo diante deles, e soube o que tinha que fazer. Com uma energia nascida do desespero, arremeteu 
contra Maitland lhe golpeando as costas. Ao cair de joelhos teve que lhe soltar os pulsos. Assim que Rosamund se viu livre, saltou por cima dele e correu para a 
multido como se ali estivesse o cavalheiro que vinha a resgat-la.
         -Por todos os demnios! -disse Harper-. Nos cortaram o caminho. J no vamos poder chegar aos cavalos.
         Maitland se levantou e olhou para trs.
         -Tampouco possamos voltar atrs.
         Uma corrente de carcereiros armados estava saindo pelas portas do Newgate.
         -por aqui -disse Harper-. Por onde se foi a garota.
         Como puderam comprovar, Rosamund girou pela primeira esquina, evitando  multido que avanava, e se precipitou por um caminho para a parte traseira do 
Old Bailey.
         -Onde disse que estava sua carruagem? -perguntou Richard.
         -No Magpie and Stump.
         Seus olhares se cruzaram.
         Esquivando a chuva de pedras dos amotinados e as balas dos carcereiros, saram correndo detrs do Rosamund.
         
        Captulo 3
         Rosamund corria para salvar a vida. No tinha que pensar para onde se dirigia. O Old Bailey estava a diante, no cruzamento. Ali haveria juizes e advogados, 
e oficiais da lei que a protegessem do Richard Maitland e de seu cupincha. E ela poderia lhes advertir do ardiloso e perigoso que era; de maneira que, a diferena 
dos carcereiros do Newgate, eles estariam preparados.
         Aquele homem no s era um assassino, tambm estava desenquadrado. Pensava que todo mundo era seu inimigo, que todos estavam tentando lhe matar. Via traio 
e conspirao em qualquer encontro fortuito. Mas o fato de que pudesse suspeitar que ela, a filha de um duque, tinha tentado lhe disparar, no Newgate ou em qualquer 
outra parte, estava alm do acreditvel.
         Aquele homem estava completamente louco. No havia outra explicao. E com os loucos no se pode raciocinar.
         Correu pela parte de atrs do Old Bailey e se parou diante da primeira porta que encontrou. Estava fechada. Golpeou-a com os dois punhos, mas ningum respondeu. 
Respirava de maneira to entrecortada que seus gritos pedindo ajuda soavam como os lastimosos miados de um gato que se est afogando.
         Olhou para trs por cima de seu ombro. A multido se dirigia direta para o Newgate, e no se via nem rastro de seus perseguidores. Mas o perigo ainda no 
tinha desaparecido. No tinha cruzado mais que umas poucas palavras com o Richard Maitland, mas tinham sido suficientes para comprovar sua ndole. No se ia dar 
por vencido to facilmente.
         Ignorando a dor em seu flanco, arregaou-se a saia e ps-se a correr. Ento, diante dela, como se fora a corrente de um rio, apareceu uma multido que chegava 
de outra direo, saindo de um beco. O rudo de suas pegadas, seus olhares assassinos e suas selvagens caras de aborrecimento lhe gelaram o sangue. ouviu-se o disparo 
de um rifle e a turfa ficou furiosa.
         Rosamund tratou de achar amparo na primeira porta que encontrou, e a golpeou com ambas as mos. Esta vez sim houve resposta. Algum a observava da janela 
que havia em cima da porta. Ento a pessoa que havia dentro da casa tirou o canho de uma pistola entre os barrotes e apontou para ela.
         -Tem que me ajudar -gritou-. Sou lady Rosamund Devere Y...
         Quando viu que o polegar da mo que sustentava a arma jogava fazia atrs o martelo da pistola, esmagou-se contra o muro quase sem flego. Eles janelas saltaram 
em pedaos quando os amotinados comearam a lanar pedras contra a casa. E do Old Bailey tambm comearam a defender-se com armas de fogo, disparando por cima das 
cabeas dos amotinados, o qual enfureceu ainda mais  multido.
         Ela ficou ali de p e tremendo, com a mente vagando em um confuso redemoinho. No sabia que caminho tomar. E enquanto debatia consigo mesma para onde escapar, 
viu aproximar-se de duas figuras que dobravam a esquina do Newgate Street e corriam em direo a ela: Richard Maitland e a efgie.
         Invadiu-a o pnico. Isto no podia estar lhe acontecendo a ela! Nunca na vida lhe tinha ocorrido nada parecido! Assim que saa a dar um passeio se via sempre 
rodeada de acompanhantes. E se andava s compras pelo Bond Street, sempre foram com ela dois ou trs lacaios que a protegiam para que ningum se atrevesse a olhar 
a de maneira equvoca. Quando saa a cavalo sempre havia perto uma moo da quadra para vigi-la. E cada vez que saa a dar um passeio na carruagem do duque, o chofer 
e os criados tinham ordens de disparar a matar se lhes detinham salteadores de caminhos.
         E agora estava ali, completamente desprotegida, com um assassino perturbado e seu cmplice por um lado, e uma turfa enfurecida por outro. Aquilo era a Inglaterra; 
essas coisas no tinham que passar ali.
         Mas no podia ficar quieta sem fazer nada, tinha que decidir-se: Maitland ou a turfa de amotinados.
         Escolheu a turfa.
         logo que teve tomado sua deciso, seu pnico diminuiu um pouco e seu crebro comeou a funcionar de novo. Ao outro lado daquela turva de amotinados estava 
Fleet Lane e o estbulo Magpie and Stump, onde tinha deixado sua carruagem. "Sua limusine. E seus criados armados. E seus choferes armados." Eles eram capazes de 
voar a cabea ao Maitland a pouco que se atrevesse a toc-la. Tudo o que tinha que fazer era abrir-se caminho entre a multido, e estaria a salvo daquele assassino 
desenquadrado.
         Com seus perseguidores lhe pisando os tales, Rosamund ps-se a correr a toda pressa sobre os paraleleppedos e se inundou na multido. Naquele momento 
estava muito assustada para reparar em sutilezas. O puro instinto animal se deu procurao dela, e apartava a empurres s pessoas que encontrava em seu caminho 
como se no fossem mais que espantalho em um campo de trigo. Quando algum lhe gritava, lhe respondia da mesma maneira. de vez em quando jogava uma olhada por cima 
de seu ombro para no perder de vista a seus perseguidores.
         estavam-se aproximando.
         Seguiu avanando s cegas e empurrando s pessoas ainda com mais fora. De repente, uns fornidos braos a sujeitaram. Um homem que devia ter mais fora 
que o ferreiro de seu pai lhe estava fechando o passo.
         -N, menina, equivoca-se voc de caminho! -disse-lhe o homem.
         Tinha-a chamado "menina"; e comparada com ele, ela era a Vnus de bolso que sempre tinha querido ser. Mas no agora, no quando Maitland estava a ponto 
de lhe dar alcance. Quis ser a amazona da que s vezes se riram outros, uma dessas legendrias mulheres jaquetas que eram capazes de defender-se reveste de qualquer 
homem.
         Mas no desse homem. Esses braos eram como grilhes de ferro.
         -Feriram-lhe -disse o homem. Sua voz era arruda mas amvel, e ela se deteve retorcendo-se-. Quem te tem feito isto, menina? -Estava olhando um corte no 
brao que ela no tinha visto at esse momento.
         Lhe fez um n na garganta e ficou sem flego quando viu o cerca que estava j Maitland. Estava to perto que podia ver as dobras que se formavam ao redor 
de seus frios olhos azuis. No podia imaginar-se que aquele homem fora capaz de rir. Sua mandbula estava tensa, seus lbios estirados, e seu rosto parecia como 
se tivesse sido modelado em granito.
         Ainda tinha colocado o uniforme de carcereiro.
         Sua mente funcionava a brilhos. Aquele no era o momento de ficar a dar largas explicaes sobre quem era e por que Maitland a perseguia. Obviamente, seu 
amvel ferreiro estava desejando resgatar a de seus perseguidores. Sups que no teria estado to disposto a faz-lo se tivesse sabido que era a filha de um duque.
         -Esse homem me persegue -soluou ela-.  um miliciano que quer me levar ao Newgate.
         Suas palavras tiveram o efeito desejado.
         -Tropa! -rugiu o ferreiro-. Que miliciano?
         Assinalou ao Maitland com um dedo tremente.
         O ferreiro a colocou a suas costas, e imediatamente comeou a avanar direto para o Maitland. Quando viu que alcanava sua prisioneira e que se equilibrava 
sobre ela lhe dando murros, Rosamund se sentiu por um momento aliviada. "No bote e fica um", pensou. Procurou entre o mar de caras, mas no havia rastro do cupincha 
do Maitland. Rezando para no cruzar-se com ele, igual a pouco antes se cruzou com o Maitland, lanou-se entre os irados amotinados e avanou a passo ligeiro.
         Quando irrompeu no ptio do estbulo, os pulmes lhe ardiam e lhe tremiam as pernas. Avanando entre a multido tinha perdido a boina, o xale e um dos sapatos, 
mas isso no lhe importava. Sua meta era chegar  limusine e escapar dali antes de que lhe viesse em cima uma nova catstrofe.
         O botequim e o ptio do estbulo estavam cheios de gente, amotinados que tinham decidido tomar uma pausa -se deu conta pelos assobios e os comentrios que 
se ouviam aqui e l- e recuperar as foras com uma cerveja negra no botequim antes de voltar para a luta. Ali j no lhes via zangados, mas bem parecia que todos 
o estavam passando de maravilha. Aquilo parecia uma festa.
         tranqilizou-se assim que viu a limusine do duque, embora no distinguiu nem aos choferes nem aos criados vigiando-a, a no ser solo a uma moo do estbulo 
que sustentava as rdeas dos cavalos. Havia-lhe dito ao chofer que voltaria dentro uma hora, mas tinha demorado muito menos em retornar. No teve que lhe dar muitas 
voltas  cabea para imaginar onde se colocaram os choferes e os criados. Obviamente, uniram-se  festa, e provavelmente estariam no bar do botequim passando-lhe 
em grande.
         Newgate! Old Bailey! E agora seus prprios choferes! Devia ter feito algo terrivelmente mau em alguma outra vida para ser castigada dessa maneira.
         Esquivando moos de quadra e clientes bbados, foi dando inclinaes bruscas at o moo que sustentava as rdeas. Estava to sem flego que demorou um momento 
em lhe sair a voz.
         -Meu chofer -conseguiu articular ao fim-. V busc-lo imediatamente.
         -Seu chofer? -A moo fez uma valorao errada de sua pessoa a causa do cabelo revolto e o p descalo, e lhe disse rendo- me Pergunte de novo quando estiver 
sbria.
         Rosamund esteve a ponto de fulmin-lo com umas quantas palavras bem escolhidas, quando ele riu de novo; ento ela no pde evitar que sua mo o agarrasse 
pelo pescoo e o levantasse do cho. Era bastante mais alta que ele e, aproximando a cara do moo a um palmo da sua, disse-lhe com uma voz que imitava a do duque 
quando se enfurecia:
         -me traga para meu chofer agora mesmo ou te vejo desperdiando o resto de sua miservel vida na priso do Newgate!
         Satisfeita da impresso que acabava de ler no rosto da moo do estbulo, voltou-o a depositar no cho com cuidado e o deixou partir. O moo no perdeu um 
minuto em sair disparado para o ptio do botequim, olhando-a com os olhos como pratos. Rosamund esperou ali, tratando de acalmar distradamente aos cavalos, mas 
em realidade estava pensando que jamais em toda sua vida se dirigiu a ningum com esse tom de voz, especialmente a algum que no estava em posio de poder lhe 
responder. Sempre tinha pensado que possua uma quantidade inacabvel de pacincia, mas fazia menos de uma hora que tinha deixado seu carro ali e agora voltava convertida 
em outra mulher. Desde esse momento se prometeu a si mesmo que nunca mais se queixaria dos muitos controles que lhe punha seu pai para mant-la a salvo.
         Pensar na ltima hora passada a fez estremecer-se. Mas se sentia a salvo naquele estbulo lotado, sabendo que seus choferes estavam perto; e agora que o 
pnico se comeou a dissipar, pde pensar no Maitland sem desejar v-lo morto. No lhe desejava nada bom, mas tampouco desejava que o pendurassem. Se o tivessem 
enviado s colnias, ela teria pensado que lhe tinha feito justia.
          verdade que ela mesma lhe tinha jogado em cima ao ferreiro, mas se dizia que aquele ferreiro no teria feito nada mais que lhe dar uma boa surra. Bom, 
possivelmente lhe haveria rompido uma perna. Essa idia a reconfortou sobremaneira, e alm disso tinha conseguido ganhar tempo.
         Seus pensamentos foram interrompidos quando um grito chamou sua ateno.
         -Cuidado! -gritou uma voz.
         Uma incmoda tenso sobressaltou a todos os que estavam ali. Ao cabo de um momento, o inesquecvel som de um disparo de rifle dominou por cima do silncio. 
Por toda parte se ouviu ento a palavra "tropa". Embora no estendeu o pnico, nesse instante se acabou a festa e o ptio comeou a esvaziar-se rapidamente.
         Foi ento quando o viu. Maitland estava sob os abundantes ramos de um castanho de ndias, bebendo uma jarra de cerveja negra. Ainda vestia sua uniforme 
de carcereiro, mas se tinha tirado os alamares e agora mas bem parecia um dos amotinados. No tinha nenhum machucado, nem sangue no nariz nem na mandbula, nenhuma 
extremidade rota. Evidentemente, seu ferreiro tinha mais fora que manha. A esperana de que Maitland a pudesse tomar por um dos amotinados -sabia que devia parecer 
um espantalho- se esfumou no momento em que ele levantou sua jarra para ela com um gesto de saudao.
         De todas formas, no estava to indefesa como ele podia imaginar. Seu pai lhe tinha explicado o que tinha que fazer se alguma vez era detida por um salteador 
de caminhos, e no demorou para tentar pr suas instrues em prtica. Correu para a porta do carro, que tinha ficado aberta, e se meteu dentro. Quando o carro deu 
uma sacudida a causa do movimento dos cavalos, por um momento perdeu o equilbrio. Em seguida se tranqilizou e jogou mo da pistola que sempre tinha guardada no 
forro da banqueta. Rosamund sabia como utilizar uma arma.
         escondeu-se debaixo da janela do carro e olhou para fora. Maitland j no estava sob o castanho de ndias, mas se se aproximava at ali no ia pilhar a 
por surpresa. Certamente a estaria espiando do outro lado do estbulo, esperando para entrar no carro quando ela estivesse despreparada. Mantendo a cabea bem agachada, 
Rosamund avanou lentamente para a outra porta do carro. E nesse momento ele se lanou contra a porta e se equilibrou sobre ela. Ela empunhou sua pistola e, contrariamente 
s instrues que lhe tinha dado seu pai, apontou-a ao ombro e no ao corao, porque, simplesmente, no tinha instinto assassino. Mas Maitland foi mais rpido que 
ela. Deu-lhe uma patada  pistola no preciso instante em que disparava e a bala errou o tiro. Algum no teto do carro deixou escapar um violento gemido. Ento Maitland 
se lanou sobre ela e, pela terceira vez em menos de uma hora, Rosamund se voltou a golpear a cabea contra algo duro. Os cavalos, assustados pelo disparo, encabritaram-se 
e tentaram sair em correria.
         -Harper! -gritou Maitland.
         Harper! Ela conhecia esse nome. Harper era o guarda-costas do Maitland! Tinha lido seu nome nos peridicos. Quando Maitland no queria ter a seu guarda-costas 
perto, atribua-lhe alguma misso no Servio de Segurana, que era precisamente o que estava fazendo o sargento Harper o dia em que Lucy Rider foi assassinada.
         -Tenho-os! Tenho-os! -respondeu gritando uma voz da parte de acima do carro.
         Rosamund tentou gritar, mas o peso do Maitland lhe cortava a respirao. Doa-lhe a cabea e lhe doa o pulso, mas embora estava aturdida se deu conta do 
que estava passando. Harper tinha tomado as rdeas dos cavalos. Seus dentes chiaram quando os cavalos comearam a avanar, logo ficou rgida de medo quando Maitland 
apoiou o canho de uma pistola contra sua cabea.
         -No te levante ou te voarei os miolos -lhe sussurrou. Quando viu que no respondia, comeou a perder a pacincia-. Me est escutando?
         Ela assentiu movendo a cabea vigorosamente.
         Finalmente ele se tirou de cima e Rosamund pde voltar a respirar de novo, embora no com muita facilidade, porque assim que ele se sentou na banqueta colocou 
os dois ps com suas pesadas botas sobre seu peito.
         O que pretendia fazer? por que a estava olhando daquela maneira?
         -Aula-os! -chiou de repente com uma careta de dor.
         Ela ouviu o estalo do ltego e quando os cavalos se lanaram ao galope o carro comeou a mover-se dando inclinaes bruscas.
         No chegaro muito longe, disse-se a si mesmo. Os cavalos de papai so muito difceis de dirigir. A moo que montava sempre sobre o primeiro cavalo no 
estava ali solo para proteg-la a ela, a no ser para evitar que esses nervosos cavalos se desbocassem  mais nova oportunidade. Um s homem levando as rdeas no 
poderia chegar a control-los durante muito tempo. Os cavalos se desbocariam, o carro se despenharia, e esse seria o final do Maitland e de seu esbirro.
         E se os cavalos no se desbocavam, veriam-se abandonados pela multido ou pela tropa. De uma maneira ou de outra aquilo ia acabar logo. Tudo o que ela tinha 
que fazer era apertar os dentes e esperar.
         No podia ver por onde foram, mas pde ouvir perfeitamente como o carro saa do estbulo -pelos gritos e as carreiras da gente, e pelo homem que levava 
as rdeas fazendo estalar o ltego e rendo de uma vez como um possesso.
         O carro se inclinou ao dobrar uma esquina, logo se deslizou costa abaixo, com um estalo continuado sobre os paraleleppedos que fez que os dente lhe tocassem 
castanholas. Ao menos j no tinha uma pistola apontando a sua cabea. Maitland estava olhando pela janela, com a pistola apoiada no ngulo do brao. Sua prpria 
pistola estava em alguma parte pelo cho do carro, impossvel de utilizar no momento, ao menos at que a pudesse recuperar, e isso no ia acontecer enquanto os ps 
dele seguissem estando sobre seu peito.
         Quando ele ficou olhando-a um momento, ela respirou profundamente.
         -O que est planejando me fazer agora? -perguntou ele em tom desafiante.
         Idias de azeite fervendo e empulgueras danavam por sua mente, mas, naquelas circunstncias, decidiu que valia a pena tentar ser diplomtica.
         -Tem-te feito uma idia errada de mim -respondeu ela-. No tenho nenhum plano. Todo isso no so mais que imaginaes tuas.
         Aqueles magros lbios do Maitland se estiraram uma vez mais. Quando ele se inclinou, ela se apartou a um lado.
         -Assim que tudo est em minha imaginao -disse ele.
         -Sim.
         -E supondo que tambm imagino que tentou me matar quando me meti em sua limusine.
         -Estava-me perseguindo! E de todas formas, estava-te apontando ao ombro.
         -E como consegue a filha de um duque ser to mo direita com uma arma? -perguntou ele sem trocar o tom srio de voz.
         -Porque uma vez o carro de minha me foi atacado por uns salteadores de caminhos, e ela conseguiu escapar com vida por muito pouco -respondeu ela-. depois 
daquilo, meu pai insistiu em que tinha que aprender a me defender.
         -Pois assim aprender a fazer que lhe matem!
         -Isso  exatamente o que vou dizer lhe a meu pai assim que me deixe partir.
         Ele no se deu por aludido. Suas escuras sobrancelhas se arquearam e em seguida olhou para outro lado para que ela no pudesse ler em seus olhos o que estava 
pensando. Rosamund teve a estranha sensao de que ele estava rendo-se dela, e o n de medo que obstrua sua garganta se desfez. Rendo-se dela! De uma Devere!, cujos 
ancestrais eram to hericos como os heris da guerra da Troya. Caspar Devere, que tinha lutado com o Black Prince no Poitiers e que, anos depois, fazia que os beijos 
das senhoras voassem justo antes de que o verdugo lhe fatiasse a cabea, quando os arrivistas do Lancastrian chegaram ao poder. Lady Margaret Devere, que defendeu 
o castelo de seu marido contra os Cabeas Cortadas do Cromwell e logo foi perseguida o frente de seu prprio exrcito. Seu prprio pai, outro Caspar Devere, que 
resgatou a dzias de aristocratas franceses durante a Revoluo. E sua prpria me, Elizabeth Devere, que se equilibrou sobre o salteador de caminhos que estava 
apontando com uma pistola para seu filho. Sua rvore genealgica estava repleta de heris.
         Sendo assim, o que estava fazendo ela ali, deitada no cho da carruagem daquela maneira, abandonada  sorte de um valento detestvel, que provavelmente 
no teria nenhum ancestro de renome e que tratava de domin-la despticamente com a bota firmemente plantada sobre seu peito?
         O carro saltou em um buraco, e seus dentes e seus ossos repicaram como umas castanholas; e essa foi a gota de gua que encheu o copo.
         -te tire de cima meu... descarado! -soltou-lhe ela.
         Golpeou com o punho fechado a bota com a que a estava pisando e, para sua surpresa, ele fez o que lhe pedia.
         Mas a apontou diretamente com a pistola e lhe ordenou:
         -Fica no cho.
         No havia nenhuma insinuao de sorriso em seus olhos ou em sua voz. havia-se equivocado ao pensar que antes se riu. Esse homem no tinha senso de humor 
e as rugas que se desenhavam ao redor de seus olhos no eram absolutamente enruga causadas pela risada. Eram rugas provocadas por forar os olhos com essa desagradvel 
maneira que tinha de olhar; um olhar com a que pretendia instalar o medo no corao de suas vtimas.
         E a verdade era que lhe funcionava.
         Rosamund se apoiou nas mos para incorporar-se at a posio sentada; mas vendo a pistola que ele sustentava na mo, preferiu no desobedecer suas ordens 
e seguiu deitada no cho.
         Ele se mordeu o lbio inferior e ao cabo de um momento disse:
         -Comecemos pelo princpio. me diga o que foi exatamente o que te trouxe para o Newgate.
         Ela demorou para responder, fazendo ver que punha seus pensamentos em ordem, mas se estava esforando por ouvir se lhes perseguiam. supunha-se que as cale 
de Londres estavam tomadas pela tropa. Ento, por que no tinham detido a carruagem do duque com o conhecido braso dos Devere engalanando os flancos? E por que 
os nervosos cavalos de papai no se desbocaram se havia um s homem levando as rdeas? E por que...
         -Estou esperando, lady Rosamund.
         Seus olhos se elevaram para encontrar-se com os dele.
         -No h nenhum mistrio em minha visita ao Newgate -comeou a dizer-. Meu amiga, a senhora Tracey, pediu-me que a acompanhasse. Sentia pena por ti. J v, 
acredita que  inocente. Quo nico lhe queria era dizer isso e te dar uma cesta de saborosa comida para que te alegrasse suas ltimas horas de vida.
         -Mas voc no sentia pena por mim, lady Rosamund, no  assim?
         -Sim, sentia pena, mas isso foi te conhecer.
         Agora ele sorriu. Mas no havia nada agradvel em seu sorriso. Era to intimidatria como a pistola carregada que sustentava em sua mo.
         -Te teria acreditado se no tivesse visto como dava o sinal para que me disparassem.
         -Que sinal?
         -Deixou cair a bolsa, e nesse momento algum me disparou.
         -Deixei cair a bolsa? Deixei cair ele bolsa? perdi um sapato e o xale e tambm o gorro. isso acaso eram sinais para que lhe disparassem?
         Estava-o fazendo de novo; estava-se mordendo o lbio inferior, e ela experimentou a mesma estranha sensao. Se se estivesse rendo dela, com ou sem pistola, 
lhe teria atirado ao pescoo.
         Ele emitiu uma espcie de grunhido e logo disse:
         -Mas me reconheceu. Vi-o em seus olhos. E ento foi quando deu o sinal.
         Aquele homem no s estava desenquadrado, era completamente estpido.
         -Lhe foram pendurar -disse ela tranqila e em voz baixa-. por que algum em seu so julgamento ia tentar te matar quando solo tinha que esperar um dia e 
o verdugo de Sua Majestade faria o trabalho por ela? Se lhe tivessem pendurado ontem, nada disto me estaria passando. Ainda estaria no Twickenham. E no te reconheci, 
no ao princpio. Como poderia hav-lo feito se alguma vez antes te tinha visto? Parecia diferente a outros carcereiros, isso  tudo. E quando o guarda gritou que 
te tinha escapado, quo nico fiz foi somar dois e dois.
         Ele franziu o sobrecenho.
         -Diferente de outros carcereiros? Ento, por que no se deram conta eles? por que voc e no eles?
         Estava a ponto de lhe dizer que se tratava de intuio feminina -e de como tinha ficado gostada muito de sua virilidade, de sua presena, de seus largos 
ombros. Mas ento ele se teria rido dela.
         -Porque tinha um olhar furtivo-disse ela-. Sozinho te olhando podia me dar conta de que foi um assassino.
         As palavras lhe escaparam da boca antes de que pudesse fazer nada para evit-lo. ficou tensa, esperando que ele reagisse de algum jeito, mas o nico que 
fez foi voltar a grunhir. A seguir disse:
         -Comecemos de novo. me fale de seu amiga, a senhora Tracey. E no se esquea nada. Quero saber por que veio  cidade e por que razo a filha de um duque 
se permite ir visitar um assassino. E  melhor que seja convincente, porque se no ser muito pior para ti.
         Esta ltima frase e seus olhos frios prometiam uma rpida resposta em caso de que descobrisse que lhe estava mentindo. Em qualquer caso, ela no tinha nenhum 
motivo para mentir, apesar de que aquele homem estava to equivocado que no seria capaz de reconhecer a verdade embora lhe viesse do muito mesmo Deus. Era um desconfiado 
compulsivo. Podia apostar at o ltimo penique a que era um desses tipos que olham em todos os armrios e debaixo de todas as camas antes de ir-se dormir.
         Os olhos do Rosamund se perderam em direo  janela. No havia muito que ver desde seu lugar estratgico, mas sabia que estavam na cidade porque o carro 
ainda estralava sobre os paraleleppedos. Aonde foram? O que faria com ela quando chegassem? No a podia reter com ele, porque isso faria mais lenta sua fuga.
         Pensou no que poderia fazer com ela e acreditou que essa idia a aterrorizaria. Mas no foi assim. No sabia por que, mas j no lhe tinha nem a metade 
de medo que quando a tinha estado perseguindo. Ainda lhe seguia parecendo to vil e to feroz como antes, mas agora experimentava em sua presena algo novo, embora 
no sabia do que se tratava. Sua intuio lhe estava dizendo que ou se estava abrandando diante ela ou seu latido era mais feroz que sua dentada.
         Teria que deix-la partir quando chegassem a seu destino, disse-se para seus adentros, e com esse pensamento se embarcou a contar sua histria.
         -Tudo comeou -disse ela- com o prncipe Michael do Kolnbourg.
         
         
         Meia hora mais tarde, os dentes do Rosamund chiavam e se dizia a si mesmo que tinha sido uma estpida por acreditar que se poderia ter abrandado. Enquanto 
ele e a efgie estavam confortavelmente instalados na carruagem de papai, decidindo o que foram fazer ento, ela estava deitada de costas e maniatada no interior 
de uma barco de remos volta para baixo, em algum lugar aos subrbios de Londres,  beira do Tmesis.
         Ao menos a barco de barriga para baixo a protegia da chuva que estava caindo.
         J no se perguntava se gostaria de mat-lo ou no.
         Agora Rosamund se estava perguntando quando e como poderia acabar com ele. O azeite fervendo e as empulgueras j no satisfaziam sua sede de vingana. ia 
pagar, o jurava a si mesmo -e no era a primeira vez que o fazia aquele dia-, por todas as indignidades que a tinha feito sofrer. Tinha frio, estava faminta e, o 
mais mortificador de tudo, sabia que se ele no retornava logo e lhe permitia que desse alvio a uma imperiosa necessidade natural, sua bexiga ia estalar. Odioso, 
desprezvel, malvolo! Mas por que se estava atrasando tanto?
         O que estava atrasando ao Maitland era o terrvel dilema do que fazer com lady Rosamund Devere.
         -No a vou reter comigo a qualquer preo -disse Richard-. No  mais que um problema. Se no retornar logo com seu querido papai, este vai fazer que o primeiro-ministro 
tire a rua ao exrcito para que nos busque. E no estou brincando, Harper. O duque tem muito poder.
         -E de quem  a culpa? Foi idia tua que a trouxssemos conosco. Teramo-la que ter deixado ali, no Newgate.
         -Acreditei que deveria saber algo.
         -Saber algo do que? foste ser pendurado, no  assim? por que ia algum a querer te matar se solo tinha que esperar at o dia seguinte?
         Richard riu, e seus olhos se enrugaram pelos extremos.
         -Isso foi o que ela disse.
         -E tem razo. Creio que Newgate te tirou que suas casinhas.
         Houve uma pausa na conversao enquanto Harper lhe acontecia uma garrafa de brandy ao Richard, uma garrafa que tinham encontrado no compartimento que havia 
debaixo da banqueta do carro. Tambm encontraram um jogo de taas de prata, um urinol de prata e umas quantas toalhas de algodo amaciadas.
         depois de tomar um gole de brandy, Richard devolveu a garrafa ao Harper.  possvel que Newgate lhe tivesse confundido a mente. Agora que tinha interrogado 
 mulher, seus anteriores suspeita lhe pareciam absurdas. Ela parecia realmente desconcertada, desconcertada e zangada pela maneira em que sua ordenada existncia 
se esfumou de repente. E lhe jogava a culpa disso.
         Um leve sorriso se desenhou em seus lbios quando recordou suas indignadas palavras: "Se lhe tivessem pendurado ontem, nada disto me estaria passando".
         Harper tinha razo. No havia nenhuma conspirao. Quando soou aquele disparo, ele chegou  concluso de que seus inimigos tinham averiguado de algum jeito 
que estava tramando escapar e tinham ido at o Newgate para evit-lo. Embora suas suspeitas no afetavam ao Harper -porque s trs pessoas alm dele mesmo sabiam 
que estava planejando fugir-se: Harper e seus bons amigos Hugh e Abbie Temperar-, pensar que algum deles podia lhe haver delatado era como insult-los.
         A verdade era que estava cansado, e a dor da ferida de faca em seu peito parecia lhe queimar por dentro. A um curto passeio dali esperava uma acolhedora 
cabana, uma casa de campo que Hugh tinha cheio de provises -roupa nova, dinheiro, comida e outras coisas necessrias. O plano era que se ocultariam ali e partiriam 
quando se fizesse de noite. encontrariam-se com o Hugh no Lavenham para trocar de cavalos e lhe fazer saber que tudo tinha sado bem. Mas esse era o plano antes 
de que temerariamente tivesse decidido trazer com eles a lady Rosamund.
         moveu-se e estirou os ombros para aliviar a dor de seu peito.
         -Eu opino que o melhor  que a abandonemos em alguma cale deserta e deixemos que ela sozinha encontre a maneira de voltar para sua casa -disse Maitland.
         Harper se arranhou o queixo.
         -OH, sim, j o vejo. Deixamo-la em uma rua deserta,  agredida por algum ladro, assassinam-na, e a seu pai, que a adora, devorar-lhe a impacincia por 
te encontrar para estreitar sua mo.
         -Acaso tem um plano melhor?
         -Pois a verdade  que sim o tenho. Sabemos que o duque estar seguindo os rastros em busca de sua limusine, assim que eu lhe conduzirei por uma pista falsa. 
Logo me desfarei da limusine e dos cavalos, conseguirei montarias novas e voltarei a lhes recolher a ti e a lady Rosamund.
         -E o que se supe que tenho que fazer com ela at que venha?
         -Escond-la na cabana... E te pr cmodo. 
         Richard se deu a volta e olhou fixamente ao Harper.
         -E por que no te esconde voc com ela e me deixa com a limusine?
         Harper riu.
         -V, parece que lhe tenha medo. Se solo for uma garota. Que dano te pode fazer ela?
         -Olhe a plvora de minha jaqueta e volta a me dizer isso.
         -Isso  tudo? A mim solo conseguiu me chamuscar o culo. Olhe, se eu fui capaz de controlar estes cavalos, acreditas que ela me ia fazer perder o controle? 
         Os ombros do Richard comearam a sacudir-se de risada e ele os colocou de novo em sua posio.
         -Ainda creio que eu deveria conduzir a limusine.
         -No. Se lhe detiverem, penduraro-lhe. Alm disso, voc no conduziste nunca os cavalos do duque. Eu fui chofer do senhor Temperar, recorda? E se a gente 
pode dirigir seus cavalos, pode dirigir algo.
         Richard tinha esquecido que Harper tinha sido chofer do Hugh. Soldado, agente, chofer, guarda-costas... Harper tinha tido uma carreira muito variada.
         Durante uma poca os trs tinham estado juntos no Servio Secreto. Agora Hugh estava retirado; o foram executar, e Harper era um fugitivo da justia. Mido 
final glorioso para trs brilhantes carreiras! E isso que o primeiro-ministro tinha jurado que tinha com ele uma dvida de gratido que nunca poderia pagar.
         E bem, onde estava o primeiro-ministro quando lhe necessitava?
         -assim, estamos de acordo? -perguntou Harper-. Eu fico com a carruagem e voc fica com a garota.
         Richard estava comeando a sentir-se como um moo rebelde, mas realmente no tinha nenhuma vontades de que lhe deixassem sozinho com lady Rosamund. Era 
uma moa engenhosa e no parecia que fora nada fcil amedront-la. Sentindo-se como se sentia, no estava seguro de que pudesse control-la.
         - perigosa -comeou a dizer- Y...
         Harper levantou as mos.
         -Voc foste o melhor agente secreto de Sua Majestade, no  assim? Se no poder dirigir a uma jovenzinha inexperiente, ento tudo o que tenho que dizer 
: Que Deus ajude a Inglaterra!
         -De acordo -Richard soltou um suspiro de resignao-. Voc voltar a nos buscar com cavalos novos; e logo, o que faremos com a garota?
         -Logo, quando se fizer de noite, levamo-la a casa de Mame Danby, com instrues de que no a deixem partir at a manh seguinte; e para ento ns j estaremos 
longe, caminho de nosso destino.
         -Quem  Mame Danby?
         -Melhor no queira sab-lo. Bom, tem uma casa decente. E alm disso  uma amazona, igual a lady Rosamund. Assim ali se acabaro todos nossos problemas -Harper 
se deu meia volta-. O que foi isso?
         Soava como se uma raposa tivesse entrado em um galinheiro.
         -Lady Rosamund -disse Richard-. Posso reconhecer sua voz em qualquer parte.
         -Ento, ser melhor estar longe -riu Harper burlonamente.
         Os dois saram do carro. Quando Harper j estava montado no assento do chofer, Richard lhe disse:
         -Boa sorte... e tome cuidado.
         Harper olhou para o bote do que lhe chegavam uma fileira de imprecaes.
         -No esquea que  uma dama -disse Harper, e partiu fazendo estalar o ltego de uma vez que lhe piscava os olhos um olho.
         Richard levava a garrafa de brandy em uma mo, a pistola carregada e preparada para disparar na outra e uma toalha lhe cobrindo a cabea e os ombros para 
proteger-se da chuva. Dando um suspiro comeou a andar para o bote de remos.
         
        Captulo 4
         A bexiga do Rosamund no chegou a arrebentar. Ele apareceu com o tempo justo e no lhe ps nenhum problema. Solo lhe indicou um montecillo de arbustos e 
lhe advertiu que se desse pressa. Ela no perdeu nem um segundo em explicaes. Fazendo proviso de dignidade, foi coxeando at os arbustos e ali aliviou sua mais 
urgente necessidade. Solo depois ficou a pensar em outras coisas.
         Tinha ouvido o carro de cavalos afastando-se, assim agora solo teria que enfrentar-se com o Maitland. Se pudesse afastar-se dele, poderia esconder-se entre 
os arbustos at que se fizesse de noite. Segundo seus clculos no podiam estar muito longe de Londres. Tinham tomado ruas secundrias para evitar os controles, 
mas sabia que pouco antes de chegar ali haviam passado por um povoado. Poderia...
         -O que , um cavalo de tiro? tiveste mais tempo do necessrio. Volta em seguida ou vou te buscar, tenha acabado ou no.
         E ele tambm poderia! No havia nele nenhuma pingo de delicadeza. V, um cavalo de tiro! Primeiro uma amazona, e agora um cavalo de tiro. At ento ningum 
se dirigiu a ela de maneira to vulgar. Se seu pai estivesse ali, lhe teria colocado os grilhes e o teria metido em uma masmorra do castelo Devere. Lhe deu vontade 
de lhe fazer saber o que estava pensando, mas no tinha intenes de ficar ali muito tempo. Era agora ou nunca, pensou.
         Nesse momento ele apareceu justo diante dela, silencioso como uma pantera, e o nico que pde fazer foi ficar l parada, lhe olhando surpreendida e com 
a boca aberta como uma estpida. Bom, no era completamente estpida. Tinha a inteno de tirar o sapato que ficava e deix-lo ali como pista. Se quem lhes estava 
procurando chegavam to longe, esse sapato lhes confirmaria que tinham estado ali e que foram por bom caminho.
         -Vamos! -ordenou-lhe ele-. E recolhe seu sapato.
         Ela apertou os punhos e elevou o queixo, mas um olhar de intimidatria contundncia a fez decidir-se a no enfrentar-se a ele sem tomar precaues; e naquele 
momento essa briga no merecia a pena nem tent-la.
         Mas como estava hiriendo seu orgulho! Maitland estava insufriblemente seguro de si mesmo e lhe dava ordens como se acreditasse que ela era seu lacaio. Entretanto, 
no era sozinho o orgulho. Seu sentido das boas maneiras tambm tinha sido ultrajado. Enquanto ele se protegia da chuva com uma toalha roubada do carro de seu pai, 
ela se estava empapando de gua como uma esponja sedenta.
         Claro que lhe poderiam haver passado coisas ainda piores. No tinha que esquecer que seu seqestrador tinha matado j a uma mulher. Certamente no tinha 
muito mais que perder se tambm se desfazia dela.
         Quando saram de entre os arbustos, ele assinalou na direo em que queria lev-la. Ento ela se plantou em seco. Aquele caminho no era mais que uma estreita 
franja de terra que conduzia a uma densa espessura de sarais. E era um lugar excelente para esconder um corpo. Seu corpo.
         Lhe tocou os ombros com as mos; ela se assustou, enfureceu-se e caiu sentada de repente sobre os sarais.
         -Pelo amor de Deus! -disse ele com tom ofendido- O que pensava que ia fazer contigo? -Olhou-a fixamente aos olhos e logo meneou a cabea negativamente-. 
Se tivesse querido te matar, poderia hav-lo feito antes, quando estava te aliviando entre os matagais.  que no tem sentido comum, mulher? Espera um pouco, enquanto 
lhe Quito estes espinhos da roupa.
         Maitland se meteu a pistola no cinto das calas, deixou no cho a garrafa de brandy e comeou a desenganchar os espinhos do vestido dela. Rosamund ficou 
ali sentada, miserablemente calada, com os joelhos pegos ao queixo, enquanto que a chuva lhe caa em cascata com a fora da corrente de um rio. Recordou que fazia 
solo um dia tinha sado de sua casa para viver uma pequena aventura. Se essa era a idia que tinha Deus de uma piada, no o fazia nenhuma graa. De fato, estava 
furiosa pela injustia que todo isso supunha. No  que culpasse a Deus do que lhe estava passando, no. Ao Richard Maitland, sim. O era o nico responsvel por 
todos seus problemas.
         Uma vez a teve liberado das saras, p-la de p e a observou com olhar inquisitivo:
         -Est bem?-perguntou-lhe.
         -Que se estiver bem? -disse ela em tom amvel-. J era hora de que me perguntasse isso. O que pode haver mais agradvel que ser apontada com uma pistola, 
raptada e tiragem a um caizal de saras sob um imenso aguaceiro em meio de nenhuma parte?
         -Atiraste-te voc sozinha s saras -disse ele, e se agachou para recolher a garrafa de brandy.
         O que significava esse sorriso em sua cara? Rosamund perdeu os nervos e, antes de que pudesse refletir a respeito da convenincia ou no do que ia fazer, 
deu-lhe uma patada com o p calado que o enviou a ele, a sua toalha e a sua garrafa de brandy voando em direo aos arbustos. antes de que sasse o primeiro OH! 
de boca do Maitland, ela j estava dando tropees pelo enlameado caminho em direo  barco. Um empurro de detrs a fez cair ao cho, e o impulso que levava a 
enviou para diante. Mas a no ia se acabar tudo. Ela ainda tinha agarrado na mo aquele estpido sapato, assim que o depositou sobre um montculo de terra, esperando 
o momento oportuno. Ento ele se apoiou em um joelho detrs dela e, agarrando-a pelos ombros, tentou-a incorporar.
         -Deveria ser mais sensata...
         Ela apontou a sua cara. Quando Richard levantou o brao para parar o golpe do sapato, seu cotovelo foi a estelar se, sem que ele pudesse evit-lo, na mandbula 
do Rosamund.
         -Por todos os demnios! -resmungou Richard, e conseguiu sujeit-la justo quando ela comeava a cair dobrando-se o os joelhos.
         
         
         Aquele caminho conduzia at uma abandonada cabana de uma s habitao, escondida depois de um muro de pedra. Quando Richard a levou em braos pela inclinada 
escada e a deixou na cama, j estava quase sem flego. As duas semanas que havia passado no Newgate no tinham feito precisamente bem a sua sade, nem tampouco ter 
carregado com a amazona de um extremo ao outro da priso, e agora do caminho at a parte alta da casa de campo. A ferida no peito comeava a lhe dar ferroadas.
         Quando se afastou um pouco da cama, ficou um momento olhando-a. A princesa perfeita, assim a chamavam os peridicos. Bom, agora parecia que a princesa perfeita 
necessitava que a passassem por um escorredor.
         Como a tinha golpeado daquela maneira?  obvio, tinha sido um acidente, embora no esperava que lhe acreditasse. Nunca em sua vida tinha pego a uma mulher. 
Tampouco tinha pretendido lhe fazer danifico ou assust-la. Solo tentava que se comportasse de maneira mais acalmada at que cada um pudesse seguir seu caminho.
         Agarrou o lenol dos ps da cama e a tampou com ela para que se secasse um pouco; logo foi ao armrio que havia ao lado da chamin. Quando comprovou que 
ali estava tudo o que necessitava, deu-lhe em silncio as graas ao Hugh Temperar por lhe haver provido de tudo o que pode fazer falta a um homem que est fugindo 
-roupa nova, uma boa quantidade de dinheiro, um navalha de barbear, comida e uma garrafa de brandy para substituir a que acabava de perder.
         Havia duas tigelas de lato na mesa que estava frente  chamin. Mdio encheu um deles e bebeu um bom gole; a seguir voltou para a cama. Levantou- a cabea 
a ela com uma mo para poder lhe deixar cair umas gotas de brandy entre os lbios. Por sorte, ela bebeu sem uma queixa. Quando suas pestanas bateram as asas e se 
moveu, Maitland suspirou aliviado. Estava seguro de que ia repor se. O qual era muito mais do que podia dizer de si mesmo. Doam-lhe os msculos e estava suando. 
Se no descansava, logo ia acabar por ficar sem foras, e isso seria um grande engano, sobre tudo com aquela moa a seu lado.
         Pensou em troc-la atadura da ferida, mas decidiu que no havia tempo para isso, e menos naquele momento, quando a moa estava comeando a voltar em si. 
Esperaria a que Harper retornasse. Dois homens amadurecidos a poderiam dominar. Dois homens amadurecidos que, em palavras do Harper, eram o melhor que podia oferecer 
o Servio Secreto de Sua Majestade?
         Maitland sacudiu a cabea. Lady Rosamund no era uma moa corrente. A estas alturas, a maioria das mulheres estariam convertidas em um pudim tremente. Mas 
esta mulher tinha guelra. Inclusive quando estava aterrorizada seguia mantendo a prudncia. enfrentou-se aos amotinados e s balas estando s portas do Newgate, 
quando tratava de escapar dele, e fazia um momento que lhe tinha atacado armada s com um sapato. Se ela fosse um homem e ele seguisse sendo chefe do Servio de 
Segurana, ofereceria-lhe imediatamente um posto em sua palmilha.
         Essa idia lhe fez sorrir, mas o sorriso lhe apagou da cara no momento em que seus olhos se posaram sobre ela. O fino lenol que se pegava a seu corpo mido 
enfatizava suas curvas. Apesar de ser muito alta, estava perfeitamente proporcionada. A fim de contas, ele era um homem, e j se fixou nela no momento em que entrou 
no ptio da priso. Agora que tinha a oportunidade de examin-la mais de perto, encontrou mais coisas que a faziam admirvel: desde seu abundante cabelo negro at 
o delicado arco de suas finas sobrancelhas, passando pela suave forma de sua boca.
         Quando se deu conta de que estava olhando fixamente sua boca, forou-se por respirar lenta e profundamente. Essa mulher era realmente perigosa! No podia 
abrandar-se diante ela ou sentir atrao por ela! Se o fazia, tinha muito que perder. Tinha que conseguir que lhe temesse. Essa era a nica maneira de fazer que 
se comportasse com prudncia.
         Mas ao mesmo tempo essas idias faziam que no se sentisse bem consigo mesmo. Foram contra tudo o que tinha aprendido nos joelhos de sua me. As mulheres 
eram o sexo dbil, e um homem que se aproveitava dessa circunstncia no era mais que uma besta. Alm disso, essa mulher era inocente. Seu nico engano tinha sido 
estar no lugar equivocado no momento menos oportuno.
         E esse pensamento levou de novo ao Newgate e  forca.
         "Tinha que fazer que lhe temesse."
         Com essa idia instrutiva, tirou-se a roupa molhada, secou-se a fundo com uma toalha e em seguida ficou outra poda que Hugh tinha deixado ali para ele.
         
         
         Quando ela voltou em si, a mandbula lhe palpitava e a boca queimava a causa do brandy. Estava deitada em uma cama, mas sabia que no se tratava da sua. 
O colcho estava grumoso. "Isto  o cmulo!", pensou, e logo: "Maitland", e comeou a lembrar-se de tudo. incorporou-se.
         Ele estava registrando um armrio que havia ao lado de uma enegrecida chamin de pedra. Seus olhos se moveram at percorrer o resto da sala: uma pequena 
mesa com duas cadeiras de madeira, um par de tigelas de lato e vrias panelas em uma estantera; a ambos os lados da porta havia duas pequenas janelas. Era uma 
casa de campo de um s espao, com aspecto de estar abandonada.
         Quando apartou os lenis e tirou as pernas pelo lado da cama, esta rangeu. Maitland ficou em p e foi para ela. Estava imaculado. No podia acreditar. 
A ltima vez que o viu estava talher de barro. Mas isso no era tudo. Parecia realmente atrativo. Obviamente se tinha penteado seu cabelo castanho claro. E o aspecto 
sinistro de seu rosto tinha desaparecido. Ento se aproximou dela. barbeou-se.
         O aspecto imaculado dele a fez mais consciente de seu prprio estado de desalinho. As salpicaduras de barro entre seus dedos e a chuva que tinha molhado 
sua roupa a tinham convertido em um farrapo.
         ficou de p e o olhou com severidade enquanto se aproximava. Ao ver sua expresso, ele meneou a cabea.
         -No me faa utilizar a fora para lhe dissuadir -lhe disse.
         O olhar fixo de seus penetrantes olhos era mais do que ela podia suportar. Quis olhar para outro lado, mas seu orgulho no o permitiu. No havia nada que 
esse homem preferisse mais que v-la acovardar-se.
         -Conheo sua faceta violenta -disse ela, e se tocou com uma mo a mandbula dolorida.
         Ele murmurou algo entre dentes, passou-se os dedos pelo cabelo e deu um passo atrs. Por fim disse:
         -me escute, lady Rosamund, se te controlar no te farei nenhum dano. Harper retornar logo com cavalos, logo lhe deixaremos em uma estalagem e Harper e 
eu seguiremos nosso caminho. Estar de volta com sua famlia antes do que pensa.
         As coisas comeavam a tomar forma em sua mente. Algum se tinha encarregado de encontrar essa apartada casa de campo e tinha disposto nela tudo o que Maitland 
necessitava para escapar. Mas a casa tinha um aspecto to abandonado, que estava claro que esse no era seu ltimo destino, a no ser solo uma parada para descansar 
e assegurar-se de que no havia mouros na costa antes de continuar a fuga.
         Havia dito que Harper voltaria logo com cavalos e que logo a levariam a uma estalagem. Se ao menos pudesse lhe acreditar!
         -procurei roupa limpa para ti -disse ele, e se dirigiu de novo ao armrio retornando com um fardo de roupa seca-.  a roupa do Harper, mas no a necessitar 
antes de que a tua se secou. E botas. Bom, so as botas do Harper, mas tem um p bastante pequeno.
         O frio lhe estava metendo nos ossos, e com gosto haveria mudado sua roupa molhada por um traje de esparto, mas no gostava da idia de utilizar a roupa 
do Harper. Temia ao Harper quase tanto como ao Maitland.
         "Entretanto, no parece que tenha outra alternativa", pensou.
         Quando viu que ela no respondia, trocou seu tom de voz, que se fez mais duro.
         -Cinco minutos -lhe disse-. Te dou cinco minutos, e se no estar vestida quando voltar, eu mesmo te porei esta roupa. Ficarei justo em frente da porta. 
Entendeste-me, lady Rosamund? Ser melhor que esteja dentro desta roupa seca quando eu volte a cruzar essa porta.
         -No o estarei -disse ela.
         A frustrao lhe fez bramar por dentro.
         -Est completamente empapada! Lhe tocam castanholas os dentes! No vou deixar que pilhe uma pneumonia. Entendeste-me?
         -Perfeitamente. Mas  voc o que no entendeu.
         -Ento me esclarea isso senhora, se for voc to amvel.
         Ela se encolheu ligeiramente de ombros:
         -No posso me despir eu sozinha, sem minha Abigail.
         -Sem seu o que?
         -Donzela.
         Houve um momento de silncio. Duas manchas rosadas apareceram em suas bochechas. Ele enrugou as sobrancelhas e pouco a pouco comeou a compreender. No 
podia despir-se s porque, por isso ele recordava, os botes de seu vestido estavam colocados em uma apertada linha reta da base de seu cangote at o final da coluna.
         -Eu serei sua donzela -disse ele.
         Ela ficou rgida.
         -Isso no ser necessrio. Se me der uma faca ou umas tesouras, eu mesma me arrumarei isso para sair de meu vestido.
         -Uma faca ou umas tesouras?
         Ela assentiu com a cabea.
         -Parece-te que estou mal da cabea? Date a volta. Eu farei o trabalho de sua donzela.
         Os olhos do Rosamund se abriram como pratos, e ele j comeava a perder os nervos. Sabia exatamente o que estava passando pela mente dela nesse momento.
         -Pelo amor de Deus! No pensar que vou tentar me aproveitar de ti? Se te pudesse ver em um espelho, daria-te conta do ridcula que  essa idia -E a seguir 
acrescentou- Venha, date a volta.
         Suas delicadas janelas nasais se alargaram, mas ao mesmo tempo lhe obedeceu.
         Os botes eram pequenos e ele parecia ser um manazas. A esse passo no foram acabar antes do dia do julgamento final. O agarrou os dois borde do vestido 
e atirou deles com fora; Os botes saltaram sobre o cho de pedra por todos os rinces e alguns caram debaixo da cama. A parte traseira de seu vestido se abriu, 
mostrando uns delicados ombros de cor nata e um espartilho de encaixe. Sua cintura era surpreendentemente estreita. Como a palma de uma mo. De sua prpria mo.
         "Como me ocorreu esta idia?", pensou ele.
         -Cinco minutos -repetiu Maitland, e a deixou a ss.
         Ela esperou a que se fechasse a porta e logo se desprendeu do vestido, das mdias, e utilizou os lenis para secar-se.
         "Se te pudesse ver em um espelho", disse-se imitando exatamente o tom de voz dele. Pois v, e se ela no se estava equivocando, ele tampouco era precisamente 
Romeo. No era capaz nem de desabotoar o vestido de uma dama. Que mulher em seu so julgamento se fixaria no Richard Maitland? Ela no,  obvio. Mas se nem sequer 
seu amante lhe queria. Pobre Lucy Rider.
         Se se pudesse ver em um espelho! O que esperava ele, depois de tudo o que havia passado? Quando ia todo o bem vestida que estava acostumado a ir, era, como 
seu pai dizia, uma beleza delirante. Claro que seu pai era parte interessada, mas inclusive deixando de lado o exagero, ela no era essa bruxa em que Richard Maitland 
parecia hav-la convertido.
         No sabia por que lhe tinha incomodado isso. Assim no gostava? Bom, pois muito melhor. Uma coisa menos da que preocupar-se.
         Sua roupa interior tambm estava empapada, mas no podia tir-la camisa sem antes tirar o espartilho, e ambos se atavam pelas costas. fez-se mal nos braos 
tentando desfazer os laos e tir-la estpida vestimenta pela cabea e logo a camisa. No podia entender como as arrumavam as mulheres correntes para vestir-se e 
despir-se reveste.
         colocou-se uma camiseta branca de linho que lhe chegava por debaixo dos joelhos, mas no lhe preocupava absolutamente a aparncia. Agora estava seca, e 
isso era o que importava, no a opinio que Richard Maitland tivesse dela. As calas negras no ficavam muito bem. A cintura era muito larga, as pernas das calas 
muito largas, e eram muito ajustados pela parte de atrs. alegrou-se de que no houvesse nenhum espelho naquela rudimentar cabana, porque do contrrio teria estado 
tentada de romp-lo, e j no podia enfrentar-se a mais m sorte da que tinha.
         Enquanto se colocava as botas do Harper, sua mente comeou a divagar. Era possvel que Maitland lhe tivesse dado roupa limpa se pensava liquid-la?, perguntou-se. 
Bom, to solo tinha que esperar para averigu-lo...
         Podia lhe acreditar? Deveria lhe acreditar?
          obvio que no, disse-se enquanto se agachava para recolh-las pernas das calas das calas e sua mandbula comeava a lhe doer de novo.
         Estava ficando-a ltima pea de roupa, uma jaqueta azul muito fina, quando Richard apareceu pela porta. Os dois se estremeceram; ele porque as calas negras 
de ponto do Harper estavam modelados pela forma do Rosamund e ressaltavam seu exuberante traseiro e toda a longitude de suas moldadas pernas. antes de que pudesse 
evit-lo, em sua mente se formou uma imagem grosseira.
         Ela se estremeceu porque ele a olhava como algum a quem acabassem de apunhalar pelas costas. Quase esperou lhe ver desabar-se e cair ao cho de bruces.
         O franziu o sobrecenho e disse com irritao:
         -Pode fazer algo com seu cabelo ou requer os servios de sua donzela para que o faa por ti?
          obvio, necessitava a ajuda do Nani para arrumar o cabelo. Para isso estavam as donzelas. E se um dia decidisse no necessitar mais os servios das donzelas, 
ento, o que ia ser do Nani? ficaria sem trabalho, e sua me viva e seus irmos pequenos teriam que arrumar-lhe sem seu salrio. Este homem era to duro de moleira! 
No se dava conta de como funciona o mundo.
         Enquanto ele se dirigia ao armrio e o abria, ela se dedicou a pentear-se com os dedos. supunha-se que era a parte mais formosa de seu corpo: um cabelo 
grosso, sedoso e escuro. Mas agora se converteu em um matagal, e no tinha nem idia do que fazer com ele, exceto tornar-lhe para trs por cima dos ombros.
         Mas por que estava Maitland to zangado?
         Ele tirou do armrio uma cesta de picnic. Depois de deposit-la na mesa, tirou a corda que sustentava a tampa da cesta e se aproximou dela com a corda na 
mo. Rosamund deu um salto para trs quando ele a agarrou de repente pelo cabelo.
         -Nunca me tinha encontrado com uma mulher to necessitada -disse ele-. Isto te servir no momento.
         Fez-lhe uma cauda com o cabelo e a atou com a corda. Uma vez feito isto, assinalou para a chamin.
         -Voc acende o fogo e eu terei lista nossa comida em um momento.
         Ela olhou a lenha na chamin. Nunca em sua vida tinha aceso um fogo, mas sim tinha visto outros faz-lo e no lhe parecia que fosse uma tarefa muito difcil. 
Seus olhos se posaram no suporte da chamin. A estavam as sempre necessrias iscas. Tudo o que tinha que fazer era esfregar duas pederneiras entre si para conseguir 
uma fasca que fizesse arder a isca. Logo bastava colocando a isca sob o feixe de lenha e o fogo comearia a arder ao momento.
         -Venha. Acende o fogo e coloca sua roupa perto para que se seque.
         "Ordens, ordens, ordens!", dizia-se Rosamund para seus adentros enquanto se aproximava da chamin. No lhe falaria assim nem aos serventes, para no ferir 
seus sentimentos.
         depois de vrios intentos infrutferos para conseguir que a isca prendesse, seu respeito pelos criados aumentou grandemente. No era um trabalho difcil. 
Era impossvel.
         Os dedos do Maitland se fecharam ao redor dos dela e lhe tirou a caixa de iscas.
         - completamente intil! -gritou-lhe exasperadamente-. Se tivesse que te alimentar voc sozinha, foste morrer te de fome, isso se antes no morria congelada. 
V com as mulheres de alta linhagem... -Deixou escapar um comprido suspiro-. Olhe como o fao eu.
         E ela viu como esfregava um pederneira contra outro sem conseguir nenhum resultado.
         teria posto-se a rir em sua carrancuda cara se no lhe tivesse dodo a mandbula. Em lugar d isso, arqueou as sobrancelhas, a nica recriminao que se 
permitia a si mesmo quando se desgostava com os serventes.
         -Sei o que sente -lhe disse-. Eu tambm sinto falta da meus serventes. Se Harper estivesse aqui.
         
         
         Rosamund desfrutou de cada bocado de comida, apesar de que no houvesse um cintilante fogo que os esquentasse nem velas acesas para mitigar a penumbra. 
Tanto ela como Maitland eram realmente uns inteis. Ambos tentaram repetidamente acender a isca com o pederneira, e ao final o deixaram por impossvel. No lhe importava. 
Bastava-lhe vendo sua cara carrancuda para ter todo o calor que necessitava.
         Nem sequer o fato de ter a mo esquerda atada  cadeira lhe incomodava. A dor de sua mandbula j se acalmou e, apesar de estar fria, a comida era to boa 
como a que servia seu prprio cozinheiro; e o medo que sentia por seu seqestrador se desvanecia conforme passavam os minutos.
         Por sua parte, Maitland parecia estar inquieto. De repente se levantou e saiu fora a comprovar umas coisas, conforme disse. Realmente estava preocupado. 
No  que o tivesse comentado, mas ela tinha olhos na cara. Podia ver e sentir como a tenso ia aumentando nele. E quanto mais tenso estava ele, mais relaxada se 
sentia ela. Possivelmente quem viria a resgatar estavam j  volta da esquina.
         -Vamos -disse ele.
         -O que? -replicou ela deixando o garfo sobre a mesa-. No ouvi chegar ao Harper.
         -Porque no chegou. E por isso vamos daqui. No pode ter necessitado tanto tempo para conseguir os cavalos.
         No sabia se isso eram boas ou ms notcias, assim que lhe perguntou tranqilamente:
         -Quer isso dizer que vais deixar que v?
         O ia da cama ao armrio enchendo umas alforjes com provises e nem sequer levantou a vista quando lhe disse:
         -Parece-me difcil. Quo nico faria seria enviar  tropa atrs de meus passos.
         -Mas havia dito que me levaria a uma estalagem e me deixaria ali.
         -S se tnhamos cavalos. E Harper devia encarregar-se disso. Mas sem ele, esse plano no funciona. Teremos que pensar em algum outro plano.
         Apenas um momento antes se havia sentido relativamente a salvo com esse homem, mas agora j no sabia a que ater-se. Era como estar em um balano. Durante 
um instante estava acima, e ao momento seguinte, abaixo.
         -E se te prometo que no vou dizer nada s autoridades?
         Agora ele sim que a olhou:
         -por que deveria te acreditar?
         -Porque sou uma Devere -respondeu ela elevando o queixo.
         O estava a ponto de lhe responder com brutalidade, mas trocou de idia quando se deu conta de sua expresso. Havia nela honra, mas estava misturado com 
medo.
          obvio que estava assustada! Ele era seu cruel seqestrador e ela pensava que se tratava de um assassino. No sabia o que podia esperar. Naturalmente, 
seria capaz de prometer algo com tal de afastar-se dele.
         O que lhe surpreendeu foi o muito que queria acredit-la. Com voz amvel lhe disse:
         -No posso te deixar partir at estar seguro de que levo uma boa dianteira a meus perseguidores, mas se me d sua palavra de que no tratar de escapar 
nem tentar nenhum truque, guardarei a pistola e no te atarei as mos.
         Por um momento pareceu como se ela pudesse estar de acordo, mas em seguida sacudiu a cabea em sinal de negao:
         -Para um Devere, sua palavra  sagrada -lhe disse-. H algo sagrado para ti, Richard Maitland?
         Essa resposta lhe doeu. Ele tinha dedicado toda sua vida a servir a sua ptria, e a ptria se tinha voltado em seu contrrio. por que deveria ter esperado 
que essa mocinha lhe compreendesse?
         Ela no confiava nele. No lhe importava, porque tampouco ele confiava nela. Ela mesma lhe tinha dado a entender que no o fizesse. Excelente. assim ia 
voltar a ser seu cruel seqestrador.
         Dirigiu-lhe um sorriso, uma meia sorriso.
         -Minha vida  sagrada para mim -disse ele-, e far bem em no esquec-lo.
         Viu-o d-la volta e continuar empacotando as coisas. Rosamund tinha a estranha sensao de que, de algum jeito, lhe tinha falhado, mas isso no tinha nenhum 
sentido. Ali ela era a parte inocente; sua palavra valia algo. Aquele homem era um assassino, e sua palavra no valia nada.
         Ento, por que se sentia como se lhe tivesse defraudado?
         -O que vais fazer comigo? -perguntou-lhe ela em voz baixa.
         -Terei que pensar em algo.
         Essas arrepiantes palavras to imprudentemente pronunciadas lhe limparam a mente. Tinha entendido sua advertncia. Quo nico lhe importava era sua prpria 
vida, e ela faria bem em no esquec-lo.
         Tragou saliva imaginando o que ia passar com ela e voltou a tragar saliva quando pensou em seu pai. A estas alturas j devia saber que a tinham seqestrado, 
e a inquietao estaria fazendo estragos nele. Quo mesmo em seus irmos.
         Olhou pela janela. Logo seria de noite. Na escurido teria melhores oportunidades de escapar.
         
        Captulo 5
         A notcia da fuga do Maitland do Newgate e o seqestro de lady Rosamund viajava por Londres com a velocidade de um cometa. Embora muitos dos bailes e as 
festas se cancelaram a conseqncia dos motins, os clubes para cavalheiros do St. James estavam to cheios como sempre. No White's, o senhor George Withers escutava 
atentamente o relato que Charles Tracey fazia de como tinha escapado Maitland da priso. Ele ia ao Newgate, disse Tracey, com sua cunhada, e lady Rosamund tinha 
insistido em lhes acompanhar.
         Tracey era o foco de ateno de todos, pensou Withers cinicamente, embora tinha estado muito longe de atuar como um heri. Desejava lhe fazer vrias perguntas 
concretas ao senhor Tracey, mas estava to rodeado por sua audincia que no pde sequer aproximar-se dele.
         No lhe importava, porque Withers duvidava de se poderia manter-se acalmado e tranqilo. Seu corao j estava pulsando com fora e sua respirao comeava 
a fazer-se audvel. Estava comeando a sofrer um ataque de ira, e o ltimo que queria era trair a imagem que tinha dado de si mesmo -de ser um aristocrata rico, 
scio do clube White, onde o tinham aceito como um dos seus.
         Ali lhe conhecia como George Withers, um oriundo da Inglaterra que tinha feito fortuna na Carolina do Sul, onde era dono de uma importante plantao. Seus 
crditos e suas cartas de recomendao eram genunas. Era realmente um dos principais cidados do Charles Town. O que ningum sabia era que o verdadeiro George Withers 
tinha morrido muito tempo atrs, antes de que o homem que se fazia passar por ele tivesse chegado a Carolina do Sul.
         Withers esboou um sorriso enquanto arrastava sua cadeira fazia atrs e se despedia dizendo que tinha que voltar em seguida para sua casa. Houve vrias 
inclinaes de cabea, mas nenhum dos cavalheiros sentados a sua mesa tratou de persuadi-lo para que ficasse. Todos pareciam muito interessados no que Tracey lhes 
estava contando.
         S havia um curto trajeto do clube at sua habitao no Bond Street, e por muito, que o tentou, no pde manter a raia sua clera. Se se tivesse cruzado 
com um co guia de ruas ou com um mendigo, teria descarregado sua raiva contra eles, mas a nica pessoa com a que se cruzou foi o sereno, e diante este tipo fornido 
quo nico pde fazer foi saudar tocando o chapu.
         "Richard Maitland escapou que o Newgate." Estas palavras O martilleaban o crebro. "Richard Maitland escapou que o Newgate."
         Ningum poderia lhe haver acusado de ter subestimado ao Maitland, mas que escapasse do Newgate era quo ltimo podia ter imaginado. E lady Rosamund estava 
colocada de por meio. Maitland a tinha utilizado como refm para conseguir fugir-se, disse Tracey, ajudado e instigado por seu guarda-costas.
         Deveria ter matado ao Maitland quando teve a oportunidade de faz-lo, quando entrou na habitao do Lucy Rider. Mas isso no teria servido a seus propsitos. 
Ele queria que Maitland sobrevivesse e que fora humilhado publicamente antes de morrer na forca. Queria tom-la revanche com ele. Tinha planejado, projetado e sonhado 
poder ter ao Maitland na palma da mo, e agora acontecia isto.
         Mas ainda no tinha acabado com o Maitland. No, ainda no tinha acabado.
         Sua raiva comeou a acalmar-se quando se imaginou ao Maitland fugindo, aoitado da Casa da moeda a Balance, e caso que seria apanhado, agora que tinha tomado 
a lady Rosamund como refm. Maitland no tinha amigos, no tinha a ningum que lhe ajudasse -j se encarregou ele disso-. Solo era questo de tempo que o recapturassem.
         O no tinha medo de que Maitland pudesse estar buscando-o, mas gostava de imaginar o tratando de atar cabos -esse homem que se supunha que possua a inteligncia 
mais aguda do Servio Secreto de Sua Majestade- e tentando descobrir quem estava detrs de sua runa. Nunca chegaria a descobri-lo, nem em um milho de anos.
         quanto mais imaginava ao Maitland encerrado em uma imunda ratoeira, tentando descobrir quem lhe tinha levado at ali, mais melhorava seu estado de nimo. 
Quando chegou a suas habitaes j se sentia de novo dirigindo a situao, e despediu de seu criado com um sorriso.
         Logo foi direto  sala de leitura, serve-se uma generosa taa de brandy e se aproximou do fogo para esquentar-se. por cima da chamin havia um espelho, 
e seu olhar se cruzou ali com seu prprio reflexo. Ningum que olhasse aos olhos, pensou, imaginaria jamais que era um assassino. No era um homem arrumado, mas 
seu rosto era agradvel, amvel, o tipo de cara em que a gente confia, especialmente as mulheres. Tambm lhe ajudava aparentar ser mais velha da idade que tinha. 
Seu cabelo era escuro, mas estava repleto de cabelos chapeados, e tinha a cara cheia daquelas rugas permanentes com as que os brutais ventos lhe tinham ido endurecendo 
o rosto durante suas viagens de comrcio pelas terras mais remotas do Canad.
         Nunca se teria visto obrigado a desperdiar todos aqueles anos sombrios no Canad se no tivesse sido por culpa do Maitland.
         Aquilo lhe tinha afetado tanto como as duas pessoas que jamais tinham crdulo nele: seu pai e Richard Maitland.
         "Eu no matei ao gatinho, papai!, eu no fui! foi uma raposa, mas eu o afugentei." E autnticas lgrimas rodavam por suas bochechas.
         Seu pai no estava completamente convencido, mas interveio sua me, e os protestos dos olhos azuis de seu menino acabaram triunfando.
         As mulheres sempre tinham sido bonecos em suas mos -sua me, sua mulher, Lucy. Sorriu ao pensar no menino. Aquilo era algo diferente. Nunca antes tinha 
tido um aprendiz; nunca tinha tido a algum que o admirasse e que aplaudisse seu engenho e seu xito. Pareceu-lhe liberador poder tir-la mscara e mostrar-se diante 
ele tal como era. E aquele menino era um bom tutelado. Podiam ter um grande futuro juntos.
         Maitland tinha sobre ele o efeito contrrio. Desde dia em que se conheceram, sentiu-se incmodo em sua presena. Um "escocs arisco", pensou ento, mas 
no Maitland havia algo mais que isso. Pensou em seus olhos, fixos nele, uns olhos srios aos que no lhes escapava nem um s detalhe, e se viu si mesmo ficando sem 
voz em meio de uma frase. Tinha tentado travar amizade com o Maitland, mas Maitland o tinha ignorado por completo.
         Maitland no temeria nada dele. E nunca poderia descobri-lo. E Maitland tinha um defeito que ele no possua. Maitland seguia um cdigo de honra; um cdigo 
algo singular, criado por si mesmo e ligeiramente embaciado pelos borde, mas mesmo assim um cdigo de honra. Maitland se deteria antes do assassinato, algo que ele 
nunca faria.
         Sua mente examinou cuidadosamente a situao, e ao final se concentrou pensando nos amigos do Maitland. Era um homem prudente, e isso era algo que ele entendia 
e respeitava. O chefe de Estado Mais velha do Servio de Segurana no podia permitir que a gente se aproximasse muito a ele. Os nicos amigos com os que realmente 
contava eram Hugh Temperar e Jason Radley. Sabia que Radley se foi a Paris antes de que o mundo do Maitland se comeasse a afundar sob seus ps, e segundo suas informaes 
ainda estava ali. No caso de Temperar, este tinha desertado de sua amizade no mesmo momento em que Maitland teve que ver-se diante o tribunal.
          Ou no foi assim?
         Refletiu durante um momento e decidiu que era muito arriscado ficar quieto e deixar que as autoridades se encarregassem de dar com o Maitland. No tinha 
nenhuma confiana nas autoridades. Inteis e incompetentes eram as palavras que utilizava para descrev-los; alm disso, de no ser assim, nunca teriam condenado 
a um homem inocente -Maitland- enquanto que deixavam que um homem que tinha sido culpado cinco vezes -ele mesmo- seguisse livre sem que se suspeitasse nada dele.
         Seu primeiro assassinato lhe impressionou, embora o tinha planejado com todo detalhe. Pareceu-lhe estranho o pouco que lhe custou acostumar-se aos sucessivos, 
cada um deles mais fcil e mais prazenteiro que o anterior. A sensao de poder era algo que no podia comparar-se a nada que tivesse experiente antes. Quando matava, 
sentia-se como um deus.
         Agora mesmo, pensando nisso, voltava a sentir essa sensao de poder. Mas por muito bons que tivessem sido esses assassinatos, no eram nada comparados 
com o prazer que sentiria quando visse o Maitland balanando-se no extremo de uma corda.
         "Cuidado", advertiu-se a si mesmo. No ia ser to fcil acabar com o Maitland como o tinha sido acabar com os outros. Esse homem tinha nascido com uma natureza 
prudente. At enfrentar-se com o Maitland, ele nunca tinha desconfiado de sua astcia e de seu encanto natural. depois do Maitland, tinha aprendido a utilizar tambm 
a cabea. Tinha que pensar as coisas atentamente, escolher as peas que teria que mover e as colocar juntas se se dava a remota casualidade, a muito remota casualidade, 
de que Maitland pudesse chegar a lhe descobrir.
         levantou-se de repente quando ouviu vozes no corredor. Estava esperando uma visita e queria que seu visitante lhe desse respostas s questes que tinham 
estado atormentando sua mente. Onde estavam os amigos do Richard Maitland? Onde poderia estar este escondido? Qual seria seu prximo passo? Quem era esse guarda-costas 
que lhe tinha ajudado a escapar?
         E quem se encarregava de seguir a pista ao Maitland?
         
         
         Harper apoiou o cotovelo no mostrador do bar, tomou um bom gole de sua jarra de cerveja e se limpou a espuma da boca com a manga. Estava comeando a dar-se 
conta de que seqestrar  filha do duque tinha sido a deciso menos acertada que seu chefe tinha tomado jamais. O caminho para a Chelsea estava infestado de tropas. 
No tinha percorrido mais de uma ou duas milhas no momento em que foi descoberto, quando um grupo de soldados a cavalo saiu atrs dele. Se no tivesse sido capaz 
de cavalgar da maneira mais rpida e eficaz que jamais tinha feito, nesse momento estaria j de caminho ao Newgate. E agora estava ali, solo tinha podido desfazer 
da carruagem do duque e refugiar-se no Cocked Hat quando a tropa rodeou o local.
         E ali tinha estado enquanto comeava a obscurecer e se acendiam os abajures. O bar estava cheio de gente e tinha soldados em todas as sadas. Tinham encontrado 
o carro do duque e agora estavam procurando  garota e a seus seqestradores. Os arredores tinham sido passados os laos e se ordenou aos clientes do botequim que 
esperassem no bar at que fossem interrogados. Se tivessem seqestrado ao rei no se teria armado tanto animao.
         Embora poderia ter sido pior, muito pior. Os soldados poderiam ter sido do Guarda a Cavalo, que utilizavam os mesmos quartis que o Servio de Segurana, 
e, em tal caso, algum lhe poderia ter reconhecido, e a se teria acabado o jogo. Mas estes soldados vinham do Richmond e nenhum deles poderia lhe reconhecer.
         Ainda no tinham comeado a interrogar aos clientes, mas Harper no pensava ficar a esperar a que isso acontecesse. Embora sabia que tinha uma lngua eloqente 
e poderia superar facilmente o interrogatrio, passariam horas antes de que lhe deixassem partir. Tinha que conseguir cavalos e retornar com seu chefe. Solo tinha 
que esperar o momento adequado para poder escapulir-se dali. Ao primeiro descuido sairia por essa porta como uma flecha.
         Bom, se lhe acompanhava a sorte.
         Quando se abriu a porta e dois homens entraram no bar, compreendeu que voltar com seu chefe ia ser a mais pequena de suas preocupaes. Casualmente lhes 
tinha dado as costas, assim que eles no podiam lhe ver a cara. No sabia se lhe poderiam reconhecer ou no, mas ele estava seguro de conhec-los eles. Todos no 
Servio de Segurana os conheciam. Digby e Whorsley, os dois valentes da planta de acima. Todos trabalhavam no mesmo edifcio e todos estavam sob o guarda-chuva 
do Servio Secreto de Sua Majestade, mas algumas sees eram mais secreta que outras. Digby e Whorsley trabalhavam na seo C, usualmente conhecida como a Inquisio. 
Eram os espies que espiavam aos espies.
         Sempre estavam colocando os narizes onde menos lhes queria ver. O coronel Maitland tinha tido que baixar as fumaas a esses narizes em duas ou trs ocasies. 
Digby odiava a seu chefe porque pensava que lhe tinha roubado sua promoo. E agora, se conseguia det-lo, faria-lhe pagar por isso.
         Girou a cabea lentamente e com a extremidade do olho viu que se estavam partindo com um dos oficiais. No podiam saber nada da cabana. Ou sim? Sacudiu 
a cabea respondendo sua prpria pergunta. Solo ele, seu chefe e o senhor Temperar sabiam onde estava essa cabana, e eles no o tinham contado a ningum. Mas agora 
que tinham encontrado a limusine do duque, os tipos da planta de acima poderiam imaginar que seu chefe se estaria escondendo muito perto dali.
         Sentiu um calafrio muito estranho na boca do estmago.
         -Olhem! -gritou uma mulher-. Est chegando a carruagem do duque! E no so esses o duque e seus filhos?
         A gente se apinhava frente s janelas tentando conseguir um bom lugar para olhar. Desde sua posio no mostrador do bar, Harper tinha uma perspectiva perfeita. 
Ali estavam, de p, exatamente debaixo de um dos abajures.
         O duque e seus filhos formavam um grupo chamativo, como um atrativo e altivo grupo de ciganos. Embora havia algo em seu porte, no exatamente arrogncia 
mas sim um pouco parecido, que impunha respeito. E Digby e Whorsley realmente lhes estavam demonstrando respeito, inclinando-se e fazendo reverncias como ces treinados 
em um circo.
         "Insetos", murmurou Harper para seus adentros.
         abriu-se a porta e entrou um soldado gritando:
         -Sua Excelncia o duque do Romsey oferece uma recompensa de quinhentas libras para quem tem informao que possa conduzir a resgatar com vida a sua filha.
         O local ficou em silncio. Ao cabo de um momento, todos comearam a falar de uma vez e a gritar-se entre si. Um dos soldados abandonou seu colocado na porta 
para intervir em uma disputa entre dois clientes. Esse era o momento de distrao que Harper tinha estado esperando.
         aproximou-se lentamente para a porta, empurrou-a com suavidade at abri-la, e ento ficou gelado para ouvir que algum gritava seu nome.
         -Aquele  o sargento Harper!  um deles!
         Era a voz do Digby! Assim, depois de tudo, o tipo da planta de acima lhe tinha reconhecido. No se parou para olhar atrs. ps-se a correr pelo corredor, 
lanou-se atravs da porta traseira e saiu pelo ptio da estalagem  rua. Depois dele saiu correndo uma horda de clientes grites, todos dispostos a ser os primeiros 
em lhe dar alcance para assim poder reclamar a recompensa.
         Quando os soldados chegaram ao ptio carregaram suas armas.
         -A est! -gritou Harper assinalando para outra parte-. escapa!
         Era o mesmo truque que tinha utilizado no Newgate e esperava por todos os demnios que agora tambm lhe funcionasse.
         Desatou o primeiro cavalo que encontrou  mo e saltou sobre seu lombo. Dispararam uma descarga de balas, mas nenhuma delas chegou a lhe dar. Os soldados 
estavam disparando ao imaginrio objetivo que lhes tinha famoso. Demorariam uns preciosos segundos em voltar a carregar suas armas.
         Harper apertou os tales e em um salto estava j saindo de correria de caminho para o povoado. Uma bala lhe aconteceu roando o ouvido. V, sempre havia 
algum canalha preparado que no disparava at que no estava seguro de qual era o objetivo. Isso era o que ele ensinava sempre aos homens que estavam sob seu mando, 
assim agora tampouco podia queixar-se.
         -Sigam disparando! -chiou Digby.
         -Vo atrs dele, idiotas! -gritou Whorsley a sua vez.
         A idia de encontrar-se de novo com seu chefe j no rondava pela mente do Harper. Sabia o que tinha que fazer; e o que tinha que fazer era conduzir ao 
inimigo o mais longe possvel do coronel Maitland.
         
         
        Captulo 6
         Sua Excelncia chamou o Digby e ao Whorsley e, sem esperar a comprovar que lhe seguiam, dirigiu-se para a estalagem. No momento em que o hospedeiro os alojou 
em uma sala privada e se inclinou despedindo-se, o duque assinalou umas cadeiras e disse:
         -Sentem-se.
         Digby e Whorsley intercambiaram um olhar suspicaz, mas quando cada um dos filhos do duque tomou assento ao redor da mesa, eles fizeram o mesmo, embora se 
sentaram no lado de suas cadeiras.
         Sua Excelncia estava de p, no centro da sala, abrindo e fechando os punhos. Era um homem alto, de mais de metro oitenta, com um cabelo negro prateado 
nas tmporas. Harper o tinha imaginado como um cigano, entretanto o duque no era de pele escura, estava bronzeado pelo sol como resultado de sua ativa vida no campo. 
Acabava de fazer sessenta anos, mas geralmente tomava por um homem muito mais jovem. Embora nesse momento aparentava mais idade da que em realidade tinha. Todas 
as rugas de seu pesaroso rosto lhe marcavam profundamente.
         Seus filhos, os lores Caspar e Justin, pareciam-se tanto a seu pai que ningum poderia passar por cima seu parentesco. Rosamund no tinha a mandbula quadrada 
e o nariz aquilino deles, mas todos compartilhavam com seu pai os grandes olhos cinzas; uns olhos inteligentes que olhavam ao mundo com a mente limpa, com o olhar 
reflexivo.
         Depois de um momento de silncio, Caspar disse amavelmente:
         -Pai, sinta-se.
         -O que? -O duque olhou a seu filho mais velha, fez um esforo considervel para voltar em si e se sentou na cadeira que Caspar lhe assinalava.
         O duque nunca se sentia perdido, sempre controlava qualquer situao. Sua assombrosa escapada a Frana durante a Revoluo lhe tinha convertido em uma lenda 
em sua prpria poca. Mas isto era diferente: parecia-se muito  dor que esteve lhe consumindo durante anos, com um medo quase lhe paralisem, quando morreu sua esposa. 
Tinha esquecido quo frgil era at que dois estranhos, Digby e Whorsley, chegaram a sua casa para lhe pr  corrente do seqestro do Rosamund. Tinham encontrado 
seu carro de cavalos abandonado nos arredores da Chelsea, haviam-lhe dito; e sem acrescentar nada mais, tinham-lhe pedido que subisse a sua carruagem e o tinham 
conduzido at onde se encontravam nesse momento. Agora esperava que lhe fizessem um relato completo do que lhe tinha acontecido a sua filha.
         Caspar e Justin, o duque sabia, sentiam-se to perdidos como ele mesmo. Eles estavam em Londres quando a tropa os encontrou e lhes deu a notcia. Tinham 
chegado os dois ao Cocked Hat com poucos minutos de diferena.
         S olhar a seus filhos j tranqilizou, embora no sempre lhes tinha cuidadoso aos olhos como agora. Caspar, o herdeiro, tinha lutado na guerra da Espanha 
contra os desejos de seu pai, e tinha retornado a Inglaterra como um homem mudado, com uma coragem que secretamente seu pai admirava, mas que no sempre podia tolerar.
         Justin, que no queria ser inferior a seu irmo mais velha, reuniu-se com ele durante as ltimas semanas da guerra. Mas a experincia do Justin foi muito 
diferente a do Caspar. Aquele tinha estado ao lado dos belgas e de seus companheiros, o galhardos hsares. Para ele a guerra tinha sido a glria e o glamour. Os 
largos anos que Caspar havia passado na Espanha tinham sido muito mais escuros. Seja como for, agora o duque podia contar com a ajuda de seus dois filhos para superar 
aquela terrvel calamidade.
         Estavam convencidos de que Maitland no era um louco e que utilizaria ao Rosamund para negociar sua liberdade. Rezavam por estar no certo, mas o que tinham 
lido do Maitland nos peridicos os fazia temer o pior. Se pensava que no podia utiliz-la para nada, poderia chegar a matar ao Rosamund sem escrpulos. Tinham que 
encontr-lo antes de que fora muito tarde.
         Os olhos do duque se dirigiram para o Digby e Whorsley. Embora eram militares, parecia que passavam a mais velha parte de seu tempo no despacho, estudando 
informe. Ambos eram magros, rondavam a quarentena e tinham rugas lhes marcando o rosto; ao duque recordavam a seus prprios contveis. Se faltava um penique, eles 
no paravam at dar com ele. Esperava que isso fora um bom sinal.
         Haviam dito que pertenciam  seo C do Servio Secreto de Sua Majestade, e pareciam estar orgulhosos disso. De todos os modos, para o duque aquilo no 
supunha nenhuma garantia. O Servio Secreto estava to fragmentado, que estranha vez sabia a mo direita o que estava fazendo a esquerda. Se isso no tivesse sido 
assim, algum como Maitland no teria chegado nunca a ser chefe de Estado Mais velha.
         Todos olhavam ao duque esperando a que este comeasse a falar.
         -Mais velha Digby -disse-, quem  este tipo, Harper?
         - o guarda-costas do Maitland e, evidentemente, agora tambm seu cmplice. Ajudou ao Maitland a escapar da priso.  tudo o que sabemos no momento, Sua 
Excelncia.
         O duque negou com a cabea.
         -E quem foi o parvo que lhe disparou? Refiro-me ao ltimo disparo, que errou por pouco o branco.
         Digby estendeu as mos.
         -No sei, mas quando encontrar a esse homem ser castigado.
         Aquilo pareceu satisfazer ao duque.
         -me fale agora do Richard Maitland -disse-. por que lhe julgaram em um tribunal civil em lugar de em um militar?
         -Porque as autoridades civis lhe detiveram antes e se negaram a transferir o caso -disse Digby-. Poderamos ter insistido, mas a opinio pblica esperava 
que fosse julgado em um tribunal pblico. Supondo que temiam que pudssemos ser mais tolerantes com um dos nossos. Pelo menos, nossos superiores decidiram no provocar 
um escndalo.
         O duque balbuciou, e ao cabo de um momento disse:
         -Bom, e quem  esse Maitland? O que pode me dizer dele?
         -Com o devido respeito, Sua Excelncia, neste momento estamos perdendo um tempo precioso -disse Dibgy com muito tato-. Maitland pode estar j muito longe. 
Deveramos organizar uma busca casa por casa e rua por rua.
         O duque levantou a cabea. De repente sua voz se fez estridente:
         -Seria uma idia excelente se tivesse ficado algum para levar a cabo essa operao, mas resulta que todos seus homens esto perseguindo o fugitivo. E esperemos 
que nenhum deles dispare sobre ele, ou do contrrio perderemos nossa melhor oportunidade de saber aonde foi Maitland.
         Digby se mordeu os lbios.
         -Assim, enquanto esperamos a que voltem seus homens, me fale do Richard Maitland -continuou o duque-. Como chegou um homem dessa ndole a ser o chefe de 
Estado Mais velha do Servio de Segurana? Quais so seus amigos? Tem famlia? A quem poderia dirigir-se para pedir ajuda?
         -Creio que sua famlia vive em Esccia -disse Digby-. Seu pai  uma espcie de advogado, mas no  muito conhecido nem absolutamente distinto. trata-se 
de uma famlia modesta, deveria acrescentar. Seu filho Richard era um moo ambicioso. Ia bem na escola, e se alistou no exrcito depois de abandonar a universidade. 
Esteve servindo durante um tempo no Servio de Inteligncia Britnico, na Espanha.
         Quando Digby fez uma pausa para pr em ordem seus pensamentos, lorde Caspar disse:
         -Parece que era um soldado admirvel. O que  o que saiu mau?
         -O que saiu mal  que quis subir muito alto -disse Digby molesto-. No chegou a chefe de Estado Mais velha por seus prprios mritos, mas sim porque teve 
sorte. Estava no lugar adequado no momento oportuno.
         Digby se deu conta de que estava comeando a apaixonar-se muito e, depois de fazer uma pequena pausa, seguiu falando em um tom mais moderado.
         -Deve ter ouvido voc que houve uma conspirao para assassinar ao primeiro-ministro.
         -Sim, ouvi-o -disse o duque-. Est voc dizendo que foi Maitland quem a descobriu?
         -No. Solo que ele se levou a fama por isso. Ele e seu co guardio, Harper.
         -J vejo -disse o duque-. Continue.
         -Como recompensa, lorde Liverpool o nomeou chefe de Estado Mais velha. Se tivesse consultado  Seo C, lhe teramos dado nossa opinio contra essa nomeao. 
Maitland no  um dos nossos. No encaixa bem ali. No continua as regras e alm disso pensa que ele no  responsvel diante ningum. E quanto aos amigos, a verdade 
 que no tem nenhum. Ao menos no dos que voc e eu chamaramos verdadeiros amigos. Tem companheiros e conhecidos, isso  tudo.
         -Bom -interrompeu lorde Justin lacnico-. Esse guarda-costas (como se chama? Harper?) parece ser um verdadeiro amigo, no? Leal at o ponto de que no lhe 
poderia comprar.
         Digby deixou escapar uma meia sorriso.
         -O sargento Harper! -disse-. Primeiro foi soldado, logo chofer, depois guarda-costas, e agora  o cmplice do crime do Maitland. Um verdadeiro e fiel amigo, 
sem dvida, para a gente como Maitland.
         As sobrancelhas do duque se franziram. Ele contava entre seus prprios amigos a seu chofer, Sellers, agora j aposentado, mas que vivia confortavelmente 
no castelo Devere. No gostou do tom sarcstico do Digby; no gostou de seu desprezo; e estava chegando  concluso de que tampouco gostava de nada esse homem.
         dirigiu-se ao outro agente.
         -Bem, capito Whorsley, o que tem voc que dizer?
         -OH! -Whorsley olhou ao Digby e ao final respondeu- Estou de acordo em tudo com o mais velha Digby, Sua Excelncia.
         -Maitland no escapar desta, Sua Excelncia -acrescentou Digby-. No tem nenhum stio aonde ir nem ningum em quem confiar. Deteremo-lhe e, quando o fizermos, 
pagar por seu crime.
         Quando o duque ficou em p, respetuosamente todos fizeram o mesmo.
         -Agora, me escute -disse-. Prender o Maitland e lhe fazer pagar por seu crimes no  nosso objetivo. Nosso objetivo  conseguir que minha filha retorne 
a casa s e salva; e se quando a encontrarmos ainda est com vida (que Deus o queira), daremos ao Maitland o que queira para que a deixe livre. Se pedir um resgate, 
eu o pagarei. Se quer sair da Inglaterra de forma segura, eu lhe arrumarei uma sada. Se quiser a anistia, ter-a. Algo que queira Maitland, ter-a. Fica claro?
         Os dois agentes inclinaram a cabea; Whorsley imediatamente, e Digby com certa reticncia.
         O olhar do duque se posou na pequena janela gradeada do muro.
         -Mas se lhe acontecesse algo a meu Rosamund, Maitland responder disso solo diante mim, diante ningum mais -disse com um tom de voz baixo e solene.
         O silncio que seguiu a essas arrepiantes palavras foi rompido pelo som de pezuas de cavalo galopando sobre os paraleleppedos. O duque se aproximou da 
janela e olhou fora.
         -Creio que seus homens esto comeando a chegar, mais velha Digby -disse-. Com as mos vazias, por isso parece -Se voltou para eles da janela-. No momento, 
vou converter esta estalagem em meus quartis gerais. Voc me ter informado de qualquer novidade no caso. E isso quer dizer de tudo o que acontecer.
         Quando viu que os agentes o olhavam como se esperassem que lhes dissesse o que fazer, o duque acrescentou:
         -Estavam vocs a ponto de organizar uma busca, no  assim? Pois venha, fiquem em marcha.
         Digby e Whorsley abandonaram a sala fazendo reverncias.
         Baixaram a escada em silncio, mas assim que entraram no botequim, os dois comearam a lanar improprios. 
         -Ouviste-o? -perguntou Whorsley incrdulo-. Daremos ao Maitland algo que nos pea.
         Digby estava furioso.
         -Uma forma segura de sair da Inglaterra! Um resgate! Mas  que vo recompensar a esse porco assassino? No, se eu posso fazer algo para evit-lo.
         Whorsley sacudiu a cabea.
         -Ns no possamos fazer nada. J conhece as ordens. No possamos fazer nada sem consultar com o duque. E essas ordens vinham diretamente do primeiro-ministro.
         -H maneiras de salt-las ordens.
         Estavam andando para um grupo de soldados a cavalo que acabavam de desmontar, mas para ouvir essas palavras, Whorsley se parou em seco.
         -Tem algum plano?
         Digby deixou escapar um suspiro impaciente.
         - obvio que no tenho nenhum plano -Se voltou para seu companheiro-. Quo nico digo  que no poderemos consultar com o duque se ele no estiver ali. 
E ningum sabe o que pode acontecer quando nos cruzarmos com o Maitland. Os soldados ficaram nervosos. ouviram-se disparos. Como saber quem disparou primeiro? E 
se resgatarmos ilesa  filha do duque, quem vai se preocupar com o resto?
         -E se no sair ilesa?
         -Acusaremos ao Maitland. De qualquer maneira, ningum ia escutar o que ele tivesse que dizer.
         Digby se sentia humilhado pelo duque e por seus filhos, e descarregou sua clera com os soldados que retornavam de uma caa sem resultados. "Maitland! -pensou-. 
Sempre Maitland!" O duque e seus filhos certamente lhe estavam pondo verde ali acima. Estariam lhe criticando. Porque parecia que admiravam ao Maitland, embora a 
contra gosto, e ele mesmo no era mais que algo insignificante para eles.
         Bem, isso  o que lhe havia passado por viver  sombra do Richard Maitland. Ele tinha demonstrado ser o melhor. Maitland no tinha levado a servio nada 
mais que vergonha. Se tivessem feito a ele chefe de Estado Mais velha e lhe tivessem dado esse poder, Maitland teria sido relegado a algum insignificante colocado 
no que no poderia ter feito nenhum machuco a ningum.
         E agora todos estavam pendentes dele -o primeiro-ministro, o secretrio de estado, seus companheiros-, para ver como dirigia o assunto Maitland. Pois bem! 
Ele era muito mais que um simples brinquedo para o Maitland, e esse era o momento de demonstr-lo.
         
         
         Vamos, na sala privada do duque, a atmosfera estava grandemente mais relaxada. Caspar e Justin descansavam em umas poltronas e o duque estava de p junto 
 chamin fumando um puro. Justin tirou um puro de seu bolso, cortou-lhe a ponta e o acendeu com a vela que havia sobre a mesa. O duque o observou enquanto o acendia, 
mas manteve seus lbios fechados.
         Seus filhos, recordou-se a si mesmo, eram j pessoas mais velhas e no tinham que dar contas a ningum mais que a eles mesmos do que faziam com suas vidas. 
Dificilmente podia lhe objetar que fumasse quando ele mesmo estava desfrutando de um charuto. E havia coisas piores que fumar. Seus olhos se posaram no Caspar.
         Caspar era um homem arrumado, muito arrumado, com muito dinheiro e muitas mulheres de uma s esse noite era o problema do Caspar. Quando ia sentar a cabea? 
Mas por que se estava preocupando com essas pequenezes quando a vida de sua filha podia estar pendente de um fio?
         Justin exalou uma baforada de fumaa; seu olhar se cruzou com a de seu pai:
         -Dizia algo, pai?
         -No, mas abre as janelas -replicou o duque.
         -quanto mais penso no que h dito Digby, menos hostil me sinto frente a Maitland -disse Caspar estirando as pernas-. Me pergunto se se d conta de que cada 
vez que abre a boca quo nico faz  demonstrar sua inveja. A esse homem consomem o cimes profissionais.
         -E a vaidade -acrescentou Justin-. "No  um dos nossos." Sabe o que significa isso? Que Maitland no foi aos colgios adequados ou entrou nos clubes adequados.
         -Bom, mas foi  universidade adequada -disse Caspar-. ouvi que esteve um ano em Cambridge, mas a abandonou por ter sido desacreditado. Acaso foi a quando 
comeou sua corrupo.
         -Est bem que ao menos no esquea que  corrupto -disse o duque-. Eu no gosto nem Digby nem Whorsley muito mais que a ti, mas eles no estavam condenados 
por assassinato. E no seqestraram a sua irm -Fez uma pausa e em seguida continuou- De todos os modos, no creio que devamos deix-lo tudo em mos desses dois. 
No me parecem pessoas especialmente inteligentes, e nos estamos enfrentando a algum que parece muito perspicaz. escapou do Newgate de uma maneira brilhante. No 
parece que se assuste quando as coisas lhe saem mau, e utiliza as circunstncias a seu favor. No podia saber que Rosamund estaria ali, mas assim que se deu conta, 
utilizou-a para poder fugir.
         Olhou a seus dois filhos fixamente tratando de imprimir neles as palavras que ia dizer:
         -No devemos subestim-lo. Recordem que j matou uma vez. No tem nada que perder se arbusto de novo.
         -O que quer que faamos, pai? -perguntou Caspar em voz baixa.
         -Necessitamos mais informao. No tem sentido dizer que Maitland no tem amigos. Harper lhe  leal, no  assim? Tem que haver algum mais, algum que 
lhe possa proporcionar um esconderijo, e dinheiro para viver. Um amigo do passado; acaso um camarada de sua poca de soldado.
         -Acreditas que deveria comear por investigar aos companheiros do Servio de Segurana?
         -No. Esses tipos do governo so notoriamente reservados. Comea pelo Callie. Ainda no entendo o que  o que estavam fazendo ela e Rosamund no Newgate. 
Acaso ela possa nos dar alguma pista que dirija ao Maitland. Justin, quero que voc leve uma mensagem ao Twickenham. Se Maitland pretende pedir um resgate ou qualquer 
outra coisa, ter que me mandar uma mensagem ali. Avisa a meu secretrio de onde encontro e lhe diga que me faa chegar ao momento qualquer novidade.
         -Isso parece.
         -E necessitaremos mais homens.
         -Quantos?
         -Uma dzia sero suficientes.
         -Isso tampouco  problema -sorriu Justin-. A metade de nossos criados e capatazes so soldados de formao.
         -Espero que faam melhor de soldados que de criados ou capatazes -murmurou o duque-. Sim, sim, j sei. Os tempos eram duros e quo mnimo podamos fazer 
por eles era lhes dar um emprego quando voltaram da guerra.
         O duque acompanhou a seus filhos at a porta.
         -Rosamund est a salvo, pai.  a carta de triunfo do Maitland. Ele no deixar que lhe acontea nada.
         -Sei, sei -disse o duque.
         Mas assim que ficou a ss, comeou a duvidar do que acreditava saber.
         
         
         O duque estava no certo a respeito de que Callie lhes daria alguma pista sobre o Maitland, embora ao Caspar levou algum tempo conseguir a informao. Estava 
to zangada pelo que acreditava uma traio por parte do Maitland, que deixava pela metade todas as frases para dedicar-se a demolir ao personagem. E  obvio tambm 
se jogava a culpa a si mesmo. Teriam-na que ter seqestrado a ela, no ao Rosamund. Tudo tinha sido culpa dela.
         Se o que estava tentando era ganhar sua simpatia, pensou Caspar, ia se ficar muito decepcionada. Callie sempre tinha que ser o centro de ateno em todas 
partes; tanto que algumas das visitas no castelo Devere pensavam que era ela a filha do duque. Quando isso acontecia, Caspar se impacientava com ela, o mesmo que 
lhe estava passando agora. No lhe interessava absolutamente saber como se sentiu ela quando Maitland tomou ao Rosamund como refm. Queria saber coisas do Rosamund. 
Queria feitos. Queria saber como as tinha arrumado Maitland para escapar e os quais alm de seu guarda-costas podiam lhe haver ajudado. Ao final, conseguiu o que 
estava procurando. Um nome. Hugh Temperar.
         Era um nome conhecido para o Caspar. encontrou-se com o mais velha Temperar, j que essa era ento sua fila, em vrias recepes em Lisboa e em Madrid. 
Chamavam-lhe o soldado-sabio por causa de seu interesse pelas antiguidades romanas. Aps se cruzou com ele um par de vezes em Londres e tinham intercambiado algumas 
palavras amistosas; esse era todo o alcance de sua relao.
         -No sei se eram amigos ou s companheiros -disse Callie-. Tinham servido juntos com o Wellington, j sabe, na Espanha.
         -Muitos homens serviram com o Wellington -disse Caspar-. Mas isso no os faz amigos ou significa que se seguiram vendo depois da guerra.
         -Sou consciente disso. Mas a eles lhes viu juntos. Maitland foi hspede dos Temperar, aqui, em Londres, e em sua casa do Oxfordshire. E h algo mais. trata-se 
do guarda-costas do Maitland. Pois bem, foi o chofer de Temperar antes de converter-se em guarda-costas do Maitland, e tambm esteve na Espanha.
         -Quem te h dito todo isso?
         -No o recordo. Tem importncia? No se trata de um segredo. Devo hav-lo ouvido em um baile ou em alguma outra parte. De todas maneiras, agora j no so 
amigos. Temperar nem sequer esteve presente no julgamento do Maitland. OH, como eu gostaria de ter seguido o exemplo de Temperar!
         -Sim, isso mesmo desejamos todos ns agora -disse Caspar bruscamente-. me Diga onde posso encontrar a Temperar.
         A casa de Temperar estava em Berkeley Square, a solo uns minutos da casa do Callie. As ruas j estavam tranqilas, mas ainda havia tropas a cavalo patrulhando. 
Caspar estava preocupado. Tinha estado pensando em Temperar e no Maitland. No sabia apenas nada do Maitland, mas pelo que sabia de Temperar, no parecia uma pessoa 
que deixaria sozinho a um amigo ou a um oficial camarada nos momentos difceis.
         O que estaria maquinando Temperar? Era to importante que se manteve afastado do julgamento do Maitland? E como encaixava Harper em tudo isto? Era o intermedirio? 
O que outra coisa era?
         Sua esperana de poder perguntar a Temperar se evaporou assim que chegou a sua casa, ao inteirar-se de que no estava ali. A pessoa que lhe abriu a porta, 
o mordomo, disse-lhe que se partiu com sua mulher e seu filho pequeno ao Staines a visitar as runas de uma cidade romana.
         Caspar no necessitou um mapa para saber onde estava Staines em relao a Chelsea. Era um pequeno povoado  beira do Tmesis, no caminho ao Windsor.
         -E isso quando foi? -perguntou Caspar.
         -Faz dois dias, sua Senhoria.
         Fazia dois dias que Richard Maitland tinha sido declarado culpado de assassinato e condenado  forca, e Temperar oportunamente tinha abandonado a cidade.
         Caspar sorriu ao mordomo:
         -Senhor...?
         -Soames -acrescentou o mordomo sobressaltado.
         -por que no entramos, senhor Soames, e me conta tudo o que sabe?
         
        Captulo 7
         Richard havia dito que partiam dali, mas no tinham ido muito longe. Depois de carregar o bote com dois alforjes a arrebentar, disse a ela que subisse ao 
bote e logo remou at a outra borda do rio, onde se esconderam entre as empapadas folhas de um salgueiro choro. E a ficaram at que caiu a noite.
         Ela tinha considerado suas possibilidades de escapar metendo-se no rio, mas no gostou dos inconvenientes. Por uma parte, tinha as mos atadas, o qual o 
fazia impossvel poder nadar; por outra, lhe tinha dado o casaco do Harper, e agora estava seca e abrigada. No deixou correr a idia de escapar, mas preferiu tent-lo 
quando estivessem em um terreno seco.
         O voltava a estar de mau humor e logo que tinham intercambiado duas palavras em no sabia quanto tempo. Aquele silncio a estava comeando a pr nervosa.
         esclareceu-se garganta e disse:
         -A que estamos esperando?
         -Ao Harper,  obvio.
         Olhou ao outro lado do rio, mas no pde ver nada.
         -E como vai ou seja que estamos aqui?
         -Saber.
         tragou-se a seguinte pergunta.  obvio, Harper no seria capaz de v-los na escurido. Isso devia estar acordado com antecipao. O bote tinha estado ali 
por algum motivo. Se algo saa mau, poderiam escapar pelo rio com o bote.
         Esse homem no deixava escapar nada. Na cabana tinha eliminado qualquer rastro que pudesse denunciar sua presena ali. Seu sapato sujo e os botes de seu 
vestido estavam agora no bolso da jaqueta do Maitland. A bolsa da comida, com os restos e a roupa suja, descansava no fundo do rio atada a uma pedra. Rosamund estava 
comeando a dar-se conta do formidvel inimigo que podia ser Maitland.
         Mas, se era to formidvel, como se tinha metido em um assassinato to incompetente? Virtualmente o tinham pilhado in fraganti. E o tinham detido, encarcerado 
e sentenciado  forca. Assim, acaso no fora to formidvel depois de tudo.
         Embora, por outra parte, escapou-se do Newgate, no  assim? Por isso ela sabia, solo outro sentenciado tinha conseguido fugir-se do Newgate, e isso foi 
antes de que ela nascesse.
         -Coronel Maitland... 
         -Silncio!
         Ela apertou os lbios. Se ele no tinha vontades de falar, dava-lhe igual. Estava acostumada a passar o momento s com seus pensamentos. s vezes falava 
consigo mesma, inclusive quando estava rodeada de gente. E ningum se dava conta. A gente no falava com ela, falava-lhe com ela. No estavam interessados no que 
ela tinha que lhes dizer, a no ser solo no fato de que ela era a filha de um duque. Se tivesse sido um boneco mecnico, no se teriam dado conta da diferena.
         Assim, para entreter-se, s vezes jogava a um jogo. Com a imaginao convertia s pessoas que havia a suas redor em peas de xadrez, alguns aliados e outros 
inimigos, que tentavam control-la quando se aproximava de um final vitorioso.
          obvio, no se tratava de xadrez, mas isso desenvolvia seu sentido da fantasia. Se as peas de xadrez pudessem falar, quem sabe o que diriam? Tm que ir 
daqui para l, arrastando-se adiante e atrs no mesmo tabuleiro de sempre, fazendo sempre os mesmos movimentos, um dia atrs de outro. O que aconteceria uma delas 
fora rebelde e pusesse em marcha uma luta pela liberdade?
         Com o Maitland no se tratava de um jogo. Ele realmente sabia como tinha que atuar. Deu marcha atrs e rememorou o que havia passado no Newgate, no ptio 
da priso.
         Os carcereiros, os prisioneiros e os visitantes tinham que ser pees, e estariam amontoados no centro do tabuleiro. Mas no foram estar a por muito tempo. 
Os pees sempre so os primeiros em ser sacrificados.
         Os jogadores de verdade se estavam movendo para suas posies.
         Maitland. Jogou com a idia de fazer dele o rei negro, mas no funcionou. No xadrez o rei estava sempre longe e era passivo, escondendo-se sempre detrs 
de um peo, do bispo ou da rainha. Maitland era uma das peas de ataque. Tinha que ser a pea mais capitalista do tabuleiro, e essa pea era a rainha. Harper no 
podia ser nada mais que sua mo direita, sua torre.
         Ela era o prmio que desejava alcanar Maitland, o rei branco. Uma vez que a tivesse conseguido, acabaria-se o jogo. Poderia ter ganho. supunha-se que sua 
rainha devia proteg-la a ela, mas nesta partida sua rainha -e quem era mais agressiva que Callie?- ainda no tinha decidido em que bando estava, e a sua torre, 
o senhor Proudie, tinham-na tirado de no meio no gambito de sada. Quo nico ficava em p entre ela e Maitland eram os pees.
         Os carcereiros se assustaram. "escapou-se um prisioneiro! Fechem a priso!" Os pees foram daqui para l. E ento Harper se moveu. "por ali!", gritou. "escapa." 
E os pees desapareceram do tabuleiro.
         Onde estava seu bispo? E seu cavalo? Onde estava Charles? Estava em uma esquina, com as mos em alto. E quando por fim a rainha se recuperava, j era muito 
tarde. Harper a tinha inutilizado.
         J no ficava nada entre o Maitland e ela. Cheque mate.
         Ento soou um disparo, e ela caiu no tabuleiro.
         havia-se equivocado na seqncia. No tinham jogado exatamente dessa maneira. Havia algo que estava fora de stio. O que era? Onde? Quando? Estava j a 
ponto de descobri-lo.
         -Maldita seja!
         O bote se balanava e ela se balanava dentro do bote.
         -Maldita seja!
         Olhou para o contorno sombreado do Maitland e a seguir olhou para o outro lado do rio. No se podia ver ningum, mas sim a luz de suas lanternas cintilando 
e movendo-se por entre as moitas do caminho que ia  cabana. No era Harper, pois nesse caso s se veria uma lanterna. Deviam ser quem vinha a resgat-la, e entre 
eles acaso estivessem seu pai e seus irmos. Ela encheu os pulmes com a inteno de gritar, mas ficou gelada quando notou o frio canho da pistola apoiado em sua 
cabea.
         -Grita e esse ser o ltimo flego que exale -A mo que Richard tinha livre se fechou ao redor de sua garganta-. No conseguir nada. Nada, entende-o? No 
podem chegar at aqui. No tm botes. Solo tenho que te atirar ao rio e te afogar em poucos minutos.  isso o que quer?
         Seus olhos se encheram de lgrimas.
         -No -A mo que lhe rodeava a garganta afrouxou a presso, e ela deixou de sentir que se afogava-. Mas voc no entende o que estar sofrendo meu pai.
         No era o momento para lhe desobedecer. O medo e a frustrao estavam fazendo racho nele, e aquilo era muito mais brutal do que podia supor.
         -No me importa! No  capaz de te colocar na cabea que quo nico trato de fazer  sobreviver? Se tiver que escolher entre voc ou eu, sempre me escolherei 
. No o esquea!
         Empurrou-a para o fundo do bote.
         -te agache!
         Ela se tombou de barriga para baixo, com a cara apertada contra uma das alforjes. J no chorava. Solo podia pensar no muito que odiava a aquele homem.
         
         
         Richard no tinha uma opinio to alta de sua habilidade como a que tinha Rosamund. Assim que ela se tombou no fundo do bote, comeou a amaldioar-se a 
si mesmo em silencio por sua absoluta incompetncia. Seu primeiro engano tinha sido seqestrar  filha de um duque. Seu segundo engano, haver-se deixado convencer 
pelo Harper para que ficasse com ela durante algum tempo. E seu terceiro engano podia atribuir-lhe a seus pais. Eles o tinham educado para tratar s mulheres com 
deferncia e respeito por muito que lhe provocassem. Por isso agora se sentia culpado pela maneira em que se estava comportando com ela.
         Mas por todos os demnios!, essa mulher no era uma tmida mocinha. Podia cuidar perfeitamente dela mesma. O que deveriam ter feito era montar em dois dos 
fogosos cavalos do duque, lanar-se ao galope at encontrar-se com o Hugh e deixar que lady Rosamund Devere as arrumasse sozinha. E quanto aos hipotticos salteadores 
de caminhos que tinha mencionado Harper, tivesse preferido no estar em sua pele em caso de que se tropeassem com o Rosamund.
         Quando se deu conta de que se estava rendo, deixou escapar um juramento em voz baixa. Esta mulher lhe tinha transtornado o crebro! No deveria estar pensando 
nela, deveria concentrar-se na maneira de pr a mais velha distancia possvel entre ele e seus perseguidores. As coisas no podiam ter ido pior. Se soubesse ao menos 
onde estava Harper; Hugh deveria estar temendo o pior; e ele no estava o suficientemente forte para remar muito.
         Cada vez que agarrava os remos podia sentir a dor na parte esquerda de seu peito. Poderia chegar a sangrar-se at morrer. E como estava a ponto de sofrer 
um colapso e j no podia remar, maldita seja!, deixou que a corrente os arrastasse na direo contrria a que tinham que ir.
         Tinha que desfazer-se daquela moa, mas devia faz-lo de maneira que tivesse o tempo necessrio para escapar. Tinha que cur-la ferida; necessitava um cavalo; 
mas o que necessitava antes que nada era descansar.
         
         
         Amarrou o bote a um mole para barcaas abandonado e percorreram caminhando a pouca distncia que lhes separava do povoado do Kennington. Atravs do rio, 
as luzes do povoado cintilavam ao longe. Kennington estava em uma zona rural, e tinha uma rua principal e uma hospedaria, The Black Prince.
         Olhou-a de maneira severo antes de que entrassem na hospedaria e lhe colocou bem o chapu, por alguma boa razo que ela no pde entender. Ainda levava 
o cabelo recolhido na nuca, com uma trana que agora cobria o casaco do Harper.
         foram fazer se passar por irmos, disse-lhe Maitland; dois advogados que tinham chegado  zona para visitar uns clientes. Isso se algum lhes perguntava. 
Mas que no ocorresse a ela abrir a boca. O seria o nico em responder, e para matizar o que queria lhe dizer, colocou-lhe a pistola contra as costelas.
         Ningum perguntou nada. No eram muito curiosos naquele povoado. Ningum se fixou nela nem notou a chamada de desespero em seu olhar, ou as mensagens que 
tratava de lhes transmitir em silncio. Ningum se deu conta de que no era um homem jovem, a no ser uma mulher vestida de homem. E ningum se deu conta de que, 
debaixo das alforjes que levava de maneira descuidada sobre o ombro, Maitland sujeitava uma pistola. O estalajadeiro, um tipo inspido e desalinhado, solo sorriu 
quando Maitland colocou um soberano sobre o mostrador e pediu que lhes levassem a habitao uns sanduches, caf e gua quente. O estalajadeiro nem sequer perguntou 
como tinham chegado at ali, mas sim deu por sentado que tinham chegado a cavalo e que tinham deixado os cavalos no estbulo para carros de aluguel.
         Apesar de que tinha viajado o bastante, Rosamund nunca se alojou em um hotel. Seu pai no queria nem ouvir falar disso. O Clarendon, a residncia de Sua 
Excelncia em Londres, no contava, porque as habitaes do duque estavam na planta baixa e tinham uma entrada prpria. No permitisse Deus que sua filha pudesse 
mesclar-se com algum dos que se alojavam no hotel! E em suas diversas viagens sempre havia amigos ou conhecidos do duque que a estavam esperando para lhe oferecer 
suas casas e preocupar-se com sua acomodao. Aborrecia-lhe muito tanta moderao, porque sempre estava rodeada de gente mais velha, e Callie lhe tinha esquentado 
a imaginao com histrias do Pelican e do The Castle, hospedarias de primeira classe no caminho ao Bath onde os costumes eram mais relaxados e a gente podia sentar-se 
a comer com perfeitos estranhos e fazer-se amigos no que demoravam para lhes servir os primeiros pratos.
         Um olhar rpido lhe deu a entender que The Black Prince no era o tipo de hospedaria que Callie tinha em mente. Os tetos eram baixos, os ladrilhos do estou 
acostumado a estavam afundadas e logo que havia stio suficiente na escada para que duas pessoas passassem juntas. Quanto  clientela, os poucos que viu ir e vir 
pareciam ladres de cavalos e falavam em um jargo que com muita dificuldade era capaz de entender.
         O estalajadeiro fez soar uma campainha de mo. Como ningum respondeu, gritou:
         -Becky! -E voltou a fazer soar a campainha.
         Ao cabo de um momento saiu da trastienda uma moa, com uma touca na cabea, que se secava as mos em um avental e balbuciava pelo baixo. Quando viu o Maitland 
e ao Rosamund ficou paralisada e seus olhos se abriram como pratos.
         O corao do Rosamund comeou a pulsar com fora. "Isso", pensou. Salva ao fim! Possivelmente Becky a tinha reconhecido, ou pode que tivesse reconhecido 
ao Maitland. Sim, tinha que ser Maitland, porque Becky no podia apartar os olhos dele.
         O estalajadeiro disse algo, mas Rosamund no o ouviu. Estava esperando a que a criada comeasse a gritar; tentava antecipar-se ao que ia passar tratando 
de imaginar o que  o que ia fazer a garonete. ia tornar se a correr? Acaso se deprimiria? equilibraria-se sobre o Maitland? Intercambiou um olhar rpido com ele.
         por que estava sorrindo?
         Becky no gritou. Pestanejou e olhou para outro lado; sorriu com afetao, tomou uma vela e lhes disse que a acompanhassem.
         Estavam flertando! Maitland e a criada estavam flertando! Maitland, que no podia abrir a boca sem lanar uma ameaa, estava intercambiando cumpridos e 
adulaes com a criada como se ele fora um dos cavalheiros das revistas de moda e Becky uma senhora de alta linhagem.
         Naturalmente, para ela no havia adulaes. Solo o canho de sua pistola, que agora estava apoiado contra seus rins enquanto subiam pela escada.
         Becky entrou a primeira na habitao e acendeu o candelabro que havia no suporte da chamin com a vela que levava na mo. A seguir aproximou a chama aos 
ramos que havia na chamin.
         -Esta  nossa melhor habitao -disse com entusiasmo. Passou uma mo por cima da nica cama-. As camas esto podas. E no encontraro percevejos no colcho.
         "Percevejos? Percevejos no colcho?", pensou Rosamund horrorizada. Nunca tinha ouvido nada parecido! Mas no importava. Solo havia uma cama, assim Maitland 
podia ficar com ela. Ela as arrumaria perfeitamente no cho.
         -E a cmoda, com todo o..., bom, necessrio dentro -disse Becky rendo bobamente enquanto abria a porta de um armrio impecvel.
         -Magnfico -respondeu Maitland com entusiasmo e obsequiando  criada com uma quente sorriso.
         Logo que podia reconhec-lo. Era muito arrumado quando sorria. E agora comeava a entender por que a criada estava to excitada. Graas a Deus ela tinha 
suficiente sentido comum como para no deixar-se impressionar por esse sorriso descarado ou por esses olhos azuis de menino travesso que se enrugavam pelos extremos. 
E tambm era igual de imune a seus torneados ombros e a seu corpo musculoso. Seus prprios irmos podiam comparar-se o e alm disso eram bastante mais altos.
         "Se Caspar entrasse agora nesta habitao, Becky nem se fixaria no Maitland", pensou Rosamund.
         Apesar de tudo, esse vilo tinha algo. Presena. Isso foi o que pensou a primeira vez que ps os olhos nele. Presena. Virilidade. Poder. Era um homem do 
que se podia esperar todo isso. E agora, por isso se via, tambm sabia flertar.
         "Repugnante!"
         Deu um coice quando lhe ps um brao sobre os ombros e lhe deu um bom aperto.
         -Meu irmo tem uma inflamao na garganta e est afnico, assim que eu tenho que responder por ele -disse-. Somos advogados e estamos levando a cabo uma 
delicada misso... temo-me que no posso lhe explicar nada mais.
         Maitland colocou uma moeda na mo da criada.
         -Obrigado por seus servios -disse.
         -OH -suspirou Becky-. OH -voltou a suspirar quando Maitland fez uma exagerada reverncia e lhe abriu a porta.
         -O botequim estar aberto ainda uma hora mais. Se desejarem algo de mim, algo, podem-me encontrar ali -disse Becky lhe olhando com encantamento.
         -Desgraadamente meu irmo e eu temos uma montanha de trabalho que fazer antes de nos encontrar com nosso cliente amanh, mas se pode nos trazer os sanduches 
que pedi, o caf e a gua quente, estarei-lhe muito agradecido -sussurrou Maitland.
         -Agora mesmo o trago -respondeu Becky.
         Maitland fechou a porta com chave. Olhou ao Rosamund e seu sorriso desapareceu.
         -por que pe m cara? -perguntou-lhe.
         -M cara! -replicou ela elevando o queixo-. No hei posto m cara. De fato, nunca me tinha divertido tanto em toda minha vida.
         Ele inclinou a cabea e a olhou de maneira zombadora.
         -Lhe subiram as fumaas aristocrticas porque a criada no esteve todo o momento te fazendo lisonjas? Como podia saber, depois de tudo, que  a filha de 
um duque?
         No se tinha informado de nada. No era o comportamento do Becky o que a tinha incomodado, a no ser o dele. Mas como no queria reconhec-lo, disse:
         -Asseguro-te que nunca me importou um cominho o fato de ser a filha de um duque.
         Maitland soltou uma gargalhada.
         -Muitos pode que lhe criam, mas no precisamente eu. Lembro-me perfeitamente de ti, sabe?, em Lisboa. Ali estive em um baile que dava voc. Estava radiante 
e encantadora, mas Por Deus que no podia te rebaixar a falar com as outras damas. Estava ali como se fosse uma esttua de mrmore.
         Desejou defender-se da acusao, lhe dizer que no estava fria e distante, a no ser cansada de que todo mundo a estivesse admirando. Mas sabendo que ele 
no a ia acreditar, simplesmente lhe deu as costas, jogou o chapu sobre a cama e se tirou o casaco do Harper. Logo foi se sentar diante da chamin.
         voltou-se para ele.
         -Coronel Maitland -comeou a dizer, mas se calou imediatamente. Maitland apertava os dentes e tinha os olhos fechados. tirou-se o chapu, entretanto, no 
se tinha movido da porta. comeava-se a desabar e seu rosto estava plido. Ela se alarmou por essa mudana repentina.
         -O que te passa?-chiou.
         -Sente-se -Ele abriu os olhos e lhe assinalou a cama.
         Ela fez o que lhe dizia, mas sem apartar a vista dele. Parecia que estava a ponto de deprimir-se.
         Colocou as alforjes na mesa e deixou a pistola baixo elas, ao alcance da mo. Quando se desprendeu do casaco e logo depois da jaqueta, ela o olhou fixamente. 
O peitilho de sua camiseta estava manchada de sangre seca. E quando lentamente, e com visvel dor, conseguiu tir-la camiseta por cima da cabea e a deixou cair 
ao cho, ela deu um grito afogado. Tinha uma atadura branca enrolada ao redor do peito que estava empapada em sangre at quase por cima de seu ombro esquerdo.
         -Quem te tem feito isso?
         Ele no levantou a vista, mas sim abriu uma das alforjes e foi tirando dela uma srie de artefatos que ia colocando sobre a mesa cuidadosamente ordenados: 
uma atadura nova e poda, tesouras, um bote de algo e um frasco prateado.
         -Quem imagina que me fez isso? O mesmo que matou ao Lucy Rider.
         lhe levou um momento relacionar as duas idias. estava-se refiriendo de noite em que assassinaram a seu amante; a noite em que ele afirmava que o assassino 
tambm lhe tinha apunhalado a ele.
         -Pensava que essa ferida era superficial -disse ela.
         Maitland a olhou fixamente aos olhos.
         -No  uma ferida mortal, se for a isso ao que te refere. No estou s portas da morte. O que passa  que a maldita ferida no acaba de curar-se.
         O fiscal, por isso ela recordava, tinha afirmado que, depois de matar a seu amante, Maitland se tinha produzido ele mesmo essa ferida para poder defender 
o libi de que uma pessoa desconhecida tinha tentado mat-los aos dois. No teria podido escapulir-se sem mais da habitao da garota, disse o fiscal, porque muita 
gente lhe tinha visto entrar ali. Essa era a razo pela que tinha que aparentar que algum lhe tinha atacado tambm a ele. E quanto a seus supostos atacantes -um 
menino e um homem amadurecido- por que no os tinha visto ningum sair do hotel?
         Tinha matado a seu amante em um arrebatamento de cimes, isso havia dito o fiscal.
         Maitland ciumento? Maitland matando a uma mulher em um arrebatamento de paixo? No podia imaginar-lhe Dava-lhe a impresso de que ao chefe de Estado Mais 
velha do Servio de Segurana no lhe interessavam muito as mulheres.
         E recordou algo mais. Maitland poderia ter evitado a sentena de morte se tivesse declarado que Lucy lhe tinha atacado primeiro. Mas no o fez. Nenhuma 
s vez havia mudado um pice de sua histria: havia um moo lhe esperando na porta da habitao do Lucy, um menino que entrou diante dele e lhe conduziu at a cama. 
Lucy j estava morta. Ento outra pessoa o apunhalou.
         -Assassinou voc ao Lucy Rider? -perguntou ela em voz baixa.
         -No, mas no espero que me cria -respondeu ele.
         Os olhos dela ficaram fixos lhe agentando o olhar.
         -Assassinou voc ao Lucy Rider? -voltou a dizer com o mesmo tom suave de voz.
         Ele a olhou como se fosse gritar lhe, mas se passou os dedos pelo cabelo -um gesto que lhe estava comeando a resultar familiar ao Rosamund- e lhe respondeu 
acalmado e em voz baixa:
         -No. No o fiz.
         No sabia por que, mas lhe acreditava. Apenas o conhecia. Mas sabia como se sentia, e se sentia como se lhe tivesse cansado uma atadura negra de diante 
dos olhos.
         Rosamund fez uma careta de dor quando ele tirou o chapu o peito e orvalhou a ferida com o que fora que continha o frasco prateado. O rosto do Richard se 
encolheu em uma careta de dor. aproximou-se o frasco aos lbios e lhe deu um gole.  obvio, era brandy. Pde cheirar a fragrncia do bagao fermentado. Ao cabo de 
um momento, ele respirou profundamente e deixou o frasco na mesa. Fez um novelo com uma parte de atadura, orvalhou-o de brandy e o colocou por debaixo da vendagem 
para cobrir a ferida.
         -No pensa te trocar a vendagem? -perguntou ela-. Est frouxo e empapado de sangue. Dessa maneira jamais se cicatrizar a ferida.
         -E o que  o que deveria fazer? No posso voltar a me enfaixar eu sozinho.
         Ela se levantou da cama.
         -Eu o farei.
         Quando ele se aproximou de pela pistola, ela se sentou de novo.
         -De acordo, te sangre at morrer -disse ela com aborrecimento-. Francamente, estou surpreendida de que tenha agentado tanto. No te preocupaste que sua 
ferida aberta. tiveste que carregar comigo at sair do Newgate e logo tiveste que remar para nos trazer at aqui nesse bote furado. No tem sentido comum? Com uma 
ferida como essa deveria fazer o mnimo esforo possvel.
         O lhe roou o nariz com o dedo indicador e disse:
         -No podia te pedir que remasse voc porque certamente me haveria rompido a cabea com um remo.
         -Falo a srio! -Ela se estava pondo furiosa por momentos. Parecia que ele pensava que era uma simplria-. O que teria que ter feito desde o comeo era procurar 
um stio para te esconder perto do Newgate, onde pudesse descansar durante uns dias enquanto te curava a ferida. E esse andar dando voltas de um lado a outro do 
pas no levou a nenhuma parte. Estamos virtualmente no mesmo stio onde comeamos.
         -Isso  o que passa s vezes quando a gente est fugindo. E no estivemos dando voltas exatamente de uma ponta  outra do pas. Chelsea est aos subrbios 
de Londres. Direi-te uma coisa, Rosamund, a prxima vez que me escape de uma priso deixarei que voc faa os planos.
         Ela no compartilhava seu senso de humor.
         -Supondo que estar pensando em alugar cavalos e cavalgar longe daqui amanh pela manh? Maravilhoso. Quase no posso esperar a manh. Como de longe te 
parece que poderemos chegar antes de que a ferida comece a sangrar de novo?
         Ele ficou calado olhando-a aos olhos. Ao cabo de um momento lhe disse:
         -Vem aqui.
         Quando ela se aproximou da mesa, Maitland colocou a pistola longe do alcance de sua mo. Logo tomou as tesouras para cortar a vendagem e as colocou tambm 
onde ela no as pudesse alcanar.
         Aproximou-lhe uma atadura limpa e lhe disse:
         -Venha, faz-o.
         -Que h no bote? -perguntou ela dirigindo o olhar  mesa.
         -Ah... basilicn em p.
         -Bom, pelo menos vieste preparado.
         O a observou enquanto tirava a tampa do bote e polvilhava generosamente o contedo na atadura nova.
         -Como sabe tanto de enfaixar feridas? -perguntou Maitland.
         A nica prtica em medicina que tinha a tinha obtido nos estbulos de seu pai. Da mesma maneira que construir carruagens era a vocao de seu pai, a dela 
era cuidar dos cavalos feridos.
         -E bem? -insistiu ele.
         -J sabe como so as coisas, coronel Maitland. supe-se que ns, as senhoras dos grandes imveis, devemos ser capazes de cuidar de nossos serventes -disse 
ela ironicamente.
         Ele se mordeu os lbios, outro hbito que tambm estava comeando a lhe ser familiar.
         Rosamund sorriu e se disps a colocar a atadura nova. Quando viu a ferida franziu o sobrecenho.
         -Tem mau aspecto -foi tudo o que disse.
         Mas era algo pior que mau aspecto. Borde-os da ferida estavam separados e supuravam sangue. Embora o brandy tinha servido para algo; tinha limpo o sangue 
seca. Ela deixou na mesa a atadura com o p de basilicn e lhe tirou das mos a atadura empapada em brandy para acabar o trabalho. Ato seguido agachou a cabea e 
farejou a ferida.
         -Estamos de sorte -comentou-. Parece que est bastante poda. Se te tombar a polvilharei com basilicn.
         Richard ficou olhando-a surpreso.
         -te tombe -ordenou ela.
         Os olhos dele se enrugaram pelos extremos.
         -E assim poder me dar na cabea com o bote, no  assim? Nem o pense. te dedique solo a enfaixar a ferida, Rosamund.
         Ela deixou escapar um suspiro por entre os dentes, mas foi o nico signo com o que mostrou seu desacordo. Colocou um curativo sobre a ferida, disse-lhe 
que o sujeitasse e a seguir tomou uma tira larga de atadura para que o curativo se mantivera em seu stio. Solo nesse momento foi consciente da situao em que se 
encontravam. De repente se deu conta de que ele estava mdio nu e ela teria que lhe rodear o torso com seus braos. 
         por que lhe acelerava de repente a respirao?
         -Estamos tentando evitar a hemorragia, coronel Maitland -disse ela zangada-. Apura com a palma da mo o curativo contra a ferida. J sei que di. Mas tambm 
te curar.
         -Sim, senhora -respondeu ele docilmente.
         Ela franziu a frente enquanto considerava os passos a seguir no resto da operao. No s teria que rodear o corpo dele com seus braos, mas sim tambm 
teria que apertar-se contra ele.
         -Parece-me que seria mais fcil se voc vai dando voltas em redondo enquanto eu mantenho a vendagem tensa -disse por fim.
         -Rosamund, no vou deixar que coloque a minhas costas.
         Seus olhos procuraram os dele. No estava sorrindo, mas pensou que era bastante positivo que houvesse um matiz de brincadeira em suas palavras.
         Era mortificante. Tinha vinte e seis anos e se estava sentindo como se fora uma adolescente assustadia.
         Baixando os olhos, rodeou com seus braos o torso dele e comeou a lutar com a atadura. Quando os peitos dela se apertaram contra seu trax, ele se estremeceu.
         -Sinto-o -disse ela-, mas a vendagem tem que estar bem escuro.
         Ela seguiu adiante com a operao. Esta vez ele no se estremeceu, mas sua respirao se fez audvel.
         -Agenta um pouco -disse ela, e atirou forte das duas pontas da atadura. Depois as atou juntas em um n.
         Como viu que ele seguia em silncio, ela o interrogou com o olhar. De novo a estava olhando daquela maneira estranha, como se algum lhe tivesse apunhalado 
pelas costas.
         -No pretendia te fazer danifico -murmurou ela.
         Ele no respondeu. ficou de p como estava, olhando-a fixamente. Aquele silncio lhe fez eterno.
         -Voc... -disse ele.
         Ela no podia apartar seus olhos dele.
         -Eu...? -acrescentou ela.
         aproximaram-se mais. Suas mos agarraram os braos dela. Ela roou com uma mo seu peito nu. Sua pele era quente. Podia sentir o batimento do corao acelerado 
do corao do Richard. Ou se tratava de seu prprio corao? Pareceu-lhe que apoiar a cara nesse momento sobre seu peito seria a coisa mais natural do mundo.
         Quando de repente as mos do Maitland se apertaram ao redor de seus braos e a separaram dele bruscamente, ela gritou.
         -Por todos os diabos! -exclamou ele- No v que est jogando com fogo? Ningum te h dito que no deve flertar com um homem se no estar preparada para 
as conseqncias? -Seus olhos se entrecerraron de uma maneira desagradvel- Ou acaso pensaste que podia me seduzir para que te deixe partir?
         A bruma de sua mente se dissipou imediatamente. Voltava a ser o mesmo vilo de antes, com suas escuras sobrancelhas franzidas e seus olhos transpassando-a.
         Ela apoiou as mos nos quadris.
         -Essa  a maneira que tem de me agradecer que tenha tentado te ajudar? E est equivocado, coronel Maitland. Antes me passaria pela cabea me fugir com um 
de meus criados que te seduzir. esqueceste quem sou?
         Esse era o problema. Tinha esquecido quem era ela. Algo estava passando entre eles dois. Algo que ele no podia permitir que acontecesse.
         -Vete para l e manten afastada de mim! -disse assinalando a cama.
         Ela podia transpass-lo com o olhar to bem como ele.
         -Com muito gosto -disse secamente-. E por favor deixa de me chamar Rosamund. Por isso a ti respeita sou lady Rosamund, no o esquea.
         E dito isto se deixou cair na cama.
         
         
         Ao cabo de um momento chegaram os sanduches, o caf e a gua quente para lavar-se. Richard solo se encharcou as mos e a cara. Rosamund foi mais escrupulosa 
e se tomou seu tempo no lavabo -com a porta entreabierta para ter um pouco de claridade- e se esfregou com a esponja de banho da cabea aos ps.
         Quando chegou o momento de conced-las poucas horas de sonho que se prometeu a si mesmo, Richard se sentiu aliviado ao comprovar que no havia nada na habitao 
com o que ela pudesse lhe atacar. Bom, essa no era exatamente a verdade, mas isso significava que ela teria tido que dormir de p ou acomodada no cho. Esteve tentado, 
seriamente tentado, de encerr-la no lavabo, mas fazia frio e no havia ali nem fogo nem velas. E lhe parecia muito injusto depois de que lhe tivesse enfaixado a 
ferida. No havia nada com o que pudesse lhe atacar mais que com ela mesma. 
         Quando a empurrou para fazer um stio na cama, ela no se alterou. No disse nenhuma palavra. De fato, no tinham voltado a dirigi-la palavra desde que 
lhe ordenou que se mantivera afastada, e isso lhe parecia fantstico. No  que ela se submeteu ao medo, no a lady Rosamund Devere que o tinha colocado a ele em 
seu stio sublinhando -como se fizesse falta matiz-lo- que o tinha em menos estima que a um de seus criados. E como a verdadeira dama que era, atuava como se ele 
fora invisvel.
         Essa remarcada aristocracia, que durante um momento lhe irritava e ao momento seguinte fazia que a olhasse com admirao, estava tendo um efeito peculiar 
nele. sentia-se irritado porque no lhe obedecia; porque lhe obrigava a atuar como se fora um monstro; e sobre tudo, porque ela era muito inocente para seu prprio 
bem. Parecia no dar-se conta do poder que tinha sobre os homens. Quando ia vestida na moda, era radiante; vestida com roupa de homem, era irresistvel! Essas largas 
pernas torneadas! Esse formoso traseiro arredondado! Por no mencionar o tentador balano de seus quadris! No se dava conta do que estava fazendo com ele? Evidentemente, 
no.
         E o que era mais estranho ainda, as coisas que mais lhe irritavam dela eram quo mesmas admirava nela. Lhe tinha enfrentado porque era incapaz de manter 
uma atitude total, ao menos durante muito tempo. Possua uma reserva de coragem que nada parecia poder esgotar. E sua inocncia era to grande como seu desconhecimento 
da maldade dos homens. Tinha-lhe curado e enfaixado a ferida, quando o que teria que lhe haver interessado era deix-lo que se sangrasse at morrer. Como podia no 
sentir-se impressionado por ela?
         Ela tinha atirado por terra todos seus prejuzos a respeito das mulheres de sua classe. Bom, se no todos, ao menos a maioria. Possivelmente tinha sido 
educada para no ser nada mais que um ornamento, mas quando a punha em uma situao extrema, podia arrumar-lhe to bem como qualquer outra pessoa. Nesse sentido, 
no era muito diferente do Abbie Temperar ou Gwyneth Radley.
         Exceto em que ele nunca se havia sentido atrado pelo Abbie ou pelo Gwyneth.
         Desejo. tratava-se disso?
         O era capaz de dominar o desejo, mas o que lhe punha completamente fora de si era o estranho desejo que sentia cada vez que Rosamund lhe tratava com doura. 
Esses inteligentes olhos azuis com os que lhe olhava com resoluo parecia que estivessem vendo dentro de sua alma.
         "Assassinou voc ao Lucy Rider?"
         "No. No o fiz."
         Acreditava-lhe ela...? Pensou, desejou que fora assim, porque... porque...
         Por todos os infernos! Estava voltando a lhe acontecer de novo. Deveria estar recuperando o sonho atrasado em lugar de ficar melanclico por uma mulher 
a que fazia apenas um dia que conhecia. Por isso ele sabia das mulheres, poderia tratar-se perfeitamente de uma ardilosa farsante que sabe como jogar com as debilidades 
dos homens. No o pensava realmente, mas se havia equivocado em tantas outras ocasies... Confiar em uma mulher era o que lhe tinha levado a situao em que se encontrava. 
E estava a ponto de cair de novo na armadilha. Tinha muitas coisas que fazer, planos que levar a cabo, e o primeiro que havia em sua lista de prioridades era tirar-se 
de cima a essa molesta mocinha.
         Girou a cabea sobre o travesseiro e a observou. Estava to afastado dela que um carro de cavalos poderia passar entre os dois. Doam-lhe os braos pelo 
forado da postura. Doa-lhe o flanco. Tinha todo o corpo duro. Nunca tinha tido que dormir dessa maneira.
         Colocou a mo no bolso, tirou as chaves das algemas e as tirou. Rosamund suspirou e se voltou para ele. Estava dormida. Para comprov-lo, assim se disse 
a si mesmo, roou com um dedo os lbios dela. No houve resposta, mas sentiu o poder de uma carcia percorrendo todas suas costas.
         Agentando a respirao, retirou o edredom e ficou em p. Depois de acrescentar uns quantos partes de madeira ao fogo, aproximou-se da janela e olhou fora. 
Ao outro lado do rio cintilavam as luzes de Londres.
         Nesses momentos Hugh estaria preocupado por ele. Pelo menos podia confiar em que Hugh faria o que fora mais apropriado. Hugh no tentaria lhe encontrar, 
sabendo que isso poderia conduzir tambm a outros at ele. Tentaria agent-lo como se nada tivesse acontecido.
         S havia uma pessoa que soubesse aonde se dirigia, e essa era Harper.
         Certamente o cansao o estava pondo sensvel, pensou, mas no pde evitar sentir que Harper poderia estar em alguma parte passando-o mal por sua culpa. 
Tinha to poucos amigos que no podia permitir-se perder a um deles.
         Enquanto pensava nisso, recolheu seu casaco da cadeira, o colocou ao redor dos ombros e se tombou diante da porta. Se ela tentava sair da habitao, antes 
teria que passar por cima dele, e isso no poderia acontecer sem que ele se desse conta.
         esqueceu-se da pistola. Deixando escapar um suspiro, alcanou-a com o p e a tirou de debaixo da cama. A pistola estava no cho, bem longe de sua vista, 
sob o colcho. depois de recolh-la, ficou quieto, com o pensamento perdido, observando fixamente  moa que dormia.
         surpreendeu-se a si mesmo ao dar-se conta de que estava sorrindo. "Um pequeno punhado de amigos e uma molesta mocinha", pensou enconadamente, e se tornou 
para trs em seu improvisado leito. Agora se dava conta de quando tomou o caminho equivocado. Foi no momento em que decidiu seqestrar a lady Rosamund Devere.
         Ao momento se tranqilizou. Fechou os olhos e comeou a contar ovelhas. Ao cabo de um momento se incorporou para tirar um objeto do bolso do casaco que 
lhe estava perfurando o flanco. Extraiu-o e viu que se tratava do sapato de lady Rosamund. Esta mulher no ia tentar escapar?
         Esse pensamento esteve lhe dando voltas na cabea durante muito, muito tempo.
         
        Captulo 8
         Ao entrar em sua casa alugada aos subrbios do povoado, Hugh Temperar se tirou o casaco molhado, acendeu a vela que havia sobre a mesa do salo e subiu 
a escada em busca de sua mulher. Era muito tarde e os serventes estavam j deitados, mas sabia que Abbie estaria ainda acordada. Encontrou-a na habitao dos meninos. 
No lhe tinha ouvido chegar, e ele se tomou um tempo para contempl-la. Estava balanando a seu filho pequeno entre os braos enquanto lhe cantava uma desafinada 
cano de bero. Cantar no era o que melhor dava ao Abbie. Mas ao pequeno Thomas no parecia lhe importar. Olhava atentamente o rosto de sua me e tratava de seguir 
a melodia fazendo gorjeios.
         -Hugh -disse Abbie quando se aproximou dela-. Pensava que foste chegar muito mais logo.
         Ela colocou um dedo diante de seus lbios e a seguir assinalou para uma das portas que estava entreabierta. Hugh assentiu com a cabea para lhe dar a entender 
que tinha captado a mensagem. A bab do Thomas devia estar acordada e escutando tudo o que diziam.
         -Maldito Woodruff -comentou ele-. estive esperando-o durante horas, mas no apareceu. Alm disso, meu cavalo comeou a coxear e tive que voltar andando 
a mais velha parte do caminho.
         Abbie assentiu com a cabea. No se tratava do senhor Woodruff. Essa era a desculpa do Hugh para sair de casa a horas to inoportunas, um fictcio vendedor 
de moedas antigas.
         -Olhe, parece que ao Thomas lhe est obscurecendo o cabelo -disse ela.
         Hugh estudou com ateno o cabelo de seu filho. No tinha cabelo, solo uma suave pelusilla, e no havia nenhuma dvida de que seguia sendo to loiro como 
sua me.
         -Hummm -disse Hugh discretamente.
         - igualito a ti.
         Obviamente isto alegrava muito ao Abbie, de modo que Hugh no o discutiu. Para ele todos os meninos se pareciam. A diferena era que quando tomava a este 
menino entre seus braos, como fazia agora, sentia algo especial em seu interior.
         Uns minutos mais tarde, quando Thomas j se dormiu e descansava em seu camita, dirigiram-se nas pontas dos ps a seu dormitrio, que estava ao outro lado 
do salo.
         Assim que Hugh fechou a porta, Abbie disse:
         -Quer que te traga algo de beber? Um usque? Ou um caf?
         -No, j tomei bastante no Falcon esperando a que aparecesse nosso amigo.
         -O que h passado, Hugh? Algo saiu mau?
         -Tudo vai bem, Abbie. Escaparam do Newgate e ainda no lhes detiveram. Isso  tudo o que pude averiguar -Se tirou a jaqueta e se deixou cair em uma das 
poltronas que havia frente  chamin-. Mas a fuga no foi tal e como o tinham planejado.
         Abbie se sentou no tapete, diante da poltrona do Hugh, e o olhou com espera. No rosto de seu marido podia ver-se que estava extenuado, mas isso no era 
nenhuma surpresa. Tinha sado ao cair a tarde para o Falcon, que estava no prximo povoado do Latham, com cavalos de refresco para o Richard e Harper e uma bolsa 
repleta de dinheiro para que pudessem fugir a toda pressa. supunha-se que tinha que ter estado de volta fazia horas.
         -me conte o que h passado -lhe disse em voz baixa.
         Ele deixou escapar um fundo suspiro.
         -Estive-lhes esperando no Falcon, como tnhamos convencionado, mas como haviam passado vrias horas sem receber nenhum sinal deles, decidi cavalgar at 
a cidade para tentar descobrir o que tinha acontecido. Quando estava chegando aos subrbios da Chelsea me cruzei com um grupo de viajantes aos que a tropa tinha 
detido para interrog-los. Estavam procurando a nossos amigos, e -esboou um ligeiro sorriso- a uma pessoa a que tinham seqestrado.
         -Seqestrado! -interrompeu-lhe Abbie- Richard e Harper seqestraram a algum? A quem?
         -A lady Rosamund Devere.
         Ela ficou boquiaberta e a seguir lhe perguntou incrdula:
         -A filha do Romsey?
         -Essa mesma. Inteirei-me que tudo por um dos homens da tropa. Parece ser que hoje se produziu um motim em Londres e a turfa partia para o Newgate fazendo 
que fora impossvel mover-se pelas ruas. Supondo que Richard e Harper no puderam conseguir cavalos, assim tiveram que tomar uma deciso. Fazer-se com a carruagem 
de lady Rosamund. O problema, e quero dizer o problema real,  que lady Rosamund estava ainda dentro do carro.
         Quando viu a descorazonada expresso do Abbie, teve que reprimir uma gargalhada que estava a ponto de soltar. E realmente, pensou, a situao no era absolutamente 
divertida. Essa gargalhada era uma maneira de relaxar-se da tenso que tinha suportado durante as ltimas horas, preocupado por seus amigos. Mas ainda havia algo 
mais que contar.
         Olhou ao Abbie. Sabia que a maioria dos homens revistam esconder muitas coisas a suas mulheres pensando que elas no seriam capazes de suport-lo. Mas esses 
homens no conheciam o Abbie. Uma vez trabalhou com ela em uma investigao, e se hoje ainda estava com vida se devia a que Abbie tinha mantido em todo momento a 
cabea fria.
         -H algo mais, Abbie. Encontraram a carruagem abandonada ao outro lado da Chelsea. Harper era o que o conduzia, mas conseguiu escapar. No se sabe nada 
do Richard nem de lady Rosamund, mas os soldados esto rastreando toda a zona.
         -Acreditas que encontraro a cabana?
         - possvel.
         -OH, Hugh!, o que possamos fazer? -disse procurando ansiosamente uma resposta em seu rosto.
         -Atuaremos como se nada houvesse passado. Visitaremos as runas romanas e os lugares de interesse turstico, e dentro de vrios dias retornaremos  cidade 
-Quando ela negou com a cabea, ele se levantou de repente e se aproximou da janela. lhe dando as costas, acrescentou- Me faz to pouca graa como a ti, mas esse 
era o plano e devemos segui-lo.  o que queria Richard, no s por nossa segurana, mas tambm pela sua -O se deu a volta e a olhou  cara-. Richard insistiu em 
que se as coisas foram mal cada um teria que espabilarse como pudesse. E isso significa...
         -Sei o que significa. E sonha bastante desumano.
         Um msculo da bochecha do Hugh comeou a lhe palpitar.
         -No  desumano. Esse  o cdigo de vida entre os agentes segredos. E ainda no estamos fora de perigo. Sou a primeira pessoa de quem as autoridades suspeitaro 
que ajudou ao Richard. Supondo que isso o entende. Poderiam chegar aqui em qualquer momento. Pode que nos estejam vigiando enquanto falamos. No vou correr o risco 
de lhes conduzir at o Richard.
         -Sei, sei. E o sinto -disse encolhendo-se de ombros em um gesto de impotncia-. Mas eu gostaria de saber que h algo mais que possamos fazer.
         Hugh se aproximou dela e tomando-a pelos ombros a levantou at p-la em p.
         -me escute, Abbie. Richard era um agente de primeira. Esteve com os partisanos na Espanha. Tinham colocado preo a sua cabea. Mas sempre as arrumou para 
estar um passo por diante de seus inimigos. Ser capaz de consegui-lo tambm esta vez.
         -Isso  o que ele me disse uma vez referindo-se a ti -replicou ela esboando um sorriso.
         -No vo deter o Richard, prometo-lhe isso.
         -Mas aonde ir? O que vai fazer? E o que passar com o Harper?
         -No sei. Mas pode estar segura de que Richard o tinha j tudo planejado antes de fugir-se do Newgate. H uma casa, em alguma parte perto do Berkshire, 
que algum, no sei como, tinha-lhe deixado. Certamente ir ali.
         - a primeira vez que ouo falar disso! Pensei que tudo o que tinha eram as habitaes no Jermyn Street. Onde est essa casa que diz?
         -No sei com exatido. Richard nunca me falou que ela. Mas uma vez lhe ouvi comentar com seu advogado algo a respeito de uma casa. Quando se deu conta de 
que eu estava ali, fechou a porta de seu escritrio. Supondo que  ali aonde se dirigir, e Harper se reunir com assim que lhe seja possvel.
         -O que tem que to misterioso em uma casa no Berkshire como para no dizer nada aos amigos? E no  que precisamente tenha amigos de sobra. Solo Harper 
e voc.
         -Tambm esto Jason Radley e sua esposa.
         -No faz muito que Richard os conhece e, de todas formas, no esto agora na Frana passando uma segunda lua de mel?
         -Isso ouvi. Mas sei que Jason poderia retornar imediatamente se Richard lhe fizesse saber que est metido em problemas.
         -Ento, por que no o tem feito j? -perguntou Abbie zangada.
         -Porque Richard  um lobo solitrio -disse Hugh-. No faz amigos com facilidade. Nisso se parece comigo, Abbie -Estampou um rpido beijo nos lbios dela-. 
antes de que te conhecesse.
         No lhe devolveu um sorriso, como ele esperava, a no ser um calafrio.
         -Isso  o terrvel -disse ela-. O mesmo te poderia haver passado a ti, ou a qualquer. No te ocorre pensar que as autoridades tinham que saber que um homem 
do aspecto do Richard  incapaz de assassinar a uma pobre garota?
         -Deveriam hav-lo suposto, se a cena no tivesse estado to inteligentemente preparada para lhe incriminar e se o prprio Richard no fora seu pior inimigo. 
 uma pessoa distante, pouco comunicativa. conseguiu que os juizes da investigao tirassem de si quo pior tinham. Nem sequer foi capaz de falar conosco, e s o 
tem feito para nos pedir que no nos envolvssemos.
         -Bom, graas a Deus, seus amigos no lhe fizeram caso -disse ela com afetao-. Mas desejaria que pudssemos fazer algo mais.
         -Sei.
         -Est to sozinho.
         -Sei.
         -Sinto-o muito por seus pais. Viver to longe e no poder saber o que lhe est passando.
         -Sei -repetiu Hugh lhe pondo um brao sobre os ombros.
         -Se ao menos estivesse casado.
         -No creio que chegue a casar-se nunca.  muito solitrio, muito reservado.
         -Isso poderia trocar se encontrasse  mulher adequada.
         -Bom, para um pouco!  muito prematuro ficar a pensar nisso, no? Alm disso, agora j tem uma mulher da que preocupar-se.
         -OH, sim, e o tinha j tudo planejado, no  assim? -disse ela arqueando as sobrancelhas- E como encaixa lady Rosamund nesses planos? N?
         -Isso foi uma complicao que Richard no podia prever -comentou ele em tom zombador-. Mas no vai ser uma complicao durante muito tempo. Apostaria a 
que assim que se o presente a primeira oportunidade a deixar em alguma estalagem solitria e logo ele se esfumar no ar.
         -Se tomasse a palavra cada vez que faz uma aposta, agora j seria uma mulher rica -replicou ela zangada-. Do que te ri?
         -Richard e lady Rosamund. So como gua e azeite. O  o tpico republicano convencido ao que nada gostaria mais que ver abolida a aristocracia, e ela est 
a solo um passo de converter-se em princesa. Ela significa tudo o que Richard no suporta: privilgio, altivez...
         Hugh se interrompeu quando viu que Abbie estava negando com a cabea.
         -Voc no acreditas que ela seja altiva? -perguntou-lhe.
         -No. E tampouco penso que seja uma privilegiada.
         -Abbie,  a filha de um duque. Vivem em um mundo diferente ao do resto de ns.
         -A isso referia -Ela se tombou na cama e aplaudiu o colcho convidando ao Hugh a que a acompanhasse. Quando este se tombou a seu lado, acrescentou- No 
falei nunca com ela,  obvio, mas a vi nas estranhas recepes s que nos ho convidado e sempre me deu a impresso de ser... bom, uma pessoa solitria. Nunca lhe 
permitiu que se mescle com a gente corrente, solo com dignatarios e pessoas de sua classe social. Sempre tem que estar sorridente, tem que ser sempre amvel, mas 
s vezes lhe v algo no olhar... v, no sei como explic-lo... mas  como se estivesse prisioneira e toda a gente que h a seu redor fossem seus carcereiros, no 
seus amigos.
         Hugh comeou a rir, mas se deteve quando viu a expresso do Abbie.
         -Bom, supondo que tudo  possvel -disse.
         -Voc  o que sempre me est dizendo que sou boa julgando o carter das pessoas.
         -No. O que sempre te estou dizendo  que  muito rpida em pensar o melhor a respeito da gente que conhece. E se no tivesse sido assim, no poderamos 
nos haver casado. E eu ainda seguiria sendo aquele lobo solitrio.
         Ela se lanou ao ataque.
         -Mas quem sabia que foi um lobo solitrio? Eu no! No quando tinha a todas aquelas mulheres tratando de te jogar a ceva, uma ceva no que no demorava para 
picar, devo acrescentar.
         -Abbie, essas so histrias passadas!
         -Somente o tirei reluzir para te fazer uma observao. Voc diz que Richard e lady Rosamund so como gua e azeite. E eu te digo que os dois so iguais. 
Eu gostaria de saber quantos amigos ntimos tem ela. Em minha opinio, no muitos mais que Richard -Lhe aconteceu uma idia pela cabea-. Hugh!
         -O que?
         -Espero que Richard no esteja assustando a essa pobre garota. Quero dizer que ns dois sabemos que  um homem de honra, mas pode chegar a ser to rude 
quando quer...
         -No se preocupe, Abbie. Richard no  tolo. J tem muitos problemas sem necessidade de converter-se no inimigo mortal do augusto pai e os temperamentais 
irmos de lady Rosamund. Lhes tem que temer mais que a qualquer seo do Servio Secreto. Richard sabe, e por isso estou seguro de que lady Rosamund estar logo 
de volta com sua famlia, sem que tenha muito de que queixar-se,  exceo possivelmente de uns quantos cachos despenteados.
         -Pobre Romsey -disse ela com ternura-. O que tem que estar acontecendo agora! Ele no conhece o Richard como o conhecemos ns. Estar temendo o pior. -De 
repente levantou a cabea- Hugh, acreditas que viro a por ns?
         -Pode contar com isso. Mas no os do Servio de Segurana. No lhes permitir que investiguem por sua conta. Estou seguro de que vir outra seo do Servio.
         -No estava pensando no Servio Secreto. Referia ao Romsey e a seus filhos.
         -Pelo amor de Deus! -Depois de um momento de profunda reflexo, Hugh acrescentou- A coisas no chegaro to longe. No viro atrs de ns se devolve a lady 
Rosamund. E estou seguro de que Richard deixar livre  garota  primeira oportunidade que se o presente.
         - obvio que o far -assentiu Abbie.
         Quando soaram uns golpes na porta de entrada, os dois ficaram calados.
         -Pode tratar-se do Richard? -sussurrou Abbie- Ou possivelmente do Harper?
         -Na porta principal? No me parece lgico. Voc fique aqui.
         Hugh se colocou depressa a jaqueta e saiu da habitao. O visitante estava comeando a impacientar-se e os golpes na porta se converteram em um desumano 
tamborilo.  obvio, a pessoa que apareceu frente a Hugh quando este abriu a porta de entrada no era nem Richard nem Harper.
         -Lorde Caspar -disse Hugh, e a seguir, tratando de recuperar-se da surpresa, acrescentou- Mas bom! Falando do rei de Roma! Entre, entre, por favor.
         
        Captulo 9
         Rosamund despertou lentamente. Quando lhe chegou o aroma de caf recm feito sua frente se enrugou. Isso era um engano. A garonete se havia equivocado. 
Ela nunca bebia caf de boa manh, a no ser chocolate, e adoado com um pouco de mel. E por que estavam acesas as velas? A garonete teria que ter aberto j as 
cortinas para que entrasse a luz do sol. Girou a cabea e olhou para a janela. O sol estava saindo pelo horizonte. Estava amanhecendo? Ela nunca se levantava antes 
das dez.
         O seguinte que lhe passou pela cabea a fez zangar-se. "Maitland."
         O estava sentado  mesa tomando tranqilamente uma taa de caf, e parecia to so e cordial como nunca o tinha visto at esse momento. O que era o que 
tinha feito?, perguntou-se. Tinha-lhe curado a ferida e a tinha enfaixado, e agora ele estava preparado para algo.
         Acaso se tinha voltado louca?
         -Voc caf se est esfriando -disse ele.
         Ela se levantou da cama e lhe respondeu com um tom de voz pouco amvel:
         -O que?
         -Voc caf -e assinalou a cafeteira que havia sobre a mesa-. te Levante, Rosamund, quero te dizer algo. estive pensando como me liberar... como te devolver 
a sua famlia sem correr nenhum risco.
         Ela o olhou com dureza. Tentava engan-la de novo? Deveria lhe acreditar? De todas formas, que remdio ficava?
         No perdeu o tempo arrumando o cabelo ou colocando-se bem a roupa; quo nico fez foi embainhar-se na jaqueta do Harper. Quando j estava sentada  mesa, 
e bebendo sua taa de caf, Maitland lhe contou seu plano.
         - singelo -disse-. Alugarei um carro e pedirei que lhe levem a sua casa do Twickenham.  obvio, sempre que puder fazer os trmites eu mesmo.
         Aquela manh ele estava realmente de bom humor. Mas ela no tinha deixado escapar sua desagradvel frase ao meio acabar: "estive pensando como me liberar...". 
O que significava como livrar-se dela,  obvio. No se atrevia a confiar nele. Tinha medo de que a defraudasse de novo. Tinha que haver um pouco escondido nesse 
novo plano.
         -Pensava que te foste alegrar -disse ele recostando-se na cadeira.
         -Hummm -murmurou ela-. O que me preocupa  a questo de me mandar a casa sem que voc corra nenhum risco -Rodeou a taa de caf com as duas mos e continuou 
falando com cautela- por que no fazer parar o carro assim que estejamos fora de seu alcance e lhes dizer que me levem a magistrado mais prximo? Lhe deveriam buscar 
antes do que imagina. No digo que v fazer o -e se precipitou em acrescentar-, s intento ver as coisas desde seu ponto de vista.
         -Ir atada e amordaada -O franziu o sobrecenho quando ela suspirou-. me Escute, Rosamund, necessito tempo para me afastar, e no estou seguro de se o chofer 
te reconhecer antes de que tenha chegado a seu destino. Se o fizermos assim conseguirei um par de horas de vantagem.  tudo o que necessito.
         Ento, era verdade. Realmente ia deixar a partir. Em realidade no lhe importava muito ser amordaada e maniatada. Desde seu aquilo ponto de vista tinha 
sentido. Podiam-lhe ter ocorrido coisas piores.
         Queria lhe dar as obrigado. Queria lhe dizer que no lhe causaria nenhum problema, que no diria s autoridades onde estava, nem sequer quando j tivesse 
retornado com sua famlia. Queria lhe dizer que acreditava em sua inocncia, e que quando estivesse livre faria algo que estivesse em sua mo para limpar sua reputao. 
Mas no lhe disse nada disso porque sabia que ele no acreditaria.
         O se levantou.
         -Dou-te cinco minutos para te preparar, mas no me tente jogar isso Ella se qued sentada, inmvil, hasta que oy cmo l cerraba la puerta por fuera. La 
idea de desobedecerle cruz por su mente, pero solo porque l se la haba sugerido. No tena ninguna intencin de traicionarlo, porque a pesar de todo realmente 
crea en su inocencia.
         Ela ficou sentada, imvel, at que ouviu como ele fechava a porta por fora. A idia de lhe desobedecer cruzou por sua mente, mas solo porque ele a tinha 
sugerido. No tinha nenhuma inteno de trai-lo, porque apesar de tudo realmente acreditava em sua inocncia.
         Mas isso no significava que ele tivesse que lhe gostar de.
         Havia dito cinco minutos. dirigiu-se ao quarto de banho.
         
         
         No estbulo de carros de aluguel, quando tratou de conseguir um, recebeu uma m notcia.
         -Iria mais rpido andando -lhe disse o proprietrio, que era tambm a moo da quadra-. No se inteirou? seqestraram  filha de um duque e a tropa ps controles 
em tudas as pontes. Nada nem ningum pode entrar ou sair de Londres at que a tropa no o permita.
         Isto deu ao traste com os planos do Richard para enviar ao Rosamund a sua casa do Twickenham. Deteriam seu carro na ponte do Westminster, e isso estava 
muito perto dali para poder sentir-se seguro. A tropa iria atrs de seus passos como um enxame de vespas. E no podia trocar seus planos, sobre tudo se queria reunir-se 
com o Harper, assim teria que envi-la a qualquer outra parte.
         Pensou em Brighton. Mas possivelmente se teriam que parar um monto de vezes para fazer abrevar aos cavalos, e o chofer poderia dar-se conta de quem era 
a garota. Embora ento j seria muito tarde para que pudessem apanh-lo. Sim, Brighton seria uma boa opo.
         -Quero um carro para as onze -disse ele-. Tenha-o preparado -E de uma vez que dizia isto ltimo jogou ao ar um xelim, que a moo apanhou ao vo com a destreza 
que d a muita prtica.
         -E se o carro est preparado enquanto vou procurar a meu irmo ganhar outro xelim.
         - obvio que estar preparado -respondeu sorrindo a moo.
         Ao d-la volta para sair, Richard se topou de bruces com um moo que entrava correndo no estbulo.
         O moo se parou diante eles e comeou a chiar:
         -Senhor Bleecher! Chega a tropa! Os acabou de ver. Vm em barcos. encontraram algo sob o mole, um bote, creio, e agora vo de porta em porta registrando 
todas as casas.
         Richard permaneceu indiferente, mas todos seus sentidos estavam j alerta, intuindo o perigo.
         -A tropa? -perguntou aparentando curiosidade-. Aqui? No Kennington?
         -Sim -respondeu o moo assentindo com a cabea.
         A moo da quadra cuspiu ao cho.
         -A tropa, sempre esto de sargento por toda parte -disse. E acrescentou dirigindo-se ao moo- Venha, v trabalhar, Danny. E te esquea da tropa. O velho 
Bleecher sabe bem como dirigi-los.
         Richard refletiu um instante e logo disse como de passada:
         -Possivelmente meu irmo e eu deveramos esperar antes de continuar nossa viagem.
         -E isso por que?
         -A tropa... -respondeu Richard deixando a frase pela metade.
         No tinha julgado mal a este homem. A moo lhe respondeu:
         -Parece-me voc uma pessoa respeitvel. E quanto a essa chusma -disse cuspindo de novo ao cho-, no tm nem idia do que  o servio militar. O nico que 
lhes interessa  o uniforme escarlate e a glria que isso supe. A metade deles no sabe distinguir o cotovelo do culo.
         Graas a Deus, pensou Richard, acaso Bleecher poderia ser outro Harper?
         Olhou  moo da quadra, observou-o com ateno, e j no viu um homenzinho imundo com um avental de couro cheio de manchas e os dedos enegrecidos pela sujeira. 
Viu rugas em seu rosto que se forjaram sob o sol da Espanha; viu um veterano de guerra; a um homem que merecia todo seu respeito.
         -Em que regimento? -perguntou estendendo a mo.
         Bleecher olhou a mo estendida do Richard e se limpou a suas nas calas antes de estreitar-lhe ficou firmes e seus ombros se tornaram para trs.
         -Noventa e cinco de artilharia -anunciou.
         -Um dos melhores regimentos -disse Richard com convico, e logo acrescentou- Que v bem, sargento Bleecher?
         -Pois sim, em outro tempo fui o sargento Bleecher -disse assentindo com a cabea-. Que v bem a voc, senhor.
         Quando Richard saiu do estbulo, olhou ao outro lado do rio. O cu se estava esclarecendo por momentos, mas ainda no pde ver as casacas vermelhas na distncia. 
Uma vez mais tinha que sair correndo. Mas correndo para onde? No s estava talhado o caminho ao Twickenham, mas sim com a tropa agora no Kennington tambm o estava 
o caminho a Brighton. Solo havia uma direo para sair dali, e era para o oeste, por essa borda do rio, seguindo o caminho que ele mesmo tinha previsto tomar.
         Pensou no Rosamund e comeou a amaldioar. O que podia lhe dizer agora? Que a tropa estava lhe fechando a fuga e se via obrigado a trocar de planos? OH, 
sim, j podia imaginar-se perfeitamente qual seria sua reao. Comearia a lhe causar problemas e se veria obrigado a deix-la no caminho, com o que teria  tropa 
muito em breve lhe pisando os tales.
         No podia deix-la ali. Contaria-lhe o da mudana de planos quando estivessem j bastante longe do Kennington. Ou possivelmente antes, quando se encontrassem 
j no carro de cavalos. Seguro que no lhe ia gostar, mas ela era uma mulher inteligente. Seria capaz de faz-la compreender.
         Com esse sombrio pensamento percorreu de volta o caminho que lhe separava da estalagem.
         
         
         Quando entrou na habitao, ela j estava lista e lhe esperando. O rosto do Richard estava srio, mas isso no era nada novo. De fato, estava comeando 
a acostumar-se a que franzisse o sobrecenho, e isso j no tinha nenhum efeito sobre ela. Alm disso, agora que acreditava em sua inocncia, j no a assustavam 
seu cenho franzido nem suas ameaas nem a pistola apoiada em suas costelas nem a perspectiva de ser atada e amordaada.
         Essa era a singela verdade, lhe acreditava, mas ele no confiava nela.
         A idia de voltar a ver a cara de seu pai, quando se tornasse em seus braos, com o Caspar e Justin em p a seu lado, fez aparecer um esforo de pranto 
a seus olhos. Tinha estado desaparecida durante mais de vinte e quatro horas, e sabia que teriam sido as vinte e quatro horas mais largas da vida de seu pai.
         O carro lhes esperava no estbulo, com o chofer aguardando montado no cavalo dianteiro. Ela estava desejando ficar em caminho, mas Maitland cruzou umas 
palavras em privado com a moo da quadra e lhe colocou uma moeda na mo antes de reunir-se com o Rosamund.
         Ela entrou a primeira. Quando viu as alforjes no cho do carro, aquilo lhe pareceu fora do previsto, mas no quis alarmar-se. Maitland entrou no carro sem 
dizer uma palavra. Amordaou-a e lhe atou as mos detrs das costas como estava previsto. Nem sequer se incomodou em dizer algo antes de que partisse. A ela, essa 
atitude lhe incomodou um pouco, mas a perspectiva de voltar para casa com sua famlia fez que seu aborrecimento lhe esquecesse em seguida. No obstante, quando viu 
que ele se sentava a seu lado na banqueta, fechava a porta de um golpe e lhe dizia ao condutor dos cavalos que ficasse em marcha, olhou-o fixamente e com desconfiana.
         Quando os cavalos ficaram ao trote, Maitland levantou os braos em um gesto apaziguador.
         -me escute, Rosamund -lhe disse-. houve uma mudana de planos. Ainda no posso te deixar partir. Olhe...
         Nesse momento ela deixou de lhe escutar. Estavam saindo do Kennington, mas na direo equivocada. No fazia falta que escutasse suas explicaes. tratava-se 
de outra de suas traies e, se no atuava imediatamente, logo ia ser muito tarde. Tentou ficar em p, mas Maitland a empurrou para que se sentasse e lhe pediu que 
fora razovel. Se se comportava bem, disse-lhe, seu plano ainda poderia funcionar como estava previsto.
         Olhou aos olhos assustada. Logo, com o pnico de quem se sente encurralado, equilibrou-se sobre ele. Deu-lhe patadas, lutou para tentar desat-las mos, 
investiu-lhe, arqueou-se e tentou lhe golpear com a cabea. Ele no podia fazer nada mais que sujeit-la com o peso de seu prprio corpo, at que sua resistncia 
comeou a diminuir.
         Quando ficou quieta e sem foras, entre seus braos, disse-lhe em tom pacificador:
         -Quo nico quero  que me prometa que te comportar. Se for assim, tirarei-te a mordaa e te desatarei.
         Seus olhos cintilaram com tanto rancor que fizeram que ele se tornasse para trs. Richard assentiu com a cabea lentamente.
         -me odeie se quiser, mas at que no me prometa isso, no te tirarei as ataduras nem a mordaa. prometa-me isso Rosamund. Tudo o que tem que fazer quer 
dizer que sim com a cabea.
         Sua resposta foi lutar at voltar a sentar-se; levantou o queixo e ficou olhando deliberadamente pela janela.
         -Pois faz-o a sua maneira, se quer -foi tudo o que ele replicou.
         No tinham viajado muito quando ela pde ver o povoado da Chelsea ao outro lado do rio. Se seguiam por esse caminho, passariam pelos subrbios do Richmond, 
e ao outro lado do rio estava Twickenham, e sua casa.
         Mas assim que suas esperanas comearam a reviver, o carro girou em um cruzamento de caminhos e deu meia volta. dirigiam-se para o sudoeste, a um lugar 
chamado Morton.
         Apoiou as costas contra o respaldo da banqueta e fechou os olhos para esconder as lgrimas. Ter estado to perto, to perto, para isto. Tinha vontades de 
acomodar-se e morrer.
         Ouviu-o suspirar. Logo lhe tirou a mordaa e lhe desatou as mos.
         -No tente nada ou no duvidarei em utilizar a fora para te acalmar -disse ele.
         E apertou os punhos para particularizar o que acabava de dizer. No era necessrio. Ela sabia perfeitamente quo brutais podiam ser essas mos.
         No podia suportar a idia de ter que lhe responder e reconhecer sua presena. Estava furiosa e se amaldioava por quo ingnua tinha sido. No se perdoava 
lhe haver curado a ferida! Tinha chegado a lhe acreditar! Tinha pensado inclusive em tentar limpar sua reputao! E o nico que ele fazia era prometer coisas que 
no tinha nenhuma inteno de cumprir.
         -Olhe, as circunstncias ho mudado -disse ele-. A tropa estar rodeando a estalagem dentro de um momento. Se te tivesse deixado ali, em seguida teriam 
descoberto, se no por ti, pelo dono ou pela garonete, que eu no podia estar muito longe. Rosamund, tem que entender quo desesperada  minha situao. No tenho 
nenhuma inteno de me deixar capturar para que me enviem de novo ao Newgate. Mas te prometo que assim que tenha uma oportunidade te deixarei partir.
         Lhe dirigiu um olhar que esperava que lhe abrasasse. Ele tentava acalm-la dando rodeios. Pois estava perdendo o tempo. de agora em diante estava disposta 
a suprimir seus sentimentos e a ser to dura como podia s-lo ele.
         acomodou-se em uma esquina do carro e tentou esclarecer idias mediante seu jogo preferido. Pelo menos em sua mente podia escapar dele.
         Enquanto isso Richard seguia refletindo a respeito do que fazer com o Rosamund. Recordou a idia do Harper de deix-la abandonada em qualquer caminho afastado, 
onde nada lhe poderia passar. Acariciou a idia de esconder-se at que casse a noite e deix-la ento no Morton. No seria fcil que seguissem seus rastros na escurido. 
Mas, por outra parte, Morton podia estar infestado de tropa. No teria muito tempo de vantagem. Tinham que seguir movendo-se.
         No haveria nenhuma aldeia entre o Morton e seu destino, nas colinas do Berkshire, onde pudesse deix-la sem correr nenhum risco? E se no era assim, o 
que ia fazer com ela?
         
         
         Ao chegar ao Morton, enviou o carro de volta ao Kennington e alugou dois cavalos para o prximo lance de sua viagem. Morton era o ltimo povoado que tinham 
que atravessar. Richard estava obcecado com a idia de topar-se com a tropa, assim abandonaram os caminhos principais e cavalgaram por bosques e pradarias. A marcha 
era lenta e fatigante, e comeou a fazer-se realmente incmoda quando comeou a chover.
         Pararam um par de vezes para descansar e dar de beber aos cavalos. Quo nico tinham para comer era po e queijo, e um pouco de gua para sufocar a sede. 
Rosamund se assombrou da resistncia do Maitland. Ela estava a ponto de desfalecer, mas ele ainda se mantinha forte e alerta.
         S quando comeou a fazer-se de noite fez que se detiveram e procurassem refgio para descansar em um estbulo abandonado. Mas ao dia seguinte ficaram de 
novo em marcha ao amanhecer.
         Em uma ocasio, quando se meteram debaixo de uma ponte para proteger-se da chuva, ela se deu conta de que seu seqestrador estava bastante pior que ela. 
Seu rosto estava plido, podia-se ouvir um leve assobio em sua respirao, e ela via que trocava constantemente de postura sobre a cadeira, como se tratasse de diminuir 
assim uma dor. Rosamund se perguntou se sua ferida teria comeado a sangrar de novo.
         Estava a ponto de preocupar-se com o fato de que se no repousava poderia chegar a sangrar-se at morrer, mas ele j estava preparado e lhe dizendo que, 
era hora de seguir a marcha, e ela estava muito cansada para discutir com ele.
         Ao princpio, Rosamund tentou no perder de vista a direo em que cavalgavam, mas assim que caiu de novo a noite, perdeu a orientao, e ento perdeu tambm 
o interesse por tudo, menos por sonhar com uma cama quente e um amaciada travesseiro em que repousar a cabea.
         De repente sentiu que caa do cavalo, e seu prprio grito assustado a fez voltar em si. Os braos dele estavam ali para sujeit-la.
         -J chegamos -disse Richard com um tom de voz que soava to esgotado como ela mesma.
         Enquanto ele a sujeitava -ou era ela a que o sujeitava a ele?- a fadiga desapareceu e abriu os olhos. No sabia onde estavam ou quanto tempo tinham cavalgado.
         -chegamos? -Ela forou a vista tratando de identificar alguma luz entre as sombras de escuros contornos, mas no se via luz por nenhuma parte- Chegado aonde?
         No houve resposta.
         deu-se vagamente conta de que ele se estava levando os cavalos, mas estava muito cansada para que isso lhe importasse o mais mnimo. No lhe importava se 
tinham chegado a uma cabana ou a um palcio.
         Uma cama; isso era quo nico pedia.
         O demorou um momento em voltar, mas ela no se moveu nem um milmetro de onde estava parada. Pensava que j no tinha foras para dar um s passo mais. 
J no lhe importava encontrar uma cama e um amaciada travesseiro. Solo tinha vontades de deitar-se no cho e dormir. E ento ele saiu de entre as sombras, tomou 
pelo cotovelo e a empurrou para diante. Como se fora cega, deixava-se conduzir por ele ao longo de um caminho de pedras, para depois subir um curto lance de escadas. 
Ao cabo de um momento se encontraram dentro da casa. Embora estava escuro como boca de lobo, Maitland parecia saber perfeitamente por onde se movia.
         A impresses foram e vinham: suas botas caindo no que parecia ser um cho de mrmore; um ligeiro aroma a cera de abelhas; Maitland esfregando duas partes 
de isca e, maravilha das maravilhas, conseguindo acender um fogo. No estavam em uma casa singela, a no ser em uma manso palaciana. Logo viu o elegante leito com 
baldaqun, e assim que se tirou o casaco se deixou cair sobre ele.
         
        Captulo 10
         Esta vez, quando Rosamund despertou, sua mente estava clara como o cristal. Sabia exatamente onde se encontrava e que o homem que estava convexo a seu lado, 
na cama, era Richard Maitland. No estava maniatada; no havia nada que lhe impedisse de mover-se. Nem Harper nem os serventes estavam ali. Solo estavam ela e Maitland.
         Agentando a respirao, deu-se a volta com sigilo para observ-lo. A luz do sol entrava por uma das altas janelas, acariciando seu cabelo com pinceladas 
de ouro puro. Dormido parecia mais jovem, quase um moo. Ao igual a ela, ele no tinha feito mais que tirar o casaco antes de tombar-se na cama.         
         Mas se deu conta de mais coisas. Havia sangre fresca em sua camiseta, sua pele parecia estar mida e respirava com dificuldade.
         Teve que reprimir o desejo de saltar da cama e preparar-se para voltar a curar sua ferida. tratava-se do Maitland! E ela era seu prisioneira! No teria 
uma oportunidade melhor que aquela para escapar.
         Quando se deslizou fora da cama, ele gemeu, mas no chegou a despertar. Teve que agarr-las mos para evitar lhe apalpar a frente. Mas sua mente lhe dizia 
que no estado do Maitland havia algo mais que cansao. Tinha febre. Deveria lhe trocar a atadura; deveria lhe dar algo de beber; deveria...
         "No comece outra vez!", disse-se a si mesmo irritada. Se despertava, ele encontraria a maneira de ret-la e ela jamais poderia escapar dali.
         Mas no tinha a inteno de ser desumana. Decidiu que cavalgaria at o povoado mais prximo e de ali lhe mandaria um mdico.  obvio, teria que inventar 
uma boa histria para que ningum soubesse que se tratava do Maitland. No queria que o detiveram. Solo queria ir-se dali. E estava disposta a no dizer nenhuma 
palavra a ningum a respeito dessa casa, nem sequer a seu prprio pai. Mais ainda, no queria faz-lo e no o faria.
         Estava resolvida, e se deu meia volta para partir quando viu sua imagem refletida no espelho da parede. Era a primeira vez que se via si mesmo de corpo 
inteiro vestida com roupas de homem. Aquilo lhe produziu certo desgosto. Com muita dificuldade se reconhecia a si mesmo, em mais de um sentido.
         No se perguntava a si mesmo, solo fazia trs dias, se ia vestida de maneira adequadamente na moda e cheirando a perfume de gardnia? Agora parecia um espantalho 
emprestando a cavalo.
         Essa idia lhe teria que ter colocado os cabelos de ponta, mas no foi assim. De fato, teve o efeito contrrio. Rosamund tragou saliva enquanto tentava 
dar forma ao que estava sentindo. Era a mesma moa que fazia trs dias, mas se sentia diferente. E no se tratava sozinho da aparncia; tratava-se de um pouco mais 
profundo. Por fora parecia um espantalho; mas por dentro se sentia... sentia-se...
         Imaginou o que teria podido pensar sua me se tivesse podido v-la.
         Nesse momento Maitland se moveu, e ela se colocou o chapu. J era hora de ir-se.
         Sentia curiosidade por ver a casa. Era muito maior que Twickenham, mas estava construda em um estilo similar. Em qualquer outro momento se dedicou a explor-la, 
mas no nesse momento, quando a liberdade estava a seu alcance. Ao mesmo tempo, enquanto se deslizava com cautela, nas pontas dos ps, pelo cho de mrmore do vestbulo 
de entrada, ia fixando em cada detalhe -o intrincado estuque do teto, os nichos das paredes com esttuas de mrmore, a grande escada de espiral com abajures de azeite 
pendurando dela. Essa casa devia pertencer a uma pessoa muito rica.
         Que relao podia ter Maitland com essa pessoa?
         Uma vez fora, no jardim da entrada, deteve-se para orientar-se. O edifcio dos estbulos estava a sua esquerda. No demorou muito tempo em chegar at ali. 
Os cavalos estavam em seus pesebres, onde os tinha deixado Maitland a noite anterior, com gua fresca e comida.
         Quo cuidados Maitland tinha devotado a esses pobres animais cansados provocou nela uma espcie de cargo de conscincia. Seu prprio pai sempre havia dito 
que algum se pode fazer uma boa idia do carter de um homem com solo observar como trata aos animais. E a noite anterior, enquanto ela se esqueceu da existncia 
dos cavalos, Maitland lhes tinha tirado as cadeiras de montar, tinha-lhes dado de comer e de beber, e com toda probabilidade, os teria escovado.
         Esse homem no era mau absolutamente.
         Comeou a sentir-se alarmada pela direo que comeavam a tomar seus pensamentos. No tinha que abrandar-se diante ele! A verdade de todo aquilo era que 
se preocupou mais de cuidar dos cavalos que a ela.
         Tentou no pensar no Maitland enquanto selava seu cavalo, mas tudo parecia dirigi-la de novo de volta a ele. O pensava que ela era uma intil, e possivelmente 
em certo sentido tinha razo. Mas no havia muitas coisas que ela no soubesse sobre os cavalos. Nunca poderia chegar a ser a donzela de uma senhora, mas, em caso 
de necessidade, podia ocupar o posto de seu pai  frente da quadra e ningum cartrio jamais a diferena.
         Exceto a noite anterior, que foi Maitland quem se cuidou dos cavalos, mesmo que tambm ele devia estar a ponto de desfalecer.
         "Parte !",disse-se zangada como se nesse momento o tivesse a ele diante.
         Conduziu o cavalo fora do estbulo, montou-o e apertou ambas as pernas aos flancos de suas arreios. Em muito pouco tempo estaria j longe de ali.
         Tinha-lhe deixado a ele um cavalo. Que mais lhe podia pedir?
         "Sou livre, livre, livre", ia cantando para seus adentros. E que magnfico resultava ir vestida com roupas de homem e cavalgando escarranchado. Maitland 
no sabia quo afortunado era! Se ele tivesse que vestir-se com roupas de mulher, no ia ser muito mais capaz de vestir-se e despir-se solo do que o era ela.
         Outra vez Maitland! O que lhe estava passando?
         Ao chegar ao topo de uma colina, atirou das rdeas e fez que suas arreios desse a volta. A casa estava metida em meio de um bosque, com rvores que agora 
brilhavam com suas cores de outono. detrs da casa, o terreno subia em uma levantada colina. Naquela parte no havia rvores, solo uma vasta extenso de grama com 
rebanhos de ovelhas pastando nele.
         Agora sabia onde estava. Aquilo tinham que ser as colinas do Berkshire. Certamente haveria pelos arredores algumas granjas, com muito pouca gente, e o povoado 
mais prximo podia estar a vrios quilmetros dali.
         Voltou a cabea e escrutinou o horizonte. No se viam nem granjas nem campos semeados de milho, solo os Montes e, muito ao longe, na distncia, o campanrio 
de uma igreja que assinalava o povoado mais prximo.
         Assim que chegasse ao povoado j no haveria marcha atrs. Tinha que inventar uma histria acreditvel para poder ajudar ao Maitland sem revelar sua identidade. 
Mas qualquer idia que imaginava acabava sempre em um desastre para o Maitland.
         Parecia-lhe impossvel.
         Olhou atrs, para a casa. Nesse mesmo momento ele poderia estar morrendo sangrado. Certamente teria muita febre.
         Algum tinha que cuidar dele.
         Tinha que retornar.
         Entrou na casa e se dirigiu diretamente para o dormitrio com um passo que tivesse feito que seu pai a repreendesse. Quando viu o Maitland ficou de uma 
pea. tirou-se a jaqueta e agora parecia um novelo de dor.
         aproximou-se rapidamente a ele e, com um grande esforo por sua parte e muito sofrimento pela dele, conseguiu coloc-lo de costas. No podia lhe tirar a 
camiseta pela cabea, assim que a rasgou de cima abaixo e a abriu para os lados. A vendagem se moveu de seu stio e a ferida tinha comeado a sangrar de novo, embora 
no muito. Mas estava inflamada pelos extremos, e isso a preocupou. Ao igual a tinha feito antes, aproximou o nariz  ferida e a cheirou. Por sorte no cheirava 
a podre.
         Deixou escapar um suspiro de alvio e olhou ao redor em busca das alforjes. Estavam no cho, ao lado da cama, onde Maitland deveu as deixar cair a noite 
anterior, antes de tombar-se exausto na cama. Na primeira que abriu encontrou o que estava procurando. Voltou ao lado de seu paciente e ficou mos  obra, tirando 
a atadura suja e limpando as crostas de sangue ressecado com um pano umedecido em brandy. Tentou no lhe fazer danifico, mas Maitland se moveu de repente, golpeando 
um de seus braos, e o frasco de brandy se derramou salpicando toda a ferida. O deixou escapar um grito, fez um esforo por sentar-se e finalmente se deixou cair 
de costas contra os travesseiros.
         -Maitland! -disse ela com impacincia.
         No houve resposta.
         Deixou o frasco a um lado e tomou o pulso. Estava acelerado, mas era bastante firme. Ps uma mo em sua frente. Tinha febre. E se tratava de algo mais que 
uma ligeira quentura. Mas no tinha nenhuma comoo cerebral. Se ele se cansado do cavalo golpeando-se na cabea, ela se teria dado conta, no  assim? Sua resposta 
foi no, no se teria dado conta. A noite anterior tinha estado muito encantada em suas prprias misrias para preocupar-se com ele.
         Produziu-lhe um sensao estranha introduzir os dedos entre seu cabelo em busca de alguma sinal de que se golpeou na cabea. Quando sentiu algo pegajoso 
em seus dedos deu um coice. Era sangue.
         Isso a colocava diante um dilema, porque no tinha experincia alguma em como tratar uma comoo. Embora, bem pensado, a ferida da cabea no parecia nada 
srio. No valia a pena preocupar-se com ela, disse-se a si mesmo. Maitland tinha a resistncia de um boi. Um golpe na cabea no poderia deix-lo sem sentido durante 
muito tempo. A ferida de adaga em seu peito era o preocupem-se.
         Na habitao no havia lavamanos, mas viu uma porta aberta na parede que estava ao lado da cama. Como tinha imaginado, a porta conduzia a um quarto de banho 
completo, com uma banheira de cobre, um privada e um formoso lavamanos de mogno. Era um quarto de banho como o que havia ao lado de seu dormitrio, no Twickenham. 
Entretanto, a elegncia deste quarto estava danificada por uma suja jaqueta de homem atirada no cho, junto a uma toalha manchada de sangue. Evidentemente, Maitland 
tinha tratado de curar-se a si mesmo. assim, ela tinha razo. A comoo no podia ser grave, ou do contrrio no teria sido capaz de chegar at a cama.
         Agarrou duas toalhas e retornou depressa a seu lado. At o momento nunca lhe tinha morrido um cavalo, e no tinha a inteno de perder tampouco a este homem 
lhe exasperem.
         Colocou uma toalha dobrada sobre a ferida e ps a atadura por cima para que se mantivera em seu stio. tratava-se sozinho de uma medida temporria, at 
que tivesse reunido todo o necessrio para limpar bem a inflamao. Quo seguinte tinha que fazer era lhe limpar o arranho da cabea. Por ltimo, tinha-lhe que 
tirar a roupa, que ainda estava molhada pela chuva. Suas mos ficaram quietas. por que suas roupas estavam molhadas enquanto que as dela estavam completamente secas? 
A resposta lhe chegou em seguida. depois de encontrar um lugar para que ela se resguardasse da chuva, ele se fazia cargo dos cavalos, e ou seja de quantas coisas 
mais. Ele sempre era o ltimo em refugiar-se da chuva, o ltimo em comer, o ltimo em tornar-se a descansar e o primeiro em estar em p cada manh. E isso se repetiu 
em cada uma das paradas daquela fatigante viagem.
         havia-se equivocado ao pensar que Maitland se preocupou mais dos cavalos que dela. A quem realmente tinha descuidado era a si mesmo.
         Meneando a cabea continuou com a padre, ofegando cada vez que tinha que mover seu pesado corpo para poder fazer bem seu trabalho. Certamente lhe estava 
fazendo mal, porque ele comeou a resistir. A esse passo lhe voltaria a abrir a ferida e correria o perigo de sangrar-se.
         De repente deixou de lutar.
         -Harper? -perguntou ele. E como no lhe chegou resposta, voltou a repetir-: Harper?
         -Sim.
         Essa nica palavra, pronunciada em voz baixa, pareceu tranqiliz-lo. J no resistiu mais enquanto lhe tirava as botas e logo os meias trs-quartos. Duvidou 
por um momento diante as cueca, mas pensou que se queria lhe fazer baixar a febre teria que lhe dar algum banho frio, e as cueca no fariam mais que estorvar, assim 
que os tirou.
         Quando se deu conta de que lhe ardiam as bochechas, comeou a preocupar-se com si mesmo. Ela no era uma inexperiente na nudez masculina. Tinha visto seus 
irmos nus muitos vezes no lago artificial do Twickenham House e isso nunca lhe tinha afetado o mais mnimo. No ia comear a ser agora afetada.
         De todas formas, no foi sua nudez o que a fez ficar olhando-o fixamente, a no ser as chapeadas cicatrizes que adornavam seu peito, e sobre tudo uma larga 
que percorria todo seu ventre e acabava alm da virilha.
         Aquele homem era um guerreiro, solo que agora se tratava de um guerreiro cansado, incapaz de ajudar-se a si mesmo. Tudo o que se interpunha entre ele e 
sua inimigos era ele mesmo, e ela no era absolutamente uma pessoa lutadora.
         Bom, possivelmente ela no fora uma jaqueta, mas nesse momento se fez a promessa de que no o abandonaria at que pudesse manter-se de novo sobre seus ps.
         Quando o deixou por fim agasalhado entre os lenis, deu um passo atrs. No tentava compreender o que estava sentindo. Tinha muitas coisas que fazer e 
sua mente tentava pensar com antecipao. Tinha que fazer um cataplasma quente para a inflamao; tinha que fazer que lhe baixasse a febre e assegurar-se de que 
bebesse bastante lquido; tinha que lhe enfaixar o arranho da cabea; tinha que assegurar-se de que no se movesse para que a ferida no lhe voltasse a sangrar...
         Decidiu que o primeiro era preparar o cataplasma.
         No foi difcil encontrar a cozinha. Uma das portas do dormitrio dava  escada de servio, e ao final dessa escada estavam as habitaes dos criados. A 
cozinha estava detrs da seguinte porta. No lhe surpreendeu dar-se conta de que a despensa estava bem sortida de provises. Embora no havia serventes ou pessoas 
que cuidassem a casa, esta estava em perfeitas condies. assim, onde se tinham metido os criados?
         J se preocuparia disso mais tarde. fixou-se na aparentemente inocente caixa de iscas que estava sobre o suporte da enorme e enegrecida chamin.
         aproximou-se dela com o mesmo passo decidido com o que tinha voltado a entrar na casa. Essa era uma batalha que no podia permitir-se perder.
         
        Captulo 11
         Ele sabia dirigir s mulheres. Era algo que cultivava, mas tambm algo com o que tinha nascido. Quando era menino, tudo o que tinha que fazer era olhar 
com cara de aborrecimento e podia dominar a sua me com o dedo mindinho. Assim no lhe surpreendeu absolutamente que a caseira do Maitland no pusesse objees em 
lhe mostrar as habitaes que lhe alugava, entendendo que estava em todo seu direito de faz-lo.
         - voc o senhor Withers?
         -George Withers -respondeu ele.
         No via a necessidade de dar um nome falso. Se tirava o chapu que mentia, algum poderia fixar-se mais nele e comear a fazer perguntas embaraosas. Tinha 
aprendido a manter-se na verdade enquanto que no houvesse uma poderosa razo para no faz-lo. Neste caso, havia uma importante razo para estar ali. As habitaes 
no Bond Street eram bastante pequenas, e ele procurava um lugar maior.
         A senhora Everett endireitou sua touca, sorriu com paquera e lhe conduziu escada acima.
         -No sei se deveria lhe ensinar as habitaes -disse ela-. O senhor Maitland pagou at finais de setembro. Pagamento cada trs meses, sabe voc?  um homem 
muito tranqilo. Mas  aos tranqilos aos que sempre ter que vigiar mais, no  assim? Sabe voc?, h algo dele que nunca eu gostei. Era frio e distante. No era 
o que se chamaria uma pessoa amistosa. Mas um assassino! V, nunca acreditei que pudesse chegar a isso.
         Teria uns cinqenta anos, era rellenita e absolutamente formosa. Entretanto, ele a tratava com a mesma galanteria que teria demonstrado diante uma senhora 
da alta sociedade. A pobre tola no se dava conta de que quo nico tentava era lhe surrupiar informao. Quando lhe pareceu evidente que ela no sabia nada que 
pudesse lhe interessar, conseguiu que o deixasse sozinho nas habitaes do Maitland com a promessa de que antes de partir passaria a tomar com ela uma taa de ch 
e a provar seu bolo caseiro.
         Seu sorriso se desvaneceu no momento em que ela cruzou a porta. Sabia que os juizes tinham requisitado tudo o que lhes pareceu de interesse, mas apostava 
a que Richard Maitland no era o tipo de pessoa que deixa um pouco de interesse ao alcance de qualquer. Embora isso no era mais que uma hiptese, ele tinha aprendido 
j o valor que tem ser precavido. No podia estar muito equivocado se tomava ao Maitland como exemplo, e sabia que se ele estivesse agora em seu lugar, acharia-se 
naquele momento onde ele se encontrava.
         Tinham transcorrido quatro dias desde sua fuga e virtualmente j se abandonou a busca do Maitland. Ou para dizer a verdade, o assunto se esfriou. Havia 
patrulhas a cavalo por toda parte, preparadas em formao e ficando em marcha assim que algum dizia ter alguma pista sobre o Maitland ou sobre seu antigo guarda-costas. 
Mas nessas pistas no existia nenhum patro, nem nenhuma direo que lhe pudesse dar uma idia de onde poderia estar escondido. O nico que se sabia era que Maitland 
tinha estado escondido em uma cabana aos subrbios da Chelsea e que logo tinha sado dali em bote. O bote se encontrou ao dia seguinte, no fundo do mole do Vauxhall, 
e a partir daquele lugar se acabavam as pistas.
         Corria o rumor, um rumor do que ele estava seguro que era certo, de que lorde Caspar tinha conseguido a ajuda do Hugh Temperar para encontrar ao Maitland, 
e isso tinha feito aumentar suas esperanas. Mas at o momento no tinham dado com ele nem se encontrou a lady Rosamund, porque do contrrio todo mundo saberia j.
         Acaso tinha julgado mal a Temperar. Possivelmente no tinha abandonado a seu amigo. Possivelmente estava jogando com eles para dar tempo ao Maitland para 
que fizesse desaparecer os rastros e assim pudesse retornar mais tarde e seguir lutando por sua vida.
         Isso lhe fez pensar que deveria dar-se pressa. Solo ele possua a vontade e os meios para encontrar ao Maitland, porque era quem mais tinha que perder. 
No  que realmente acreditasse que Maitland poderia acabar por descobrir o que havia passado e chegar at ele. Mas depois de seu ltimo encontro com o Maitland 
j no pensava deixar nada ao azar.
         Passou os seguintes minutos dando voltas pelas habitaes, fazendo uma idia geral do lugar. surpreendeu-se do que se encontrou. Tinha pensado que se trataria 
de um lugar algo mais espartano, acorde com o carter do Maitland, mas essas habitaes estavam confortavelmente mobiliadas, com tapearias azuis, mveis de nogueira 
e algumas peas de mogno. Solo a habitao de leitura era como ele a esperava: montes de livros, duas poltronas de couro flanqueando a chamin, um escritrio e 
pouco mais.
         Depois comeou a procurar por cada uma das habitaes de maneira sistemtica, armrio por armrio e gaveta por gaveta. Aquilo era tal e como o tinha imaginado: 
umas quantas cartas, papis e recibos que no lhe pareceram de nenhum interesse. Quo nico dava uma nota discordante era um pequeno quadro colocado em um oco da 
habitao de leitura. tratava-se de um leo, bastante formoso mas no muito diestramente pintado, no que se via representada uma casa de estilo neoclssico, localizada-se 
em meio de uma paisagem pastoril. O artista que o tinha pintado era Richard Maitland.
         Havia outros quadros pulverizados pelas habitaes, mas tudas eram paisagens -montanhas rochosas e lagos e pramos de matagais-, obviamente cenas de Esccia, 
a terra natal do Maitland.
         Voltou a percorrer as habitaes, mas esta vez s se fixou nos quadros. Todos eram muito melhores que o quadro da habitao de leitura, e nenhum deles levava 
a estpida assinatura do Maitland.
         Pensou que o quadro daquela casa poderia ter um valor sentimental para o Maitland, pois, de no ser assim, por que o teria guardado? Outra coisa chamou 
sua ateno. A paisagem pastoril era tpica da Inglaterra, no de Esccia.
         Uma lembrana lhe veio  mente. Durante as frias, todos partiam a sua terra natal, exceto Maitland. O ia visitar um tio dele que tinha uma casa nas colinas 
do Berkshire.
         Como se chamava? Como se chamava a casa?
         Pouco importava. Quando Maitland saiu da Chelsea, navegou corrente abaixo, na direo contrria ao caminho que tivesse devido tomar para ir ao Berkshire.
         Esteve refletindo durante um momento; fechou os olhos e se pinz a ponte do nariz com os dedos polegares e ndice. "Uma pista falsa para que seus perseguidores 
no lhe seguissem o rastro?", perguntou-se. Que mais coisas teria feito Maitland para que quem foi atrs dele seguissem pistas falsas?
         Abriu os olhos e ficou olhando fixamente o quadro. Se pudesse recordar o nome dessa casa. Depois de um momento de escrutnio silencioso, desprendeu o quadro 
da parede e o aproximou da janela para v-lo melhor.
         Ali estava, gravado na alvenaria que se via por cima do prtico da entrada. 
         
         Dunsmoor.
         
         Rosamund estava sentada em uma das poltronas que flanqueavam a chamin, no Dunsmoor House. Tinha conseguido dormir umas quantas horas durante a noite anterior, 
mas durante o dia tinha estado quase todo o tempo levantada, cuidando de seu paciente e mantendo o fogo aceso. Fadiga era uma palavra muito pobre para descrever 
como se sentia. Doam-lhe todos os msculos do corpo. No sabia se teria foras para levantar da poltrona, agora que tinha cansado na tentao de oferecer uns minutos 
mais de descanso.
         Olhou o relgio e a seguir olhou para a cama. Maitland dormia profundamente. Pensou que em poucos minutos seria o momento de comear com o ritual que repetia 
escrupulosamente cada hora em um intento de que no lhe subisse a febre e de que sua ferida seguisse estando poda: trocar o cataplasma, banhar ao paciente com gua 
fria, lhe dar um ch suave, colherada a colherada, controlar a ferida da cabea e tomar o pulso.
         A ltima vez acrescentou algo ao ritual, ou mas bem ao ch. Richard tinha estado to intranqilo durante toda a noite que se tirou o cataplasma, e a ferida 
tinha ficado ao descoberto. Se ela tivesse estado a seu lado, isso no teria acontecido, mas ela estava naquele momento na cozinha, preparando o ch. Quando voltou 
para seu lado, o cataplasma se ficou j dura como o gesso e ela tinha tido que passar um bom momento voltando a lhe tampar a ferida. Assim decidiu acrescentar um 
par de gotas de ludano ao ch para acautelar que a voltasse a arrancar, e de momento parecia que funcionava. Embora no estava segura de que fora conveniente lhe 
subministrar ludano em sua estado de sade.
         Se ao menos houvesse algum com ela com quem poder compartilhar suas preocupaes... Inclusive embora se tratasse do Harper. Esperava, desejava, que a febre 
lhe tivesse baixado um pouco, mas no estava segura. O mesmo acontecia com a inflamao. E no sabia nada sobre as comoes. Uma segunda opinio teria sido muito 
bem recebida.
         Pelo menos podia estar convencida de que o estado do paciente no tinha piorado.
         Acabava de ficar em p quando escutou o que devia ser o rangido de uma tabela do cho ou de um degrau de madeira. Quando voltou a ouvi-lo, seu pulso se 
acelerou. Algum estava subindo pela escada de servio, algum que no parecia querer que tirasse o chapu sua presena. assim, no podiam ser nem Harper nem as 
autoridades. Algum estava subindo a escada com sigilo. Possivelmente fosse um ladro que pensava que a casa estava vazia. Ou possivelmente era o mortal inimigo 
do Maitland, o mesmo que tinha tratado de lhe destruir.
         A fadiga que tanto lhe pesava at fazia um momento desapareceu de repente, e em seu lugar apareceu seu instinto animal. No havia possibilidade alguma de 
esconder ao Maitland ou de sair com ele dali. Mas ela estava preparada para algo. escondeu-se no vestidor, com a pistola do Maitland carregada e martelada. Agora 
j nunca ia a nenhuma parte sem ela.
         Todos seus nervos estavam em tenso quando apertou os dedos ao redor da Lisa culatra, logo, movendo-se to cautelosamente como o intruso, colocou-se a um 
lado da porta. Quando a abrissem no poderiam descobri-la.
         Quando viu que o pomo da porta se movia, agentou a respirao. A porta se abriu lentamente. ouviu-se uma exclamao de surpresa e logo viu um homem que 
entrava lentamente e se aproximava at a cama.
         Rosamund levantou a pistola.
         -Se lhe tocar um s cabelo lhe vo a cabea! Digo-o a srio! Agora atira a pistola ao cho devagar, levanta os braos e date a volta.
         Harper s tinha podido lhe jogar uma olhada a seu chefe para assegurar-se de que estava bem, quando a estridente voz chegou at ele. Fez exatamente o que 
lhe ordenava, embora quando se deu a volta se esticou para equilibrar-se sobre seu oponente. Mas quando o viu, a surpresa o paralisou. Um jovem imberbe se enfrentava 
a ele, um jovem que parecia como se acabasse de sair de um campo de batalha. Sua camiseta e sua cara estavam manchadas com gotas de sangue e algo que parecia barro. 
Seus olhos estavam avermelhados e no rosto tinha uma expresso de angstia. Mas a mo que sujeitava a pistola apontando diretamente  cabea do Harper era to firme 
como a mo de uma esttua de mrmore.
         -Est cometendo um engano -comeou a dizer Harper, e se calou quando viu que o jovem baixava a pistola e tomava flego.
         -demoraste muito em chegar at aqui -disse o moo, solo que agora sua voz no soou como a de um homem jovem. Soou como uma voz feminina, e uma voz que tinha 
chegado at o limite de suas foras.
         Suas palavras foram rpidas e carregadas de recriminao:
         -Teria necessitado outro par de mos. Minha vida se estava comeando a converter em uma larga rotina de colocar cataplasmas, dar banhos na cama, alimentar 
o fogo, preparar o ch e esvaziar os urinols. -Brandiu a arma no ar-. Sem mencionar alimentar e abrevar aos cavalos. Lhes tem que dar gua e comida trs vezes ao 
dia, sabia?
         Harper estava comeando a acreditar que as estava vendo com um louco, e se teria arrojado sobre ela se no lhe tivesse estado apontando de novo com a pistola.
         -Logo que pude dormir -disse ela-. E alm ele no parava de tir-las cataplasmas, assim que lhe dei umas gotas de ludano. Parece-me que ao melhor tem feito 
mais danifico que bem. Mas deve entend-lo, nunca antes tinha tido que tratar um cavalo com uma comoo cerebral.
         Harper se sentia como se estivesse perdido em meio da nvoa. O jovem estava comeando a converter-se em lady Rosamund Devere. Sua mente em seguida tentou 
peneirar suas ininteligveis palavras. Olhou a seu chefe e logo fez um detalhado inventrio mental da desordem da habitao. por cima do vestidor havia ataduras 
e cataplasmas ensangentados, havia atoleiros de gua por todo o cho, em uma mesinha havia um monto de botes e frascos de quem sabe o que, em uma cadeira viu uma 
bule, uma pava e umas taas de ch, e uma ma meio comida. E tambm havia um vaso de porcelana a China no cho -Harper o olhava uma e outra vez-, junto  cama, 
decorosamente coberto com uma toalha dobrada.
         -De que cavalo fala Sua Excelncia? -perguntou ele com cuidado, sem apartar os olhos do urinol. 
         Ela sacudiu a cabea, deixou escapar uma risada aquosa e disse com palavras entrecortadas:
         -OH, Harper, estou to contente de que esteja aqui.
         
         Era tarde de noite quando Richard despertou de seu sonho para encontrar-se com o Harper a seu lado. Embora estava destemperado e tinha uma abrasadora dor 
de cabea, insistiu em levantar-se. Franziu o sobrecenho quando lhe disse que estava nu, mas alm disso no fez nenhum comentrio.
         -Rosamund? -foi a primeira palavra que saiu de sua boca.
         -Est na habitao que h ao outro lado do vestbulo -disse Harper-. Estar dormindo o sonho dos justos. Creio que ainda demorar bastante em despertar.
         Enquanto Harper ajudava a que Richard ficasse uma camisa de noite e uma quente bata larga de l, fez-lhe uma recontagem de seus movimentos desde que se 
desfeito da carruagem do duque. Falou-lhe da recompensa que se oferecia pela volta de lady Rosamund s e salva, do Digby e Whorsley, e finalmente lhe contou por 
que tinha demorado tanto em chegar at ali. Toda a comarca estava lotada de tropa, disse-lhe, e era isso o que lhe tinha feito atrasar-se. As duas primeiras noites 
tinha tido que dormir em palheiros, a seguinte em um celeiro e a ltima em um dos refgios de pedra para os pastores de ovelhas. Tinha chegado fazia apenas um par 
de horas, para encontrar-se com que o coronel estava felizmente inconsciente e lady Rosamund nas ltimas.
         Nesse ponto do relato se interrompeu. Parecia-lhe que seu chefe no lhe estava escutando. Estava percorrendo a habitao com o olhar. As velas acesas, as 
cortinas corridas, e qualquer evidncia do desastre com o que Harper se encontrou j tinha desaparecido.
         -Sente-se -disse Harper assinalando uma poltrona ao lado da chamin.
         Quando Richard esteve sentado, colocou-lhe um tigela entre as mos.
         -No tenho fome -disse ele.
         -Bem, porque no estou te oferecendo nada para comer.  caldo, caldo de vitela. Isto te assentar o estmago. E deveria tomar algo. Lady Rosamund diz que 
logo que comeste nada durante dois dias.
         Richard olhou sua tigela, logo olhou para a porta que levava a vestbulo,  habitao do Rosamund. Harper estava falando como se Rosamund fora um aliado, 
e isso no tinha nenhum sentido para ele.
         Harper se sentou na poltrona que havia ao outro lado da chamin e tomou sua tigela: guisado de vitela, espesso e suave, como lhe gostava. Quando Richard 
fez o gesto de deixar sua tigela a um lado, Harper lhe disse irritado:
         -Parece-me que no sabe a sorte que tiveste. -Assinalou com a colher para a porta do vestbulo-. Essa moa se esteve deixando a pele para te salvar a vida. 
Fez muito, muito mais do que teria podido fazer eu, se tivesse estado aqui. E como os dois sabemos, tive muita prtica nos campos de batalha espanhis. Fez que te 
baixe a febre, sua ferida j est poda, esteve-te dando de beber ch suave, e tem feito outras coisas que  melhor no mencionar e das que no vamos falar para no 
incomod-la. E assim  como o paga? Ainda no est fora de perigo. Assim te leve como um homem e tomada te esse caldo de uma vez. E se lhe agenta isso o estmago, 
logo pensaremos no jantar.
         Os olhos do Richard estavam cravados no Harper.
         A expresso de seu chefe, pensou Harper de maneira humorstica, era estranhamente afetada, com sombras de incredulidade e horror.
         -Sim, no havia ningum mais aqui para fazer-se carrego de ti, assim lady Rosamund fez tudo o que foi necessrio, como se fosse seu prprio irmo, conforme 
disse -acrescentou Harper lhe olhando com olhos risonhos.
         -E onde diabos estava voc? -perguntou Richard carrancudo. As lembranas daqueles dias danavam por sua cabea. deu-se conta de que algum estava lhe cuidando, 
mas pensou que se tratava do Harper. "Rosamund?", pensou, e lhe fez um estranho n na garganta.
         -Hei-lhe isso dito, a tropa me fez me atrasar.
         Richard ficou olhando o caldo de vitela, e ao cabo de um momento se meteu a colher na boca. As palavras do Harper e suas prprias lembranas ainda estavam 
dando voltas por sua mente. depois de tomar muitos colheres de caldo, examinou ao Harper e disse:
         -Se voc no estava aqui, por que no partiu quando pde faz-lo? por que ficou para me cuidar?
         -Deixou-te aqui sozinho, mas logo retornou. -Harper ofereceu ao Richard uma magra fatia de po, que este aceitou distradamente-. Acredita que  inocente, 
j v, e no quer ver-te pendurado.
         Richard voltou a olhar ao Harper surpreso:
         -Acredita que sou inocente?
         -Isso  o que me disse. Eu estou to surpreso como voc. Mas j sabemos como so as mulheres quando lhes colocam idias estranhas na cabea -respondeu Harper 
brincando.
         -Sou inocente.
         -Sim, sei, mas me pergunto o que haver dito ou feito para convencer disso a lady Rosamund.
         -Nada. Nada absolutamente.
         -Bom, os dois sabemos que no ter sido por seus encantos, porque no tem nenhum. Assim  exatamente o que eu hei dito. As mulheres tm s vezes estranhas 
intuies, e no h explicao para isso.
         Richard mastigava o po e sorvia o caldo sem dar-se conta do que fazia. Sabia que devia estar terrivelmente doente, porque estava comeando a ficar de novo 
muito sensvel.
         -Quer mais? -perguntou Harper lhe tirando ao Richard o tigela vazio das mos.
         Richard negou com a cabea.
         -Tambm tem feito ela o guisado?
         - obvio que no.  a filha de um duque, recorda? Sabe como ferver gua, e isso  tudo -disse Harper lhe olhando aos olhos.
         -Ento, como sabe tanto de medicina?
         -Cavalos -respondeu escuetamente Harper.
         -Cavalos? -acrescentou Richard elevando as sobrancelhas.
         -Nos estbulos do duque. Isso  o que me disse. Parece ser que um Devere deveria envergonhar-se de no saber cuidar de seu prprio cavalo quando fica doente. 
Teve sorte de no te haver rompido uma perna, porque poderia ter estado tentada de te tirar de sua misria. Permanentemente, quero dizer.
         Quando seus ombros comearam a agitar-se, Richard apertou com fora seu brao direito contra o peito para aliviar a dor.
         -No, no acredito -disse Richard-. Rosamund  incapaz de fazer mal a ningum.
         A expresso de sua cara, seu tom de voz e a forma de referir-se a lady Rosamund solo por seu nome de pilha faziam que a mente do Harper ficasse a trabalhar 
a cem por hora. Se no o tivesse conhecido to bem, dizia-se a si mesmo, estaria quase convencido de que ali tinha tido lugar um pequeno romance. Mas estava seguro 
de que isso era impossvel, porque conhecia muito bem a seu chefe. Embora nunca lhe tinha faltado uma mulher formosa na cama, jamais se havia sentido unido a nenhuma. 
De fato, as mulheres lhe eram indiferentes. Muito tempo atrs, Harper tinha decidido que possivelmente seu chefe teria sofrido uma m experincia alguma vez e no 
lhe tinham ficado vontades de repetir. Ningum o podia entender melhor que ele. Tinha tido tantas ms experincias, que tinha jurado que se manteria afastado das 
mulheres de por vida.
         Embora tinha desejado algo melhor para seu chefe, em lugar de v-lo convertido no velho solteiro em que se converteu ele. Esperava que ele encontraria 
a mulher adequada. Mas jamais lhe haveria passado pela imaginao que a mulher adequada poderia parecer-se com algum como lady Rosamund Devere.
         Essa no era a mulher adequada. Era a mulher equivocada, em todos os sentidos, e esperava que o coronel tivesse tido o suficiente sentido comum para v-lo.
         -por que dormi tanto? -perguntou Richard.
         -Fadiga. Perda de sangue. Comoo -disse Harper encolhendo-se de ombros-. E lady Rosamund te deu vrias gotas de ludano para que dormisse tranqilo. -Uma 
idia lhe passou pela cabea, e a disse-: Como te fez essa ferida to feia na cabea? Lady Rosamund no me soube explicar isso -Me dorm montado a caballo, y cuando 
me ca de la silla me golpe en la cabeza. Justo en el momento en que me levantaba, Rosamund se estaba resbalando tambin de la silla, pero la pude sujetar antes 
de que cayera al suelo.
         Richard sorriu envergonhado.
         -Dormi montado a cavalo, e quando me ca da cadeira me golpeei na cabea. Justo no momento em que me levantava, Rosamund se estava escorregando tambm da 
cadeira, mas a pude sujeitar antes de que casse ao cho.
         "Outra vez Rosamund", pensou Harper, e no gostava de nada como soava isso. Possivelmente a queda tinha afrouxado algum parafuso a seu chefe, ou pode que 
o ludano tivesse afetado suas defesas e em uma ou duas horas voltasse a ser o mesmo de sempre -frio, reservado e cnico, exatamente como ao Harper gostava.
         -O que te fez traz-la at aqui? -perguntou-lhe Harper, por fim.
         -Tentava fugir da tropa e naquele momento por aqui se podia passar -disse Richard encolhendo-se de ombros-. Estava muito doente para pensar em outra coisa 
que no fora chegar at aqui. No estava seguro de se o conseguiria.
         Harper meditou sobre o que lhe dizia seu chefe e assentiu com a cabea.
         -E agora -disse-, o que vamos fazer com ela?
         -Fazer com ela? -repetiu Richard. Estava olhando fixamente o fogo com um sorriso quase imperceptvel nos lbios-. Vo mand-la a casa e a nos esquecer dela. 
-acomodou-se na poltrona e olhou ao Harper-. No vai dizer lhe a ningum onde estou. Poderia-o ter feito j se tivesse querido. Alm disso, quando a mandarmos a 
sua casa, j ningum me seguir procurando pela recompensa e os protestos se sossegaro.  a melhor soluo a tudo isto.
         Considerando todas as opes, Harper pensou que era uma excelente ideia.
         Ao cabo de um momento, Richard se endireitou e disse:
         -H algo de beber por aqui?
         Harper encontrou a licoreira e serve as bebidas. Quando se voltou a sentar, Richard tomou um saudvel gole e disse:
         -me ponha ao dia, Harper. me conte outra vez por que demoraste tanto em chegar at aqui, e no te deixe nada.
         Agora Richard j comeava a parecer-se mais a seu chefe. Harper se sentiu alegremente agradecido.
         
        Captulo 12
         Rosamund logo que soube o que dizer quando Harper a acompanhou at o dormitrio do Maitland e logo desapareceu. Maitland parecia to diferente -elegante 
era a palavra-, vestido com uma fina jaqueta azul e calas negras. Ela supunha que ainda estaria em cama.
         O vestido que levava ela, que Harper tinha tirado de alguma parte, devia ter pertencido a uma instrutora. Era de cachemira azul e, para seu consolo, abotoava-se 
por diante. A saia lhe chegava at os tornozelos, mas solo porque a tinha estirado para baixo. Harper no pde encontrar sapatos de sua talha, assim ainda levava 
postas as botas. lavou-se o cabelo e, como no tinha sabido o que fazer com ele, este caa sobre seus ombros como uma bucha. O jogou para trs com um gesto brusco. 
O parecia sentir-se bastante mais cmodo que ela.
         -Lady Rosamund, por favor, sente-se -disse ele-. Supondo que saber desculpar este cenrio. -Sorriu com ironia e gesticulou com uma mo assinalando a cama, 
que agora estava perfeitamente arrumada-. Mas depois do que havemos passado juntos... Bom, esta  a habitao mais quente da casa. Se acendssemos o fogo no salo 
nos levaria toda uma vida que se esquentasse toda, e algum teria que vigi-lo constantemente.
         Sabia do que estava falando. Harper lhe tinha explicado qual era a situao. Tinham contratado a gente do povoado para que a casa estivesse preparada quando 
eles chegassem, mas teria sido muito arriscado mant-los ali. A histria que tinha contado Harper era que seu patro sofria tsica e tinha decidido transladar-se 
ao campo para recuperar a sade. Traria com ele a seus prprios criados. Mas ali no tinha criados, e eles mesmos tinham que fazer todo o trabalho.
         Quando Rosamund se sentou no lado da cadeira que lhe assinalava Richard e ele se acomodou em que havia em frente, ela ficou observando-o com ateno. Estava 
muito plido, e lhe pareceu que fazia uma careta de dor ao sentar-se.
         -Lady Rosamund, tenho que te dar as obrigado por... -comeou a dizer.
         -No deveria estar levantado -lhe interrompeu ela bruscamente-. Todo o trabalho que me tomei ter sido em balde se sofrer uma recada. Agora te conheo 
muito bem, Richard Maitland, como para que tire o sarro. No se sente a metade de bem do que pretende me fazer acreditar.
         O respirou profundamente e a olhou quase com ferocidade, mas uma de seu clidas sorrisos fugazes iluminou sua cara.
         -Deixa-me acabar o que estava dizendo? decidi te enviar a sua casa, lady Rosamund. Ir amanh com as primeiras luzes do alvorada. Harper te levar at alm 
do Windsor e ali alugar um carro para que te leve at o Twickenham.
         Ele tinha voltado a cham-la lady Rosamund, e isso lhe soou estranhamente ineqivoca. Sups que essa era sua maneira de fazer as coisas, de lhe dizer que 
se estava tomando com ele muitas familiaridades.
         -Bom, isso j o ouvimos antes, no  assim? -disse ela esboando um sorriso.
         -J sei que te parece que no sou capaz de manter minha palavra -respondeu ele com um gesto de culpabilidade-. Mas antes no tinha eleio, estvamos rodeados 
pela tropa. O que outra coisa podia fazer?
         No entendia por que estava sendo to teimosa. J se tinha dado conta de que Maitland e Harper a olhavam como a uma amiga. No a vigiavam absolutamente. 
Podia ir e vir por onde quisesse. E de fato, j tinha suposto que assim era como ia acabar todo aquilo.
         De repente sentia vontades de dar marcha atrs ao relgio, de no ter ido visitar o Callie e de no ter feito essa estpida viagem ao Newgate, e ento nunca 
teria chegado a conhecer o Maitland.
         Ele a estava observando em silncio, estudando seu rosto.         
         -Digo-o de verdade. Vou enviar a sua casa -disse ele franzindo o sobrecenho.
         -Creio-te.
         -Espero que esteja contente.
         -Estou-o.
         -Ento, o que te passa? No que est pensando?
         Estava pensando em que nunca mais voltaria a lhe ver.
         -Onde vo? O que ides fazer? -perguntou ela.
         - melhor que no saiba -respondeu ele com uma estranha meia sorriso.
         -No pensar que te vou trair? No o farei, lhe asseguro -disse isso ela, e suas costas se contraiu.
         O a olhou fixamente, com os olhos muito abertos:
         -Isso no me h passado pela cabea nenhuma s vez. No h ningum em quem confia mais que em ti. Ao menos agora. -Sua expresso trocou, e continuou-: vou 
limpar minha reputao, isso  o que vou fazer.
         A resposta dela foi dura e rpida.
         -Seria melhor que pensasse em comear uma nova vida onde ningum te conhea.
         E ele replicou com a mesma dureza.
         -Lucy Rider foi assassinada. No posso deixar que seu assassino ande solto.  algo que devo fazer.
         -Sei, sei -respondeu ela docemente.
         Seus olhares se cruzaram, e por um instante foi como se se estivessem vendo o um ao outro pela primeira vez. Todas as coisas sem importncia tinham desaparecido 
-a classe social dela, os prejuzos dele. O relgio seguia com seu tictac, as cortinas seguiam balanando-se ao vento, o fogo faiscando e flamejando. Mas eles estavam 
ausentes de tudo; de tudo menos deles mesmos.
         Richard foi o primeiro em voltar em si. Com o olhar perdido, disse em um estranho tom de voz:
         -Estou seguro de que Harper nos deixou por aqui uma garrafa de xerez. Ah, sim, aqui est. -tocou-se o peito com uma mo e fez uma careta de dor-. Te importaria 
servi-lo, lady Rosamund?
         -Absolutamente. -Sua voz era natural, seu sorriso tambm, mas quando j tinha servido os dois copos de xerez, sua mo ficou paralisada. No podia acreditar 
o que lhe estava passando. "Por Deus, ele no! -pensou desesperada-. Qualquer exceto Richard Maitland! Qualquer!"
         A culpa de todo a tinham as circunstncias fora do comum nas que se encontravam, disse-se. Primeiro ele a tinha aterrorizado, logo tinha feito que aflorasse 
sua piedade e agora a estava tratando como se fora um aliado. No era estranho que se sentisse confusa. Quando retornasse com sua famlia, as coisas voltariam a 
colocar-se em seu lugar.
         antes de que seu silncio pudesse ser muito explcito, Rosamund disse com rapidez:
         -Ento, quais so seus inimigos, Richard? -Tinha-lhe chamado por seu nome de pilha de uma maneira to natural que a desconcertou. Um olhar rpido em direo 
a tranqilizou, ao dar-se conta de que no tinha notado nada estranho. Estava imerso em seus prprios pensamentos-. Sabe quantos so?
         -Se tiver que dizer a verdade, sim. So uma dzia, mais ou menos -respondeu aceitando o copo que lhe oferecia.
         -Quem ia pensar que podia ser to popular?
         Ele arqueou suas sobrancelhas e a fulminou com o olhar, viu o impassvel sorriso dela, e lhe respondeu rendo entre dentes:
         - o nmero de casos nos que trabalhei desde que estou no Servio de Segurana. -Tomou um gole de xerez-. Mas se formos mais atrs,  guerra da Espanha, 
bom, os agentes no vo por a precisamente fazendo amigos em nosso trabalho.
         -Ento, o motivo  a vingana?
         -Ou sei algo, que no sei o que  nem como cheguei ou seja o, e algum tem medo de que algum dia possa pr as cartas sobre a mesa e todo tire o chapu. 
Mas no creio que seja essa a razo pela que me converteram em um objetivo.
         -por que no?
         -Porque o assassino do Lucy poderia me haver matado tambm. Para que esperar? Para que maquinar esse elaborado plano que me levou a ver-me desacreditado? 
Creio que o planejaram tudo, at inclusive minha execuo.
         Ela meneou a cabea.
         -O que acontece?
         -A ferida de faca. Poderia ter sido mortal para ti.
         -Sim. -Sua boca se estirou-. Isso  o que no entendo. Mas se queria me matar, por que no me apunhalou nas costas ou me golpeou com algo na cabea?
         -Porque as autoridades se teriam dado conta de que algum mais que voc e Lucy tinha estado naquela habitao -respondeu ela lentamente conforme ia pensando.
         -E o mesmo haveria passado se a ferida tivesse sido mortal -acrescentou ele sonrindole-. Possivelmente queria que me sangrasse at morrer. Talvez estou 
pensando que  muito imaginativo, muito previdente. Mas no acredito. E de uma vez, no creio que tentasse me ferir muito mais do que o fez, mas eu me movi, sabe?, 
e a faca errou o golpe. Bom, agora bebe seu xerez antes de que nos separemos.
         Ela tinha ainda na mo a taa de xerez, que nem sequer havia meio doido. Bebeu um sorvo e logo outro, mas o fez sozinho para lhe agradar. Estava refletindo 
a respeito de como havia mudado por completo sua maneira de ver o mundo em somente uns dias, e como, agora que acreditava em sua inocncia, tudo o que lhe contava 
adquiria um novo sentido.
         -A que vem essa meia sorriso? -perguntou ele interrompendo o curso de seus pensamentos.
         Ela levantou a vista.
         -Recordava-me mesma pensando, quando lia a respeito de ti nos peridicos, que foi completamente culpado.
         Os extremos de sua boca se levantaram levemente.
         -O que te tem feito trocar de opinio?
         -Cuidou bem dos cavalos -respondeu ela sem pens-lo duas vezes.
         -Isso  todo um elogio.
         -E no me fez mal -acrescentou sorrindo-. No  muito diferente a meu pai. Tambm ele grunhe como voc.  bastante intimidatrio para a gente que no o 
conhece.
         -Tratarei de no esquec-lo -disse ele em tom mordaz.
         Ao cabo de um momento ela seguiu falando.
         -Que aconteceu, Richard? Quero dizer que li o que diziam os peridicos sobre o julgamento, mas queria ouvir voc verso da histria. O que aconteceu Lucy?
         -J sabe o que aconteceu. Os peridicos tambm falavam de minha declarao. O problema  que ningum me acreditou.
         -De acordo. Eu te creio e estou disposta a te escutar, assim conta-me o de novo. -Quando ele a olhou aos olhos fixamente, ela deu um pequeno coice-. Nunca 
se sabe. Eu vou ouvir sua histria pela primeira vez, poderia ver algo que te haja passado como alto.
         Ele esteve a ponto de rir, mas algo na expresso dela pareceu lhe fazer trocar de opinio e simplesmente disse:
         - muito amvel, mas antes volta a encher minha taa de xerez, por favor, e logo lhe conto. -Quando lhe ofereceu a taa, ele se acomodou em sua cadeira 
e comeou a falar.
         O tenente Alex Rider, explicou-lhe, era o pai do Lucy. Tinha servido com ele na guerra da Espanha. Seus caminhos se separaram durante um tempo e logo voltaram 
a encontrar-se no Waterloo.
         -E ali foi onde morreu Rider. Como sua comandante em chefe, eu escrevi ao Lucy para lhe informar da morte de seu pai. Quando acabou a guerra, voltei para 
a Inglaterra e me encontrei com o Lucy, totalmente por acaso, no George and Dragon, onde ela trabalhava. Isso aconteceu faz quase um ano. Jantava ali freqentemente 
porque est a s cinco minutos andando desde minhas habitaes. Sempre lhe deixava uma boa gorjeta (pela lembrana de seu pai e porque ela estava passando por uma 
m poca), e essa era toda a relao que tnhamos.
         Lhe lanou um olhar interrogativo, mas quando viu que ela no dizia nada, tomou um momento para pr em ordem suas lembranas antes de continuar. Conforme 
descrevia quo feitos conduziram de noite do assassinato do Lucy, comeou a recordar coisas que acreditava esquecidas.
         Durante o ltimo ms antes de seu assassinato, Lucy estava trocada, disse-lhe. Necessitava conselhos, tinha que pedir dinheiro emprestado. Punha mil desculpas 
para v-lo mais freqentemente.
         -A noite que morreu Lucy, eu tinha uma entrevista com ela. Queria que a ajudasse a escrever uma carta a certa senhora que tinha colocado um anncio para 
encontrar uma donzela de salo. No me importava faz-lo. Isso podia significar uma grande melhora em sua situao econmica. Assim no suspeitei nada e fui ver 
a ao George and Dragon.
         -E o menino? -acrescentou Rosamund quando ele fez uma pausa.
         O tomou um bom gole de sua taa e respondeu.
         -Esse menino, mais que qualquer outra coisa nesta srdida histria, faz-me me estremecer de repulso. Aquele menino sabia o que estava fazendo. Tinha ido 
ali por seu prprio p. Nunca esquecerei como me olhou quando eu me dava conta de que Lucy estava morta. -Tomou outro comprido trago e continuou-: Me estava esperando 
ao final da escada. Pensei que era um botes ou um engraxate. Em realidade nem sequer pensei nele. "Lucy te est esperando", disse-me, e eu lhe segui at a habitao. 
Agora me dou conta de que o que pretendia era me distrair.
         Trocou de posio e ela pde ver a tenso que se marcava em profundas linhas em sua frente e suas bochechas.
         -Havia uma vela sobre a cmoda. Ela estava sobre a cama, dormida, pensei. O menino se parou aos ps da cama olhando fixamente para ela. -Richard meneou 
a cabea-. No sei que me fez jogar mo  pistola, mas isso foi o que fiz. A partir desse momento, tudo aconteceu muito depressa. -Fechou os olhos-. Vi o sangue. 
Olhei ao menino. Algum me agarrou com um brao pelo pescoo de detrs. Eu lutei e ele me apunhalou no peito. Me caiu a pistola. Ento me colocaram em uma cadeira, 
e meu atacante e o menino partiram. -Seus olhos se abriram como pratos-. No sei quanto tempo estive sentado ali, mas lembrana que pensava que se no fazia algo 
rpido ia morrer sangrado.
         -E sua pistola? -disse ela recordando que tinha havido um disparo.
         -Me tinha cansado entre o colcho e a travessa da cama. Ao final a recolhi, consegui disparar e isso atraiu s pessoas que chegou correndo at a habitao. 
Prenderam-me o dia seguinte, quando encontraram a faca que matou ao Lucy na rua, sob a janela da habitao. O resto j o conhece.
         O resto era que o menino e a pessoa que tinha atacado ao Richard desapareceram como se se esfumaram no ar, e ningum acreditou que tivessem existido jamais. 
Ento comeou o pesadelo: o julgamento, as testemunhas, o encarceramento, e finalmente a sentena de morte.
         Pensar nisso fez que Rosamund sentisse calafrios por todo o corpo. A tarefa de limpar a reputao do Richard parecia uma empresa impossvel.
         -E bem, tem as concluses de uma nova perspectiva? -disse ele com brilhos nos olhos-. Quem est tratando de me destruir, Rosamund?.
         Lhe respondeu com seriedade.
         -Algum que tenta te fazer pagar um olho por olho e dente por dente; algum que quer te fazer sofrer igual a sofreu ele e que solo quando tiver perdido 
tudo o que te importa, sua boa reputao, sua posio no Servio do Segundad do Estado e seus amigos, sentir-se satisfeito de ver-te avanar para a forca.
         -Ou possivelmente no. Parece-me que essa pessoa est to obcecada contigo que j deve sentir-se contente solo pensando que ser um fugitivo durante o resto 
de sua vida. Mas o que passar se lhe sobrevive? No, isso no funcionaria. Tem que morrer, mas solo quando ele tenha acabado contigo. -Lhe olhou diretamente aos 
olhos-. E no creio que tenha acabado contigo ainda.
         -Estou disposto a aceitar que o motivo de minha desgraa  a vingana, mas no adornemos os fatos.
         -Joga xadrez?
         -Se fizer o que?
         -Se jogar xadrez.
         -um pouco.
         -um pouco? E isso o que significa? Joga ou no joga?
         -De acordo, jogo! Mas o que tem que ver isso com o que estamos falando?
         -O homem que te persegue joga xadrez, ou se no o faz, poderia faz-lo. No pensa em um s movimento cada vez. O coloca o tabuleiro, faz seu gambito de 
abertura e v em sua imaginao qualquer possvel movimento que possa fazer seu adversrio e os contra-ataques que pode fazer ele at que tenha ganho a partida.
         -Parece-me que o xerez te subiu  cabea -disse ele.
         Ela estava muito concentrada em seus prprios pensamentos para poder responder em seguida. Em sua imaginao estava vendo como se desenvolveu a partida
         -Entre o Lucy e voc tudo era inocente at que apareceu em cena o senhor Sinistro. A partida comeou realmente um ms antes daquela noite fatdica. O primeiro 
que ele fez foi converter ao Lucy em seu peo. No. Em sua rainha. Desde esse momento teve a ti indo de um quadro a outro do tabuleiro, e nunca te deu conta do perigo. 
Mas podia prescindir do Lucy quando quisesse, e chegado o momento no duvidou em sacrific-la. De fato, tinha-o j tudo planejado antes de comear a partida.
         "Pensemos agora no julgamento. Ali te teve exatamente como te queria ter. Miras ao redor no tabuleiro. Est sozinho, sem cavalos, torre ou bispos que lhe 
ajudem, nem sequer um peo.
         Os olhos dele estavam transbordantes de diverso.
         -Esqueceste-te que o Harper e Hugh Temperar.
         -Hugh Temperar? Pensei que te tinha abandonado assim que comeou o julgamento.
         -No. Estava ajudando ao Harper a preparar minha fuga.
         -Ento, esse foi um movimento brilhante por sua parte -disse ela lhe olhando com admirao.
         -E agora tambm est voc -acrescentou ele com suavidade.
         Ela pensou que o dizia a srio.
         -Sim, mas isso foi sorte. E neste jogo no pode depender da sorte.
         -Pois eu creio muito na sorte.
         Ela levantou a vista, viu a risada em seus olhos, e sorriu com ele.
         -Pode te burlar de mim, mas o xadrez  lgico, e se miras o bastante longe para diante, pode chegar a ver o que seu oponente vai fazer.
         -Quem se est burlando? Para te dizer a verdade, estou fascinado. me conte mais. Eu estou sozinho no tabuleiro. O que h do senhor Sinistro?
         -Ah, ele est colocando todas as peas que tem para conseguir o mate: as testemunhas contra voc, o fiscal, os jornalistas e o boca a boca, a opinio pblica... 
Mas a partida no acabar at que lhe pendurem.
         Lhe aconteceu uma idia pela cabea, e seus olhos cinzas se iluminaram.
         -Ah, como eu gostaria de poder escutar agora o que est pensando! Estaro-lhe chiando os dentes porque lhe superaste tcticamente ao escapar do Newgate. 
Esse era um movimento que ele no podia antecipar. Ningum pode escapar do Newgate.
         -ouvi bem? -Colocou uma mo detrs da orelha-. Me est elogiando por algo?
         Ela jogou a cabea para trs e riu.
         -Creio que o senhor Sinistro estar dando-se conta agora de que encontrou a frma de seu sapato. Mas no o subestime. A lei est de sua parte, e seguro 
que estar rodeado de cmplices.  obvio, Lucy j no est no jogo, mas ainda fica esse menino ao que ningum encontrou. E seguro que tem que haver outros muitos.
         Ele bebeu seu ltimo gole de xerez.
         -O que no entendo  como conseguiu persuadir ao Lucy para que se envolvesse nisto -disse ele.
         -Ela te caa bem, no  assim?
         -Muito. No era mais que uma moa, e era rf, mas nunca se queixava do que lhe havia meio doido viver. Realmente me custa acreditar que ela fora parte 
de um compl contra mim, mas no vejo outra explicao para as mentiras que me contou.
         -Creio que devia estar apaixonada por ele. -Quando ele ps m cara, ela sorriu-. Sei, sonha desatinado, mas algumas mulheres fariam algo por amor. E no 
pode imaginar os contos que lhe deveu fazer tragar; lstima que Lucy mordesse o anzol. -Lhe olhou fixamente muito sria-. Se pudssemos descobrir quem, no passado, 
acreditou que tinha sido castigado injustamente por sua culpa, saberamos de quem se trata. Deve ter perdido tudo o que lhe importava, da mesma maneira que agora 
voc o perdeste tudo.
         -No h ningum. Nunca mandei a ningum a julgamento se no tinha uma irrefutvel evidencia de que era culpado. -Fez uma pausa-. Maldita seja!
         -Sim -disse ela-. No  isso exatamente o que te h passado a ti?
         -Isso no ajuda em nada. No tenho nem idia de quem pode ser essa pessoa.
         -Tem que haver algum -disse ela esperanada.
         -Pois no h ningum.
         -No resolva o assunto to rapidamente. Pensa nisso! Pensa-o a srio!
         Ele esteve em silencio durante um momento. Ao final, sacudiu levemente a cabea, como se no pudesse aceitar a resposta que ia dar.
         -O que? -perguntou ela.
         -A nica pessoa que concorda com essa descrio sou eu mesmo. Aconteceu faz muitos anos, e fui eu o que esteve a ponto de ser destrudo. Assim que aquele 
episdio pode no ter nada que ver com isto.
         -O que aconteceu?
         -No tem importncia.
         Seu rechao a confiar nela, como se no tivesse demonstrado que ela confiava plenamente nele, foi como uma bofetada na cara. Sentiu que suas bochechas avermelhavam 
e se incorporou na cadeira.
         -Sente-se, Rosamund -disse ele.
         Ela se sentou, mas ele ficou olhando o fogo fixamente.
         Ao cabo de um momento suspirou, e a seguir comeou a falar lenta e tranqilamente.
         -Ocorreu durante meu primeiro curso em Cambridge. Eu sozinho tinha dezessete anos e estava disposto a algo com tal de fazer fortuna. Cambridge era para 
mim como um sonho feito realidade, uma das melhores universidades de toda a Inglaterra. Meu pai nunca teria podido me enviar ali. Mas eu tinha uns benfeitores, Andrew 
Dunsmoor e sua esposa. Eles passavam todos os anos uma temporada em Esccia visitando minha famlia. Fomos famlia longnqua. Foram muito bons comigo, muito generosos, 
e se interessaram muito por mim. Alm disso, eles no tinham tido filhos, entende?
         "Quando fiz dezesseis anos, convidaram-me a que devesse viver aqui com eles, e o fiz, com a bno de meus pais. Eles, meus pais, solo viam as vantagens 
deste acerto e nenhum dos inconvenientes. Ao ano seguinte, quando Dunsmoor me matriculou em Cambridge, meu pai estava eufrico, igual a eu.
         Richard deixou escapar uma seca gargalhada.
         -Mas aquilo no era como me tinha esperado isso. Durante toda minha vida me tinham educado para que fora uma pessoa honrada. Meu pai sempre me havia dito 
que, para a gente de nossa posio, uma boa educao era a chave para avanar na vida. Sentia que o devia a meus pais, e tambm aos Dunsmoor. Entretanto, quo jovens 
conheci em Cambridge viviam segundo outro credo. Eles estavam ali para divertir-se, e isso  o que faziam: veio, mulheres, jogo e todo tipo de farras de classe alta. 
 maioria no importava se os expulsavam, e a muitos os expulsaram. Tinham dinheiro a cestas, contatos familiares... esse tipo de coisas. Eu estava desconjurado 
ali. Para ser honesto, eu era meu pior inimigo. Comportava-me como um maior dissimulado.
         Richard ia deixando ocos na histria que no eram difceis de preencher. Um jovem proveniente de uma famlia modesta em meio de um monto de moos que acreditavam 
que sua riqueza e seus privilgios estavam garantidos. Deveu estar desconjurado desde o comeo, e quando se negou a unir-se a eles nas festas das que estava falando, 
foi rechaado por todos. Logo sua prpria arrogncia lhe acabaria isolando ainda mais. Os moos dos que ele falava pareciam ser mais ou menos como seus irmos. Possivelmente 
no foram deliberadamente cruis, mas sim mas bem indiferentes; mas essa era a pior crueldade de todas.
         Ele estava observando fixamente sua taa, mas, embora esta tinha forma de bola de cristal, no estava olhando nela seu futuro, a no ser voltando com ela 
atrs no passado.
         -Mas por selvagens que fossem aqueles moos, e isso  o que fomos todos, s moos, tinham um sentido da honra muita desenvolvida -disse ele-. Qualquer que 
rompesse seu cdigo era imediatamente considerado desprezvel, e  obvio tratado como tal.
         -E voc rompeu esse cdigo? -perguntou ela com suavidade.
         -No, mas eles acreditaram que o tinha feito. Comearam a desaparecer coisas: pequenas quantidades de dinheiro, uma jia, e no recordo que mais. Um dos 
moos, Middler, tendeu-nos uma armadilha a todos sem dizer-lhe a ningum, e outro moo e eu camos nela. Os dois entramos na habitao do Middler, um atrs do outro, 
sabendo ambos que Middler tinha escondido ali uma letra de mudana do banco de seu pai. No ter que dizer que o dinheiro desapareceu. E  obvio, o ladro tinha 
que ser eu ou o outro moo.
         -O que estava fazendo voc na habitao do Middler?
         -Tinha-lhe emprestado um livro no princpio do curso e queria que me devolvesse isso. E quanto ao outro moo, Frank Stapleton, ele e Middler estavam sempre 
entrando e saindo o um da habitao do outro. Eram muito amigos.
         Ela produziu um leve som inarticulado, sabendo o que era o que ele ia dizer a seguir.
         -No faz falta que te conte o resto -disse ele-. J pode imaginar que histria se acreditaram. Como j te hei dito, eu estava desconjurado. Assim era eu 
o que devia ser castigado.
         -Golpearam-lhe?
         -Ah, no. No fizeram nada to incivilizado. Disseram-me que abandonasse Cambridge e que nunca mais voltasse a pr os ps por ali. Ao que eu respondi que 
iria dali solo quando o decidisse eu, e no antes. Assim que eles me castigaram com seu silncio.
         -OH, Por Deus!
         -Aquilo no durou muito. Sabia que Frank Stapleton tinha que ser o ladro, assim procurei evidncias que o provassem. poderia-se dizer que foi meu primeiro 
caso. -Quando viu que no lhe devolvia o sorriso, Richard se encolheu de ombros-. Naquele momento ele j tinha levado a empenhar a jia e outras pequenas coisas 
que tinha roubado. Para resumir o que foi uma larga histria, o dono da casa de empenho culpou a ele e me exonerou .
         -E o que passou com o dinheiro?
         -Quando tirou o chapu que Stapleton era um ladro, seus prprios amigos lhe fizeram confessar. O tinha gasto pagando emprstimos. A ironia do assunto foi 
que tinha pedido dinheiro emprestado para gast-lo com seus amigos.
         -Tiveram que ser muito mais severos com o Stapleton do que o foram contigo.
         -Como sabe? -disse ele surpreso.
         -Porque sua ofensa era mais importante. Deixou que se castigasse a um inocente por sua culpa. Isso foi uma covardia. O que fizeram a ele?
         Os olhos dele se escureceram.
         -Melaram-no de breu e o deixaram toda a noite  intemprie, pacote a uma rvore em meio de um ptio, para que  manh seguinte toda a universidade pudesse 
ser testemunha de sua desonra. Supondo que naquela poca eu acreditava que o tinha bem castigo, mas no demorei muito em me arrepender do que tinha feito. Stapleton 
abandonou Cambridge imediatamente. Eu fui pouco depois e nunca mais voltei. O curso seguinte me matriculei na Universidade do Aberdeen, com os de minha classe.
         -Fala com amargura.         
         -Porque tenho voltado a trazer para a memria essa horrvel lembrana. Se estivesse amargurado, no teria seguido por esse caminho muito tempo. -interrompeu-se 
de repente-. Mas isso no tem nada que ver com isto. Queria saber se alguma vez desonrei a algum, e esta foi minha resposta. Mas Stapleton no era inocente; era 
culpado. Assim j v, no estamos na mesma situao.
         Ela se encolheu de ombros.
         -Est decepcionada?
         -Creio que sim. Pensava que amos chegar a alguma parte. O que foi do Stapleton?
         -No tenho nem idia.
         -E esses outros moos que o emplumaram e embrearam?
         -Vi a algum deles um par de vezes, mas solo de passada. Tratamo-nos com amabilidade, mas mantemos as distncias. H algo incmodo nesses encontros... j 
sabe ao que me refiro. De todas formas, todo aquilo, aconteceu faz mais de dezessete anos. Acreditas que realmente pode ter alguma relao com o que me est acontecendo 
agora?
         -No, e  uma pena -disse ela deixando escapar um suspiro.
         A seguir voltaram a repassar todo o acontecido uma e outra vez, indo para diante e para trs, revisando cada detalhe em um esforo por achar uma pista que 
apontasse em alguma direo, mas tudo sem resultado. Harper lhes interrompeu quando chegou com o jantar. Esvaziaram uma mesinha e Harper colocou nela a bandeja.
         -Guisado de vitela com massa, e sobremesa -disse Harper.
         Quase ao momento voltou a partir.
         -vou ver como esto os cavalos -disse piscando os olhos um olho ao Rosamund.
         Mais tarde, quando tinham acabado de tomar o jantar, Rosamund disse:
         -me fale desta casa e do que aconteceu os Dunsmoor.
         -Ambos faleceram, e eu herdei a casa -disse ele.
         -Acreditas que estamos a salvo aqui? Quero dizer, no poderia vir aqui a tropa para te buscar?
         -Alm de eu mesmo -respondeu ele-, solo voc e Harper conhecem sua existncia.
         -Mas se esta era sua casa...
         -No o era. depois de abandonar Cambridge, nunca voltei para o Dunsmoor. Deixa que eu me preocupe disso, de acordo?
         O desprezo a pilhou com o guarda baixada, e se meteu de novo em sua carapaa, como uma tartaruga a que lhe deram um golpe no nariz. Ao cabo de um momento, 
Rosamund olhou o relgio, disse a hora que era e, alegando que estava cansada, levantou-se da mesa. O a acompanhou at a porta.
         Ouviu-o suspirar, logo sentiu as mos do Richard sobre seus ombros, e este a fez girar at t-la cara a cara.
         -Volta para casa, lady Rosamund, e te esquea de mim. -Por um momento suas mos apertaram levemente os braos dela, e logo as deixou cair e deu um passo 
atrs-. te Esquea de mim, Rosamund -voltou a repetir.
         Ela procurou sua cara. No havia em sua expresso nimo de ofend-la. Falava completamente srio, do corao.
         Seu prprio corao deu um tombo. No podia lhe dar a resposta que Richard esperava porque sabia que jamais poderia lhe esquecer nem poderia esquecer o 
perigo mortal que lhe ameaava. Isso seria tanto como abandon-lo, e isso no poderia faz-lo jamais.
         Escondeu sua pena detrs de um sorriso.
         -te cuide, Richard Maitland -disse ela-. Te tem feito um grande inimigo, e ele no acabou ainda contigo.
         antes de que as incipientes lgrimas se convertessem em uma corrente em seus olhos, Rosamund saiu a toda pressa da habitao.
         
        Captulo 13
         Ainda estava escuro quando Harper foi procurar a para lhe dizer que j era hora de que se fora preparando. Levou-lhe uma bandeja com ch e umas torradas, 
e lhe deixou uma muda poda de roupa.
         -Roupa de homem, porque a fora correremos perigo, e dois homens de viagem no chamaro a ateno -disse ele burlonamente-. As mulheres s causam problemas, 
se me perdoar a expresso Sua Excelncia.
         -E o coronel Maitland? -perguntou ela rapidamente antes de que Harper pudesse escapulir-se da habitao. Parecia que tinha muita pressa por afastar-se dela-. 
Como est?
         -No poderia estar melhor! Levantado desde bem cedo! Transbordante de sade! -E antes de que ela pudesse lhe perguntar nada mais Harper saiu da habitao.
         Ela se levantou da cama como uma flecha. No demorou muito em arrumar-se, e menos de dez minutos mais tarde, entrava no dormitrio do Richard para levar 
uma boa surpresa. A cama parecia, o fogo ardia na chamin, os restos de seu caf da manh estavam na mesinha que havia junto  janela, mas no havia nem rastro do 
Richard.
         - melhor que vamos j, Sua Excelncia -disse Harper do outro lado da porta aberta.
         Ela se voltou para ele.
         -Onde est, Harper?
         Harper olhou para o cho.
         -Eu.... n... creio que saiu a passear.
         -s escuras?
         Harper franziu o sobrecenho, suspirou e finalmente disse envergonhado:
         -No sei onde est, senhora, essa  a verdade. Mas me disse que tinha que tirar a daqui antes de que amanhecesse.
         Ela saiu detrs do Harper e percorreu o corredor at que chegaram a outra habitao, outro dormitrio. Todos os mveis estavam talheres com capas, e o mesmo 
na seguinte habitao, e na seguinte. Harper se zangou e lhe pediu que fora sensata; que estava perdendo o tempo e que, a fim de contas, era melhor assim.
         -Pense nisso, senhora, o que pode lhe dizer que no lhe haja dito j?
         Muitas coisas. havia-se passado a noite acordada pensando no que queria dizer ao Richard Maitland. Queria lhe dizer que sabia que poderia convencer a seu 
pai e a seus irmos de sua inocncia, e que eles fariam todo o possvel por demonstr-la. Queria lhe dizer que nada nem ningum poderiam fazer que perdesse a confiana 
nele.
         E isso era o mais importante: que soubesse que nada nem ningum poderiam lhe fazer perder a confiana nele.
         Isso a tinha mantido acordada toda a noite, no ao examinar os detalhes do crime pelo que lhe tinham condenado, mas sim por todos os detalhes que a ele 
lhe haviam passado como alto. Deveu sentir-se desconjurado quando foi a Cambridge. No era um deles, por isso o utilizaram de cabrito expiatrio. Era a lei da selva.
         "Castigaram-me com seu silncio."
         Sabia o que isso significava. Se ele entrava em uma sala comum, todos a abandonavam. Se se sentava a uma mesa, todos se levantavam e se foram a outra mesa. 
Cada dia e cada noite deveu estar sozinho com seus prprios pensamentos por companhia.
         Que horrveis moos!
         Embora fez falta algo mais que isso para desfazer-se do Richard. Quando pouco depois abandonou Cambridge, nunca mais voltou. E o mesmo tinha feito com essa 
casa. O qual solo podia significar que o senhor Dunsmoor tambm se ps em seu contrrio. Depois deveu trocar de opinio, porque lhe deixou a casa em herana. Mas 
Richard no dava segundas oportunidades s pessoas. Isso era patente. E esse era seu pior defeito.
         Deixou pela metade estas reflexes para lhe perguntar ao Harper:
         -Assegura-me que est bem?
         -Claro. Fez voc um bom trabalho com ele.
         Seguiu caminhando. Havia outra escada ao outro lado da casa, mas estava comeando a pensar que no tinha nenhum sentido seguir procurando. Se Richard no 
queria que lhe encontrassem, no lhe poderiam encontrar.
         -Vamos  -disse Harper amavelmente-.  hora de que vamos.
         A lstima que viu nos olhos do Harper fez que os seus se enchessem de lgrimas.
         -No te caio bem, verdade, Harper?
         Ele sabia perfeitamente ao que se referia.
         -No para o coronel, senhora; no a filha de um duque.
         Ela se tomou um tempo at que voltou a recuperar a voz.
         -Querer lhe dar uma mensagem de minha parte? lhe diga que no me dou por vencida facilmente. -E a seguir, antes de que sua atitude chegasse a ser vergonhosa, 
disse: Est bem, Harper, voc ganha. Vamos.
         
         
         Quando Richard se deu conta de que j se foram, deixou a um lado as notas que estava tomando. encontrava-se na ltima planta da casa, em um pequeno estudo 
que em outro tempo foi o seu, quando era virtualmente um membro daquela famlia. Mas isso foi muito tempo atrs, antes de Cambridge, antes de que se distanciasse 
do homem ao que em uma poca chamou "tio Andrews".
         Jogou sua cadeira para trs e se levantou, ao momento se parou ao sentir que uma onda de enjo lhe envolvia. Mas sabia que estava melhorando, e que voltaria 
a estar bem assim que lhe acontecesse a febre que ainda tinha. O enjo diminuiu em seguida e ento caminhou at a janela e olhou fora.
         Esperava poder v-la por ltima vez, mas a escurido era impenetrvel. O amanhecer no era ainda mais que uma sinuosa linha no horizonte, e no parecia 
que o cu fora a iluminar-se completamente, mas sim esse dia seria uma repetio dos anteriores. Chovesse ou no, havia uma insistente umidade que se metia em todos 
os rinces da casa. No se podia deixar nada fora.
         Nada exceto Rosamund.
         Esboou um sorriso. Esperava que ela tivesse entendido a mensagem. Estavam comeando a ser muito amigos, muito ntimos para seu gosto. No queria que nada 
nem ningum lhe distraram do que tinha que fazer. Alm disso, ele era um homem difcil de conhecer. Tinha deixado a seus amigos se separados desse lamentvel assunto, 
e precisamente agora no ia deixar que se envolvesse neles um aficionado.
         "Assassinou voc ao Lucy Rider?"
         "No."
         E de repente, sem mais, lhe acreditava.
         Uma mulher como essa era perigosa, no porque tomasse decises  ligeira, mas sim pelo efeito que estas podiam ter sobre quem as sofria. Se seu corao 
no tivesse estado protegido por uma capa de calos, poderia ter estado tentado de jogar pela amurada todas suas desgraas.
         Escutou outra voz formulando uma pergunta parecida, a do tio Andrews. "Roubou voc o dinheiro?"
         "No, senhor."
         "No me minta! Conheo bem a esses meninos! Conheo seus pais! Eles no lhe teriam acusado se fosse inocente. Assim que te perguntarei de novo. Roubou voc 
o dinheiro?"
         "No, senhor."        
         "No te creio!"
         Logo houve uma espcie de reconciliao, mas aps sua relao com os Dunsmoor j no voltou a ser como antes. Assim voltou para Esccia e, justo ao acabar 
a universidade, arrolou-se no exrcito. escrito-se esporadicamente, mas ele nunca tinha sido muito aficionado a escrever cartas. Enquanto estava na Espanha, o senhor 
Dunsmoor morreu, logo sua esposa, e dessa maneira chegou a casa at ele. Era o ltimo que tivesse esperado. O senhor Dunsmoor lhe tinha deixado em herana a casa 
e os terrenos colindantes, mas quando ele retornou a Inglaterra no lhe ocorreu voltar a instalar-se no Dunsmoor.
         A necessidade lhe tinha obrigado a retornar a essa casa, e agora que estava ali se perguntava o que lhe tinha feito manter-se afastado durante tanto tempo. 
Tinha visto e feito coisas, como agente secreto, que convertiam suas rixas com os Dunsmoor em algo corriqueiro. Fazia falta algo mais que tempo para deixar descansar 
esses fantasmas. Se se tivessem intercambiado as posies, se ele tivesse sido o tio Andrews, certamente haveria dito o mesmo.
         Ningum era to generoso como Rosamund.
         De novo Rosamund! Franziu as sobrancelhas e observou as notas que tinha sobre a mesa. Deveria estar as examinando concienzudamente, tentando encontrar a 
algum que encaixasse com o perfil proposto pelo Rosamund, algum que queria lhe ver sofrer quo mesmo ele tinha sofrido. Um olho por olho. Um dente por dente.
         sentou-se de novo  mesa e comeou a tomar mais notas. Meia hora mais tarde, quando j no sabia por onde continuar, saiu do estudo e desceu a seu dormitrio. 
A cama lhe convidava a tombar-se, mas no o fez. No esperava que Harper retornasse antes de vrias horas, e enquanto isso tocava a ele fazer-se carrego da chamin 
e do resto da casa.
         Embora estava convencido de que ningum podia relacion-lo com essa casa e no esperava ter problemas ali, tinha aprendido a ser cuidadoso e a no correr 
nunca riscos desnecessrios. depois de avivar o fogo de seu dormitrio e o da cozinha, colocou-se o casaco e saiu a jogar uma olhada pelos arredores.
         O sol estava fazendo um grande esforo por aparecer, mas ainda ficava oculto por espessas nuvens, e no s por elas. Uma fina nvoa se elevava do cho, 
cobrindo as rvores e o edifcio com uma espessa mortalha.
         Ignorou os elementos e ignorou os calafrios que estavam comeando a lhe estremecer. Com a cabea baixa e os ombros encurvados contra o vento, dirigiu-se 
ao estbulo. Solo ficava ali um cavalo, mas detrs encher o abrevadero com gua e comida, sentiu-se como se tivesse tido que cuidar de um monto deles.
         Fora ou no cuidadoso, sabia que se no retornava logo a sua cama ia se deprimir em qualquer parte.
         Estava subindo pelas escadas da entrada quando ouviu rudo de cascos de cavalos. escondeu-se detrs de uma coluna e jogou mo de sua pistola. Embora no 
podia ver nada, ficou escutando com ateno. Um cavalo e um cavaleiro, pensou, e galopava a toda pressa para a casa. Um inimigo teria sido mais precavido.
         Com essa idia, saiu de detrs da coluna. Quase ao mesmo tempo, o cavaleiro surgiu de entre a nvoa.
         -Richard! -gritou ela ao limite de suas foras.
         "Rosamund!" Ia afundada na cadeira e seu cabelo se balanava por detrs de sua cabea como uma onda. Viu-a passar. No se via o Harper por nenhuma parte. 
Quando se deteve, ele desceu correndo pela escada.
         -Tem que partir agora mesmo! -Sua voz saa em soluos chirriantes-. Nos vm seguindo. No h tempo de que sele seu cavalo. Sobe detrs meu.
         -E Harper? -perguntou ele.
         -Tenta afastar os daqui. No temos tempo para explicaes! Venha, sobe detrs meu.
         Agachou a cabea ao escutar um rudo. No estava exagerando. Soava como uma tropa de cavalaria galopando atravs do caminho que conduzia  casa.
         Amaldioando entre dentes, Richard subiu ao cavalo.
         -V para as colinas -lhe disse ao ouvido, e em seguida se agarrou fortemente a ela enquanto subiam ao galope a montanha.
         
         
         Quando atravessaram o bosque e chegaram a um montculo de erva do que se divisava a casa, Richard lhe pediu que se detivera. No havia muito que olhar. 
A casa estava rodeada de nvoa. Tudo o que puderam ver foram sombras, mas essas sombras se moviam.
         -O que h passado? -perguntou Richard.
         -No chegamos muito mais  frente do povoado -respondeu ela respirando com dificuldade-. Estava tudo sumido na nvoa. No sei exatamente o que  o que aconteceu, 
exceto algum que saa da estalagem gritou o nome do Harper. "Digby!", disse Harper, e me pediu que voltasse e te tirasse daqui imediatamente. E ento ele se foi 
por outro caminho para tentar afastar os daqui.
         Ela fez galopar ao cavalo de novo e procurou ansiosamente uma fresta no espesso lenol branco que cobria as colinas. O mesmo podiam estar perto do lado 
de um escarpado.
         -No possamos seguir por aqui -disse ela com desespero.
         Richard lhe falou em voz baixa ao ouvido.
         -No longe daqui h uma cabana de pastores. Possamos nos refugiar ali. te troque de lugar, me deixe que eu guie o cavalo.
         Ela desmontou com dificuldade e sentiu que suas coxas escorregavam da cadeira. O cavalo se tornou para diante assustado. Richard lhe fez dar a volta mas 
se manteve a distncia.
         -Agora me escute, Rosamund -disse ele-. Quero que retorne  casa. Ali estar a salvo. Se vier comigo pode correr perigo quando comearem os disparos. Buscam-me 
, no a ti. Volta para a casa. Entendeste-me?
         antes de que Rosamund pudesse abrir a boca, ele deu a volta em redondo e desapareceu na nvoa.
         Ela ps-se a correr e foi detrs dele.
         -Espera, est louco! -gritou com todas suas foras. Estava realmente zangada, zangada e assustada-. Eu sou sua nica esperana de escapar da forca! Teria-te 
dado conta antes se no tivesse sido to teimoso! -Seguia correndo e chiando como uma possessa-. me Ponha uma pistola na cabea e lhes diga que se no lhe deixam 
ir matar, igual a fez no Newgate!
         As lgrimas lhe caam pelo rosto. Tinha sofrido muito nas ltimas horas pensando que podiam hav-lo capturado. Estava desesperada. Ele no poderia chegar 
muito longe em meio da espessa nvoa, e quando seus perseguidores lhe alcanassem no foram dar nenhuma oportunidade. Necessitava-a embora fora solo para negociar 
sua liberdade.
         Ela avanava a tropices em meio da nvoa, ao limite de suas foras.
         -No pode te desfazer de mim! Irei aonde voc v! E te vais arrepender se em meio desta espantosa nvoa me disparam por engano. No tm por que dar-se conta 
de que sou a filha do Romsey. Vou vestida de homem, recorda? Logo te arrepender! Ir  forca com minha morte em sua conscincia...
         A ltima frase ficou interrompida quando tropeou com uma pedra e caiu de bruces contra o cho. Embora lhe faltava o flego, em seguida se incorporou sobre 
os joelhos. Viu aparecer uma mo em frente de seus olhos. Olhou para cima. Richard estava sobre o cavalo.
         -Obrigado -foi tudo o que disse ela, e se agarrou a sua mo.
         Sem dizer nada, ele a ajudou a ficar em p e logo a subir  garupa do cavalo. Seus tales apertaram os flancos do cavalo e saram ao galope.
         
         
         Ela tinha razo a respeito de que no chegariam muito longe, embora no fora por culpa da nvoa. Suas arreios tropeou e ambos caram ao cho. Ela foi primeira 
em ficar em p e tentou agarrar as rdeas do cavalo, mas este j tinha desaparecido ao trote na nvoa. Quando se deu a volta viu que Richard estava de joelhos.
         assustou-se ao dar-se conta de quo dbil parecia estar. No tinha tido ainda tempo de recuperar-se de suas feridas, e agora isto. Tentou ocultar seu medo 
e disse:
         -Onde est essa cabana?
         -Est muito perto.
         Ela olhou a suas costas escrutinando entre a nvoa, tratando de ouvir os passos de seus perseguidores. No pde ver nada nem ouvir nada. A nvoa no momento 
os tinha salvado, mas durante quanto tempo mais? Tragando-se seu medo, disse:
         -Iremos andando. Ponha seu brao por cima de meus ombros.
         Ele fez o que lhe dizia e se apoiou nela tratando de incorporar-se.
         -Estarei bem assim que cheguemos  cabana -disse Richard-. Logo quero que v.
         Ela no respondeu. No poderia abandon-lo embora quisesse. A nvoa era muito densa, no seria capaz de ver para onde dirigir-se. Todo o caminho era costa 
acima, assim reservaram o flego para o esforo. Rosamund no entendia como foram encontrar a cabana, mas parecia que Richard sabia para onde se dirigiam. Em um 
par de ocasies, quando a nvoa se esclareceu um pouco, ele se parou e observou o caminho a seguir. Ela no podia ver nada mais que sombras, mas para ele essas sombras 
pareciam ser marcas no terreno, e seguiram adiante. '
         Rosamund pensava que ele devia estar ao limite de suas foras, mas ao cabo de um momento foi ela a que comeou a sentir-se sem foras e ele quem teve que 
lhe dar nimos.
         -No falta muito -disse Richard-. No te d por vencida. Ali descansaremos e logo decidiremos o que possamos fazer.
         Ela no tinha nem idia do que podiam fazer. Richard tampouco tinha pensado ainda nisso. Mas era uma pessoa com recursos. Se tinha escapado do Newgate tambm 
poderia escapar dali.
         Chegaram  cabana justo quando Rosamund estava comeando a pensar que j no podia dar nem um passo mais. As paredes eram de pedra e o teto de palha, e 
o cho de paraleleppedos, como as ruas de Londres. Mas era uma cabana to pequena que duas pessoas agarradas das mos e estirando os braos poderiam tocar as paredes 
opostas.
         -De quem  esta cabana? -perguntou ela.
         -De todos e de ningum. Os pastores utilizam estas cabanas em caso de emergncia, quando lhes surpreende nas colinas a nvoa ou uma repentina nevada.
         Havia um estreito camastro com um jergn de palha, e um tamborete ao lado da enegrecida chamin. Ao outro lado da chamin havia uma caixa de iscas e um 
monto de lenha.
         Ela fechou a porta e ajudou ao Richard a tombar-se no camastro.
         -No possamos acender o fogo -disse ele-. A fumaa nos delataria. -interrompeu-se, sacudiu a cabea e soltou uma seca gargalhada-. De todas formas nos encontraro 
muito em breve. A nvoa se est dissipando. Acende o fogo se quiser.
         Fazia um momento que ela tinha estado a ponto de desfalecer, mas a idia da nvoa dissipandoa fez aproximar-se a toda pressa  janela.
         -Isso mesmo me parece  -disse preocupada.
         deu-se a volta justo para ver como ele se deixava cair no jergn.
         -Vem aqui -disse Richard alargando suas mos para ela.
         Ela se ajoelhou a seu lado e lhe agarrou as mos. Seus olhos procuraram os dele.
         -Tem febre?
         -No.
         -Di-te a ferida?
         -No. me escute, Rosamund. No me passa nada, solo estou esgotado. Hei passado toda a noite em vela pensando o que podia fazer contigo.
         -E decidiu me mandar a casa sem sequer voltar para ver-me -disse ela em tom de recriminao.
         Ele desceu a vista para lhe olhar as mos, logo as aproximou dos lbios e as beijou, primeiro uma e depois a outra.
         -Pensava que seria o melhor.
         lhe comeou a pulsar o corao com fora a causa do medo. Pensou que, para estar to despreocupado por seus perseguidores como parecia, Richard j se teria 
dado por vencido. Ela era incapaz de pronunciar uma s palavra. Quando ele a olhou aos olhos sorrindo, seu medo se comeou a converter em terror.
         -Pelo amor de Deus, Rosamund, tem que ser valente! -disse ele-. Assim que lhes ouamos chegar, tem que sair e lhes fazer saber quem . Eles entraro em 
por mim, mas acontea o que acontecer voc deve ficar fora. No volte a entrar aqui. Volta com sua famlia e te esquea de mim para sempre.
         -E o que passar se no o fao? -disse ela tremendo-. O que acontecer fico a seu lado? Richard, no se atrevero a te tocar se estiver contigo.
         Ele falava lenta e tranqilamente, como se lhe estivesse explicando todo isso a um menino.
         -Ento me levaro de volta ao Newgate e me penduraro. Isso  o que quer? Rosamund, quero morrer como um soldado. me deixe que mora com um pouco de dignidade.
         Um gemido afogado lhe alagou o peito. Abriu a boca para dizer algo, mas tudo o que saiu dela foi uma dbil choramingao. As lgrimas lhe rodavam pelos 
olhos.
         -No posso... no quero...
         -Rosamund, Rosamund.
         Ele a atraiu para si e a rodeou com seus braos. Beijou-a brandamente, e logo algo menos brandamente quando ela respondeu a seu beijo. Os braos dela rodearam 
sua nuca. Logo ele se separou um pouco para jogar para trs as lapelas do casaco dela e a seguir fazer o mesmo com as do dele. Em seguida voltou a estreit-la entre 
seus braos.
         -Esta  a primeira vez que me beijam -disse ela com a cabea apoiada em seu peito.
         -Parece-me difcil de acreditar -disse ele levantando sua cara para olh-la.
         -Isso  o que me passa por se a filha de um duque -disse ela tratando com muita dificuldade de sorrir-. Os homens tm medo de aproximar-se de mim. Ou possivelmente 
o tm de mim. Pode que no lhes parea atrativa. Isso  o que voc me disse na cabana da Chelsea, recorda?
         Ele inundou seus dedos no cabelo dela e aproximou sua cara  sua. Sua voz soava rouca.
         -Menti-te. , sem lugar a dvidas, a mulher mais atrativa e desejvel que conheci jamais.
         Embora suas palavras eram clidas, o frio dedo do medo tocou seu corao. Ele no estaria dizendo essas coisas se pensasse que poderia escapar com vida 
dali. assim, isso ia ser tudo o que foram poder viver juntos.
         De modo que era melhor que no o estragasse com lgrimas e recriminaes.
         Tentando afastar de si o medo e a angstia, Rosamund disse sorrindo:
         -Se ao menos tivesse sido uma garota corrente, em lugar da filha de um duque...
         -Sim -acrescentou ele com seriedade-. Se tivesse sido uma garota normal.
         Lhe olhou atravs de uma cortina de lgrimas.
         -Se houvesse... -comeou a dizer, mas sua voz se rompeu e no pde continuar.
         -Cala -disse ele beijando-a de novo-. No te atormente dessa maneira.
         Seu desejo se fazia mais fervente nessa pequena estadia, porque tentava fixar em sua mente e em seu corao a imagem dele para poder record-lo at o dia 
de sua morte. E o que estava vendo era algo mais que um simples homem. Nunca poderia esquecer ao Richard Maitland.
         - o cavalheiro mais nobre que jamais conheci -disse ela a meia voz.
         -me fale de ti, Rosamund -disse ele com um sorriso-. Sei to pouco de ti.
         Realmente queria que lhe contasse coisas de sua vida, mas ao mesmo tempo queria fazer que se relaxasse um pouco da tenso que a estava atendendo; distrai-la 
para que no estivesse contando os segundos que faltavam at que os descobrissem.
         -Por onde quer que comece? -perguntou ela.
         -Pelo princpio,  obvio. Como foi de menina? Foi uma menina feliz? Triste? De verdade, eu gostaria de sab-lo.
         -Fui uma menina feliz -disse ela sem pensar-lhe Mas menos feliz depois da morte de minha me.
         Ela comeou a falar, hesitante ao princpio e pouco a pouco com mais fluidez, conforme as lembranas foram amontoando-se em sua memria. Embora sua me 
tinha morrido quando Rosamund tinha sozinho cinco anos, Richard no tinha nenhuma dvida de que tinha sido uma grande influencia na vida de sua filha, e de que ainda 
o era. Imaginou como uma mulher que desfrutava de seus filhos e de sua vida, uma mulher pouco convencional que no estava de acordo com as restries s que a sociedade 
queria submet-la. E o duque, que adorava a sua duquesa, era um marido indulgente.
         -Quando desapareceu -disse Rosamund com melancolia chegando a certo ponto do relato-, pareceu-me que com ela tinham desaparecido tudas as cores do mundo. 
-E em seguida acrescentou-: Mas no vs pensar que meu pai me deixou abandonada ou algo pelo estilo. De fato aconteceu justamente o contrrio. Foi a maneira em que 
morreu minha me o que lhe fez ser to protetor, entende? reprovava-se a si mesmo lhe haver permitido tantas liberdades.
         Quando ela fez uma pausa, ele disse:
         -E tentou assegurar-se de que sua nica filha estivesse sempre perto de casa?
         -Sim -respondeu ela em um suspiro.
         Enquanto ela seguia falando, Richard comeou a matizar a idia que se feito do Rosamund e foi colocando suas impresses em sua mente. Agora se dava conta 
de que ela no tinha sido nunca altiva ou fria, a no ser insegura de si mesmo. E quem o podia reprovar? As pessoas que mais a queriam, e s que sem dvida ela tambm 
queria do mesmo modo, tinham sufocado amvel mas taxativamente qualquer intento que tivesse feito por ser ela mesma. Instrutoras, cavalos e xadrez, isso era tudo 
o que podia esperar da vida at chegar  idade adulta. Mas ao menos seu pai tinha tido a boa idia de lhe buscar uma amiga. Callie.
         Lhe dirigiu um olhar malicioso.
         -Foi idia do Callie ir visitar te o Newgate. Creio que te tinha por um heri, e isso diz algo em favor do Callie. Tem uma lngua mordaz, e voc cativou 
sua imaginao. Ningum podia dizer nada negativo do Richard Maitland em presena do Callie.
         -Devo-lhe muito a essa dama.
         Ela sorriu abertamente.
         -E o que tem que ti, Rosamund? Como te ocorreu ir ao Newgate? Disse-me que voc pensava que eu era completamente culpado. 
         A malcia desapareceu de seu olhar e lhe respondeu com seriedade:
         -Foi uma simples bravata por minha parte. Callie me desafiou a ir e eu aceitei. Mas quero que saiba que  uma deciso da que nunca me arrependerei.
          obvio, essas palavras lhe comoveram. Seus braos se apertaram ao redor do corpo dela, atraiu-a para si e a beijou na frente.
         -Se sua me pudesse ver-te agora -disse ele-, estaria orgulhosa de ti.
         Ela o olhou fixamente com uma expresso de dvida.
         -Isso acreditas?
         -Estou seguro.  a filha de sua me, e ningum sabe isso melhor que eu.
         Lhe dirigiu um trmulo sorriso, que desapareceu em seguida assim que notou que o corpo dele se esticava.
         -O que acontece, Richard?
         -Escuta!
         Ento ela ouviu os cascos dos cavalos pisando na fofo grama. Uma equipe de cavaleiros se aproximava da cabana.
         -A nvoa deve haver-se dissipado -disse ele-. chegou o momento.
         -No, Richard, no! Tenho muitas coisas que te contar ainda! -exclamou ela com o rosto desencaixado.
         -No tenha medo! -Suas mos se fecharam sobre as dela-. Pelo que mais queira, Rosamund, tem que fazer exatamente o que te hei dito. -E a seguir acrescentou 
com amabilidade-: Faria algo para te evitar isto, mas no posso. Se agora perder o valor, pensa em como me afetar isso . Minha querida menina, tudo passa. Inclusive 
isto passar. Quero que seja feliz. Quero que se esquea de mim. Agora parte !
         Plida e tremendo, Rosamund foi dando tropees at a porta. Na soleira, deu-se a volta.
         -De acordo, Richard. Sei o que tenta fazer, mas no vai funcionar. Jamais se esquecerei. E ainda no perdi as esperanas, assim no faa nenhuma loucura.
         -Rosamund...
         "Est louco! -pensou ele sem piedade-. por que te empenha em fazer o papel de heri romntico? Se queria o que ela se esquecesse, no deveria hav-la beijado, 
no deveria ter trado o muito que te tinha cuidado, no deveria hav-la deixado que te contasse suas confidncias."
         Mas como poderia hav-lo evitado? deve-se perdoar a um homem que est na soleira da morte por querer levar-se algo com ele, especialmente da nica mulher 
que lhe importou na vida. Se pudesse viver cem vezes, ela seria a nica mulher a que jamais esqueceria.
         Sorriu amargamente diante a inconsciente ironia dessa ltima idia.
         Quando ouviu o tinido das esporas de algum que desmontava do cavalo, levantou-se e tomou sua pistola. Logo se colocou de maneira que a luz lhe desse totalmente 
quando entrassem pela porta. Esperava por todos os demnios que ao menos soubessem disparar com pontaria.
         Teria sido melhor deixar ao Rosamund na cabana enquanto ele saa a seu encontro. Melhor para ele, mas no para ela. No queria que ela presenciasse seu 
final.
         A voz do Rosamund chegou at ele, estridente, autoritria, como corresponde  filha de um duque. Ou possivelmente como corresponde  filha de sua me. Ainda 
estava tratando de lhe salvar a vida. Suspirou profundamente e a seguir se preparou para o que estava por chegar.
         Passaram vrios minutos. Logo a porta comeou a abrir-se.
         -No dispare, senhor! -gritou uma voz que ele reconheceu.
         Richard desceu a pistola lentamente.
         -Harper? -perguntou com incredulidade.
         Harper respondeu rendo entre dentes.
         -Tem mais sorte que o diabo! Coronel Maitland, senhor! O senhor Temperar est aqui. E lorde Caspar. vieram para te resgatar. Habrase visto coisa igual!
         
        Captulo 14
         Ao Richard aquilo no parecia um resgate. Quando saiu da cabana, viu-se rodeado por uma horda de mal-encarados e ameaadores tipos que lhe olhavam como 
se queriam mat-lo.
         -No lhe faro mal, Richard -gritou Rosamund-. So soldados do duque.
         Soldados do duque? Onde pensava que estavam, na Idade Mdia? Um olhar mais atento lhe revelou que todos foram vestidos com libreas azuis e douradas, o uniforme 
dos serventes do duque. Eram seus criados, mas seus libreas enganavam. Ele sabia reconhecer aos veteranos de guerra assim que os via, e essa equipe parecia que havia 
visto muitas batalha.
         -Faz o que lhe ordenem e no te passar nada -disse Hugh Temperar.
         -Venha, no fique a parado, senhor coronel. Esto de seu lado. Seu aspecto  pouco amistoso porque seqestrou a lady Rosamund, mas no vo fazer lhe nenhum 
dano -disse Harper, e acrescentou brincando-: Ou do contrrio ela lhes arrancaria as vsceras, e sabem.
         Com trs das pessoas nas que confiava lhe dizendo o mesmo, Richard relaxou um pouco o guarda.
         -lhe tirem a pistola e qualquer outra arma que possa levar em cima.
         que tinha falado estava de p ao lado do Rosamund, e ao Richard no foi difcil identific-lo como seu irmo, lorde Caspar -alto, arrumado, srio e com 
ares de aristocrata. A primeira vista, ao Richard no gostou absolutamente.
         Dois homens dos Devere lhe revistaram com ms maneiras. levaram-se a pistola e a navalha que escondia na bota. uns quantos lhe estavam vigiando de perto, 
mas Harper lhes ordenou que se afastassem e, como soldados bem treinados que eram, retrocederam e deixaram espao ao redor dele.
         Rosamund avanou, mas seu irmo a agarrou por brao e a reteve a seu lado.
         Hugh se aproximou do Richard e lhe aplaudiu nos ombros. O se manteve firme. No tinha vontades de falar de sua sade. Quo nico queria saber era que demnios 
estava passando.
         -Richard -disse Hugh sorrindo-. Graas a Deus, est bem. -O sorriso se desvaneceu-. Supondo que est esperando que te explique por que vim a por ti, mas 
agora no  o momento. As tropas da tropa esto muito perto. Pode que no saibam que estamos aqui, mas devemos estar seguros. Temos que ir agora mesmo.
         -Mas ele no est em condies de cavalgar -gritou Rosamund-. No v que est a ponto de deprimir-se?
         Ningum fez caso de suas exclamaes. Levaram-lhe um cavalo, o mesmo no que estava fugindo quando caiu. No sabia se teria foras suficientes para mont-lo.
         Rosamund disse algo, quase inaudvel, a seu irmo, que fez que este se encolhesse de ombros; Hugh franziu o sobrecenho; Harper se aproximou para ajudar 
ao Richard a que montasse na cadeira.
         -Venha, senhor coronel -sussurrou-, voc pode consegui-lo.
         A voz do Caspar brocou o silncio:
         -me d igual a Montes nesse cavalo ou que lhe pendurem, Maitland.
         Os homens de librea azul riram.
         Richard apertou os dentes, ps um p nas mos que Harper lhe oferecia e montou no cavalo.
         
         
         Pouco depois, o mais velha Digby e sua tropa de tropa chegavam galopando  porta principal do Dunsmoor. O rosto do Digby ardia de raiva, suas mos apertavam 
com fora as rdeas e suas arreios escoiceava e soprava como se houvesse sentido os golpes do ltego enquanto cavalgava.
         Estava furioso porque sabia que o guarda-costas do Maitland o tinha conduzido a uma reserva de caa de gansos enquanto que, provavelmente, Maitland se tinha 
dado  fuga. Mas no estava seguro, e no sabia o que devia fazer, se registrar a casa ou ir detrs do Maitland, caso que pudesse encontrar seus rastros na nvoa. 
A informao que lhe tinha proporcionado George Withers provavelmente era de confiana.
         Em seguida se desceu do cavalo, com o Whorsley e vrios soldados a seu lado, e todos subiram os degraus de dois em dois empunhando suas pistolas. Chamaram 
com golpes na porta de entrada, e quando Digby viu que ningum respondia, ordenou a seus homens que a derrubassem.
         Uma vez dentro, ordenou-lhes:
         -Registrem a casa. Ainda poderia estar aqui. E procurem tambm a seu guarda-costas; pode ter voltado aqui e estar escondido em alguma parte. E se encontrarem 
a lady Rosamund tratem-na com luvas de seda.
         No tomou muito tempo descobrir que a casa estava vazia, mas que seus inquilinos a tinham abandonado fazia muito pouco. O fogo das chamins ainda estava 
aceso. E quando Whorsley encontrou as notas no estudo, esteve completamente seguro de que Maitland tinha estado ali recentemente.
         -Isto  muito estranho -disse Whorsley enquanto lia as notas do Richard-. Est repassando antigos casos. Parece que esteja tentando procurar uma conexo 
entre eles e o assassinato do Lucy Rider. -ficou olhando ao Digby-. Acreditas que  possvel que no a tenha matado ele?
         Digby lhe arrancou as notas das mos e as meteu no bolso.
         -Isso no importa. Nosso trabalho  encontr-lo e volt-lo para levar ao crcere -disse apertando os dentes.
         -Mas se for inocente, deveramos passar todas essas notas A...
         -No! Para que remover as coisas? Um jurado o declarou culpado. E a acaba o assunto no que diz respeito  lei. Realmente quer lhe ver de volta como chefe 
de Estado Mais velha? me acredite, estamo-lhe fazendo um favor ao Servio com solo fazer nosso trabalho.
         -E o que vamos fazer agora?
         Digby caminhou at a janela e olhou fora. Parecia que estivessem perdidos em uma ilha deserta. No podiam ir dando voltas pelas colinas em meio dessa nvoa.
         A sensao de frustrao fez que a blis lhe subisse pela garganta. Se tivessem vindo diretamente at a casa em lugar de ir detrs o Harper!, esse Maitland 
teria cansado em suas mos antes de que pudesse ter feito nada por escapar. Mas no poderia ir muito longe se levava com ele a lady Rosamund.
         Encontraria-o e o levaria de volta encadeado. Ento o primeiro-ministro lhe recompensaria pelo trabalho que tinha feito. Seria o novo chefe de Estado Mais 
velha. Isso gostava. Era um sonho tentador.
         -Esperaremos at que se dissipe a nvoa-disse-, e ento comearemos a pentear a zona.
         No se voltou a falar mais das notas que tinham encontrado no estudo. Digby pensava que no trocariam em nada o encarceramento do Maitland, mas, para estar 
mais seguro, quando ningum olhava as jogou no fogo.
         
         
         Avanavam lentamente, mas no porque Richard no pudesse sustentar-se no cavalo, embora lhe custava esforo. Era a nvoa o que os fazia avanar a passo 
de tartaruga -o qual agradecia Rosamund. Quando Richard pensava que j no poderia agentar nem um minuto mais na cadeira, ela pedia que fizessem uma parada porque 
precisava estirar as pernas. O fazia por ele, para que pudesse recuperar o flego. Ele queria lhe agradecer esse detalhe, mas assim que desmontava se via rodeado 
pelos homens do Devere. O irmo do Rosamund tentava se assegurar de que no poderiam voltar a dirigi-la palavra.
         A realidade tinha cansado sobre eles, tal e como ele imaginava que era. E Richard no tinha inteno de lutar contra a realidade. Estava acostumado a ela. 
Solo desejava que fossem condescendentes com o Rosamund.
         Durante as paradas recolheu umas quantas informaes. Soube que Hugh fazia uma espcie de trato com o duque, um trato vantajoso, mas o resto saberia quando 
chegassem a seu destino. Digby e Whorsley, da Seo C, e uma tropa da tropa lhes estavam pisando nos tales. Tinham que dar-se pressa, disse Hugh.
         Harper foi mais explcito. Tinha ido dar de narizes contra Digby e Whorsley, que estavam escondidos no botequim do povoado, e ento mandou ao Rosamund de 
volta para salvar ao Richard; logo tentou afast-los dali e se deu de bruces com lorde Caspar e Hugh.
         -No sabia que era ele -disse-. Pensava que me tinham rodeado. Soldados por diante e por detrs. Ento ouvi a voz do senhor Temperar me chamando atravs 
da nvoa, e me dava conta de que estava entre amigos.
         -O que aconteceu?
         -Logo lhes levei at a casa por um atalho -disse sorrindo levemente-, enquanto Digby e os seus saam ao galope na direo contrria.
         -Mas como souberam lorde Caspar e Hugh da existncia do Dunsmoor?
         -Nem idia. Ter que lhe perguntar ao senhor Temperar -disse encolhendo-se de ombros.
         Mas isso no podia faz-lo, porque Hugh estava na retaguarda, vigiando que os inimigos no lhes dessem alcance. Tambm havia uma avanzadilla que ia por 
diante deles. Aquilo no parecia a Inglaterra. Parecia que estivesse de novo na Espanha, na poca em que ajudou aos partisanos detrs das linhas francesas.
         Seu olhar se posou em lorde Caspar. Terei que reconhecer que aquele homem parecia saber o que estava fazendo. E possivelmente ele se merecia a hostilidade 
que lhe demonstrava lorde Caspar. depois de tudo, tinha seqestrado ao Rosamund. O que no podia tolerar eram suas maneiras. Alguns homens realmente se acreditam 
que nasceram para mandar, e Sua Excelncia dava toda a impresso de ser um deles.
         As horas avanavam montonas e eles seguiam seu lento caminho, passando de vez em quando perto de uma granja ou de um pastor que cuidava seu rebanho. Pouco 
a pouco Richard se deu conta de que estavam viajando de direo nordeste. Imaginava que deveriam ter ido para o sul, em direo a Londres, mas estavam afastando-se 
dos povoados e as aldeias e entrando em um terreno agreste.
         Conforme ascendiam, a nvoa foi diminuindo, mas o entardecer comeava a levar-se de novo a luz, assim que a visibilidade logo que melhorou. De repente, 
por cima da tnue neblina, viu emergir um sbrio castelo, com seus torrees e seus almenas.
         Estavam-lhes esperando. Quando se aproximaram do porto de entrada, os porteiros chegaram correndo e comearam a mover as pesadas portas de ferro macio, 
e Richard se deu conta de que aqueles criados vestiam a mesma librea que os homens que o escoltavam.
         Parecia que a Idade Mdia tivesse voltado para a Inglaterra em forma de castelo Devere.
         
         
         Quo nico desejava Richard era dormir. O que recebeu foi uma lio do Hugh, lhe advertindo que a partir de ento solo responderia no nome do Richard Harris, 
e que tinha sido elevado  fila de ser um dos que tinham resgatado a lady Rosamund. depois do Hugh foi ver lhe o mdico, que tinha uns dedos como garras de ao, 
e ao final o ajuda de cmara, que o meteu em uma banheira de gua quente. depois disso j pde dormir.
         Foi um sonho pouco reparador. Esteve sonhando com tabuleiros de xadrez, e pees que vestiam libreas azuis e douradas e que estavam desejando acabar com 
ele. Sabia que se pudesse capturar a sua rainha poderia fazer mate ao rei e seu pesadelo teria acabado; mas ela era muito lista, muito evasiva. Justo quando pensava 
que j a tinha, trocou de aspecto e se converteu em um dos pees.
         Despertou o som do ferrolho da porta. O primeiro que fez ao despertar foi jogar mo da pistola que tinha deixado ao lado da cama.
         tratava-se do ajuda de cmara, que tinha voltado com sua roupa, poda, escovada e perfeitamente dobrada. Olhou com os olhos exagerados a pistola com a que 
lhe estava apontando.
         Richard guardou a pistola debaixo do travesseiro e sem dizer nenhuma palavra saiu da cama.
         -Onde esto todos? -perguntou.
         O ajuda de cmara piscou, mas lhe respondeu como se no houvesse passado nada estranho.
         -Tinha que lhe informar a voc, senhor Harris, que se requer sua presena no salo amarelo.
         Richard comeou a vestir-se.
         -Onde est Sua Excelncia? Estar ali?
         -No, Sua Excelncia se ficou no Twickenham House.
         Foi a primeira boa notcia que ouvia em muito tempo.
         Dez minutos mais tarde, depois de tomar foras com uma taa de um excelente madeira, cortesia do sorridente ajuda de cmara, Richard j estava baixando 
a escada flanqueado por outro sorridente lacaio. Todos os serventes com os que se cruzou lhe saudaram com um sorriso. Certamente no eram os homens que o tinham 
escoltado desde o Dunsmoor at o castelo Devere. Quando perguntou ao lacaio que o escoltava onde estavam os outros criados, inteirou-se de que estavam dormindo os 
efeitos de um jantar de celebrao que lorde Caspar lhes tinha devotado como recompensa.
         No grande salo passaram junto a cavalos de guerra dissecados com empenachadas armaduras de cavalheiros em seus lombos. Uma pele de leo completa, com cabea 
e presas, que guardava um cavernoso corao de pedra. Vrias tapearias que mostravam antigas batalhas adornavam as paredes. A baixela de prata, os cristais e a 
intrincada decorao do mobilirio, tudo lhe falava com o Richard de que estava entrando no domnio de uma orgulhosa e privilegiada dinastia.
         Como se necessitasse que o recordassem.
         O salo amarelo estava ao final de um comprido e arejado corredor. Quando lhe anunciou, Richard ficou firme e entrou.
         
        Captulo 15
         Como outros j tinham jantado, lorde Caspar ordenou a um criado que trouxesse uma cafeteira e uma bandeja de sanduches para o Richard, uma cortesia que 
este agradeceu porque fazia muitos horas que no tinha provado bocado. Solo havia quatro pessoas na sala. Lorde Caspar, Hugh, Harper e ele mesmo, e enquanto Richard 
comia, outros lhe explicaram como e por que tinham chegado at ali.
         Lorde Caspar, como ele mesmo explicou, tinha encontrado em seguida uma pista que lhe conduzia at ele, e apenas vinte e quatro horas depois da fuga do Richard 
do Newgate j estava batendo na porta do Hugh. Tambm se inteirou de que devia agradecer ao Abbie que tivesse persuadido ao Hugh para que lhe falasse com lorde Caspar 
do Dunsmoor.
         -J conhece o Abbie -disse Hugh-. Embora estava segura de que no lhe faria nenhum machuco a lady Rosamund, no podia deixar de pensar no tortura pelo que 
estaria passando sua famlia. Assim fiz um trato com lorde Caspar. Se no liberava lady Rosamund em vinte e quatro horas, eu lhe conduziria at ti. Para te ser justifico, 
estava seguro de que a devolveria a sua famlia  primeira oportunidade que te apresentasse e ali teria acabado tudo. Mas quando no fez o que esperava, pensei que 
as coisas deviam haver-se complicado muito. Assim que me mesclei nisto mais por sua segurana que pela de lady Rosamund. Pelo menos, Harper nos explicou os problemas 
que teve ao tentar liberar lady Rosamund, mas tendo em conta a situao, estar muito melhor sob o amparo do duque do que o lhe estaria arrumando isso por ti mesmo.
         -No creio que haja nenhuma dvida disso -respondeu secamente lorde Caspar. Tinha uma garrafa de oporto na mo e, depois de servir um copo ao Richard, encheu 
os copos de outros-. Exceto te conseguir o perdo, o qual est mais  frente do poder de meu pai, pode pr voc as condies, Maitland.
         -Isso inclui tambm ao Harper? -perguntou Richard.
         Harper estava entusiasmado por como se desenvolveram os acontecimentos e o demonstrava.
         -No tem por que preocupar-se comigo, coronel. Me vou converter em um heri. Parece ser que voc me tendeu uma armadilha me dizendo que se tratava de uma 
misso secreta, e por essa razo lhe ajudei a escapar do Newgate. Ento, quando se negou a deixar partir a lady Rosamund, eu comecei a ter dvidas, assim, quando 
estava despreparado, escapei-me e fui contar se o tudo ao senhor Temperar.
         Hugh continuou a histria.
         -Eu lhe disse que deveramos ir ver lorde Caspar, e aqui estamos.
         -Tudo o que possamos dizer s autoridades  que Maitland desapareceu na nvoa sem deixar rastro -concluiu lorde Caspar.
         Richard mastigou a ltima parte de seu sanduche e o fez baixar com um gole de oporto. Estava fazendo algo mais que escutar as explicaes de seus companheiros 
e tomar nota do que havia passado. Estava extraindo impresses, registrando pequenas mudanas na expresso e no tom de uma voz, e acrescentando a todo isso o que 
ficava sem dizer. Uma coisa estava completamente clara, Hugh e Harper, em cujo bom julgamento acreditava, confiavam completamente em lorde Caspar. Foi limpando a 
dvida de que lorde Caspar pudesse faltar a sua palavra no trato que tinha feito com o Hugh. Teria sido algo estpido, e lorde Caspar tinha que saber que ningum 
enganava ao Hugh Temperar, um dos melhores espies do Servio Secreto de Sua Majestade, sem sofrer as conseqncias.
         Olhou ao Hugh e se cruzaram uma mensagem sem palavras. Lorde Caspar, o olhar do Hugh o estava dizendo, no  um homem estpido.
         -Ainda tem que me explicar, Hugh, como me encontrou. Quem te falou do Dunsmoor? -disse Richard de repente.
         -Bom, escutei uma conversao que manteve com seu advogado, e assim me inteirei de que existia uma casa nas colinas do Berkshire -disse Hugh com um sorriso 
de arrependimento-. Lorde Caspar e eu fomos interrogar ao senhor Harley, quem muito amavelmente nos falou do Dunsmoor. Era razovel supor que seria ali onde te foste 
esconder. Solo tive que seguir sua rota e a est: Newgate, Chelsea, Lavenham, onde tinha que te encontrar comigo, e logo Berkshire.
         -Se no o tivesse sabido, no teria podido... -disse lacnico Richard. Logo refletiu um momento, suspirou e ao final acrescentou com exasperao-: No me 
posso acreditar que estivesse bisbilhotando uma conversao privada entre meu advogado e eu!  que no h nada sagrado?
         Hugh riu.
         -No o h para duas velhas raposas como ns, Richard. De todos os modos, no estava bisbilhotando. E alm disso, me deveria agradecer isso Se no tivesse 
aparecido quando o fiz, Digby j te teria detido, e no creio que tivesse xito tratando de escapar do Newgate pela segunda vez. -Hugh se deu conta de que a expresso 
do Richard trocava e meneou a cabea-. No, ns no levamos ao Digby at ti. Em realidade, fomos ns os que seguamos a ele. Ele ia por diante nosso, Richard, e 
s conseguimos lhe adiantar porque decidiu esperar a que se dissipasse a nvoa no botequim do povoado.
         -Deveu deixar alguma pista e ele a seguiu -disse lorde Caspar.
         -Ou sabia algo sobre o Dunsmoor -acrescentou Hugh.
         Richard no acreditava que tivesse deixado pista alguma, mas tinha feito aquela viagem quando estava ao limite de suas foras. Era possvel que tivesse 
descuidado algo. A outra possibilidade, que Digby soubesse um pouco do Dunsmoor, era mais preocupem-se.
         Levantou a vista e se topou com o olhar de lorde Caspar posta nele, um olhar calculadora que lhe observava levemente perplexo, e ao cabo de um momento apartou 
a vista.
         -assim, aonde vamos agora? -disse Richard.
         Lorde Caspar sorriu, o primeiro sorriso que Richard recordava lhe haver visto.
         -Ao Twickenham -disse-. Sua Excelncia, como supondo que compreender, est ansioso por te conhecer.
         -Ns seremos os lacaios de lorde Caspar -disse Harper, e seus olhos brilharam de satisfao-. E no se preocupe por nada, coronel, ningum te reconhecer 
porque ningum se fixa nos lacaios.
         -Que seremos quanto lorde Caspar? -perguntou Richard entre dentes.
         -No ser por muito tempo -acrescentou Hugh com diplomacia-. Isso te dar uma pausa, Richard, e tempo para te recuperar antes de que ditas aonde quer ir 
e o que quer fazer.
         Richard manteve o olhar ao Hugh durante um momento e logo olhou para outro lado. O fato de vestir-se de lacaio no lhe importava, o que lhe incomodava era 
ter que estar a seu servio, uma perspectiva que a lorde Caspar parecia lhe entusiasmar, se  que seu sorriso tinha algo que ver com isso. Quando lhe ocorreu pensar 
que se estava comportando como um escolar carrancudo, quase se ps-se a rir. Tinha que admitir que se se tivessem intercambiado os papis, se lorde Caspar tivesse 
seqestrado ao Rosamund, Sua Excelncia nesse momento j no estaria respirando.
         Possivelmente o duque poria remdio  omisso de seu filho.
         A puntualizacin de lorde Caspar veio mais ou menos a dissipar essa dvida.
         -Naturalmente, depender do apoio de meu pai. A palavra de um Devere  uma garantia, e Sua Excelncia no vai a incumplir o trato que fez com o senhor Temperar. 
Se quiser uma passagem segura para sair da Inglaterra, ter-o. Se quer trocar de identidade para comear uma nova vida em outra parte, arrumaremo-lo tambm. Mas 
de todo isso j falaremos quando lhe renas com meu pai.
         Desejava outra coisa, mas Richard reconhecia a vantagem de esconder-se no Twickenham House, ao menos at que estivesse recuperado. quanto mais pensava nisso, 
mais gostava da idia. A ningum lhe ocorreria busc-lo ali, e seria de grande alvio no ter que estar vigiando a suas costas todo o tempo. E como havia dito Hugh, 
no tinha que ser por muito tempo. Uma semana bastaria. Dois no mximo. E ento poderia fazer o que realmente queria fazer: descobrir quem eram as pessoas responsveis 
pela falsa incriminao de assassinato contra ele.
         S havia um pequeno problema. Rosamund.
         Enquanto outros se dedicavam a falar dele, Richard tentou expor o problema do Rosamund para resolv-lo em sua cabea. Tinha que falar com ela e estar seguro 
de que entendia que o que havia passado na cabana no tinha nenhuma importncia. Os dois estavam imersos em emoes muito fortes. O medo os tinha feito aproximar-se. 
Ele a tinha tentado acalmar. Lhe tinha acalmado a ele. Isso foi tudo.
         A fim de contas, o que queria lhe fazer entender  que no havia futuro para eles dois juntos. Aquele era seu futuro, o castelo Devere e seu irmo lorde 
Caspar. Ele tinha to pouca capacidade nesse mundo como ela o tinha no seu.
         Seu mundo era o Servio de Segurana e, embora de momento tinha desaparecido para ele, esperava poder voltar logo. E se no era no Servio de Segurana, 
seria em algo similar. Era certo que Dunsmoor tinha uma boa quantidade de terreno e proporcionava rendas para viver comodamente, mas isso ficava muito longe do luxo 
ao que estava acostumada Rosamund.
         No, ao Rosamund no importava o luxo. O que ela queria era ter sua prpria vida.
         "Se fosse uma garota corrente."
         Essas palavras lhe atormentavam, porque se sentia completamente intil. Gostaria de lhe dar essa liberdade, mas no sabia como poderia faz-lo, exceto casando-se 
com ela, e isso era algo inimaginvel. No s era sua classe social o que os separava. Os Devere eram uma poderosa famlia, e com contatos nas altas esferas. Se 
quisessem tambm poderiam lhe esmagar. Inclusive naquele momento, seu destino estava em mos deles. Alm disso, solo tinha conhecido a essa moa durante uma semana, 
e desconfiava das emoes que provocava nele.
         O que gostaria de fazer era sentar-se com o duque e falar com ele de homem a homem. H muito mais no Rosamund, diria-lhe, pelo que imagina. E lhe ilustraria 
essa idia lhe explicando quo engenhosa tinha sido durante os poucos dias em que esteve em cautividad.
         Deu um coice ao recordar como tinha deixado ao Harper quase fora de combate quando lhe caiu a pistola na carruagem; como se tinha metido entre a turfa de 
amotinados para escapar; como lhe tinha explicado o que ele deveria ter feito depois de escapar do Newgate; como lhe atacou ao chegar  cabana da Chelsea, lhe fazendo 
que casse sobre as moitas de ervas.
         Havia-lhe dito que era a mulher mais atrativa e desejvel que tinha conhecido. Tambm lhe teria que haver dito que era a nica mulher que tinha conseguido 
lhe fazer rir.
         "Rosamund", pensou. "Ah, Rosamund, se houvesse..."
         A voz de lorde Caspar lhe tirou de seus ensoaciones.
         -Hei dito um pouco divertido, Maitland?
         Richard apagou o sorriso de seu rosto e disse envergonhado:
         -O oporto me est dando sonho.
         levantou-se, deu amavelmente a boa noite a todos e partiu.
         Lorde Caspar lhe acompanhou at o corredor e fechou a porta detrs dele. Sua Excelncia no perdia o tempo em delicadezas.
         -Quanto dinheiro faz falta para te convencer de que no te case com minha irm? -perguntou-lhe.
         Richard sentiu como se lhe tivessem metido um restelo de ao entre os dentes. Quando conseguiu abrir a boca, disse:
         -Creio que me confunde voc com outro.
         Lorde Caspar se aproximou dele e lhe olhou fixamente aos olhos.
         -No joguemos, Maitland. Quanto?
         Richard respirou lenta e profundamente.
         -Se me conhecesse melhor, saberia que essas tticas no funcionam comigo -disse-. Se decidisse me casar com lady Rosamund, nada me poderia comprar ou deter. 
Um simples "no" do Rosamund bastaria.
         -E se ela no diz "no"?
         Decidiu tirar lorde Caspar de suas preocupaes.
         -No h nada entre o Rosamund e eu. A questo do matrimnio no se exps jamais, nem se expor. E dito isto, partiu com passo ofendido.
         
         
         Mas ainda no tinha escapado aos Devere. Quando entrou em sua habitao, encontrou a um lacaio com uma mensagem para ele de parte do Rosamund. Sua Senhoria 
quer falar com voc, disse-lhe o lacaio.
         Perfeito, porque ele tambm tinha uma quantas coisas que queria dizer a Sua Senhoria.
         -Onde est?
         Suas habitaes estavam ao final de um corredor. Entrou em um pequeno salo e se deteve de repente.
         -Richard -disse ela convertendo seu nome em um suspiro.
         -Rosamund?
         Dificilmente podia reconhec-la na imagem que lhe chegava, parecia to distinta agora que havia mudado suas roupas de homem por um traje feminino. Seu comprido 
vestido rosa se ajustava a suas formas femininas e mostrava mais do que ele queria ver. lavou-se e arrumado o cabelo, que lhe caa por cima dos ombros como um vu 
de espuma. No havia nem rastro daquele desenvolvido moo que lhe plantava cara  mnima oportunidade. Era uma sereia feita para romper os coraes dos homens.
         Rosamund sustentou as mos do Richard e lhe sorriu com os olhos.
         -Tem-te feito Caspar passar um mau momento? -perguntou ela.
         A meno de seu irmo lhe tirou de seu assombro como um jarro de gua fria. Lhe apartou suas mos e ps certa distncia entre os dois.
         -O que contaste a seu irmo sobre ns? -perguntou ele esforando-se por manter a calma.
         Ela apertou a mandbula, suas sobrancelhas se arquearam e disse titubeando:
         -Hei-lhe dito que nos queremos e que nos vamos casar. No me olhe assim. Algo tinha que dizer. Quando Caspar viu que estava perfeitamente quando sa da 
cabana, ficou de mau humor. Tive medo do que te pudesse fazer, assim que lhe disse...
         O fluxo de suas palavras se apagou quando lhe deu as costas e se aproximou da chamin. Com uma mo apoiada no suporte da chamin, voltou-se para ela.
         -me casar no est entre meus planos -disse-. Nem contigo nem com nenhuma outra. E quanto ao amor, acaso fiz o papel de gal quando acreditava que estava 
nos ltimos minutos de minha vida, mas no recordo ter utilizado a palavra "amor", e isso  algo que deveria recordar.
         -No o entende -disse ela-. No v...
         Ele levantou uma mo e lhe disse com mais amabilidade:
         -me escute, Rosamund. O que passou entre ns foi natural. Estvamos apanhados em uma situao de vida ou morte. Durante o pouco tempo que estivemos juntos, 
passamos por todas as emoes que os homens podem conhecer. Tivemos que nos apoiar o um no outro. Isso foi tudo. Mas essas circunstncias j no existem. dentro 
de uma semana te ter esquecido de mim. Voc voltar para sua vida de antes e eu terei montes de coisas que me mantenham ocupado. No faamos que isto acabe com 
amargura.
         Ao princpio, lhe pareceu divertido, mas quando ele estava concluindo sua curta perorata, sentiu-se a meio caminho entre a humilhao e o ultraje. Ele tinha 
interpretado mal completamente a situao. Nada estava mais longe de suas intenes que casar-se com ele. Mas que a tivesse tomado por uma adolescente namoradeira 
era a pior ofensa que podia lhe fazer.
         A dor lhe chegava em feitas ondas, e com a dor, a terrvel convico de que suas palavras no lhe estariam fazendo mal dessa maneira se no o amasse de 
verdade.
         Dor era uma palavra muito pobre para descrever o que estava sentindo. sentia-se desolada. Tudo o que lhe havia dito na cabana era mentira. Tinha galanteado 
com ela sozinho porque acreditava que aqueles eram os ltimos minutos de sua vida.
         prometeu-se a si mesmo que no choraria, no ia mostrar lhe quanto dano lhe estava fazendo. Procurou seu orgulho, encontrou-o e levantou a cabea.
         -me casar! E contigo! -disse rendo abertamente-. Nem uma vez h isso passado por minha cabea. Agora me escute voc, Richard Maitland. Quando sa da cabana, 
Caspar estava disposto a te dar uma lio por me haver raptado. Estava disposto a te matar, mas a causa do trato que tinha feito meu pai com o senhor Temperar, disse 
que se conformaria te dando a surra de sua vida, e nada do que pudessem dizer o senhor Temperar ou Harper parecia lhe fazer trocar de opinio. Assim que eu me fiz 
cargo do assunto. Sabia que estava ao limite de suas foras e que no poderia te defender, de modo que disse a meu irmo que te amava e que amos casar nos. Tambm 
lhe disse que se te punha uma mo em cima, nunca mais lhe voltaria a dirigir a palavra. E por isso lhe trataram com luvas de seda. -Esboou um sorriso forada-. 
Pobre Richard, nunca pensei que te foste deixar convencer por meu ingnua estratagema.
         Quando viu que ele a olhava com expresso de dvida, lhe ofereceu outro leve sorriso e se aproximou dele.
         -No tenho nenhuma inteno de acabar nossa amizade com uma nota amarga -disse sem deixar de sorrir, e ele no podia imaginar quanto lhe estava custando 
aquele sorriso-. De fato, sempre vi minha aventura contigo como um tesouro, e algum dia meus filhos se divertiro quando a contar.
         Ento Rosamund lhe tendeu a mo.
         -Assim que isto  um adeus, Richard. No nos vamos ver muito freqentemente no Twickenham House.
         Havia algo nessa despedida, algo que lhe estava esfregando pela cara que no lhe encaixava bem. Sua meno dos filhos no lhe quadrava. Os filhos de quem? 
Os do prncipe Michael no. Ela mesma lhe havia dito que o prncipe no s era um dandi, a no ser um autntico libertino. Havia outros cavalheiros esperando para 
pedir sua mo? Mas o que mais lhe incomodou foi ver-se reduzido a ser uma anedota para divertir a seus filhos.
         Essa mulher era um demnio!
         Richard olhou para baixo, para sua mo tendida.
         -A que vem tanta formalidade? -disse ele-. depois de tudo o que havemos passado juntos, no me mereo um beijo de despedida?
         Com a vaga sensao de estar produzindo nela uma impresso duradoura que no se poderia apagar, aproximou-se e cobriu a boca do Rosamund com sua boca.
         Por um momento, ela ficou to rgida como uma esttua de mrmore. Mas solo por fora. Em seu interior se acendeu um fogo que percorreu todas suas veias. 
Esse beijo no se parecia com aqueles doces beijos na cabana. Agora havia desespero, e desejo, e algo que era magnificamente primitivo.
         Ela ficou nas pontas dos ps e lhe rodeou o pescoo com os braos.
         Em um movimento puramente reflito, as mos dele se introduziram em seu cabelo, e ela jogou a cabea para trs para que ele pudesse lhe beijar as bochechas, 
o pescoo, o peito. A fragrncia de gardnia o envolveu como uma suave nvoa pecadora. Ele no pensou em nada, no podia pensar em nada, porque do contrrio aquilo 
teria que ter acabado naquele instante, e ele estava faminto do tato e do sabor dela.
         No foi a paixo do Rosamund o que lhe impressionou, nem a sua. Sabia o que era a paixo. Mas necessidades que nunca tivesse imaginado que existiam e que 
no era capaz de pr em palavras atuaram sobre o que Richard supunha que era sua infalvel capacidade de controlar-se.
         Ela se esmagava contra ele, e ele podia sentir seus brandos peitos pressionando seu trax. E quanto a sua ferida, parecia que nunca tivesse existido. As 
mos dela o percorriam por toda parte, metendo-se por seu cabelo, percorrendo sua nuca, apalpando cada um de seus msculos tensos, deslizando-se desde seus ombros 
at seus quadris.
         Ela estava tremendo ou era ele quem tremia? No importava. Ele beijou seu cabelo, seus olhos, suas orelhas, enquanto murmurava algo, no sabia o que. Logo 
lhe chupou os lbios, absorvendo seus pequenos gemidos de excitao, como faz um bbado com seu primeiro gole depois de uma larga seca.
         Ela era to suave, to entregue, to perfeita para ele. Suas mos se deslizaram at seu traseiro, massageando, apertando seu corpo contra sua virilha endurecida.
         Aquilo no era suficiente para ele, nem muito menos. Queria-a ter nua baixo ele; desejava estar dentro dela. Queria encerrar seu corpo entre suas largas 
e torneadas pernas enquanto tomava em um selvagem arremesso de excitao.
         Ela tinha que parar. Ele deveria deter-se. por que no podiam conter-se?
         Isto no teria que estar passando. Lhe tinha provocado, e ele tinha respondido da tpica maneira masculina. Isto tinha que acabar a. Tinham que...
         Richard se tornou para trs fazendo aprovisiono do pouco sentido comum que ainda ficava. Rosamund voltou a deitar-se em seus braos, mas ele teve o suficiente 
autocontrol para dar outro passo atrs. Seus olhos ainda estavam cheios de desejo, seus lbios entreabertos.
         -Richard, o que te passa? -uivou ela.
         Ele no queria feri-la. OH, Deus, no queria lhe fazer danifico, mas no tinha outra alternativa. Se ali acontecia algo entre eles dois, aquilo no ia acabar 
de qualquer jeito. E no poderia ter comeado se ele no tivesse perdido a cabea. assombrava-se do poder que aquela mulher exercia sobre ele. O que tinha ela que 
a fazia to diferente das demais? Ele nunca tinha perdido a cabea por uma mulher.
         Quando sua respirao se relaxou um pouco, Richard lhe beliscou o queixo tratando de aparentar normalidade.
         -No passa nada -lhe disse-. Sozinho que nosso inocente beijo de despedida nos foi que as mos. Isso passa s vezes entre um homem e uma mulher. Deveria 
hav-lo pensado melhor. -Fez todo o possvel para que soasse mdio a desculpa e mdio a brincadeira-. No faamos disto algo que no . No significa nada.
         Desejava que lhe esbofeteasse, gritasse-lhe, cuspisse-lhe -tudo o que sabia que se merecia. Mas ela no fez nada disso. Depois de um silncio gelado, levantou 
o queixo e disse em voz baixa:
         -Boa sorte, Richard. Espero que todo v bem.
         E a seguir partiu pela porta que dava ao vestidor.
         Ele se sentia como um verme.
         No vestbulo se cruzou com o Hugh Temperar. Hugh lhe lanou um olhar e riu entre dentes franzindo o sobrecenho.
         -Pelo amor de Deus, Richard, o que  o que te esteve dizendo a amazona? -perguntou-lhe.
         -Deu-me a sobremesa que me mereo. E no a chame a amazona.
         As sobrancelhas do Hugh se arquearam em um gesto interrogativo.
         -E o que tem feito voc para merecer esse desgosto?
         -Voc que acreditas? -disse ele balbuciando-. Me comportei com meu tpico encanto natural.
         -E ela te aniquilou com sua lngua afiada?
         -No. Fez precisamente o contrrio.
         Hugh ficou desconcertado.
         Caminharam juntos pelo corredor. Ao chegar  porta da habitao do Richard, Hugh colocou as mos sobre os ombros de seu amigo e disse:
         -Harper nos est esperando em minha habitao, com uma garrafa de seu conhaque favorito e usque para mim. Temos muitas coisas que celebrar, Richard. De 
fato,, creio que todo nos saiu bastante bem.
         -Melhor que bem -replicou Richard sem muito entusiasmo.
         Seguiram caminhando juntos. Ao cabo de um momento, Hugh disse com tato:
         -ouvi que o prncipe Michael  ainda o primeiro candidato a pedir a mo de lady Rosamund. Bom, tem suas razes, no  assim? Pertence  classe adequada, 
e conhece s pessoas adequada. Tm muito em comum Y...
         Richard se deteve e lhe disse secamente:
         -No siga com a lio, Hugh. Solo faz uma semana que conheo essa garota. me d o crdito de que ainda possuo um pouco de inteligncia. E seu aviso  desnecessrio. 
No h nada entre ns.
         Hugh Fechou as plpebras.
         - obvio, no h nada -disse.
         -De todas formas -acrescentou Richard enquanto continuavam caminhando-, est equivocado em relao ao prncipe Michael. Ela no se casar com ele.  mais 
burro que um arado.
         -Isso lhe h isso dito ela?
         -No lhe parece atrativo -replicou evitando uma resposta direta.
         Hugh pareceu bastante divertido.
         -Isso no tem importncia. No para uma mulher de sua classe. casam-se por um ttulo e para estabelecer uma dinastia. No so como ns, os humildes mortais. 
Casar-se com quem lhe diga que tem que faz-lo.
         Richard se deteve uma vez mais e disse abertamente a seu amigo.
         -Espero que esteja equivocado, Hugh. -Sua voz soava tranqila-. Porque no me sentiria bem se a famlia do Rosamund a faz infeliz. De fato, sentiria-me 
obrigado a fazer algo a respeito.
         Hugh ficou olhando perplexo ao Richard enquanto seguiam avanando.
         
        Captulo 16
         A caravana de trs carruagens chegou ao Twickenham a ltima hora da tarde, depois de uma viagem que Richard s pde descrever como penoso. Mas esse foi 
o mais nova dos inconvenientes. Tinha suposto que deveria vestir a librea dos Devere, mas no esperava que isso inclura uma empoeirada peruca branca e um chapu 
tricornio.
         -Antes quisesse lombriga morto que desta guisa -disse ao Harper aquela manh, quando este chegou a sua habitao, justo depois de que se fora o mdico, 
para lhe avisar de que tinham que preparar-se para partir.
         Suas palavras caram em ouvidos pouco pormenorizados.
         -me escute agora -disse Harper-. Estou comeando a me cansar de seus malotes olhados e de suas sobrancelhas franzidas. Por um golpe de boa sorte, conseguiste 
o favor do duque do Romsey. Deveria dar graas ao senhor Temperar por isso. Mas o nico que ouo so queixam. -Fez um gesto com a mo assinalando sua prpria Isto 
librea  um disfarce. Pensa nele como se fora um uniforme, como os uniformiza de um regimento. Haver sessenta choferes e lacaios vestidos igual a ns, deste modo, 
se nos para a tropa, ningum se fixar em ti. -E em sua melhor voz de sargento acrescentou-: Assim move o culo!
         Richard ficou em marcha.
         Enquanto lhe ajudava a vestir-se, Harper lhe disse:
         -Recorda que somos serventes, de modo que no vs chamar a ateno replicando ao que lhe mandem ou com malotes olhados. Os serventes no tm sentimentos. 
No esquea qual  seu stio.
         -Sim, senhor -respondeu Richard docilmente.
         Eles foram dentro da ltima carruagem, szinhos com a bagagem, e apesar dos chamativos uniformize, tinham a seu cargo o importante trabalho de vigiar no 
ser atacados por salteadores de caminhos. Em opinio do Richard, algo que se guardou para si mesmo em interesse da boa convivncia, teriam tido menos possibilidades 
de ser atacados se tivessem viajado com menos espectacularidad e mais decoro. Entretanto, quando j se aproximavam de seu destino, viu a lgica que havia nessa maneira 
de viajar de lorde Caspar. A tropa que encontraram no caminho reconheceu a librea e o braso do duque que adornava cada um das carruagens e lhes deixou passar sem 
lhes deter. De fato, saudaram-lhes, e alguns at lhes aclamaram.
         Quando percorriam os ltimos metros avanando j para a entrada da casa, Harper deu ao Richard as instrues de ltima hora.
         -Recorda que seu nome  Patrick Doyle, para que no chame a ateno seu acento.
         -Mas  um nome irlands, e eu sou escocs.
         -Isso d no mesmo.
         -E eu no tenho acento -replicou Richard furioso.
         Harper deixou escapar um lento e paciente suspiro.
         -Est-te ouvindo? -Quando Richard negou com a cabea, ele acrescentou-: Temos que ajudar a levar a bagagem at a casa. Se algum te ordenar algo, no responda. 
me deixe que eu fale por ti.
         -Quem nos poderia ordenar algo?
         -O mordomo, o ama de chaves, o chefe do servio. Como quer que saiba? Mas sei respeitoso. Recorda que isto  como o exrcito, e neste exrcito ns somos 
soldados rasos, no mais deso do escalo, at que nos diga o contrrio. Assim no me olhe com essa m cara. Voc, mais que qualquer outro, deveria entender o que 
 a disciplina. Voc  coronel. Nesta casa, o mordomo, ou qualquer outro,  o comandante em chefe, e se assumir que todos outros so oficiais, nunca te equivocar.
         -Quer dizer que tenho que acatar as ordens de qualquer?
         -Sim. Isso  exatamente o que quero dizer, e tem que deixar de pr essa m cara, porque isso no vai impressionar a ningum.
         Quando as carruagens se detiveram, os lacaios da casa saram correndo e se colocaram ao lado dos estribos para assistir aos ocupantes.
         Harper colocou uma caixa pequena nas mos do Richard.
         -Esta vazia -disse-, assim no te cansar.
         Richard sorriu burlonamente.
         -Idia do Rosamund? -Imaginava que tambm teria que agradecer a isso Rosamund e o luxo de viajar dentro do carro em lugar de ter que ir de p no estribo, 
sendo aoitado pelo vento e os ramos das rvores.
         -No. Idia do senhor Temperar -disse Harper franzindo a frente-. E aparta a vista de lady Rosamund, ou ambos acabaremos no Tmesis com uma pedra atada 
ao pescoo.
         -At um gato pode olhar  rainha.
         -No, se o gato for um servente, no pode. Venha, me siga.
         No tinham dado nem dois passos fora da carruagem quando apareceu uma figura no alto da escadaria de mrmore. Richard no teve nenhuma dvida de que se 
tratava do pai do Rosamund, e a seu lado estava seu irmo pequeno. O parecido da famlia saltava  vista.
         Ningum se moveu. Por um momento parecia como se todos estivessem fixados no tecido de um pintor, e ento Rosamund descendeu da segunda carruagem e todo 
mundo voltou para a vida. Subiu a escada flanqueada por lorde Caspar e o senhor Temperar. Richard no estava seguro do que esperava, mas sem dvida tinha sido algo 
mais que o frio beijo que seu pai lhe plantou na bochecha, antes de colocar seu brao por cima dos ombros dela e conduzi-la at dentro da casa.
         -V recebimento -disse Richard a meia voz para que solo Harper pudesse lhe ouvir.
         -Assim  entre a aristocracia -replicou Harper, mas seu tom de voz tambm denotava que estava molesto.
         Um lacaio se plantou diante deles. Tambm vestia librea e um colete negro com gales de ouro, mas no levava peruca.
         -Venham comigo -disse no mesmo tom que teria utilizado lorde Caspar.
         Richard relaxou as sobrancelhas. Harper lhe lanou um duro olhar e logo, satisfeito de que seu chefe tivesse captado a mensagem, seguiu obedientemente ao 
lacaio at a casa.
         
         
         Lhes pediu que esperassem em uma pequena sala de espera justo ao lado da entrada principal. Meia hora mais tarde, o mesmo lacaio altivo que lhes tinha conduzido 
at ali chegou para lhes escoltar at a biblioteca do duque, no outro extremo da casa.
         -Deixem essas caixas -lhes disse- e fiquem-nos chapus sob o brao esquerdo.
         Quando chegaram  biblioteca, ordenou-lhes que esperassem na porta. O lacaio deixou a porta entreabierta, e a voz do Hugh Temperar chegou at eles.
         -Robinson e Cook do Mount Street -disse Hugh.
         -Conheo-os -replicou o duque-. Uma boa equipe, reconheo-o. Mas eu prefiro a Sharp e Bland do South Audley. Fazem coisas que duram. Estou seguro de que 
minha velha Lizzie ainda agentar cem anos a partir de hoje, e isso que j tem mais de trinta.
         Harper sorriu.
         -Do que esto falando? -perguntou Richard.
         -De carruagens -respondeu Harper-. Falam de construtores de carros de cavalos.  possvel que agora o senhor Temperar me cria.
         A conversao na livraria se interrompeu. Ao cabo de um momento, Richard e Harper foram acompanhados dentro e anunciados como Doyle e Harper. O duque, seu 
filho e Hugh Temperar estavam sentados ao redor de uma acolhedora chamin. No se via nem rastro do Rosamund. Richard ficou olhando ao duque. O duque lhe devolveu 
um duro olhar.
         -assim, este  o homem que raptou a minha filha -disse o duque em voz baixa.
         Lorde Caspar se incorporou na cadeira, mas sem chegar a ficar em p.
         -Sua Excelncia, me permita lhe apresentar ao coronel Maitland, antigo chefe de Estado Mais velha do Servio de Segurana -disse Caspar.
         -Aproxime-se da luz -disse o duque dirigindo-se ao Richard-. No tenho freqentemente a oportunidade de que pressentem a um assassino sentenciado.
         -Sua Excelncia -comeou a dizer Hugh, mas se calou assim que o duque levantou uma mo.
         Richard deu vrios passos para a luz, e Harper avanou a seu lado, ombro com ombro.
         O olhar do duque se desviou para o Harper.
         -E voc ?
         -Sargento Harper, Sua Excelncia -respondeu Harper franzindo o sobrecenho de maneira exagerada-. Guarda-costas do coronel Maitland.
         As escuras sobrancelhas do duque se arquearam.
         -E pelo que vejo ainda est de servio -murmurou. passou-se uma mo pela boca, observou um momento aos dois atentamente e por ltimo disse dirigindo-se 
ao Harper-: No vou fazer lhe nenhum machuco a seu coronel, sargento Harper. Sempre cumpro minhas promessas. Assim sentem-nos dois.
         Quando j se acomodaram, o duque continuou:
         -O que  o que deseja de mim, coronel? No tenha vergonha. Estou de um humor generoso, agora que minha filha voltou para casa s e salva.
         Richard j tinha lutado com sua reticncia a aceitar ajuda dos Devere, assim foi direto ao gro.
         -Necessito um lugar seguro no que me esconder at que o ambiente se acalme.
         -Isso estava subentendido desde o comeo. ficar aqui todo o tempo que deseje. Que mais posso fazer por voc?
         -Quando me partir, necessitarei dinheiro para ir atirando. Tambm est Dunsmoor. Ter que fazer-se carrego da casa. Quando as coisas se arrumaram, devolverei-lhe 
at o ltimo penique que tenha gasto em mim.
         -J vejo que pretende seguir com sua idia de limpar sua reputao, no  assim?
         -Assim .
         -Isso no ser necessrio. Deixe-o em minhas mos, creio que posso lhe assegurar que em menos de uma semana ser voc completamente exonerado do assassinato 
da senhorita Rider.  obvio que no o fao por voc, me entenda. Mas sinto que o devo ao senhor Temperar pela ajuda que me emprestou para chegar at voc, e assim 
poder resgatar a minha filha.
         -Sua Excelncia -interrompeu Hugh no aceitando seguir por mais tempo em silencio-. Eu lhe conduzi at o coronel Maitland porque estava preocupado por ele, 
no por lady Rosamund. Estava seguro de que ela no sofreria dano algum.
         -Bem, Maitland, o que lhe parece a idia? -disse o duque ignorando a interrupo do Hugh.
         Os olhos do Richard se cravaram nos do duque. Ao cabo de um momento, meneou a cabea em sinal de negao.
         -Est voc falando de comprar s testemunhas, manipular os cargos e fabricar novas evidncias.
         -E se assim fora?
         Richard no podia ocultar seu desgosto.
         -O agradeo, mas no, obrigado. Prefiro meus prprios mtodos. E o que me preocupa  algo mais que minha reputao. Lucy Rider foi assassinada. E eu vou 
descobrir quem  o assassino.
         Desde a em adiante, as perguntas do duque se referiram ao crime e a como Richard tinha sido acusado da morte da moa. Ao Richard parecia que o duque se 
outorgou o papel de fiscal, e suas rplicas cada vez se foram fazendo mais curtas e deixaram de esconder-se em frases educadas.
         De repente, o duque ficou em p e,  obvio, todos ficaram em p com ele.
         -foi voc atribudo ao servio de lorde Justin -disse dirigindo-se ao Richard-. Necessitava um ajuda de cmara, e esse posto ser suficiente para voc por 
agora. Suas obrigaes no sero muito pesadas e estar voc isolado do resto do servio. Vestir o uniforme da casa todo o tempo, e duvido de que sua prpria me 
pudesse lhe reconhecer se passasse por aqui. -E a seguir, dirigindo-se ao Harper, disse-: Minha filha me contou que conduziu voc sozinha minha carruagem, no  
assim?
         -Assim , Sua Excelncia -respondeu Harper com delicadeza.
         -Uma grande proeza.
         Como viu que o duque sorria, Harper assentiu com a cabea.
         -E o senhor Temperar me h dito que nada gosta mais que arrumar carruagens danificadas,  isso certo?
         -Assim  -respondeu Harper, e logo se lembrou de acrescentar-: Sua Excelncia.
         -Esplndido! Em tal caso tenho o posto adequado para voc. Agora mesmo vai fazer se carrego da carruagem, porque... bom, basta que diga que acabou de me 
tirar de cima a certas pessoas que me falharam em seu trabalho. Quer voc ser meu chofer, Harper?
         -Chofer -disse Harper, e esboou um sorriso de gratido que pouco a pouco se foi desvanecendo-. Mas eu j tenho um cargo, Sua Excelncia, sou o guarda-costas 
do coronel Maitland. Onde ele v tenho que ir eu.
         -No seja tolo, Harper -disse Richard-. J no estamos trabalhando para o Servio de Segurana. Agora  um agente livre de servio, quo mesmo eu.
         -Em tal caso, se for um agente livre de servio, sou seu guarda-costas at que eu dita o contrrio.
         -Possivelmente ao coronel Maitland no lhe importaria trocar seu colocado de ajuda de cmara pelo de segundo chofer? -disse o duque.
         -me d no mesmo -acrescentou Maitland mentindo entre dentes. Em sua opinio, limpar esterco era uma ocupao mais importante que fazer de bab de um dandi 
que no  capaz de ficar solo a jaqueta. Sem dar-se conta Harper lhe tinha salvado do purgatrio.
         -Ento est arrumado -disse o duque-. Vocs dois sero atribudos  carruagem da casa. Justin, v com eles.
         Lorde Justin fez um sinal ao Harper e ao Richard para que lhe acompanhassem, e Hugh os acompanhou at a porta.
         -Eu gostaria de poder fazer algo mais -disse Hugh-. Mas ser melhor para ti que me mantenha afastado durante um tempo. Boa sorte, Richard. E o mesmo para 
ti, Harper.
         Richard o entendia perfeitamente. Se Hugh no se mantinha afastado deles, podia conduzir a seus inimigos at ali.
         No corredor, um supervisor dos serventes a quem Justin apresentou como Turner, o mordomo chefe, estava esperando instrues de Sua Excelncia. O senhor 
Turner rondava a cincuentena, tinha o cabelo cinza, olhos inteligentes e um aquilino nariz romana. No vestia librea, a no ser uma moderna levita cinza, por isso 
Richard deduziu que devia estar em uma hierarquia superior a dos criados.
         -Doyle e Harper, dois novos contratados dos Devere -disse Justin sem lhes dar importncia-. O senhor Harper ser o chofer e o senhor Doyle... bom, deixaremos 
que o senhor Harper dita o que quer fazer com ele. Desejo que lhes ensine a casa e se assegure de que esto comodamente instalados. Ah, e no permita que Doyle faa 
nenhum trabalho pesado. Ainda no est muito bem de sade.
         O olhar que Turner lanou aos dois novos contratados foi to fria como a do duque, mas esperou at que Justin tivesse voltado a entrar na biblioteca antes 
de comentar nada.
         -No me digam -comentou isso Turner-. So vocs dois veteranos de guerra sem trabalho, que vm procurando uma vida fcil, porque ouviram que Sua Excelncia 
tem um corao brando. Bom, solo devem recordar que a partir de agora no vo ter que responder diante Sua Excelncia, a no ser diante mim, Alfred Turner, mordomo 
chefe. E se nos falham como os anteriores, que estavam refrescando o gog no Magpie and Stump quando deveriam ter estado protegendo a lady Rosamund, farei que os 
ponham de patinhas na rua em menos que canta um galo. Entenderam-no?
         -Sim, senhor. Obrigado, senhor -disse Harper lhe lanando ao Richard um olhar de aviso.
         Mas Richard estava to aliviado por ter escapado  indignidade de ser o ajuda de cmara de lorde Justin, que no ops nenhuma resistncia.
         -Obrigado, senhor Turner -foi tudo o que acrescentou.
         Em fila a ndia puseram-se a andar atrs do mordomo chefe.
         
         
         Hugh partiu quase imediatamente. O duque e seu filho se despediram dele junto a uma das carruagens dos Devere, e logo voltaram para a biblioteca para seguir 
discutindo o assunto.
         O duque se estava perguntando a respeito do que tinha podido passar entre o Maitland e sua filha durante a semana que tinham estado juntos. Tinha tido tanto 
medo de que voltasse para casa como uma mulher rota e assustada, como uma sombra do que tinha sido... Mas tinha descido do carro e caminhado por volta da casa como 
se acabasse de voltar de passar uma semana de frias com sua tia av Sophy, no Hampshire. Seu alegre comportamento estava muito longe de fazer supor que sentia raiva 
contra o homem que a tinha seqestrado, e tinha insistido em que Maitland se comportou como um perfeito cavalheiro.
         Maitland um perfeito cavalheiro? O duque tinha suas dvidas a respeito.
         -Bom, o que  o que opina, pai? -perguntou lorde Gaspar.
         -Sobre o Maitland?  um ser que no provoca simpatias, mas lhe desejo o melhor.
         -Tem umas referncias impecveis -acrescentou lorde Justin-. Hugh Temperar e Harper... Oxal pudesse ter eu, algum dia, amigos que confiassem em mim desse 
modo.
         -Tem razo -respondeu o duque-. Diz muito a favor do Maitland o que tenha amigos desse calibre. Harper parece um homem de carter. Claro que minha opinio 
est suavizada pelo fato de que estivesse trazendo para o Rosamund a casa quando tropeou contigo, Caspar. E tambm  comovedora a lealdade que professa ao Maitland, 
no te parece? E sabe muito de carruagens. Esse homem me deixou bastante impressionado.
         O ltimo comentrio fez que lorde Caspar e lorde Justin se olhassem sorrindo s escondidas.
         -Ser melhor que no faam movimentos suspeitos ao redor do Maitland quando Harper esteja perto -acrescentou brincando o duque.
         -E o mesmo se poderia dizer de Temperar -disse lorde Justin.
         -Sim -respondeu o duque-. Como hei dito, Maitland tem sorte ao escolher a seus amigos.
         calaram-se quando entrou um lacaio com um saco de lenha e avivou o fogo. Quando voltaram a ficar szinhos, lorde Caspar continuou a conversao onde a tinham 
deixado.
         -Est convencido agora, pai, de que Maitland  inocente?
         -OH, no tenho nenhuma dvida disso. Quando rechaou minha oferta de limpar sua reputao, passou a prova. Mas me fale do Rosamund. O que aconteceu ela 
e Maitland? Como obteve ele convenc-la?
         -Que como a convenceu? -repetiu lorde Caspar com o olhar sereno.
         -Tudo o que h dito ao respeito  que temos a obrigao de demonstrar sua inocncia.
         Lorde Caspar se encolheu lentamente de ombros.
         -Bom, ter que lhe perguntar ao Rosamund. Mas tem que recordar que Harper atuava seguindo as instrues do Maitland ao conduzir ao Rosamund a casa. Supondo 
que Rosamund se sente agradecida por isso.
         -Hummm -disse o duque. Lorde Justin no acreditava.
         -Pai, deve estar pensando o que creio que est pensando -disse-. J viu como  esse homem. "No provoca simpatias" no creio que seja uma definio que 
lhe faa justia. Se lhe fizesse sentar-se na despensa, seu olhar conseguiria que se coalhasse tudo o leite e a nata. E se o compara com o prncipe Michael, enfim... 
no h comparao, e ao Rosamund repugna o prncipe.
         O olhar do duque se deteve em seu filho mais jovem durante um momento.
         -Justin, ainda tem muito que aprender das mulheres -lhe disse ao fim-. Ele  diferente. Rosamund nunca se cruzou com um homem assim.
         -Esto-lhes preocupando com nada -disse lorde Caspar-. Sei de boa tinta que no ter ao Rosamund a nenhum preo. E eu creio que Maitland  um homem de palavra.
         O duque no respondeu, mas estava comeando a preocupar-se.
         
         
         Prudence Dryden era mais ou menos um ano mais jovem que Rosamund, e lhe tinha parecido uma eleio ideal para dama de companhia quando Rosamund lhe ofereceu 
esse colocado. Provinha de uma boa famlia -tanto seu pai como seu irmo eram procos- e no lhe impressionava o ambiente da casa do duque. Rosamund tinha pensado 
que se tratava de uma moa educada e socivel, e tambm tinha acreditado que poderiam chegar a ser amigas. Mas estava comeando a dar-se conta de que se precipitou 
ao julgar o carter da senhorita Dryden. A moa parecia estar sempre de mau humor, como se Rosamund a tivesse ofendido em algo.
         Nesse momento estavam na pequena sala que havia ao lado do dormitrio do Rosamund, e o cabelo negro da senhorita Dryden caa em cascata sobre seu bordado. 
Levava um dos vestidos do Rosamund, um traje verde que ela nunca se ps porque essa cor a fazia parecer doente. Por alguma estranha razo, embora ela e a senhorita 
Dryden tinham a mesma cor de olhos, ficava muito bem a jovem Prudence, e intensificava o verde de seus olhos. Rosamund teria querido lhe dar de presente outros vestidos 
a seu acompanhante, vestidos que logo que necessitariam um pequeno acerto dado que ela e Prudence eram quase da mesma estatura, mas tinha medo de ofend-la se o 
fazia.
         A senhorita Dryden elevou a vista com olhar interrogativo.
         -E essa  a ltima vez que lhe viu, quando te encerrou em sua habitao do Dunsmoor?
         Estavam falando do Richard e de como a "resgataram" Caspar e Hugh Temperar.
         -Sim -respondeu Rosamund. Tinha que ser cuidadosa com o que dizia, pela segurana do Richard-. Caspar diz que lhes deveu escapar por minutos.
         A senhorita Dryden inclinou a cabea.
         -Est contente de que tenha escapado, no  assim?
         Rosamund tivesse querido abrir seu corao, mas,  obvio, no podia lhe contar nada a ningum. movia-se por uma linha muito magra. Se dizia muito podia 
pr ao Richard em perigo. Mas, de uma vez, tampouco podia permitir que tomassem pelo perigoso indivduo que todos acreditavam que era.
         -Tratou-me com respeito -respondeu-. No podia acreditar que tivesse matado a ningum. -E como tinha medo de falar mais da conta, rapidamente trocou de 
tema-. Bom, me conte que h passado aqui em minha ausncia.
         Havia pouco que contar, exceto o prncipe Michael tinha estado acontecendo cada dia por ali para perguntar se se sabia algo novo dela. Rosamund ps m cara.
         -Espero que isso no signifique que ainda me continua perseguindo. -Olhou  senhorita Dryden-. Espero que meu pai no lhe esteja dando esperanas!
         A senhorita Dryden estava olhando  porta, e suas bochechas comeavam a sonrosarse. Rosamund se deu a volta e viu que Caspar acabava de entrar.
         -Nosso pai quer ver-te agora, Rosamund -disse Caspar.
         "OH, no", pensou Rosamund. Esperava que Prudence no se apaixonou pelo Caspar. Pobre Prudence. No sentia saudades que estivesse de mau humor.
         
         
         No havia rastro do Prudence quando Rosamund retornou  sala, e a verdade  que no o sentia. Sua cara estava radiante de tanto sorrir. Parecia que no 
estava enganando a ningum. Tanto seu pai como seus irmos estavam to solcitos, to estranhamente solcitos, que pensou que certamente se deram conta de que tinha 
o corao quebrado.
         Seu pai estranha vez falava de sua me; era algo que ainda lhe doa muito. Era um homem que preferia guardar suas emoes bem encerradas em seu interior. 
Mas precisamente agora lhe tinha estado falando de sua me, com uma voz suave e os olhos cheios de lgrimas.
         -Estaria orgulhosa de ti se pudesse ver-te agora -lhe disse-. Realmente orgulhosa! Eu tambm estou orgulhoso de ti.
         Ela tinha muitas lembranas alegres de sua me, e o mais vivo de todos era que seu pai e sua me tinham experiente essa classe de amor com o que a maioria 
de pessoas s pode sonhar. Era verdade que Richard tambm podia fazer que a ela lhe enchessem os olhos de lgrimas, mas eram lgrimas de aflio. Richard era realmente 
um homem impossvel.
         Pelo menos seu pai ia tratar o da maneira que se merecia. Poderia ficar ali todo o tempo que quisesse. Mas ela no poderia falar com ele, ou fazer algo 
para tratar de chamar sua ateno. Logo, quando dentro de duas ou trs semanas estivesse recuperado, poderia partir dali e ela nunca mais teria que voltar a lhe 
ver.
         E ela poderia suport-lo porque era uma Devere. Por isso seu pai lhe havia dito que estava orgulhoso dela.
         Rosamund comeou a perambular pela habitao suspirando. Seu pai lhe acabava de recordar que a semana seguinte seria seu aniversrio, e lhe disse que tinha 
pensado que deveriam lhe permitir que desse um baile de etiqueta. Por uma parte j se enviaram os convites; e por outra lhe faria bem, disse seu pai, divertir-se 
um pouco e esquecer suas preocupaes, e ela esteve de acordo em tudo com um sorriso. O que outra coisa podia fazer? No podia afundar-se solo porque algum lhe 
havia rompido o corao.
         Tinha que ser proprietria de si mesmo.
         Voltou a suspirar. Tinha esperado que ao estar de volta entre sua famlia e em seu prprio lugar, o mundo ficaria em ordem por si s e que comearia a ver 
a ltima semana de sua vida com a adequada perspectiva. Mas no tinha acontecido assim. Agora seu mundo lhe parecia muito mais pequeno de como o recordava.
         Tomou seu tambor de bordado e examinou o progresso do trabalho que estava fazendo. ia ser um xale, com os extremos bordados com trepadeiras e bolotas de 
linho de cetim branco. Tinha boa mo para a costura, e todas as habitaes da casa de seu pai deixavam perseverana disso -almofadas feitas de ponto, toalhas e lenis 
bordados, lenos com as iniciais bordadas para seus irmos, tapearias... E quando no estava dedicada  costura, lia ou arrumava as flores do jardim.
         Como tinha conseguido no voltar-se louca durante todos esses anos?
         Conhecia outras duas mulheres peritas em trabalhos de costura, Prudence e tia Fran, e estava convencida de que no tinham nada mais com que ocupar seu tempo. 
Mas o que outra coisa podia fazer ali uma mulher solteira? As solteironas acabavam invariavelmente como babs nas casas de seus irmos. Por essa razo Prudence tinha 
tentado fazer algo por si mesmo aceitando ser sua dama de companhia. Ela, Rosamund, tinha que ser uma terrvel decepo para o Prudence. A este passo, as duas foram 
acabar como tia Fran, toleradas mas sem uma verdadeira vida prpria.
         Ento, o que  o que tinha que fazer?
         J conhecia a resposta. No foi somente sua aventura com o Richard o que lhe tinha feito expor-se essas questes. J muito antes de que isso acontecesse, 
tinha comeado a no estar de acordo com o papel que lhe tinha sido atribudo na vida. Estava cansada de que solo a vissem como a filha de um duque. Queria ser uma 
mulher de carne e osso; queria fazer e ver coisas que nunca antes tinha visto ou feito. Queria ter uma vida de verdade.
         Suspirou profundamente. O seguinte passo a dar, como bem sabia, era ter sua prpria casa, um lugar de que pudesse entrar e sair quando gostasse.
         
        Captulo 17
         Richard elevou a vista de seu livro de contas e olhou pela janela de seu escritrio. O edifcio do estbulo estava no lado leste da casa, e seus escritrios 
do primeiro piso tinham uma vista excelente sobre o caminho e o jardim. Enquanto olhava pela janela, lorde Caspar, Rosamund e seu acompanhante, a senhorita Dryden, 
descenderam a escada de entrada da casa, entraram na calesa que lhes estava esperando e em seguida ficaram em caminho para dar seu acostumado passeio matutino.
         Observar ao Rosamund saindo a passear na calesa de seu irmo se converteu em um ritual desde fazia uma semana. Pela tarde existia outro ritual. A essa hora 
chegava  casa uma procisso de carruagens de todas as pessoas populares de Londres, que deviam apresentar suas saudaes  filha do duque, mas nenhuma delas era 
mais popular que o prncipe Michael do Kolnbourg.
         Aquela tarde no viria o prncipe Michael nem haveria procisso de carruagens. As carruagens comeariam a chegar para a noite, quando se fossem apresentando 
os convidados ao baile que o duque oferecia com ocasio do aniversrio de sua filha. Enquanto isso, a casa bulia de atividade enquanto os criados o preparavam tudo 
para o grande acontecimento. Desde seu privilegiado colocado de observao, podia ver os jardineiros e a seus ajudantes pendurando abajures das rvores, e aos criados 
transportando novelo do estufa  pracinha que estava na parte alta do lago artificial.
         Richard se havia equivocado ao pensar que Twickenham House poderia ser como Dunsmoor, embora maior. O lugar era como um palcio em miniatura. E quanto s 
pessoas que vivia ali... Richard sacudiu a cabea. s vezes se perguntava se teriam nascido em outro planeta.
         supunha-se que ele era o segundo chofer, mas at esse momento nunca se requereram seus servios, porque cada vez que o duque queria dar uma volta em um 
de seus carros se sentava invariavelmente no bolia ao lado do Harper, e ele, Richard, viajava no interior do carro. A maneira de dirigir os cavalos que tinham era 
indescritvel: O duque e Harper pareciam um par de fanticos quando conduziam a carruagem.
         E quando o duque e Harper no saam a dar uma volta em algum carro, lhes podia encontrar, muito freqentemente, na velha garagem de carruagens, mais conhecido 
como "a enfermaria", onde os carros com alguma avaria eram levados a duque por seus proprietrios -como se este tivesse uma loja em seu ptio traseiro- para ser 
cuidadosamente reparados.
         Harper estava ali em seu elemento.
         Depois de inundar a pluma no tinteiro, Richard anotou uma entrada em seu livro de contas. Para isso era para quo nico servia! Lhe tinha atribudo o posto 
de levar as contas dos estbulos e da garagem de carruagens, mas solo porque no sabia fazer nada mais. E quando no estava trabalhando em seus livros de contas, 
dedicava-se a ver chegar ao prncipe Michael elegantemente vestido para levar a dar um passeio a lady Rosamund em seu igualmente elegante calesa com seus ostentosos 
alazes.
         Dois passeios em calesa em um mesmo dia eram muito, em opinio do Richard, mas lady Rosamund no parecia pensar o mesmo. De fato, diria-se que inclusive 
se divertia com isso.
         Uma gota de tinta se desprendeu da ponta de sua pluma e deixou uma mancha em uma das colunas. Richard a observou durante um bom momento com m cara e logo 
soltou um zangado taco. Secou a mancha, deixou sua pluma no tinteiro e se levantou.
         J no notava espetadas nem dores quando caminhava. Em uma semana de repouso sua sade tinha melhorado grandemente. sentia-se agora em perfeito estado. 
O excelente mdico que lhe examinou a ferida tinha colocado cara de preocupao a primeira vez que a viu. Tinha meneado a cabea e havia dito algo a respeito de 
que os empregados do duque deveriam comear a dar-se conta de que a guerra tinha acabado e deveriam afastar-se das brigas de bbados.
         Pensou se teria que ir  habitao dos arreios para ajudar ao Harper a limpar as rdeas e cadeiras de montar, mas a ltima vez que esteve ali lhe tinha 
cansado um bom rapapolvo por haver-se confundido de limpador, e lhe havia dito que se mantivera afastado dessa sala. No estava procurando tanto algo que fazer como 
algum com quem falar. Estava cansado de sua prpria companhia.
         ficou a pensar no Digby e Whorsley. Tinham estado indo por toda a cidade com a esperana de conseguir alguma pista que os conduzisse at ele, ou pelo menos 
esperando dar com o Harper e poder prend-lo. Entretanto, conforme lhe tinha contado Harper, no conseguiram tirar o Rosamund nenhuma s palavra contra ele, e Harper 
lhes tinha feito tragar o conto de que tinha sido enganado por seu chefe, quem lhe tinha feito acreditar que estava trabalhando em um caso, e que jamais lhe teria 
ajudado a escapar do Newgate se tivesse sabido a verdade.
          obvio, tinha sido de ajuda o fato de que o duque tivesse aplainado o terreno ao Harper falando pessoalmente com o primeiro-ministro. E no s isso, alm 
disso Harper ia receber uma parte da recompensa por ter participado do resgate do Rosamund! Assim, quando os pobres Digby e Whorsley saram do Twickenham House, 
chiavam-lhes os dentes.
         Harper lhe tinha contado o acontecido muito entusiasmado, mas Richard ainda estava receoso. Estava seguro de que essa no ia ser a ltima vez que se cruzasse 
com o Digby. Se esse homem tivesse sido to preparado como tenaz, a essas alturas Richard no acamparia a suas largas pelo Twickenham House.
         E ainda se perguntava como tinha descoberto Digby a existncia do Dunsmoor.
         Agora que j nada o retinha no Twickenham, ia sendo hora de ficar em marcha. Havia chegando o momento de ficar mos  obra para tentar limpar sua reputao. 
Mas no queria partir dali sem despedir-se do Rosamund. depois de tudo o que ela tinha feito por ele, merecia-se muito mais que isso. merecia-se o melhor.
         O som de uns passos subindo pela escada exterior de metal interrompeu seus pensamentos. Em seguida jogou mo de seu chapu tricornio, no interior do qual 
tinha oculto sua pistola.
         Algum golpeou a porta.
         -Est a, Doyle?
         Era a voz de Alternem Richard deixou seu chapu sobre a mesa e abriu a porta.
         -Sim, senhor Turner -disse respetuosamente-. O que posso fazer por voc?
         Agora se o fazia mais fcil mostrar respeito pelo mordomo chefe. Harper no tinha exagerado ao dizer que a vida no servio era como a vida no exrcito; 
e neste exrcito, Turner era o general. Quase nada podia escapar a seu atento olhar. E seu atento olhar tinha estado centrada sobre o Richard durante algum tempo.
         Mas aquele dia Turner parecia diferente. Seu olhar de guia se relaxou, quo mesmo seus lbios magros, e havia nele um ar de entusiasmo contido.
         -te aproxime da luz para que possa ver-te bem -disse Turner.
         Surpreso e cauteloso ao mesmo tempo, Richard fez o que lhe ordenava. O mordomo chefe o olhou de cima abaixo, deu uma volta a seu redor e o examinou desde 
todos os ngulos.
         -No  to atrativo como muitos outros, mas servir -acrescentou Turner.
         -Servirei para que? -perguntou Richard desconcertado.
         -Como criado. Estamos faltos de pessoal para o baile, assim te apresente s cinco em ponto no vesturio dos criados e ali lhe vestiremos de maneira adequada.
         -De maneira adequada? O que significa isso?
         -Os garons vo levar um novo uniforme -replicou Turner-. Sua Excelncia me h isso dito faz apenas uma hora. Tnhamos estado guardando este novo uniforme 
durante muito tempo, e agora parece que por fim vai acontecer. -Quando Richard ficou olhando ao Turner com cara de no entender nada, este lhe explicou claramente-: 
vai se anunciar o compromisso de lady Rosamund.
         Richard se sentiu como se algum lhe tivesse golpeado no estmago. Demorou um par de minutos em lembrar-se de voltar a respirar.
         -No pode ser verdade -disse.
         Os lbios magros do Turner se dobraram em um sorriso.
         -No o tinha ouvido? Lady Rosamund alugou uma casa no Bloomsbury. E por que ia fazer o se no estava pensando em casar-se? -Qualquer rastro de bom humor 
se desvaneceu de sua cara e voltou a falar em seu habitual tom de trabalho-: s cinco em ponto no vesturio dos criados, recorda-o, nem um minuto antes nem um minuto 
depois.
         Richard ficou olhando ao mordomo chefe enquanto este avanava a passo ligeiro para a casa, e a seguir voltou a entrar em seu escritrio e fechou a porta 
de um golpe.
         
         
         Lorde Caspar deixou a seus passageiros na casa do Callie, no Manchester Square, e, depois de prometer que retornaria para busc-los em uma ou duas horas, 
voltou a ficar em marcha. Rosamund se alegrava de que as deixassem a ss, porque sempre que Caspar estava perto, seu acompanhante, a senhorita Dryden, ficava sumida 
em compridos momentos de silenciosa reflexo. Para o Rosamund era bvio que Prudence se apaixonou pelo Caspar. Precisamente o que no deveria ter acontecido jamais. 
 obvio que ao Caspar interessavam as mulheres, mas o matrimnio era a ltima coisa que podia passar por sua mente. No estava interessado nas garotas bonitas, a 
no ser nas garotas fceis.
         Havia outra razo pela que se alegrava de ver partir ao Caspar. Tinha que lhe dizer ao Callie um pouco muito importante, e a presena de um homem teria 
sido um estorvo. Finalmente se tinha decidido. Tinha alugado uma casa aos subrbios do Bloomsbury e estava comeando a arrum-la.
         Embora seus irmos a tinham apoiado em sua resoluo de estabelecer-se por sua prpria conta, em privado criticavam sem rodeios sua deciso.  obvio, eram 
seus irmos, e isso era de esperar, mas Rosamund j sabia desde fazia muito tempo que os homens no se sentiam cmodos com a idia de que uma mulher dirigisse sua 
prpria vida.
         Richard Maitland, certamente, era a exceo.
         Como tinha feito a ltima vez que seus pensamentos tinham acabado dirigindo-se ao Richard -e quando no o tinham feito?-, mandou-os a um rinco escondido 
de sua mente e tentou pensar em qualquer outra coisa.
         Na praa, justo diante da casa do Callie, havia um carro atirado por quatro cavalos. A seu lado, um menino que vestia uma librea negra e chapeada sustentava 
as rdeas do cavalo de cabea. No reconheceu a librea, mas pensou que a formosura do uniforme era digna da do jovem. De fato, o primeiro em que se fixou foi no 
menino, no no carro ou nos quatro magnficos cavalos brancos.
         De sua boina caam negros cachos que emolduravam um rosto com olhos negros e uns finamente cinzelados ossos que lhe fizeram pensar nos jovens guerreiros 
gregos que tinha visto nos mrmores de lorde Elgin. Sups que deveria ter uns quatorze anos. A aqueles meninos lhes chamava tigres -embora no tinha nem idia de 
por que-, e todos eram formosos e admirveis por sua elegncia. Pelo pouco que sabia deles, seu verdadeiro encargo era puramente decorativo; eram o toque final da 
bagagem de algum cavalheiro importante.
         -Parece italiano -sussurrou Prudence.
         -Descubramo-lo.
         Quando estiveram frente a ele, Rosamund lhe disse:
         -Estvamos admirando seus cavalos. Eu dizia que eram ingleses, mas meu acompanhante afirma que so rabes.
         O moo se tocou o gorro respetuosamente.
         -No tenho nem idia de qual  seu rrraza -disse com o mais falso acento francs que Rosamund tivesse ouvido jamais-. Tendrrrn que prrreguntarrr a meu 
seorrr, monsieur Withers.
         -Obrigado -disse Rosamund.
         Uns passos mais  frente, Rosamund e Prudence intercambiaram um sorriso cmplice.
         -Parece-me que leva muito longe seu tom afetado.
         Rosamund no estava absolutamente interessada pelo dono daquele carro. Pensou que devia ser um dos amigos do Charles Tracey, ou acaso um visitante que havia 
passado por ali a saudar o Callie. Desde que foi "resgatada" sozinho se viram um par de vezes, ambas no Twickenham House e rodeadas de gente, por isso no tinham 
podido falar com liberdade. prometeram-se mutuamente manter um bate-papo de voc a voc  primeira oportunidade que lhes apresentasse, e aquela era a oportunidade 
que Rosamund tinha estado esperando.
         Quando foram anunciadas e entraram na sala de desenho, viram que Callie no estava sozinha. Havia com ela dois cavalheiros sentados de costas  janela que 
ficaram em p ao entrar elas. Tambm estava ali tia Fran, mas parecia dormida em uma poltrona ao lado do fogo.
         Callie se aproximou para saud-la.
         -Rosamund! -disse-. Hoje  seu aniversrio, no  assim? No teria que estar te preparando para o baile de esta noite?
         -No h muito que preparar -disse Rosamund, escondendo sua desiluso detrs de um sorriso. Esperava ter encontrado ao Callie s-. Prudence e eu passvamos 
por aqui e pensamos que poderamos nos parar a saudar. Assim, aqui estamos.
         -Muito feliz volta! -riu Callie-. Agora deixa que lhe presente a meus convidados. No creio que conhea senhor Withers.
         -Lady Rosamund -disse o cavalheiro com uma reverncia-. Posso lhe desejar tambm eu uma muito feliz volta?
         Rosamund notou que seu corao se acelerava um pouco, e aventurou a conjetura de que o senhor Withers devia ter esse efeito sobre muitas mulheres. Pareceu-lhe 
que andaria pelos quarenta anos, embora aparentava possuir a vitalidade de um homem mais jovem. Rosamund pensou que tinha um bonito sorriso.
         -Muito obrigado. E esta  meu amiga, a senhorita Dryden -respondeu ela.
         -Encantado -disse o senhor Withers, e ao Rosamund pareceu que o dizia de verdade. E pela forma em que Prudence o olhava, tambm ela parecia encantada com 
ele. Tanto que se esqueceu de fazer uma reverncia.
         -E o mais velha Digby do Guarda a Cavalo -disse Callie-, a quem creio que j deve conhecer, no  assim?
         O corao do Rosamund voltou a dar um tombo, mas por uma razo bem diferente. O mais velha Digby tinha estado interrogando-a durante bastante tempo, e com 
dureza, a respeito de seu seqestro e de tudo o que pudesse lhe dizer do Richard Maitland, e da semana que haviam passado juntos. Pareceu-lhe que Digby era um homem 
verdadeiramente perigoso.
         Os primeiros cinco minutos os passaram falando de coisas sem importncia, e o senhor Withers dirigiu quase toda a conversao. Tinha nascido na Inglaterra, 
disse, mas havia passado quase toda sua vida nos arredores do Charles Town, na Carolina do Sul, e pensava retornar ali assim que seus negcios na Inglaterra concluram. 
Tinha vindo a comprar uns puro-sangues para seus estbulos e a visitar alguns velhos amigos.
         -Doer-me muito partir -disse Withers-. No poderei esquecer quo formosa pode chegar a ser a Inglaterra, e o maravilhosas que so suas damas.
         "Sorri muito", pensou Rosamund, e em sua mente apareceu uma imagem do Richard com uma de seus estranhas e breves, mas francas, sorrisos.
         esbofeteou-se a si mesmo por esse pensamento errtico que tinha.
         -O que vai fazer com seu tigre quando abandonar a Inglaterra? -disse o mais velha Digby-. O digo porque conheo um monto de pessoas que dariam um olho 
da cara pelo ter.
         -OH, levarei-me ao Roland comigo. Poderamos dizer que chegamos a estar muito unidos o um ao outro.
         E precisamente no momento em que Rosamund estava comeando a pensar que a conversao era mas bem aborrecida, Callie se meteu nela com seu melhor estilo, 
e o fez deixando-os a todos conmocionados.
         -Precisamente estvamos falando de ti, Rosamund, antes de que chegasse -disse-. O mais velha Digby me estava dizendo que o convenceu de que Maitland  inocente, 
mas eu no lhe acreditava.
         Seu pai lhe tinha advertido que fora extremamente cuidadosa quando aparecesse o nome do Maitland em qualquer conversao. No queria que ningum pudesse 
pensar que os Devere eram muito amigos de um fugitivo da lei, porque de ser assim olhariam com suspeita para o Twickenham House. Assim Rosamund escolheu suas palavras 
com cuidado.
         -No recordo haver dito tal coisa.
         Digby sorriu com um sorriso sem alegria.
         -No com essas palavras exatamente -disse-, mas para mim foi evidente que voc estava, e est, de sua parte.
         -No foi um encantado selvagem? -brincou Withers-. Eu conheci a muitas pessoas desse tipo. A gente pensa que so seus melhores amigos, e de uma vez lhe 
esto roubando sem que o veja.
         Rosamund sentiu que se estava burlando de sua inteligncia e no pde evitar lhe responder.
         -Nunca diria que o senhor Maitland  encantador. O que pinjente  que me parecia que as autoridades tinham decidido que era culpado desde o comeo e que 
j no se preocuparam com descobrir a verdade.
         -E por que opina que aconteceu assim, lady Rosamund? -perguntou enfurecido Digby.
         -Creio que tinha capitalistas inimigos que estariam contentes de lhe ver afundar-se.
         -Isso no tem nenhum sentido -replicou Digby tentando claramente controlar seu aborrecimento-. As evidncias contra Maitland eram irrefutveis. De todas 
formas, os militares no se envolveram absolutamente. Se tiver voc alguma queixa, eleve-a s autoridades civis. O caso o levaram os magistrados da Bow Street Office. 
Minha gente s se viu envolta quando Maitland escapou do Newgate.
         Seu desprezo e sua maneira altiva de falar irritaram ao Rosamund, e se esqueceu de ser precavida.
         -Isso no ajudaria em nada. O que faria falta  comear de novo. Se trabalhssemos a partir do suposto de que o coronel Maitland  inocente, como sua gente 
deveria ter feito desde o comeo, surgiriam todo tipo de perguntas.
         -Como quais?
         -Como quem lhe odiava o suficiente para preparar sua queda. Quais eram os amigos do Lucy Rider, com que pessoas tinha estado relacionada. Como podem duas 
pessoas, um menino e um homem, desaparecer da cena do crime sem que ningum os veja, quando havia tanta gente pelos arredores.
         A cara do Digby se retorcia de fria.
         -O que eu me estou perguntando  por que foi voc ao Newgate, lady Rosamund. Foi uma coincidncia ou acaso todo estava previsto?
         Callie ficou em p.
         -Senhor Digby, est-se voc ultrapassando! Lady Rosamund foi ao Newgate porque eu a convidei. lhe pergunte a meu cunhado. Charles o confirmar, quo mesmo 
tia Fran. Foi todo minha idia. Como podia saber que Maitland tentaria escapar?
         Foi Prudence, a muito tmida Prudence, quem deliberadamente dirigiu a ateno para si mesmo.
         -Meu irmo tambm acredita que Maitland  inocente.
         Digby girou a cabea e ficou olhando  senhorita Dryden como se ela tivesse sido invisvel at esse momento.
         -E quem  seu irmo? -perguntou Digby sem ocultar seu desdm.
         -Peter Dryden -respondeu ela brincando.
         -Peter Dryden, o banqueiro? -perguntou o senhor Withers.
         -No. Ele  proco.
         -Ah, ento no o conheo.
         Rosamund se alegrou pela interrupo. Esse tempo fora da conversao tinha feito que seus nimos se relaxassem um pouco. Tinha medo de ter falado mais da 
conta. Quo ltimo queria que Digby suspeitasse era que ela estava ajudando ao Maitland ou que era seu cmplice.
         -Se for um assassino, por que no me matou? -disse Rosamund com um tom grandemente mais acalmado-. No tinha nada que perder. Isso  o que me fez duvidar 
de que tivesse assassinado  senhorita Rider.
         Digby negou com a cabea. Tambm sua voz era muito mais acalmada.
         -Voc  a filha do Romsey, lady Rosamund -disse-. Lucy Rider era uma dom ningum. Maitland no est louco. Seu pai nunca teria descansado at lhe fazer 
pagar por sua morte. Quem pode vingar a morte da senhorita Rider?
         "Richard!", estava desejando dizer. "Richard vingar sua morte." Mas desceu os olhos e replicou em um suspiro:
         -Isso  o que diz meu pai.
         O mais velha Digby se relaxou um pouco.
         -Seu pai tem razo.
         Ao cabo de um momento, o senhor Withers ficou em p e disse que tinha deixado szinhos os cavalos muito tempo e que tinha que partir. Lanou um olhar ao 
Digby.
         -Se for voc para o quartel do Guarda a Cavalo, eu vou de caminho. Posso lhe levar at ali.
         partiram juntos, e ao Rosamund no coube a mais nova dvida de que o senhor Withers se ofereceu a levar ao Digby com ele para que no seguisse discutindo 
de maus modos com ela.
         Callie se aproximou da janela e observou aos cavalheiros partir no carro de cavalos.
         -Lamento ter sido to dura com um de seus convidados -se desculpou Rosamund-, mas eu no gosto de nada esse homem.
         -Sei to dura como quer -disse Callie rendo-. No  quo nica virtualmente foi acusada de ajudar ao Maitland a escapar do Newgate. Est obcecado com o 
Maitland. Embora no me ocorre por que razo.
         -Embora... passou algo no Newgate, ou no foi ali? -disse Rosamund com ar distrado.
         -O que? -perguntou Callie voltando-se da janela.
         Rosamund sacudiu a cabea.
         -No sei. Pode que seam minhas imaginaes... ou pode que no. Callie, olhe pela janela e me diga o que v.
         Callie olhou atentamente pela janela.
         -Nada. Espera um momento. Mas posso te dizer o que  o que no vejo. No vejo o carro de seu pai, nem seus choferes ou seus postillones. 
         Esse era o momento que Rosamund tinha estado esperando.
         -J so coisa do passado -disse-. de agora em diante viajarei em minha prpria e modesta calesa, como qualquer outra mulher.  obvio, ainda no tenho carruagem, 
mas logo o terei. E no quero ir rodeada de criados que logo sempre lhe deixam sozinha. vou viver como uma garota corrente.
         -J tnhamos tido esta conversao antes, mas nunca tinha chegado a te atrever a faz-lo -disse Callie movendo a cabea.
         -Esta vez falo a srio. J o ver, por fim vou dar o salto. aluguei uma casa aos subrbios do Bloomsbury. Se eu gostar, penso compr-la antes de que acabe 
o ano.
         Ningum se deu conta de que tia Fran se acabava de despertar, mas de repente esta exclamou:
         -Bravo Rosamund. Isso  todo um lucro. H dito Bloomsbury? Isso no est muito longe. por que no vamos agora mesmo a lhe jogar uma olhada?
         -Tia Fran, acaba-me de tirar as palavras da boca -respondeu Rosamund.
         
         
         George Withers se encerrou em seu estudo e se sentou  mesa com uma garrafa e um copo. tomou um primeiro gole de repente e em seguida se serve outra taa. 
Logo se aproximou da janela e olhou para o Bond Street sem fixar-se realmente em nada. Sua mo estava tremendo de raiva.
         Digby era um incompetente! Esse homem estava louco se imaginava que poderia ocupar alguma vez o posto do Maitland como chefe de Estado Mais velha. Esperava 
que as coisas acontecessem em vez de fazer que as coisas acontecessem.
         Bebeu a sorvos seu brandy enquanto repassava a conversao em casa da senhora Tracey. Peter Dryden, o proco. Era a nica pessoa na Inglaterra que supunha 
uma ameaa para ele. Dryden tinha conhecido ao verdadeiro Withers. Refletiu um momento e se acalmou. No parecia que fora a topar-se com ele, j que no se movia 
entre os crculos de pessoas com quem tratava. Mas, mesmo assim, tinha conhecido a sua irm. Bom, essas coisas podem acontecer.
         Se tudo tivesse sado conforme o tinha previsto, Maitland j estaria enforcado e ele estaria abandonando a Inglaterra nesse mesmo momento.
         Possivelmente ia sendo hora de recolher os bens e desaparecer.
         Isso era o que lhe punha furioso. E lady Rosamund Devere. Parecia-lhe que essa moa lhe podia causar muitos problemas.
         Tomou um comprido e lento gole de brandy enquanto considerava as opes que tinha. A diferena do Digby, ele no era dos que esperavam a que as coisas acontecessem. 
Primeiro tinha que as ver-se com lady Rosamund, e logo j pensaria no Peter Dryden.
         
         
         meteram-se todas em um carro de aluguel, e embora o caminho estava abarrotado de gente, no lhes importou porque no era muito comprido.
         -H dito Bloomsbury, mas isto  Somers Town -disse Callie-. No me parece um lugar muito apropriado para ir s compras ou para convidar aos amigos.
         -Absolutamente -disse tia Fran-. Bloomsbury est a solo um passeio a p, e ali h lojas, no  assim?, e carros de aluguel. Havemos passado por diante vindo 
para aqui.
         -O mesmo d, parece-me que  um lugar isolado -disse Callie-. Eu gosto de ver meus vizinhos e que meus vizinhos me vejam. est-se mais seguro assim.
         Rosamund pagou o carro de aluguel, sabendo que poderia encontrar outro com solo andar cinco minutos, e se reuniu com outros diante das grandes leva de ferro 
forjado.
         -Ainda no tenho as chaves -disse-. Por isso esto fechadas as portas. Mas ali est o porteiro, Fenton. Seguro que nos deixa entrar.
         Entraram pela porta da portaria e percorreram o caminho para a casa. Era um edifcio de dois novelo, de estilo georgiano, com altos ventanales que davam 
ao sul, sobre uma vasta extenso de grama. Rosamund comeou a lhes assinalar as caractersticas do lugar: o pasto para os cavalos, o estbulo, o bosque que rodeava 
a casa.
         -Desde a lhe vem o nome  casa -disse-, Woodlands
         O porteiro era um amvel homem grisalho que se ofereceu a lhes servir uma taa de ch no salo rosa. E um quarto de hora mais tarde ali estavam, tomando 
o ch e planejando ir s compras para encarregar material para as cortinas e os estofos.
         Ao cabo de um momento, Callie e tia Fran saram a um pequeno mirante com vistas para a grama que havia diante da casa, deixando  senhorita Dryden e ao 
Rosamund a ss.
         -Quero que saiba o muito que admiro a maneira em que defende ao senhor Maitland -disse a senhorita Dryden com sua habitual maneira reservada-. Antes, com 
o senhor Digby, esteve esplndida. J me tivesse gostado haver dito essas coisas.
         Rosamund olhou a seu acompanhante com interesse.
         -Pensa voc que  inocente?
         A senhorita Dryden assentiu com a cabea.
         -Nunca o tinha mencionado quando o estavam julgando.
         -No, mas foi sozinho porque voc dizia que era completamente culpado, e no queria te contradizer.
         Era o preo que tinha que pagar por ser a filha de um duque!
         -Tem minha permisso para me contradizer tudo o que queira.
         -Obrigado, mas como j hei dito, creio que  inocente -respondeu a senhorita Dryden esboando um fugaz sorriso picasse.
         -No h muita gente que esteja de acordo conosco -suspirou Rosamund.
         -Meu irmo sim. lembra-se do senhor Maitland dos tempos de Cambridge.
         -Voc irmano conhece senhor Maitland? -perguntou Rosamund recostando-se na poltrona.
         -Estiveram juntos em Cambridge. Peter diz que, embora Maitland no era uma pessoa muito aberta, era to reto como uma flecha. Nunca teria podido matar a 
essa garota. Olhe -a senhorita Dryden duvidou antes de continuar-, em Cambridge passaram algumas coisas... e culparam ao Maitland. -Olhou diretamente aos olhos do 
Rosamund-. Mas logo foi exonerado. Peter est profundamente arrependido de ter desconfiado dele. prometeu-se a si mesmo que jamais voltaria a cometer esse engano.
         Rosamund sentiu que sua excitao ia em aumento.
         -Mencionou alguma vez seu irmo a um menino chamado Frank Stapleton?
         -O outro menino -disse a senhorita Dryden em voz baixa.
         -Sabe onde est agora esse menino?
         -partiu ao Canad justo depois de abandonar Cambridge. Peter ouviu que tinha morrido ali.
         Mas como, pensou Rosamund, era tudo. Ou acaso no. No estaria de mais falar com o irmo do Prudence. Possivelmente Frank Stapleton tinha um amigo que queria 
vingar sua desgraa. Possivelmente Peter Dryden no era to inocente como sua irm supunha. No todos os procos so Santos.
         E possivelmente ela se estava aferrando a um prego ardendo. -Se pudssemos fazer algo para ajudar ao senhor
         Maitland -disse a senhorita Dryden-. No acreditas que  algo terrvel ser condenado por um crime que no cometeste?
         Rosamund se tinha prometido fazer tudo o que estivesse em sua mo para limpar o bom nome do Richard, uma promessa que tinha esquecido porque seu pai lhe 
tinha assegurado que Richard no lhe ia agradecer jamais seus esforos.
         -Possivelmente h algo que possamos fazer -disse.
         -O que? -sobressaltou-se a senhorita Dryden.
         -Possamos fazer o que eu sugeria antes: voltar para princpio e interrogar de novo s testemunhas, mas esta vez pressupondo que o senhor Maitland  inocente.
         Nesse momento Callie entrou de novo na habitao.
         -Parece-me que aqui esto os efeitos do Richard Maitland, Rosamund -disse maliciosamente-. Creio que passou algo durante seu seqestro, e isso  o que finalmente 
te tem feito te decidir a te estabelecer por sua conta.
         Rosamund o esclareceu.
         - obvio, tem razo. No h nada como pensar que a vida de um pende de um fio para que uma mulher se exponha que tipo de vida quer levar.
         -Assim fala a senhorita Pusilnime -riu Callie-. Se Richard Maitland me tivesse seqestrado , eu teria saboreado cada minuto.
         Rosamund no tinha vontades de ouvir os elogios que Callie podia lhe dedicar ao Richard Maitland, assim disse que j era tarde e que deveriam retornar ao 
Manchester Square, porque tinham ficado ali com o Caspar para que passasse s recolher.
         Captulo 18
         Aquela era a festa de aniversrio mais estranha em que tinha estado jamais Richard. Os convidados traziam presentes, mas no para o Rosamund, a no ser 
para os pobres da parquia. Parece ser que era uma tradio dos Devere compilar dinheiro para os pobres cada vez que se celebrava um aniversrio, e o duque acrescentava 
depois o dobro do que se compilou.
         Essas eram as maneiras dos ricos.
         O tempo, como de costume, era mau. O que tinha comeado como um magnfico dia ao ar livre, tinha acabado com um repentino vendaval procedente do Mar do 
Norte e uma esteira de chuvas torrenciais. As senhoras, que se tinham vestido com formosos trajes de tecidos difanos para o baile do Rosamund, viram-se obrigadas 
a embainhar-se em xales para evitar agarrar um resfriado.
         Fora, os lacaios corriam pelas escadas com guarda-chuva para oferecer refgio aos recm chegados, enquanto eles se mantinham impertrritos sob a chuva. 
O toldado se veio abaixo e todos os jardineiros e os capatazes tinham ordens de tentar recolh-lo para que o vendaval no o levasse pelos ares. E todo isso sob a 
chuva. Os nimos estavam comeando a crispar-se.
         O nimo do Richard j estava bastante crispado. Ia vestido como um petimetre do sculo passado, com uma peruca empoeirada que lhe produzia picores no couro 
cabeludo. Tinha comeado a perguntar-se se acaso no estaria cheia de piolhos, mas embora assim fora no podia fazer nada a respeito sem chamar a ateno sobre sua 
pessoa. Aquilo era como no exrcito. Como estar de servio de guarda. Estava em um extremo da grande sala de baile, de p diante da porta de vidro do estufa, onde 
estava previsto que se servisse a comida, e seu trabalho consistia em no deixar que entrassem os convidados at que tudo estivesse preparado.
         O duque tinha razo: nem sequer sua prpria me, se passasse por ali, poderia lhe reconhecer. Ningum lhe tinha reconhecido: nem o duque, nem lorde Caspar, 
nem lorde Justin, nem a senhorita Dryden, nem a amiga do Rosamund, a senhora Tracey, quem no podia nem imaginar que entre eles se encontrava o evadido do Newgate 
ao que ela tinha ido visitar. Ali estavam todos, na sala de baile, e seus olhares passavam por cima dele sem sequer ro-lo. Nem sequer Rosamund foi capaz de reconhec-lo.
         Richard, por sua parte, no tinha nenhuma dificuldade para descobri-la a ela entre a multido, apesar de que a maioria das mulheres jovens foram vestidas 
de maneira muito parecida, com vestidos que pareciam to frgeis como a seda. No lhe importou quantas donzelas teria necessitado para vestir-se, ou para arrumar 
o cabelo em um arbusto de cachos escuros recolhidos no alto da cabea com uma diadema de flores naturais. Era pior que isso. Nunca a tinha visto mais atrativa.
         No era a primeira vez que se havia sentido arrebatado por sua beleza, mas aquela noite era diferente. No parecia altiva ou aborrecida com quem a rodeava. 
Parecia animada. Tinha-a estado observando durante toda a velada. Ela tinha aberto o baile com o prncipe Michael, e todos se colocaram a seu redor olhando boquiabertos, 
como se jamais tivessem visto um homem e a uma mulher danar uma valsa at esse momento. No se tinha perdido um s baile, embora nesse momento estava em um extremo 
da pista com a senhorita Dryden e a senhora Tracey.
         Esperava que essa mudana de atitude no tivesse nada que ver com o zopenco do prncipe Michael. perguntava-se no que estaria pensando ela.
         O que Rosamund estava pensando era como encontrar um casal ao Prudence Dryden. No  que estivesse exatamente fazendo de casamenteira; solo queria fazer 
ver o Prudence que havia mais homens no mundo alm do Caspar. Com essa ideia em mente, tinha animado a todos os jovens cavalheiros solteiros que haviam passado a 
v-la durante a ltima semana a que voltassem a visit-la, e agora tentava lhes fazer notar a presena do Prudence; mas a prpria Prudence, nessas questes, era 
seu pior inimigo. No  que ficasse em um rinco sem dizer nada, no. Era amvel, sorria, mas ningum era capaz de atravessar sua muralha de acanhamento.
         Nem sequer ela mesma tinha podido atravessar sua muralha de acanhamento, e isso a desconcertava. Tinham voltado para casa depois de ter falado aquela manh 
da maneira mais aberta desde que se conheciam, e em seguida tinham voltado outra vez  relao amvel e distante de sempre.
         Possivelmente Caspar tivesse algo que ver nisso. Possivelmente a dor de um amor no correspondido fazia que Prudence se comportasse dessa maneira. Mas esse 
tipo de comportamento no ia com seu carter. Ela estava decidida a no converter-se em algum que provoca lstima, e menos disposta estava ainda a provoc-la no 
homem que a tinha rechaado.
         Por essa razo tinha estado de acordo em celebrar o baile, em lugar de sucumbir  tentao de encerrar-se em sua habitao e afundar-se na desesperana. 
No queria que seus amigos ou sua famlia se preocupassem com ela. Mas, sobre tudo, no queria que Richard pudesse sentir pena por ela.
         No tinham intercambiado mais que os obrigadas saudaes entre um criado e seu patro. Seu pai lhe tinha deixado muito claro o perigo que corria se destacava 
entre outros criados. A segurana do Richard dependia de seu completo anonimato. Assim que ela tinha tratado de ignor-lo. Mas de noite, da janela de seu dormitrio 
podia ver a cabana em que residia, e nunca era capaz de meter-se na cama at que as luzes dessa cabana se apagavam.
         Nesse momento se uniu ao grupo seu irmo Justin, que chegava bem a tempo para danar com o Prudence -um baile que Rosamund tinha arrumado com antecipao 
para que seu irmo o pedisse-. De fato, tinha advertido a seus irmos de suas obrigaes -no escapulir-se para ir  sala de cartas, ou a de bilhar, ou a terrao 
para fumar seus aromticos puros-. No queria que em seu baile ningum fora o patito feio.
         -Bom, Roz, aqui estou -disse seu irmo-. O problema  que esqueci...
         Suas palavras ficaram interrompidas quando viu a angustiosa olhar que sua irm lhe dirigia. A senhorita Dryden se deu conta de que Justin duvidava enquanto 
sua irm lhe compelia com o olhar para que danasse com a moa, e acabou dizendo sem convico:
         -esqueci onde pus minhas luvas de baile.
         -Olhe em seus bolsos -replicou sua irm fingindo rir.
         Justin colocou as mos nos bolsos e as tirou com suas luvas brancas de baile. Quando os colocou, fez- uma reverncia ao Prudence.
         -Senhorita Dryden -lhe disse-, faz-me a honra de me conceder este baile?
         A senhorita Dryden lhe respondeu com outra reverncia, murmurou que com muito prazer, e permitiu que Justin a acompanhasse at a pista de baile.
         Callie, que tinha estado observando quo olhadas os irmos se intercambiavam, disse bruscamente:
         -Muito comovedor, Rosamund, mas no funcionar. Sua senhorita Dryden no se converter nunca na bela do baile.
         -No espero que se converta na bela do baile -murmurou Rosamund distradamente. Seu olhar estava posto na senhorita Dryden e no Justin levando-a para a 
pista-. Mas eu gostaria de entender qual  a razo de suas repentinas mudanas de humor.
         Callie no estava interessada na senhorita Dryden ou em suas mudanas de humor.
         -Sabe que todo mundo est esperando que seu pai anuncie seu compromisso com o prncipe Michael antes de que acabe a festa? -disse.
         -Pois ento partiro desiludidos -disse Rosamund surpreendida.
         -Ento, o que est fazendo ele aqui?
         -No lhe podia retirar o convite a meu baile, nem queria faz-lo. Que no me v casar com esse homem no significa que tenha que ser grosseira com ele.
         -Tome cuidado, Rosamund. Ou qualquer dia, voc goste ou no, te vais ver casada com o prncipe.
         Rosamund se deu a volta para olhar ao Callie.
         -por que diz isso?
         - o tipo de moa a que lhe acontecem essa classe de coisas -respondeu Callie encolhendo-se de ombros-. Incluso quando fomos meninas, voc sempre fazia 
exatamente o que se esperava de ti.
         Rosamund estava a ponto de ofender-se, mas com a extremidade do olho viu o prncipe Michael no extremo da pista de baile, vestido com sua uniforme de ornamento, 
jaqueta branca e calas negras, que olhava de um lado a outro como se estivesse procurando uma companheira de baile.
         -Demos um passeio -disse Rosamund.
         Callie e ela cruzaram vrias portas e foram parar ao vestbulo de mrmore. Embora havia cadeiras colocadas junto s paredes, ficava pouca gente ali, porque 
a orquestra estava comeando a tocar e os casais tinham voltado para a pista.
         Elas dois se aproximaram de um dos altos ventanales com esplndidas vistas sobre o parque. No havia muito que ver na escurido, mas podiam ouvir o vento 
assobiando atravs das colunas do ptio de entrada.
         Apareceram vrios capatazes que comearam a acender algumas abajures apagados pelo vento. Callie estava falando, mas Rosamund no estava realmente escutando-a. 
Estava olhando aos criados, tentando adivinhar se um deles seria Richard.
         -Est-me escutando, Rosamund?
         -O que?
         -Hei dito que no sentiria saudades que soubesse do Maitland mais do que est contando -disse Callie.
         Ao Rosamund lhe acelerou o corao.
         -Como o que, por exemplo?
         -No sei -Callie sorriu-. Mas quando falas dele, d-me a impresso de que lhes tm feito bastante ntimos na semana que ho passado juntos. Fez-te alguma 
confidncia?
         -No seja ridcula! -exclamou Rosamund tentando que soasse como se realmente o sentisse.
         Ouviu passos, deu-se a volta e agentou a respirao. Havia algum ali, um homem que parecia bastante sinistro  luz das velas. Ento ela avanou um passo 
para ele e o reconheceu. Era Charles Tracey, o cunhado do Callie.
         -Charles, assustaste-nos -disse Callie-. No sabe que os bisbilhoteiros alguma vez ouvem falar bem deles mesmos? -Seus olhos se entrecerraron e logo disse 
com um cansado suspiro-:  uma brincadeira, Charles. supunha-se que tinha que rir e me responder com algo engenhoso.
         No riu, e disse dirigindo-se ao Rosamund.
         -Creio que me tinha prometido este baile. Ainda no  muito tarde. Ainda se esto formando casais.
         Para relaxar a grosseria do Callie, sorriu-lhe calidamente. Ele estava ali plantado como um brinquedo quebrado. Como ela estava padecendo o mesmo mal, Rosamund 
se estava convertendo em uma perita em amores no correspondidos.
         Se soubesse qual era a padre.
         Quando j tinha acabado o baile se deu conta de que no tinha prometido esse baile, nem nenhum outro, ao Charles Tracey. Tinha a estranha impresso de que 
as coisas no eram o que pareciam -Prudence, Charles, Callie-, mas no podia dar-se conta do que era o que falhava.
         Tentando esquecer-se de sua intranqilidade, foi em busca de tia Fran, sabendo que a poderia encontrar na sala de cartas. Mas se equivocava de novo. No 
pde encontrar a tia Fran por nenhuma parte.
         
         
         A meia-noite se abriram as portas do estufa e se anunciou o jantar. tratava-se de um refrigrio informal, com a comida colocada em largas mesas das que 
os convidados se serviam eles mesmos. A idia original tinha sido que pudessem tirar os pratos fora e comer na pracinha, mas depois da tormenta os numerosos caminhos 
que rodeavam o lago estavam alagados, quo mesmo o caramancho e a pracinha. Como o tempo no acompanhava, solo se aventuraram fora uns quantos atrevidos.
         Rosamund sabia que no poderia provar bocado. Esse era um dos sintomas de seu amor no correspondido, a perda de apetite, mas ao menos seu vago sentimento 
de inquietao tinha desaparecido. Tia Fran estava com outras vivas nobres rodeando as mesas do jantar como uma manada de andorinhas, bicando as guloseimas que 
lhes pareciam mais apetitosas; Callie no estava comendo, a no ser falando, e tinha encantada a sua audincia, entre eles ao Charles Tracey; e Prudence, bom possivelmente 
Prudence era a bela do baile. Estava flanqueada pelo Justin e pelo prncipe Michael, e ambos pareciam estar lhe dispensando toda sua ateno.
         Quanto a ela mesma, movia-se de mesa em mesa, passando um momento com cada um dos convidados, nem tanto em conversaes banais como tentando fazer-se conhecer 
um pouco melhor. tomou-se a srio as palavras do Richard quando a tinha acusado de ser altiva e estar disposto a mesclar-se com outras damas no baile em Lisboa. 
Agora se dava conta de que tinha estado pensando em si mesmo, quando deveria ter pensado nos sentimentos de outros. No era fcil atuar assim. Algumas pessoas no 
eram capazes de ver nada mais l de sua classe social, e suas ecas lisonjas e suas obsequiosas maneiras eram quase suficientes para faz-la retirar-se a seu mundo 
privado.
         Estava caminhando para a seguinte mesa quando um criado se parou frente a ela lhe bloqueando o passo.
         -Uma taa de vinho, lady Rosamund? -salmodi ele respetuosamente.
         Ela olhou a bandeja de prata que lhe oferecia com suas taas de cristal.
         -No, obrigado.
         Quando tentou passar a seu lado, ele voltou a lhe bloquear o passo.
         -Toma a taa de vinho, Rosamund -disse em tom furioso a meia voz.
         Teria reconhecido essa voz em qualquer parte.
         Os olhos dela se posaram em seu rosto. Era Richard, mas no o Richard que ela tinha conhecido antes. Levava encaixes no pescoo e as mangas da camisa. Suas 
largas costas estavam cobertas por uma levita verde esmeralda com alamares dourados e enormes punhos voltados para trs. Sua peruca branca e empoeirada embelezava 
as duras linhas de sua cara.
         Estava muito bonito.
         Ela tomou uma taa de vinho da bandeja, aproximou os lbios a ela e bebeu um bom gole.
         -Em cinco minutos na pracinha -disse Richard, e seguiu perambulando com sua bandeja.
         Ela ficou olhando-o enquanto se afastava. Cales de cetim branco e meias de seda completavam sua uniforme. Os olhos dela ficaram um momento atrasados em 
suas pernas. Ao cabo de um momento, bebeu outro gole de vinho, e logo foi procurar seu xale.
         
         
         A pracinha no estava longe da casa, mas Rosamund demorou um momento em rodear a um grupo de cavalheiros que tinham sado a fumar seus puros. Os capatazes 
tinham deixado de acender os abajures apagados pelo vento e pareciam concentrar suas energias em tentar retirar o toldado. Ouviu-lhes amaldioar a chuva e fazer 
comentrios a respeito dos empregados de dentro da casa e da boa vida que se pegavam.
         Enquanto chegava  pracinha, que no era mais que um caramancho embelezado, lembrou-se de que tinha que ter trazido o guarda-chuva alm disso do xale. 
A chuva j no era mais que uma garoa, mas seu xale de seda no era amparo suficiente.
         Richard j estava ali. Tinha apagado todas as velas menos uma, e viu que se tirou a peruca empoeirada e os encaixes do peito e os pulsos. Quando ele a chamou 
em voz baixa seu pulso se acelerou.
         -No podia ir sem me despedir de ti -disse Richard.
         Fora o que fosse o que ela tinha esperado lhe ouvir dizer, no era isso. Com o tempo, sim, mas no agora. Solo tinha estado uma semana no Twickenham. supunha-se 
que tinha que ficar duas semanas como mnimo, at que se tivesse depravado sua busca ou se abandonou por completo. Harper, ou seu pai, ou seus irmos o teriam que 
haver dito. Deveria ter tido tempo para preparar-se para isto.
         Seu peito se esticou quando ficou olhando. No se dava conta do que lhe estava fazendo?  obvio que no, no se dava conta. Ele no sabia o que era o amor. 
No era culpa dela. Mas assim eram as coisas.
         "No te converta em outro Charles Tracey", disse-se a si mesmo com convico. tragou-se o n que tinha na garganta.
         -Sabe j meu pai?
         -Ainda no. Antes queria falar contigo.
         Ela assentiu com a cabea, embora no sabia por que, exceto porque possivelmente no queria discutir com o Richard Maitland, uma vez que este tinha tomado 
uma deciso sobre algo.
         -Aonde vai?
         - melhor que no saiba.
         Ela fez o possvel para que seu tom de voz fora natural.
         -No tivemos esta conversao antes? A mesma pergunta e a mesma resposta. Embora te ter dado conta de que nesta ocasio no me ofendi.
         -Se antes te ofendi, foi sozinho porque no te conhecia -disse ele com um leve sorriso-. E no  que te conhea agora, mas te respeito e te admiro. Creio 
que lhe faz honra no nome que leva.
         Ela sentiu que suas palavras a decepcionavam. Aquilo comeava a soar igual ao que dizia tanta gente que se aproximava dela sozinho porque era a filha de 
um duque. Como podia falar assim Richard Maitland?
         Ele tratava de ser amvel e simptico, isso solo, e ela tinha que chegar a um compromisso com ele.
         -Ento, esta vez se trata de um adeus de verdade, Richard?
         -Sim.
         Um dos dois tinha que partir primeiro, mas ela no podia mover um s p.
         -Tenho que ir  -disse ela... esperando... esperando... que aquilo no acabasse dessa maneira.
         E no foi assim. Ele avanou um passo em direo para ela.
         -antes de que v, quero te contar algo.
         Suas esperanas se desvaneceram. No havia nada amoroso em sua expresso, em sua voz ou em suas maneiras. Seu pai adotava o mesmo olhar benvolo quando 
se dispunha a lhe dar alguma lio para seu prprio bem.
         No havia nada que odiasse mais que ser lecionada sobre seu prprio bem.
         -Sim? -disse ela.
         -trata-se do prncipe Michael -respondeu ele sorrindo.
         No havia nenhuma maneira amvel de diz-lo, assim foi direto ao gro.
         -No te case com ele, Rosamund. Ele no  seu homem. Digo-lhe isso por seu prprio bem. E o mesmo vale para todos outros cachorrinhos que estiveram farejando 
ao redor de suas saias durante a ltima semana. No so para ti. Estou seguro de que algum dia encontrar ao homem adequado.
         -E como saberei que se trata do homem adequado? -perguntou ela com doura mas lhe ensinando os dentes.
         Richard se cruzou de braos e a observou pensativo. As bochechas dela estavam avermelhadas, sua respirao estava acelerada e em seus olhos se podia adivinhar 
a tormenta. Ela se tinha colocado em meio da porta, assim que ele no podia partir sem mov-la dali. Bom, ela deveria ter tido mais cuidado, para no lhe obrigar 
a ver como se divertia durante toda a semana com a sucesso de frescos que haviam passado por ali. Richard estava tentando ser razovel. Quo nico desejava era 
que ela fora feliz. por que no se dava conta?
         Richard ainda no estava preparado para dar-se por vencido.
         -No se trata sozinho do prncipe Michael -disse-. Para comear, sentiria-se to afogada no papel de princesa como agora no de filha do duque. Necessita 
um homem que te anime a te fazer carrego de sua prpria vida, que te ensine a viver com um pouco mais de aventura.
         -Obrigado, mas tentarei viver minha prpria vida tanto se me casar com o prncipe Michael como se no -respondeu ela.
         -Nunca poder ser feliz com ele! Bom, devo ser justo com ele. Na pista de baile no havia quem lhe fizesse sombra, mas para casar-se faz falta mais que 
isso. vai estar cada noite em seu dormitrio. Meter-se em sua cama. Est preparada para isso?
         Quando Rosamund entrou na pracinha estava gelada at os ossos. Mas agora estava ardendo. Deixou seu xale sobre uma cadeira e se enfrentou a ele.
         -Ah, a cama -disse com dramalhes-. Desde minha limitada experincia, devo dizer que o que um homem e uma mulher fazem na cama est muito sobrevalorado. 
Entretanto, o fato de que um homem saiba danar  um grande valor. Sabe danar, Richard?
         -No, no sei.
         -Que lstima!
         -Quando falas de sua limitada experincia -disse ele nublando-se o os olhos-, tenho que entender que refere a sua experincia comigo?
         -No pensar de verdade que  o nico homem arrumado ao que beijei? -disse ela sorrindo com satisfao.
         -Isso foi o que me disse na cabana.
         -Mas isso o disse a semana passada -respondeu ela sem lhe dar importncia-. Me estive pondo ao dia de todo o tempo perdido. -Viu uma repentina fasca nos 
olhos dele, e em seguida acrescentou mais lenha ao fogo-: Francamente, no vejo por que ter que montar tanto alvoroo por to pouco. Todos os homens beijam mais 
ou menos igual.
         O dardo deu no alvo. Ele nunca tinha pretendido ser o melhor amante do mundo, mas por todos os demnios!, seus beijos no eram to pouco memorveis como 
ela pretendia. Poderia dizer-se que tinha tido bastante experincia com as mulheres. Mas o que realmente lhe tinha dodo era que a ltima vez que a tinha beijado 
se havia sentido comovido at os alicerces. E seus beijos no valiam mais que os de qualquer outro homem? A quantos outros tinha estado beijando quando ele no olhava?
         Isso era mais do que um homem podia suportar.
         Todo seu corpo estava tenso quando a agarrou pelos ombros e a atraiu para si. Este ia ser um beijo que ela nunca poderia esquecer.
         Rosamund se preparou para o estremecimento que se aproximava, um estremecimento que ela sabia que podia provocar; mas se ele estava zangado, mais zangada 
estava ela. Lhe amava. Por muito que no o merecesse, amava-lhe. Ele tinha que sab-lo. E ele tinha infravalorizado esse amor reduzindo-o ao nvel mais baixo: a 
cama. Era isso o nico no que podiam pensar os homens?
         -Agora me d um minuto...
         Fora o que fora o que ela ia dizer, foi interrompida quando os lbios dele se uniram aos dela com uma paixo vizinha ao furor. O furor dela no era mais 
nova que o seu. Lhe devolveu um beijo irado com outro beijo irado. Quando ele apertou seu corpo ao dela, ela se apertou mais a ele. Sua lngua se afundou na boca 
dela, e ela lutou por domin-la com sua prpria lngua. E quando lhe elevou a cabea para olh-la, a tormenta de seus olhos se bateu contra a tormenta dos dele.
         Ambos respiravam com dificuldade, lutando os dois por cada grama de ar que inalavam. E quando seus olhares se cruzaram, todas suas tempestuosas emoes 
trocaram sutilmente. Ela gemeu e o deixou escapar um gemido.
         O voltou a beij-la, mas j no era a tenso o que esquentava o sangue dela e fazia que seu corao pulsasse com fora. Todo seu corpo se estremecia de 
desejo. Ela se deu conta de que at esse momento nunca tinha entendido realmente o que pode acontecer entre um homem e uma mulher. Aquilo no era uma brincadeira. 
No era docemente ertico. Aquilo era fogo, ternura, dor e desejo, tudo misturado. Era quase como um sofrimento.
         Richard sentia que seu corpo se afundava no prazer e seu controle se despenhava por um escarpado. No  mais que um beijo, disse-se a si mesmo, mas sabia 
que se estava mentindo. Beijos, sim, mas ele estava deixando cair esses beijos em qualquer lugar de prazer que podia encontrar sem ter que despi-la. Beijou-a nos 
peitos atravs do tecido de seu vestido, e sujeitou com fora um dos mamilos entre os lbios, e logo o outro, primeiro com mmico e a seguir cada vez com mais paixo, 
conforme se endureciam como pequenos calhaus em sua boca. E suas mos estavam to ocupadas como seus lbios. Esfregando, moldando e percorrendo aquele territrio 
proibido como se fora dele. Mas todo isso no era suficiente.
         Comeou a lhe levantar a saia, roando com os dedos a parte interior de suas coxas, enquanto o som do nome dela enchia de nvoa seu crebro. Levantou a 
cabea e escutou. Voltou a ouvir seu nome. Richard conhecia aquela voz.
         -O prncipe Michael -disse ele quase balbuciando as palavras.
         -O que? -perguntou Rosamund, que ainda no tinha voltado em si. Tentou acalmar-se apoiando-se com ambas as mos no peito dele.
         -O prncipe Michael -repetiu ele-. Te est procurando.
         Pensar no prncipe Michael foi a perfeita padre para seu desejo. Richard recomps a roupa do Rosamund (porque ela estava ainda aturdida) e logo a sua, e 
se separou um par de passos.
         -Paixo, Rosamund -disse ele-. Se te casar com o prncipe Michael, ter que te esquecer disso. Voc  uma mulher de sangue quente. No fique com um homem 
de sangue-frio.
         E dito isso, Richard se deu meia volta e ps-se a andar.
         Ao Rosamund tremiam as pernas como se fossem de gelatina, mas conseguiu as fazer chegar at a cadeira mais prxima. sentou-se nela, com o olhar em branco, 
tocou-se com os dedos os lbios ardendo, logo ficou as mos sobre o peito para apagar um suspiro que subia por ele, e ao final as desceu at o abdmen para fazer 
o mesmo com esse outro gemido que sentia entre as coxas.
         Todo isso solo por um beijo?
         Estava a ponto de afastar-se dali, quando Richard voltou a entrar.
         -esqueci te desejar feliz aniversrio e te dar seu presente -disse ele.
         A mo do Rosamund se abriu automaticamente para receber o objeto que lhe estava oferecendo.
         -Houve um incndio, e esta foi a nica coisa que ficou intacta -disse Richard-. A levo comigo desde que era menino, para que me traga boa sorte.
         E a seguir partiu.
         Rosamund abriu a mo e olhou o objeto que repousava sobre sua palma. Era uma pea de xadrez, um rei medieval esculpido em um pedao de bano, com a superfcie 
chamuscada. Tinha um aspecto muito desalentador.
         Rosamund no sabia se rir ou tornar-se a chorar.
         Richard estava j dando a volta  casa quando ouviu gente chiando. Parecia como se se provocou uma briga. Quando chegou  esquina diminuiu a marcha. O toldado 
se soltou das cordas que o sujeitavam e parecia que ia sair voando. O chefe dos capatazes ia de um lado a outro dirigindo a seus homens em um esforo por conseguir 
colocar de novo o toldado no cho.
         Alguns dos serventes da casa tinham sado para ajudar, e a estava o problema. Os serventes da casa e os do exterior no se tinham muita simpatia, e tinham 
comeado uma briga de gritos. Se o chefe dos capatazes no tivesse controlado a seus homens, a essas alturas aquilo j se teria convertido em um motim em toda regra. 
O que aqueles empregados precisavam era um Harper, pensou Richard. Mas Harper estava nesse momento muito ocupado, cuidando dos carros e dos ferramentas agrcolas 
dos convidados.
         Richard no estava de humor para reatar suas tarefas na casa, e no estava seguro de que tivessem notado sua ausncia, assim que se levantou o pescoo da 
levita e se dirigiu para a cabana em que residia. O caminho deveria ter estado bem iluminado, mas a metade dos abajures se consumaram j ou se apagaram pelo vento. 
Entretanto, havia luz no estbulo, assim dirigiu seus passos para ali.
         Tambm havia outras luzes, algumas assinalando as carruagens que se alinhavam ao longo da entrada, esperando para voltar a levar a seus donos a casa, e 
ao outro lado do lago havia luzes que cintilavam nas carruagens que j se puseram em marcha.
         Se a festa j se acabou, Rosamund deveria estar na casa despedindo-se de seus convidados. E deveria ter estado ali para o anncio de seu compromisso matrimonial, 
por isso o prncipe Michael a tinha estado procurando.
         Bom, ao menos esperava lhe haver dado uma boa lio.
         A boca do Richard se enrugou em um arisco sorriso. que tinha aprendido a lio era ele, e melhor que no a esquecesse. Sempre se tinha visto si mesmo como 
um homem sensato, mas durante a ltima meia hora se comportou como um carrancudo escolar. Quando tinha estado lhe advertindo em contra do prncipe Michael, no tinha 
estado pensando na felicidade do Rosamund. Tinha estado pensando em si mesmo. Se ele no a podia ter, no queria que ela se casasse com ningum. Mas tampouco queria 
que se convertesse em uma solteirona. 
         Aquela situao no era nada agradvel.
         Richard seguiu caminhando mal-humorado, dando patadas s folhas que salpicavam o caminho. Estava quase chegando  porta quando ouviu um rudo. No havia 
dvida do que era esse rudo. Era um disparo de revlver, e vinha das cercanias da casa.
         Deu meia volta de um salto e comeou a correr de volta caminho  casa. Tentava dizer-se que possivelmente o chefe dos capatazes teria disparado ao ar para 
acalmar os nimos de seus rebeldes homens, mas seu instinto lhe dizia que no aceitasse to  ligeira a primeira resposta que passasse por sua mente. Se havia um 
assassino entre aquela gente, era muito possvel que o objetivo fora ele mesmo.
         Ofegante e respirando com dificuldade chegou at onde se encontravam os homens que tinham estado lutando com o toldado. Ningum se deu conta de que se aproximava. 
Estavam de p em carriolas, olhando em silencio a um grupo de convidados que acabava de sair do estufa e se formava redemoinhos agora pela terrao.
         -O que h passado? -perguntou a um dos capatazes.
         -dispararam a algum que estava na pracinha -disse o capataz-. Creio que foi a lady Rosamund.
         Richard ficou rgido, tentando entender o que acontecia. Ento os viu: o prncipe Michael vestido de branco, com uma moa de cabelo negro em seus braos. 
Rosamund.
         Com o corao saindo-se o do peito e a mente paralisada, correu para eles.
         
        Captulo 19
         Richard tinha dado somente uns passos quando uma sombra se interps em seu caminho, uma sombra imponente cujo impacto quase lhe fez cair de costas. antes 
de que pudesse recuperar o equilbrio, uma voz zangada lhe advertiu que no fizesse loucuras. Era a voz do Harper.
         -Tenho que ir com ela! -exclamou Richard bruscamente.
         Tratou de escapar das mos do Harper, mas este no lhe deixava partir. Arrastou ao Richard para a escurido, onde no pudesse lhes ver o resto da gente.
         -Poderia ser uma armadilha -disse Harper-. No pensaste nisso? Inclusive agora algum pode estar esperando a que aparea para acabar o trabalho. E eles 
no vo deixar que te aproxime. O que pretende fazer? Entrar na casa e pedir que lhe deixem ver a garota? O mais provvel  que lhe detenham e lhe levem diante a 
justia. E agora guarda essa pistola antes de que algum nos veja.
         Richard nem sequer se deu conta de que empunhava a pistola. Em um gesto inconsciente a meteu no cinto de sua cala. No Servio de Segurana tinha fama de 
ser um homem com os nervos de ao. Nunca se assustava, nunca perdia a cabea. Mas agora tinha estado a ponto de perd-la.
         -Est gravemente ferida? -perguntou.
         -No  mortal, se for isso o que est pensando. foram a procurar o mdico, o qual  um bom sinal.
         Richard assentiu com a cabea, embora as palavras do Harper no o tinham tranqilizado. "No  mortal" podia significar muitas coisas. sentia-se destroado. 
Se queria entrar na casa, nada o ia impedir, mas teria que faz-lo a ponta de pistola. E no se via entrando na habitao do Rosamund e ameaando a todo mundo com 
sua pistola.
         -Estou-te dizendo a verdade. No est gravemente ferida -disse Harper.
         - O que h passado ?
         -No sei exatamente. Solo sei que algum lhe disparou nos arredores da pracinha. Mas seria perder o tempo tratar de encontrar ao bastardo que o fez.
         ficou um momento pensativo.
         -Nunca o encontraremos entre tanta gente -disse ao cabo de um momento-. Ser como procurar uma agulha em um palheiro.
         Conforme calculava Richard, haveria mais de quarenta criados dando voltas ao redor do estufa. E na terrao havia outras tantas pessoas, entre convidados 
e serventes, que agora se dirigiam de novo  estufa. Vrias carruagens que partiam para a entrada da casa para recolher a seus passageiros passaram junto a eles 
em uma apertada fileira. Tentar encontrar  pessoa que tinha atacado ao Rosamund era pouco menos que uma loucura, a no ser que tivessem muita sorte.
         -O que quer que faa? -perguntou Harper.
         Richard deixou escapar um suspiro.
         -Em primeiro lugar, interroga aos capatazes. Averigua se souberem algo. Inteira-se de se tiverem sentido falta a algum. Logo, se isso no conduzir a nenhuma 
parte, organiza uma busca pelos arredores. Se algum se opuser a suas ordens, lhe diga que segue as instrues que te deu o duque. Se descobrir algo, me avise com 
um disparo. Eu farei o mesmo.
         -Agora est falando como se deve -disse Harper, contente de que seu chefe voltasse a atuar como ele mesmo-. Onde estar?
         -Eu comearei registrando a pracinha. me d uns minutos antes de te reunir comigo.
         
         A pracinha estava deserta, no havia ningum ali para vigiar que no desaparecessem os rastros que pudesse ter deixado o agressor. Richard levava consigo 
uma lanterna, e a elevou para examinar o interior. Aquele lugar era uma espcie de caramancho exterior, com uma esplndida vista sobre o rio, e estava construdo 
em forma de templo grego em miniatura, com colunas na entrada.
         Tudo estava ali tal e como ele o recordava: uma pequena mesa, vrias cadeiras de respaldo alto e vasos com palmeiras aos lados dos altos ventanales. Recordava 
que Rosamund se tirou o xale e o tinha deixado sobre uma cadeira, mas possivelmente o tinha voltado a pr, salvo que o prncipe Michael a tivesse envolto com ele 
antes de lev-la em braos at a casa. O estou acostumado a era de mrmore, mas no se via nenhuma gota de sangue, solo o lodo que as pisadas do Rosamund e as suas 
tinham deixado ali, assim como as do prncipe.
         Encontrou sangue fora, no caminho de cascalho -ao menos, ele pensou que era sangue, embora no era fcil estar seguro. Solo se tratava de umas quantas gotas, 
e tinham sido diludas pela chuva. ficou de joelhos, tirou-se uma luva e passou os dedos pelo cascalho. Ao momento, uma onda de raiva que tentou dominar emergiu 
de seu interior. A raiva no ia ajudar lhe a descobrir ao agressor do Rosamund. Tinha que tomar-lhe como se aquilo no fora nada mais que outro caso. Tinha que deixar 
de pensar no que estaria passando na casa, imaginando o pior.
         Tinha que centrar todas suas energias em concentrar-se em encontrar a esse assassino desumano. Depois, e s depois, poderia deixar-se arrebatar pela raiva.
         
         Quando por fim abandonou a busca, estava transido pelo frio e a fadiga. Tinha rastreado a ribeira do rio e tinha interrogado s moos da quadra e aos porteiros 
da casa. Nada parecia estar desconjurado, nada indicava que o assaltante houvesse passado por a. O cansao contra o que estava lutando no lhe permitiu dar-se conta 
ainda do que isso significava.
         A planta baixa da casa estava s escuras, como estava acostumado a acontecer a ltimas horas da noite, quando os criados j tinham fechado os portinhas, 
mas ainda se viam luzes nos pisos superiores. Richard se refugiou do vendaval em um pinar e se ocultou ali, olhando para a casa, pensando, tratando de supor o que 
passava dentro, furioso por no poder estar com o Rosamund. Pensar em que os da casa desprezavam sua intranqilidade o ps ainda mais furioso. Para os Devere ele 
no era nada mais que um fugitivo da lei. Mas se ele tivesse sido o pai, ou um dos irmos do Rosamund, tampouco teria querido que Richard Maitland estivesse perto 
dela.
         Quando recuperou o flego e seu cansao comeou a desaparecer, deixou que seu olhar perambulasse pela zona. deu-se conta de que no era o nico que tinha 
abandonado a busca. J no tinha criados nem abajures movendo-se por entre as rvores. J no se viam carruagens retornando a suas casas. J solo ficava a persistente 
garoa e o furioso vento que fazia mais intensa ainda a fria que ele mesmo sentia.
         Saiu de seu refgio entre as rvores e cambaleandose dirigiu para o edifcio dos estbulos. Se se tinha abandonado j a busca, ento Harper deveria estar 
na pequena cabana em que vivia. Se havia alguma novidade sobre o estado do Rosamund, Harper certamente a conheceria.
         No teve que esforar-se por percorrer o caminho. Seus ps se moviam por prpria vontade, subindo levantados degraus para a casa dos capatazes. Em seguida 
se deu conta de que no havia luz nos aposentos do Harper, mas sim a havia nos seus. secou-se as gotas de gua que lhe caam na cara com a manga, abriu o ferrolho 
e entrou.
         Teria esperado encontrar ao Harper ali, mas no era Harper a pessoa que estava ajoelhada diante da chamin. deu-se a volta e se levantou no momento que 
ele entrava. Uma rajada de vento que entrou pela porta pulverizou as cinzas do fogo, que se elevaram pela chamin.
         -Richard! -gritou ela-. Onde te tinha metido? Harper e eu estivemos muito preocupados com ti.
         -Rosamund? -disse ele com uma voz que no era mais que um magro sussurro.
         No tinha nenhuma ferida. havia-se mudado o vestido por algo mais abrigador, um traje escuro que se ajustava no pescoo e nos pulsos. As lgrimas escorregavam 
por seus olhos molhando suas bochechas.
         -No era eu -disse ela em voz baixa, aproximando-se aonde estava Richard-. Harper me contou o que pensavam os dois, mas estavam equivocados. A que estava 
passeando com o prncipe Michael era Prudence. Imaginamos que algum tinha disparado ao prncipe e tinha ferido ao Prudence por engano. No foi mais que uma ferida 
superficial. Agora est dormindo... -Sua voz se foi apagando-. Richard, eu estou perfeitamente, asseguro-lhe isso.
         Ele se aproximou dela aturdido. Sentiu-a quente sob suas mos, quente e cheia de vida. Fechando os olhos, ele a rodeou com seus braos e a agasalhou em 
um acolhedor abrao. Ela o rodeou tambm com os braos. No se disseram nenhuma palavra; no fazia falta dizer nada.
         Ela foi primeira em separar-se.
         -Est tremendo e tiritando. Vem aqui, deixa que te ajude a te tirar a jaqueta.
         Ela atirou da jaqueta molhada, a tirou pelos ombros e a deixou sobre uma cadeira, perto do fogo, para que se secasse. O ficou ali em p, seguindo-a com 
os olhos, e lhe conduziu para a cama.
         -te tire essa roupa molhada -disse ela comeando a preocupar-se porque alguma vez o tinha visto naquele estado-. Tem brandy?
         -No armrio. Mas no quero brandy.
         O se sentou no lado da cama e abriu os braos. Ela correu a seu lado ao momento.         
         -OH, querido!, pensei que te havia passado algo terrvel -disse ela tremendo-. Acreditei que te tinha perdido.
         -fui to parvo -disse ele beijando-a.
         "Um louco de arremate", pensou enquanto se tombava com ela na cama. Toda sua vida tinha estado rodeado de gente, na escola, na universidade, no exrcito, 
mas sempre se havia sentido sozinho... at o momento em que Rosamund entrou como um meteoro em sua vida. E agora j no queria voltar a estar sozinho jamais.
         Abraou-a ainda com mais fora. No esperava que as coisas fossem fceis. No sabia se seria capaz de faz-la feliz. Mas nunca mais, prometeu-se a si mesmo, 
nunca mais ficaria ao outro lado da porta fechada como um suplicante, sem saber se ela estava viva ou morta. No voltaria a existir uma porta fechada entre eles 
dois.
         Rosamund sabia que ele estava sumido em alguma emoo profunda, quo mesmo o estava ela. Quando lhe disseram que tinham disparado ao Prudence, sentiu pnico 
de que se tratasse do assassino que procurava o Richard, assim  primeira oportunidade, saiu da casa para assegurar-se de que Richard estava a salvo. Harper a tinha 
encontrado na cabana em que vivia, e a ansiedade que ambos sentiam se converteu em alarme. Durante as ltimas horas haviam passado todo tipo de cenas grotescas por 
sua cabea, at o extremo de que tinha estado a ponto de sofrer um ataque de pnico. Agora j se sentia mais relaxada, mas ainda estava comovida por toda a tenso 
que lhe tinha provocado aquela noite terrvel.
         Tinha aprendido que o tempo que tinham no era infinito. Todos os livros que tinha lido na biblioteca de seu pai estavam equivocados. O tempo se pode deter 
em qualquer momento. Tudo o que eles tinham, o nico com o que podiam contar, era o presente, e ela no estava disposta a desperdiar nenhum s de seus preciosos 
segundos.
         Estiveram durante muito tempo assim, pegos o um ao outro. As mos do Richard ainda tremiam quando rodeou com elas as bochechas do Rosamund e estudou sua 
cara. Olhou-a com uma pergunta nos olhos.
         -Sim -respondeu ela.
         Ento ele comeou a despi-la.
         Rosamund no esperava formosas palavras ou doces promessas. Tampouco estava pensando no prazer, e estava muito longe de sentir pudor. O que desejava era 
uma intimidade mais profunda, pele contra pele, e fogo, e estar to perto dele que nada os pudesse separar, nem sequer suas prprias sombras.
         Suas mos e sua boca no foram delicadas, mas ela o compreendeu. As emoes contidas daquela noite tinham sido muito desesperadas para a delicadeza. Seu 
acoplamento foi rpido e intenso, e a pesar do brilho de dor, foi exatamente o que Rosamund necessitava.
         Quando ele saiu de seu corpo, apertou-se contra ela com fora.
         -No me deixe -murmurou ele, e como se queria matizar essas palavras, agarrou-a pela cintura com um brao. Ao cabo de um momento, afundou-se em um sonho 
reconfortante.
         
         Richard despertou de repente, e seu primeiro pensamento foi que o vendaval tinha arrancado o telhado de sua cabana. Quando se incorporou na cama, deu-se 
conta de que a fria corrente de ar que entrava provinha da porta aberta. Rosamund estava diante dela. Ouviu-a falar com algum que estava fora, mas havia ainda muito 
pouca luz para distinguir quem era. Ela estava envolta com uma capa, com os braos e os tornozelos nus.
         -Era Harper? -perguntou ele em voz baixa quando ela fechou a porta.
         -Sim -respondeu ela aproximando-se depressa para a cama-. Pensei que se surpreenderia de lombriga aqui desta guisa. -jogou-se o cabelo solto para trs.
         -E o tem feito? -disse ele fazendo uma careta com os lbios.
         -No creio que estivesse surpreso. Parece-me que "resignado" seria a palavra que definiria melhor a expresso de sua cara.
         -Deu-te alguma mensagem para mim?
         -A ver, me deixe pensar -Rosamund olhou ao teto como se as palavras do Harper estivessem escritas ali-. Se tiver entendido bem, parece-me que h dito que, 
se te voltar a partir por sua conta sem lhe dizer onde te pode encontrar, vai dar uma boa surra. -Sorriu-. Estava realmente zangado, mas de uma vez lhe via tranqilo.
         -Isso  tudo o que h dito? -perguntou ele sorrindo.
         -No. ofereceu-se a me escoltar at a casa, mas lhe respondi que ainda no estava preparada para voltar.
         Para ouvir estas palavras, a pequena tenso que Richard sentia nos ombros se foi relaxando. Ela no demonstrou nenhum receio, nem pareceu que o repentino 
ardor dele a surpreendesse. Qualquer outra mulher... Mas no havia ponto de comparao entre ela e qualquer outra mulher. Rosamund era nica.
         -pus a bule no fogo -disse ela-. por que no nos vestimos e conversamos enquanto tomamos o ch?
         -No quero que te vista ainda.
         -OH! -A intensidade de seu olhar fez que o corao dela comeasse a pulsar com fora.
         -E alm disso, possamos conversar mais tarde. Volta a te colocar na cama, Rosamund.
         Quando ele abriu os braos, ela se aproximou sem duvid-lo. Esse singelo gesto de confiana fez que ao Richard lhe pusesse um n na garganta.
         De repente ouviram um rangido sobre suas cabeas, como se o vento estivesse rompendo os ramos das rvores. Ao momento ouviram um golpe seco, como se um 
pesada ramo tivesse cansado ao cho. Logo o vento se voltou a acalmar, at converter-se em um leve sussurro. 
         Quando Rosamund se estremeceu, Richard a colocou entre os lenis e a envolveu com seus braos. Algo feroz se movia dentro dele, algo feroz que estava rodeado 
de medo. Lhe estava olhando com uns olhos que denotavam total confiana. Ele desejava com todas suas foras proteger a de todo o feio e mau que se poderia encontrar 
no mundo, mas nunca antes tinha sido to consciente de sua prpria mortalidade, ou da dela.
         -O que  o que te faria feliz? -perguntou-lhe beijando-a brandamente.
         -Estar contigo. Isso  o que me faz feliz. -Olhou-o diretamente aos olhos, enquanto os lbios lhe tremiam-. me Levem contigo, Richard, quando for daqui. 
No posso me fazer  idia de no saber onde est ou o que te est passando. Possamos comear de zero em alguma parte. Isso  o que me faria feliz.
         -Ento, isso  o que faremos. Mas antes tenho que falar com seu pai.
         Ela ficou lhe olhando durante um bom momento, viu em seus olhos que de verdade sentia cada uma das palavras que acabava de dizer, e a seguir lhe sussurrou:
         -O que te faria feliz a ti, Richard?
         -Voc -respondeu ele sem duvid-lo-. Solo voc.
         Abraou-a com doura. Beijou-a nas sobrancelhas, nas bochechas, nas orelhas, e ao final, animado por ela, na boca. Quando sentiu que ela retinha o flego, 
ajudou-a a desfazer-se da capa. Debaixo no levava nada colocado. Seu corpo estava nu entre suas mos; nu, flexvel e acolhedor. Ele queria lhe demonstrar que havia 
muito mais no amor que possui-la com frenesi. Que o amor tambm era lento, suave e incitante. Que o amor era prazer.
         Rosamund se sentia como se estivesse flutuando em um rio de guas mornas, mas esta vez j no era uma primeriza. Agora sabia aonde a levava a corrente. 
Ela seguiu o exemplo do Richard e lhe devolveu carcia com carcia. Sua respirao comeou a converter-se em espasmos. As mornas guas do rio comearam a agitar-se 
pouco a pouco.
         Richard cravou sua boca na garganta dela, enquanto lutava por manter o controle de si mesmo. Mas sua garganta tinha o sabor do pecaminoso perfume com o 
que ela se orvalhou, e seus sentidos comearam a naufragar nela. "Suave", disse-se Richard a si mesmo, mas no podia fazer que suas mos e seus lbios obedecessem 
as ordens de seu crebro. Tinha que toc-la, tinha que lamb-la.
         Ela deixou escapar um gemido suave quando a boca do Richard se fechou sobre um de seus mamilos eretos. Um calor a percorreu do peito at o final das costas. 
Custava-lhe respirar. Logo os lbios do Richard se moveram sobre o outro mamilo, e o ar dos pulmes saiu por sua boca como um afogado soluo.
         Lhe separou os joelhos e se introduziu brandamente entre suas coxas. Os suaves gemidos que ela emitia lhe faziam estremecer-se. Apesar disso, tentou controlar-se 
porque a primeira vez tinha estado to desesperado que no tinha podido faz-la chegar ao clmax. Esta vez s pensava nela.
         Ela queria lhe tocar da mesma maneira que o fazia ele, mas Richard no a deixou. retorcia-se, estremecia-se, lutava como se a mar ascendente de sensaes 
a queria arrancar dali.
         -Richard! -gritou ela.
         Para ouvir esse grito que pedia ajuda desesperadamente, algo primitivo e completamente masculino despertou dentro dele. Ningum antes a tinha feito sentir-se 
daquela maneira, e ningum mais voltaria a faz-lo. Ela estava nele. Os dois estavam juntos como se fossem um sozinho. O nunca tinha querido tanto nem desejado tanto 
a ningum.
         Seu peito se afundou e Richard sentiu como se todo ele estivesse vertendo-se e introduzindo-se brandamente nela.
         -Rosamund... -Uma terrvel tenso se apoderou de sua garganta e no pde dizer nada mais.
         Ela o olhou com os olhos muito abertos, enquanto suas unhas percorriam todas suas costas.
         -por que paraste?
         Ele teve que sorrir. Aquela mulher era um encanto de transparncia. Mas seu sorriso se desvaneceu quando ela se moveu de novo por debaixo dele. Empurrou 
ao Richard por cima dele e lentamente fez que se introduzira novamente nela, em uma unio to profunda como era possvel.
         Rosamund nunca tinha sido to consciente de seu corpo, ou to consciente do prazer que esse corpo podia lhe proporcionar. Nesse momento, sentiu que compreendia 
o que era o que tinha desconcertado tanto aos filsofos desde o comeo dos tempos. Agora sabia por que existia o universo. "Para isto".
         Logo ele comeou a mover-se, e o pensamento racional desapareceu de sua mente. Lhe devolvia cada beijo que lhe dava, cada amostra de confiana, at que 
o prazer se voltou afiado, agudo, incontrolvel, e se fez pedacinhos como uma estrela que explora.
         
         Com as mos apoiadas detrs de sua nuca, Richard se deixou cair na cama, depravado e satisfeito, sobre as seqelas da paixo extinta. dava-se conta de que 
um presunoso sorriso se desenhava em seu rosto. Nunca se tinha preocupado por julgar suas habilidades como amante, e jamais havia sentido a necessidade de esforar-se 
nessas lides. Mas isso tinha sido antes de conhecer o Rosamund. Com a mulher adequada, sabia que podia alcanar topos que nunca tinha imaginado que pudessem existir.
         Com uma amostra de masculina satisfao, deu-se a volta para um lado da cama para poder ver a luz de sua vida enquanto ela preparava o ch que lhe tinha 
prometido. Uma ou duas semanas antes, ela nem sequer sabia como acender o fogo de uma chamin ou como ferver a gua para o ch. E olha-a agora. Richard estava impressionado. 
Mas tampouco se perguntava como tinha conseguido em to pouco tempo acender um fogo ou preparar a gua para o ch. Essas duas semanas tinham deixado um profundo 
rastro nos dois.
         Ela estava j completamente vestida. Quando viu que tinha deixado sobre a cama uma camiseta e umas calas limpas para ele, decidiu vestir-se, mas solo o 
fez para agrad-la. Tinha jogado uma olhada ao relgio e calculou que ficava tempo suficiente para lhe fazer o amor uma vez mais antes de acompanhar a de volta a 
sua casa.
         E alm disso, ainda tinham que falar.
         Mas quando j estava vestido e disposto a sentar-se  mesa, deu-se conta de que as coisas no eram to simples. Tinha necessidade de acarici-la, de p-la 
de costas a ele e desabotoar os botes de seu corpete para que seus dedos pudessem encontrar a pele nua sobre a que posar-se. Tinha que beij-la de novo. Aquele 
descanso no tinha sido mais que um final parcial. Essa mulher sabia realmente como seduzir a um homem. Os suaves suspiros que emitia o voltavam louco de desejo 
por possui-la. Era to ardente, to desprendida, to entregue.
         Quando se separou dela, Richard estava ofegante.
         -Ch ou cama? -perguntou ele.
         -Cama! -respondeu ela sem duvid-lo.
         E com uma risada travessa o empurrou para a cama.
         
        Captulo 20
         Meia hora mais tarde estavam tomando o ch.
         -Bom, me conte o que h passado esta noite do momento em que te deixei -disse ele.
         -Agora que o penso, foi algo surpreendente -disse ela deixando sua taa na mesa-. Ns dois no fomos quo nicos tnhamos ficado para nos ver na pracinha. 
Prudence, meu doce e inocente Prudence, tinha ficado para ver-se ali com o prncipe Michael! Nunca me havia sentido to enganada em toda minha vida. Pensava que 
ela estava apaixonada pelo Caspar, mas se tratava do prncipe Michael. Por isso era to reservada comigo, e tambm com o Caspar. Ns dois no nos tnhamos dedicado 
a cantar precisamente as virtudes do prncipe Michael. Lamento dizer que em vrias ocasies fui bastante mordaz, e ela se sentou ferida por ele. Por isso parece, 
ele tambm est apaixonado por ela. Assegurou-lhe que vai abdicar de seu lugar na sucesso para poder casar-se com ela. E alm disso, no se apartou que seu lado 
do momento do acidente... Isso  o que havemos dito que foi, s pessoas da casa, para evitar que estenda o pnico.
         -por que est to zangada?
         -No estou zangada, estou decepcionada. Quero dizer que o prncipe Michael est sendo bastante atento com ela, supondo, mas Prudence  uma mulher inteligente. 
Poderia-o ter feito muito melhor.
         Ele se parou a pensar um momento e logo disse:
         -Mas se estava apaixonado por ela, por que ia comprometer se contigo?
         Uma expresso causar pena cruzou pelo rosto dela:
         -Isso solo estava em sua imaginao. Como podia imaginar que ia casar me com esse... no, no, no vou chamar lhe chato, porque a verdade  que  uma boa 
pessoa. Quo nico passa  que no temos nada em comum.
         Richard no tinha intenes de discutir sobre esse tema. O prncipe Michael j no significava um problema para ele. E isso era o mais importante. Sustentou 
sua taa de ch em alto, e a observou enquanto ela a voltava a encher.
         -Assim que ficou sozinha na pracinha. E o que passou depois?
         -No tinha nenhuma vontades de ver ningum naquele estado, assim quando ouvi o prncipe Michael gritando meu nome, sa da pracinha e fui para a parte de 
atrs da casa por uma porta lateral. Levava o cabelo despenteado, de modo que me dirigi ao piso superior para me arrumar. Enquanto isso, imagino que Prudence teria 
entrado na pracinha para reunir-se com o prncipe. E quando ele no me encontrou ali, foi reunir se com o Prudence.
         -por que te estava procurando ?
         -Vrios de meus convidados foram se partir, e eu tinha que voltar para a casa para me despedir deles. Meu pai lhe pediu ao prncipe que me buscasse, e como 
no me pde encontrar nem na terrao nem no estufa, saiu para me buscar fora.  obvio, tinha que ir  pracinha de todos os modos, para sua entrevista com o Prudence. 
No ficaram ali muito tempo. Quando saam juntos, soou um disparo e Prudence caiu ferida ao cho. Ento o prncipe se lanou sobre ela para proteg-la. E isso  
tudo o que sei.
         -O prncipe se tornou sobre ela para proteg-la? Isso teria que hav-lo visto com meus prprios olhos para me acreditar isso -Imagino que no vieron ni oyeron 
nada que nos pueda llevar hasta la persona que dispar.
         -No diria o mesmo se visse os machucados que tem Prudence. Creio que o prncipe Michael lhe fez mais danifico que a bala.
         Richard sacudiu a cabea rendo entre dentes.
         -Imagino que no viram nem ouviram nada que nos possa levar at a pessoa que disparou.
         -Desgraadamente, assim . Nem nenhum dos criados ou de quo convidados correram para a pracinha assim que ouviram o disparo.
         De repente ao Richard lhe ocorreu uma idia.
         -O que foi que seu xale? Deixou-o na pracinha? Lembrana hav-lo visto ali, sobre uma cadeira.
         -No, por que?
         -A senhorita Dryden vestia um traje da mesma cor que o teu, e as duas tm quase a mesma estatura -disse ele encolhendo-se de ombros-. Estava pensando que 
se ela tivesse recolhido seu xale e o tivesse colocado, perfeitamente a poderiam ter confundido contigo.
         -por que ia querer algum me disparar? -disse ela surpreendida.
         -Por nenhuma razo. Como tampouco posso ver nenhuma razo para que algum queria disparar  senhorita Dryden. -Quando viu que ela trocava de expresso, 
Richard perguntou-: O que acontece, Rosamund?
         -Estou segura de que isso no tem nada que ver neste assunto -disse ela sacudindo a cabea-, mas hoje me inteirei pelo Prudence de que seu irmo, Peter 
Dryden, esteve em Cambridge contigo. Recentemente que lhe nomeou proco do St. Marks, na Chelsea. Lembra-te dele?
         -Peter Dryden? -Richard se tomou seu tempo para pensar. O nome lhe soava bastante familiar, mas no conseguia recordar o rosto. De repente se lembrou-: 
O poeta! Esse era o apodo que tinha.
         -Ento, recorda-o?
         -Sim.
         lembrava-se de um jovem com culos que nunca tirava a cabea dos livros, mas isso era quase tudo o que recordava. O qual significava que Peter Dryden no 
tinha sido um dos membros do crculo fechado de jovens que se outorgaram o papel de julgar os costumes e a moral de outros. Os nomes destes ltimos estavam solidamente 
gravados em sua memria.
         -E o que passa com ele? -perguntou Richard olhando de novo ao Rosamund.
         -Prudence afirma que est completamente convencido de que voc no matou ao Lucy Rider. Contou ao Prudence o que aconteceu com o Frank Stapleton e a maneira 
em que te acusou de seus delitos. Tambm lhe contou, mas Prudence no parecia estar segura disso, que Stapleton se partiu ao Canad justo depois de abandonar Cambridge, 
e que tinha morrido ali.
         -Valeria a pena investig-lo, no acreditas? Especialmente depois do que passou aqui ontem  noite.
         - obvio, valeria a pena investig-lo.
         Ele no estava pensando sozinho no Frank Stapleton. Dunsmoor estava muito relacionado com seus dias em Cambridge, e comeava a estar cada vez mais seguro 
de que Cambridge tinha algo que ver com o que lhe havia passado nos ltimos tempos. No estaria de mais fazer uma visita ao Peter Dryden.
         Logo tratou de encontrar alguma pista nova repassando uma e outra vez com ela o que tinha acontecido a noite anterior. Richard se inteirou de que o prncipe 
Michael estava convencido de que a bala ia dirigida a ele. Sempre tinha havido agitadores no Kolnbourg dispostos a causar problemas. Um prncipe menos de que preocupar-se 
teria sido para eles uma grande satisfao.
         -Essas foram suas palavras exatas -disse Rosamund, e Richard ps-se a rir.
         -O que pensa seu pai?
         Rosamund tomou um comprido gole de ch antes de responder.
         -No me h dito grande coisa. Mas sei que queria falar contigo. Enviou ao Justin em sua busca, mas quando meu irmo retornou dizendo que todos os serventes 
da casa estavam rastreando os arredores e no tinham podido te encontrar, meu pai decidiu que j te veria hoje pela manh.
         -Bem, porque eu tambm quero falar com ele -disse Richard assentindo com a cabea.
         -Sobre mim?
         -Especialmente sobre ti.
         Ela ficou a brincar com o lao de um de seus punhos. Comprovou que ainda ficava ch na bule. E ao final, perdendo a pacincia, disse:
         -Bom, e o que  o que lhe vais dizer?
         Pergunta-a surpreendeu ao Richard
         -Lhe vou dizer que nos vamos casar,  obvio.
         -O vais dizer? No o vais perguntar? -disse ela acomodando-se na cadeira
         -O vou dizer -replicou Richard teimosamente-. Se lhe perguntasse, ele poderia responder que no; e certamente diria que no. No vou lhe dar essa oportunidade.
         -No  normal que um cavalheiro lhe pergunte  mulher, antes de ir falar com o pai dela?
         Ela pronunciou estas palavras como se se tratasse de uma piada, mas no havia nenhuma fasca de humor na expresso do Richard quando lhe respondeu:
         -Tampouco vou te dar a ti essa oportunidade.
         Lhe olhou fixamente aos olhos, e a intensidade do olhar do Richard quase lhe cortou a respirao. Seu corao comeou a pulsar com fora. Rosamund tratou 
de apartar a vista, mas o intenso olhar dele no parecia permitir-lhe Havia nesse olhar algo primitivo, algo possessivo e completamente masculino.
         As negras pestanas do Richard piscaram um segundo, relaxando a presso de seu olhar, e ela deixou escapar um profundo suspiro.
         -Se no nos casssemos -disse ele brincando-, Harper se sentiria muito surpreso, e ns no queremos que isso passe, verdade?
         Lhe seguiu a brincadeira o melhor que pde, mas seu corao estava a ponto de sair-se o do peito.
         -Creio que se sentir surpreso de todas formas. Disse-me que ainda estava desesperado por seu amor perdido.
         -Que amor perdido? -disse ele surpreso.
         -No existe nenhum?
         -No.
         -Isso era o que eu pensava -disse Rosamund assentindo com a cabea-. Harper estava convencido, j v, de que seu corao estava ocupado por algum, e de 
que por essa razo nenhuma mulher tinha podido te reter, nem sequer a admirvel senhora Temperar, ou a formosa esposa do Jason Radley, mas eu me dava conta desde 
o comeo de que essa no era a razo. Harper  um romntico, vi-o do momento em que o conheci.
         -Harper  um intrometido -sorriu Richard-. Te contou isso por seu prprio bem, para que pudesse te esquecer de mim e seguir com sua prpria vida de novo. 
Bom, j teve sua oportunidade e no fez conta. Assim agora j  muito tarde.
         Ela colocou o queixo entre os dedos entrecruzados.
         -Richard, no quer saber por que penso que nenhuma mulher pde te reter a seu lado?
         Se havia uma coisa que ao Richard incomodava sobre todas as demais era que se dedicassem a diseccionar suas relaes com as mulheres. Mas as mulheres pareciam 
entusiasmar-se com isso. E alm disso, era algo que lhes dava realmente bem. O que podiam tirar de bom da era algo que Richard nunca tinha sido capaz de desentranhar. 
E nenhuma mulher lhe tinha feito mais feliz por isso.
         -No especialmente -respondeu ele.
         Rosamund no abriu a boca.
         Richard deixou escapar um suspiro.
         -De acordo, me diga por que.
         -Porque no tinha encontrado  mulher adequada; no at que cheguei eu -respondeu ela.
         -V, est muito segura disso, no  assim? -disse ele sorrindo burlonamente. 
         -Completamente segura. Mas no se trata sozinho de que nenhuma mulher possa te reter a seu lado. Sejamos francos, que mulher poderia desej-lo? Ou visto 
de outra maneira, que mulher quereria enfrentar-se a suas maus maneiras, sua falta de galanteria e, perdoa que o diga assim, sua maneira to franco de te expressar? 
Solo eu. -Seus olhos brilhavam-: E sabe por que?
         -Sou todo ouvidos -respondeu Richard com o rosto inexpressivo.
         -Porque durante toda minha vida estive rodeada de gente que me adulava, e voc no pretende me adular. Voc no tenta cair bem. Voc no te dedica a sussurrar 
palavras vazias ao ouvido das senhoras. Quando diz algo, diz exatamente o que pensa.
         Um sorriso apareceu aos olhos do Richard.
         -Nisso tem razo. Sempre digo o que penso. E no penso te deixar. Assim se sua famlia te obriga a escolher, ter que te vir comigo.
         Ela deixou escapar um grito quando ele se aproximou de repente e a levantou da cadeira em braos. Beijou-a larga e profundamente. Sua boca tinha sabor de 
paixo, mas de uma vez tambm a desespero. Esse beijo lhe estava querendo dizer: se as coisas pudessem ser assim de singelas.
         Mas as coisas no eram to singelas. Uma nuvem escura se abatia sobre eles, uma nuvem maligna que podia trag-los em qualquer momento. Podiam chegar a ter 
um futuro juntos, ou poderia acontecer que o que acabavam de ter fora o nico que ficasse. Uma dor agridoce lhe atravessou na garganta, e agora os beijos dela se 
fizeram to se desesperados como os dele.
         Esta vez, sua maneira de fazer o amor foi ainda mais lenta. No  que a urgncia tivesse desaparecido, mas sim se tinha prolongado. Durante um breve lapso 
de tempo, juntos se esqueceram do mundo que lhes rodeava e pensaram sozinho neles dois.
         
         
         Ao cabo de um momento ela voltou para sua casa, enquanto Richard dava voltas na cama sem poder descansar. disse-se a si mesmo que no haveria remorsos, 
que tinha tentado separar-se dela, mas que tinha estado lutando uma batalha perdida. Mais logo ou mais tarde, teria tido que voltar para ela. A impresso que lhe 
tinha produzido aquela noite pensar que a tinha perdido no tinha feito mais que precipitar os acontecimentos.
         Mas agora que ela se comprometeu com ele, sentia-se de repente assediado por dvidas e temores. O que aconteceria se no podia limpar sua reputao? Seria 
um fugitivo para o resto de sua vida. E o que passaria ento com o Rosamund?
         No tinha por costume preocupar-se com o que poderia passar, mas sim pelo que estava passando. Para o Rosamund e para ele j no havia volta atrs, assim 
que a idia de no limpar sua reputao era algo impensvel.
         Uma vez teve centrado o problema em sua mente, concentrou-se em peneirar a seqncia dos acontecimentos que lhe tinham levado at onde se encontrava. Pensou 
em Cambridge, logo no assassinato do Lucy Rider, e ao final no ataque ao Prudence Dryden.
         
         Havia algo que o fazia sentir-se intranqilo, algo que parecia relacionar o assassinato do Lucy Rider e o ataque  senhorita Dryden da noite anterior. Mas 
o que era? ficou dormido, com um sonho intranqilo, enquanto sua mente tratava de encontrar a resposta.
         
        Captulo 21
         A entrevista entre o Richard e o pai do Rosamund teve que pospor-se at que os magistrados acabassem seu trabalho, e estes no se foram at a hora do jantar. 
Interrogaram s testemunhas e tomaram grande quantidade de notas, mas no chegaram a ver alm de seus narizes, em opinio do Richard. Conforme ouviu nas fofocas 
entre corredores, os magistrados ficaram satisfeitos com a verso de que o objetivo tinha sido o prncipe Michael, e o suspeito deveria ser algum desconhecido campons 
que se sentia ofendido pela famlia real do Kolnbourg.
         Esse atraso ofereceu ao Richard tempo suficiente para pensar em tudo o que lhe dava voltas pela cabea antes de haver ficado dormido a noite anterior. O 
que pareciam ter em comum o assassinato do Lucy Rider e o ataque contra a senhorita Dryden era que em ambos os casos os assaltantes tinham desaparecido sem deixar 
rastros, e isso apesar da quantidade de gente que tinha ido  cena do crime assim que se ouviram os disparos.
         Isso lhe fez pensar que os assassinos no tinham tentado escapar, mas sim mas bem se confundiram entre a multido, possivelmente inclusive chegando dos 
primeiros  cena do crime. No haveria neles nada que chamasse a ateno, porque no lhes veria como gente estranhas naquele lugar. Estariam onde se esperava que 
tinham que estar.
         No se tratava tanto de uma revelao deslumbrante como de uma teoria que terei que investigar. Ou possivelmente solo se estava agarrando a um prego ardendo. 
Mas Richard tinha j uma pista slida que pensava investigar. Tinha tido o mais velha Digby notcias a respeito do Dunsmoor? Quem lhe tinha falado daquele lugar? 
Quem podia conhecer esses detalhes ntimos de sua vida? Solo podia ser algum que se incomodou o bastante para averigu-lo.
         No era muito para comear, mas de momento era a nica pista que tinha.
         Passou todo o dia ajudando aos capatazes a limpar os destroos que tinha deixado a tormenta. Tambm estava ali Harper, com m cara e olho atento. Embora 
no tinha nenhuma teoria para tratar de descobrir ao atacante da senhorita Dryden, no se tinha ficado satisfeito com as concluses dos magistrados. Seu instinto 
lhe dizia que Twickenham j no era um lugar seguro, e que tinha chegado o momento de partir dali.
         Lorde Justin foi procurar ao Richard no momento em que Harper e ele estavam limpando os restos do jantar da vspera. Naquela ocasio tinha decidido no 
vestir de librea, e levava postos umas calas negras e uma jaqueta escura. Queria que seu encontro com o duque fora uma conversao de homem a homem, no de criado 
a senhor. Alm disso, os criados tambm tinham seus dias de festa, e ele tinha decidido que essa noite seria o seu.
         No se requereu a presena do Harper, mas este insistiu em acompanh-los. Seu instinto estava ainda em guarda e nesse momento voltava para seu papel de 
guarda-costas. Lorde Justin encontrava todo aquilo divertido. Mas Richard no. Ao igual a Harper, Richard levava a mo metida no bolso da jaqueta no que guardava 
sua pistola. Confiava tanto no instinto do Harper como no seu prprio.
         O duque lhe estava esperando sozinho na biblioteca. Com um gesto da mo lhe indicou uma cadeira para que se sentasse. Sua Excelncia, recordou Richard, 
era um homem de poucas palavras, e terei que ter em conta cada uma delas. Richard tomou assento.
         -Gosta de um brandy?
         -Sim, obrigado.
         Richard estava preparado para encontrar ao duque frio e formal. Sabia que Rosamund lhe havia dito a seu pai que pensavam casar-se. No poderia dizer-se 
que o duque fora amvel, mas obviamente tentava manter uma atitude elegante. E de fato o conseguia.
         O duque aproximou do Richard um copo mdio cheio de brandy e se sentou na cadeira que havia frente  dele.
         -Como ver, posso ser to igualitarista como qualquer outra pessoa. No sempre me mantenho em minha fila -disse o duque.
         Essas palavras eram do Rosamund, pensou Richard, e teriam sido divertidas se Richard no tivesse sido to consciente de sua prpria posio. Ele no era 
precisamente a melhor partida para casar-se com sua filha, e Richard estava seguro de que o duque conduziria a conversao para esse ponto. Tambm recordava as palavras 
do Rosamund no momento de parti-la noite anterior: deveria ser corts e refrear sua lngua.
         -Antes que nada, me diga o que opina sobre os monstruosos acontecimentos da noite passada -disse o duque-. Supondo que j teria ouvido que os magistrados 
esto convencidos de que o prncipe Michael era a vtima escolhida.
         -Ouvi-o -disse Richard meneando a cabea-.  muito logo para extrair concluses, mas a motivao me parece um pouco descabelada. Se se tratasse do prncipe 
herdeiro, a coisa poderia ser diferente.
         O que eu gostaria de fazer, com sua permisso,  interrogar ao prncipe Michael e  senhorita Dryden. Poderamos lhes dizer que sou um agente do Servio 
de Segurana. No tm por que saber quem sou.
         -Isso no pode ser...
         Richard ficou rgido.
         O duque fez uma pausa. No entendia por que Maitland se ofendia sempre com tanta facilidade, especialmente quando a parte ofendida era ele, Romsey.
         -Porque o prncipe decidiu que a senhorita Dryden estar mais segura ao lado de seu irmo -seguiu dizendo o duque irritado-. partiram ao pouco de i-los 
magistrados. Mas posso lhe dizer tudo o que viram e ouviram depois do disparo. A senhorita Dryden no tem inimigos, por que a foram escolher a ela, uma jovem de 
boa famlia? E o prncipe tem outros inimigos: maridos; pode imaginar voc a quantos ter colocado os chifres? Eu nunca estive absolutamente decidido... bom, isso 
j no vem agora a conto. Ele assegura que se reformou por completo desde que conheceu a senhorita Dryden.
         As costas do Richard se relaxou de novo na cadeira. Estava pensando que uma das primeiras coisas que tinha que fazer assim que abandonasse Twickenham era 
ir a Chelsea e interrogar  senhorita Dryden e a seu irmo.
         Uma veia comeou a palpitar na tmpora do duque. Olhou ao Richard fixamente.
         -Minha filha me h dito que tem voc um pouco muito importante que me contar -disse o duque.
         O olhar do Richard se mantinha to firme como a do duque.
         -Rosamund e eu vamos casar nos -disse Richard.
         -Supondo que tenho algo que dizer a respeito!
         -Algo que possa dizer j me hei isso dito eu mesmo -disse Richard-. me Crie, no estou mais contentou de ter aos Devere por famlia do que o est voc de 
me ter a mim!
         -Ao menos em algo estamos ao mesmo tempo! -soltou o duque-. Mas, ao contrrio do que parece fazer voc, ns, os Devere, no julgamos s pessoas pela posio 
que ocupa na sociedade. OH, claro, isto  algo que sei pelo Rosamund. H muito poucas coisas que minha filha no me conte.
         -Ento, deve lhe haver dito que nosso matrimnio  inevitvel.
         -Imperativo,  a palavra que ela utilizou.
         Richard no respondeu nada.
         -Imperativo! -repetiu Isso duque  o que me h dito Rosamund. Sabe uma coisa?, decepcionou-me voc, Maitland. No pelo fato de haver-se comprometido com 
minha filha, mas sim pelas circunstncias que, segundo ela me explicou, foram excepcionais. Est decidida a lhe ter a voc com ou sem meu consentimento. Supondo 
que essa  a razo pela que me contou que eram vocs amantes. E o que posso fazer eu? Ela j no  uma menina. Ela escolheu e eu tenho que aceit-lo.
         -Obrigado -disse Richard deixando escapar um suspiro de alvio.
         -Isso no significa que voc eu goste! Pode acreditar que tentei tudo o que esteve em minha mo para faz-la entrar em razo.
         Mas contra todos os argumentos que lhe apresentou, Rosamund lhe respondeu que j era mais velha de idade, que esperava obter sua bno, mas que, com seu 
consentimento ou sem ele, casaria-se com o Richard Maitland.
         Rosamund era ento como Caspar quando voltou para casa depois da guerra. Havia nela uma vontade de ao que o duque no podia dobrar. Sabia perfeitamente 
que poderia evitar esse matrimnio enviando-a ao castelo Devere e mantendo-a vigiada e sob chave, mas o custo que isso suporia seria muito mais velha do que o duque 
estava disposto a pagar. Ela no tivesse voltado a lhe chamar pai nunca mais.
         O duque ainda no havia dito a ltima palavra.
         -O que me decepciona  que lhe julguei mau. Pensei que era voc um lutador. Que estava decidido a brigar por limpar sua reputao.
         -E isso no h mudado -disse Richard franzindo o sobrecenho.
         O duque deixou escapar uma breve gargalhada.
         -De verdade? E como se prope voc limpar sua reputao enquanto esteja vivendo na Itlia ou em qualquer outro sitio ao que tenha planejado escapar?
         -O que  o que lhe contou Rosamund? -perguntou Richard em voz baixa.
         -Que pensam casar-se em seguida e escapar a Esccia, ou a qualquer outro lugar inacessvel, e viver ali, supondo, felizes por sempre, at o dia que... -Viu 
a expresso de desconcerto no rosto do Richard e se interrompeu-. No esto pensando escapar ao estrangeiro?
         -No sei como lhe pde ocorrer essa ideia ao Rosamund. Por todos os diabos! -Richard estava visivelmente estremecido enquanto uma lembrana lhe vinha  
memria-. Tnhamos falado de comear uma nova vida, mas eu queria dizer depois de ter limpo minha reputao. E nunca me h passado pela mente abandonar a Inglaterra.
         Houve um silncio prolongado enquanto o duque digeria aquelas palavras. A seguir disse:
         -Ento, no  acaso prematura esta conversao? No deveramos ter esperado a depois para que viesse a me pedir a mo de minha filha? por que tanta pressa? 
Imagino que no estar grvida. assim, limpe sua reputao e logo case-se com ela abertamente e com minha bno.
         -No. Esta  a maneira correta de faz-lo. Pelo Rosamund. Temos que nos casar em seguida. No quero parecer melodramtico, mas temos que nos enfrentar com 
certos feitos. dentro de uma ou duas semanas poderia ficar viva. Se tiver um menino e no estamos casados, isso destroaria ao Rosamund.
         Os velhos olhos do duque piscaram surpreendidos. Ao final disse:
         -Algo que lhe possa passar a destroaria, tanto se est casada como se no. O que  o que pretende fazer voc que lhe pode pr em tanto perigo?
         -Pode que no faa falta chegar to longe, mas se todo o resto enguio, teria que me colocar a mim mesmo como ceva para apanhar a um assassino. E nesse 
caso, necessitarei sua ajuda -replicou Richard em voz baixa.
         
         
         Tudo se levou a cabo sem necessidade de recorrer a subterfgios. Lorde Caspar conseguiu uma licena especial de matrimnio em nome do Richard e encontrou 
uma pequena capela apartada no caminho da Chelsea, com um ancio proco que tinha problemas para recordar em que dia vivia. casaram-se em presena dos irmos do 
Rosamund, mas o pai se desculpou dizendo que ele era uma pessoa muito conhecida e temia que sua presena chamasse a ateno naquela pequena celebrao. Rosamund 
reconheceu que tinha razo, mas a ausncia de seu pai ps uma pequena sombra no dia mais feliz de sua vida.
         No houve banquete de bodas. Uma vez terminou a liturgia, Rosamund se tirou o anel de noiva. Era de sua me, e ela sempre tinha pensado que seria tambm 
o seu o dia que se casasse. Logo tomaram um carro de aluguel que lhes levou at o estbulo no que tinham deixado sua carruagem e empreenderam o caminho de volta 
ao Twickenham House.
         Com seus irmos viajando na mesma carruagem, Rosamund no teve muita oportunidade de falar com o Richard tal e como estava desejando fazer, mas ao menos 
todos eram corteses e isso a agradava. Sua famlia no tinha sido precisamente amvel a manh em que lhes contou o que pensava fazer.
         Primeiro tinha falado com seu pai, e a seguir com seus irmos, e tinha tido que enfrentar-se aos trs enquanto todos tiravam reluzir uma atrs de outra 
as muitas e boas razes para que, ao menos, pospor-se as bodas. Assim tinha tido que lhes dar a todos uma boa razo para que as bodas tivesse lugar imediatamente. 
Tinha ido  cabana em que vivia Richard, disse-lhes, e ali o tinha seduzido.
         -Voc lhe ama, mas te ama ele a ti? -havia dito finalmente seu pai.
         -Sim, Richard me ama -tinha respondido ela.
         Em realidade, ele nunca tinha pronunciado essas palavras, mas isso no o tinha contado a seu pai, porque poderia ter feito uma cena por to pouca coisa. 
Richard no era um sentimental. Por essa razo se o fazia difcil pronunciar esse tipo de frases. Tinha tentado mant-la afastada dele porque, conforme supunha Rosamund, 
Richard sempre tinha pretendido manter-se afastado do matrimnio. Como se lhe importasse o matrimnio! E ainda a estaria mantendo afastada de seu lado se no tivesse 
acreditado que aquela noite tinha sido ela, e no Prudence, a que recebeu um disparo.
         Aquilo tinha feito que se cambaleassem suas mais profundas convices. Aquilo lhe tinha feito perder o controle e tinha dado rdea solta a suas emoes. 
O que Richard sentia se via em seus olhos e na maneira em que tremia quando a tocava, e na maneira em que o fazia o amor. Solo pensar nisso a fazia desejar que lhe 
fizesse de novo o amor.
         Enquanto Richard e seus irmos foram conversando a respeito dos estbulos do Twickenham, ela se acomodou no assento e se dedicou a observ-los, especialmente 
ao Caspar e ao Richard.
         Na aparncia eram to diferentes: Caspar era alto e com o cabelo escuro, com um formoso ar agitanado; e Richard era de cabelo castanho com reflexos dourados. 
Richard parecia o mais ingls dos dois, embora duvidava que ele pudesse tomar isso como um completo. Mas ambos tinham uma coisa em comum: sua presena. Esse indefinvel 
aspecto de masculinidade dos homens seguros de si mesmos que sabem o que acontece a seu redor.
         Seu olhar se dirigiu logo para o Justin, que nesse momento estava mordiscando uma ma. Era uma verso mais jovem do Caspar, mas ainda tinha que viver muitas 
coisas para adquirir o tipo de presena pelo que se distinguiam seus outros dois acompanhantes.
         lhe gostava de Justin tal e como era. Nele no havia sombras. Era transparente como a gua das montanhas.
         De repente sentiu um calafrio e se agasalhou entre as dobras de sua capa.
         
         
         -No o entendo, pensei que nos amos partir esta noite -disse Rosamund-. J empacotei todas meus coisas. O que h passado, Richard? O que te tem feito trocar 
de opinio?
         Estavam no estufa, com o Harper vigiando a porta que dava ao jardim e lorde Justin patrulhando pela galeria de pinturas onde tinha tido lugar o baile. Ningum 
podia entrar nem sair do estufa sem ser descoberto.
         Era a primeira vez que Richard e Rosamund estavam a ss aquele dia. Fora j estava escuro, mas se tinham aceso abajures no estufa. Embora no havia muita 
luz, e isso fazia difcil que ela pudesse ler a expresso do rosto do Richard.
         -No hei mudado de opinio. trata-se de um mal-entendido. Gosta que caminhemos? -disse Richard.
         Ele tomou pelo brao, acompanhou-a em direo  escada de pedra e comearam a passear. A seu redor elevavam seus ramos rvores exticas, e os canteiros 
de flores transbordavam rosas e lavanda, mas Rosamund no estava nesse momento interessada pelas flores. Seu corao tinha comeado a pulsar mais depressa.
         -Ento, quando vamos? Amanh? Depois de amanh?
         Ele no sabia como explicar-se o de maneira amvel, de modo que disse:
         -Eu me parto, mas voc fica aqui. No ser por muito tempo. dentro de uma ou duas semanas, voltarei a te buscar, e ento comearemos a nova vida que te 
tinha prometido.
         Ela se deteve, e se voltou para ele elevando as sobrancelhas.
         -E aonde vai?
         -A Londres -disse ele-. Rosamund, no sei como pudeste interpretar mal minhas palavras. Nunca deixei que te dizer que o mais importante para mim era limpar 
minha reputao.
         Ao Richard pareceu que aquilo a tinha pilhado por surpresa. Seus olhos estavam abertos como pratos e sua respirao se fazia ofegante e rpida.
         -No estarei longe daqui -disse ele tratando de acalm-la-. E Harper te trar notcias de como estou e de como vo as coisas.
         Ele parecia estar to seguro, to tranqilo e to pouco afetado, enquanto que ela sentia que uma mescla de dor e medo comeava a crescer em seu interior. 
Ao final o medo pde mais.
         -Nunca conseguir limpar sua reputao.
         -Tenho que tent-lo.
         -E quanto se supe que tenho que esperar? Um ms? Um ano?
         -J lhe hei isso dito, uma semana ou dois. Mas no muito mais.
         -Como pode estar to seguro de que o conseguir em to pouco tempo?
         -Porque vou tender lhe uma armadilha a esse bastardo que quer lombriga morto -disse ele esfregando-as tmporas.
         Um halo branco nublou os olhos do Rosamund. cambaleou-se, e teria cansado ao cho se ele no a tivesse sujeito lhe acontecendo um brao por cima dos ombros. 
O halo branco se dissipou e em seu lugar apareceu em seus olhos uma expresso de aborrecimento.
         Separou-se de um golpe o brao do Richard.
         -Sou sua esposa -gritou ela-. Se supe que devemos decidir juntos este tipo de coisas. E eu digo que deveramos partir da Inglaterra at que o ambiente 
se acalme. No faz falta que seja para sempre. dentro de um ano, se quiser, possamos voltar. E ento poder continuar com sua investigao.
         -Um ano? -perguntou ele com incredulidade-. Para ento todo mundo se esqueceu do caso.
         -Ento, deixa-o em mos de meu pai e meus irmos! -deu-se conta do tom de histeria que havia em sua voz e se deteve-. Deixa-o em mos de meu pai e meus 
irmos -repetiu de novo mais acalmada-. Se segue removendo o assunto te vais pr de novo em perigo de morte.
         Richard se passou uma mo pela frente, esfregou-se os olhos e disse meneando a cabea:
         -Pensei que pelo menos voc entenderia o que intento fazer. Sabe que  algo que devo fazer. No se trata sozinho de limpar minha reputao, esqueceste j 
o assassinato do Lucy Rider? Prometi-me mesmo que vingaria sua morte, e isso  o que vou fazer.
         Se ela no houvesse passado todo o dia saboreando em sonhos a nova vida que ia comear com o Richard, poderia ter estado nesse momento muito mais acalmada.
         Mas as esperanas frustradas e algo que se parecia muito ao medo estavam dando asas a sua angstia.
         Rosamund deu um passo atrs, e com uma voz baixa e tremente disse:
         -se preocupa por uma mulher que te traiu antes que por mim?
         Richard estava comeando a perder a pacincia. A mulher branda e entregue da noite anterior que parecia poder lhe entender sem necessidade de palavras se 
estava convertendo em uma fera.
         -Rosamund, deixa-o j -disse ele-. Logo que posso te reconhecer quando te pe assim.
         -O mesmo posso dizer eu de ti! Deveria te haver conhecido melhor! Isso  o que Harper tentava me dizer.  um lobo solitrio. Se lhe tivesse feito conta, 
nunca teramos mantido esta conversao.
         -Ento, possivelmente deveria lhe haver dado caso -replicou ele com desavenas, mas em seguida se arrependeu das palavras que acabavam de sair de sua boca-. 
Rosamund -acrescentou aproximando-se dela.
         Ela se desfez de seu abrao, e lanando um suave chiado se recolheu as saias e saiu correndo.
         Ele saiu disparado detrs dela, mas ao momento se deteve e apoiou suas mos contra o tronco de uma palmeira.
         
         
         Quando Rosamund saiu  galeria de quadros, viu que Caspar e seu pai se reuniram ali com o Justin e estavam de p fumando uns charutos.
         -Vs so os responsveis por isto -disse assinalando a cada um deles com o dedo-. Vs o pusestes contra mim.
         Os trs se olharam surpreendidos e responderam ao unssono: 
         -No.
         -De acordo, mas melhor ser que lhe faam trocar de opinio ou no lhes voltarei a dirigir a palavra -disse ela lhes deixando ali estupefatos.
         O duque exalou uma baforada de fumaa.
         -Eu gostaria de conhecer uma pessoa que possa fazer trocar de opinio ao Richard Maitland quando este decidiu o que  o que tem que fazer -disse lentamente-. 
No lhe pude fazer trocar de opinio para que no se casasse com o Rosamund, e no estou disposto a me embarcar em outra discusso intil.
         -Arrepende-te de ter mimado as bodas? -perguntou Caspar.
         -Arrependo-me da maneira em que se feito, mas como todos sabemos, havia uma importante razo para que desse meu consentimento.
         -Ainda assim, foi uma pequena humilhao, no acreditas? -disse Justin-. Faz umas semanas os peridicos falavam do Rosamund como a "princesa perfeita".
         E agora h passado do mais sublime ao mais ridculo.
         -Ridculo no seria a palavra que eu utilizaria tratando-se do Maitland -disse o duque -. Resolvido, possivelmente. Desumano, sem dvida. Nunca se d por 
vencido. Mas  um homem de honra. E isso o respeito. -Refletiu durante um momento e logo continuou-: Posso lhe conseguir um ttulo. Quando limpar sua reputao, 
 obvio. pode-se comprar se se paga um bom preo.
         E o prncipe regente sempre foi muito amigo do dinheiro. Baro Maitland. Isso soaria bastante bem.
         -Pai, eu no o faria -disse Caspar.
         -por que? Nem sequer lhe nomear cavalheiro?
         -Nem sequer cavalheiro. No lhe ia agradecer isso. Mas bem tomaria como uma ofensa.  desse tipo de pessoas que prefere ganh-las coisas por seus prprios 
mritos.
         O duque estudou o rosto de seu filho mais velha durante um momento e a seguir acrescentou:
         -te cai bem Maitland, no  certo?
         -Eu no diria tanto -replicou Caspar com um sorriso zombador-. Digamos simplesmente que pouco a pouco se vai ganhando minha avaliao. Maitland  o tipo 
de soldado que uma deseja ter a seu lado, ombro com ombro, no fragor da batalha. E, naturalmente, tambm deseja ter ao Harper ao outro lado.
         -E o que diz de mim? -perguntou Justin-. Tambm eu fui soldado.
         Caspar ficou olhando como se dissolvia no ar a espiral de fumaa que acabava de exalar.
         - obvio, mas na Espanha voc esteve na reserva -disse Aquilo Caspar foi uma guerra sangrenta e brutal. Essa  uma das razes pelas que Maitland e eu nos 
entendemos. -Caspar olhou a seu irmo-: No ponha essa cara, irmozinho. Levou-te muito bem no Waterloo. Ganhou suas medalhas.
         -Mas isso no se pode comparar com a guerra da Espanha? -Na pergunta do Justin havia certo tom de provocao.
         -Os sucessos da Espanha no  algo do que ningum possa presumir -replicou Caspar escuetamente. aproximou-se da chamin e atirou a bituca de seu charuto 
ao fogo-.  algo que a maioria de ns tentamos esquecer.
         Quando voltou a reunir-se com outros, sorria levemente.
         -J  a hora -disse Caspar.
         O duque olhou o relgio que havia sobre a chamin e deixou escapar um suspiro.
         -Sim. E no creio que devamos fazer esperar mais a meu genro -disse, e apertou a mo direita do Caspar-. Tanto falar da guerra me incomoda. Tenha muito 
cuidado.
         -Terei-o.
         -Boa sorte, Caspar-lhe disse Justin.
         Caspar entrou no estufa e fechou a porta lentamente a suas costas.
         Houve um momento de silncio, e logo o duque, de maneira incomum, rodeou os ombros de seu filho mais nova com um brao.
         -vamos descansar  biblioteca e a nos consolar com uma garrafa de meu melhor brandy -disse.
         Quando puseram-se a andar pelo comprido corredor, Justin perguntou:
         -Pai, o que aconteceu com Caspar na Espanha?
         -Nada -respondeu o duque-. Nada que no acontecesse com qualquer outro soldado. To solo a guerra.
         
         
         Rosamund estava em seu dormitrio, deitada em sua cama e dando voltas sem poder conciliar o sonho. Haviam passado vrias horas desde sua discusso com o 
Richard e j no se sentia to segura como o tinha estado ento. Tinha sido a impresso o que a tinha feito dirigir-se ao Richard de uma maneira to cortante. Embora 
seguia pensando que tinha razo, o que queria naquele momento era sentar-se com ele como duas pessoas civilizadas e discutir a respeito de suas diferenas para poder 
chegar a um compromisso.
         incorporou-se na cama. Richard no conhecia o significado da palavra compromisso. ficou com esse pensamento para manter seu aborrecimento, mas por muito 
que o tentou o aborrecimento comeou a desaparecer. Richard nunca tinha pretendido aparentar o que no era. O mal-entendido estava somente nela. Desde o comeo tinha 
sabido que o primeiro para o Richard naquele momento era limpar sua reputao, e que seu bom nome era seu bem mais prezado. Shakespeare o tinha expresso muito melhor 
do que ela poderia faz-lo em uns versos; mas no era capaz de recordar cada uma das palavras exatas nesse momento.
         E por outra parte estava Lucy Rider.
         "se preocupa por uma mulher que te traiu antes que por mim?"
         estremeceu-se recordando suas prprias palavras. Como tinha podido ser to insensvel? "Sinto muito, Lucy", disse-se em silncio.
         Aquela era sua noite de npcias. O que estava fazendo ali, dando voltas em sua cama de solteira quando seu marido -e saboreou essa palavra- provavelmente 
estava fazendo o mesmo em sua cabana? No tinha imaginado que sua noite de npcias seria assim, e tampouco Richard. Apesar de que tivessem diferenas, ele no se 
merecia isto.
         Com esta ideia na cabea, levantou-se da cama e comeou a vestir-se. Dez minutos mais tarde, saiu da casa e se dirigiu para a cabana do Richard. No viu 
luz por nenhuma das janelas, e imaginou que ele estaria dando voltas na cama sem poder conciliar o sonho, como tinha feito ela um momento antes. sentia-se realmente 
arrependida, quando utilizou a chave que lhe tinha dado para abrir a porta e entrar na cabana.
         -Richard?
         No houve resposta. Em seguida se deu conta de que algo ia mau. A cabana estava gelada e no havia brasas na chamin. Rosamund procurou uma caixa de iscas 
e acendeu com elas uma vela.
         A cama estava ainda feita e no havia nada na habitao que mostrasse que algum havia passado por ali recentemente. Foi correndo at o armrio e abriu 
todas as portas. Estava vazio.
         Com o corao lhe saltando no peito, saiu correndo dali e cruzou os estbulos em direo  cabana do Harper. Quando entrou, foi recebida pelo mesmo frio 
que a tinha recebido na cabana do Richard.
         Lentamente, mdio aturdida, voltou a percorrer o caminho at a cabana do Richard e se sentou ali em uma cadeira.
         O muito vadio a tinha deixado sozinha sem sequer umas palavras de despedida! Possivelmente ela no deveria haver partido do estufa sem lhe dar a oportunidade 
de que se explicasse. Mas ele poderia ter ido procurar a, e poderia hav-la obrigado a escutar suas razes. Poderia lhe haver dito algo.
         "Eu me parto, mas voc fica aqui. "
         -Ah! Isso  o que voc lhe acreditas, Richard Maitland! -disse ela  habitao vazia.
         Tinha-lhe contado que se ia a Londres, mas no lhe tinha explicado onde poderia encontr-lo. Era bvio que no confiava nela, que pensava que ela no poderia 
lhe ajudar a limpar sua reputao. depois de tudo o que haviam passado juntos, j deveria saber ele do que era capaz Rosamund.
         Bom, por sorte para ela, tinha uma casa em Londres, embora ainda no lhe tinham dado as chaves, mas poderia alojar-se no Clarendon at que o contrato da 
casa estivesse preparado. Faria que Richard voltasse para seu lado e ento lhe explicaria exatamente o que pensava dele. Estava-a tratando como se fora um ornamento 
intil, algo que terei que deixar guardado porque era frgil, o tipo de mulher -pelo que ele tinha comentado sempre que jamais lhe tinha interessado.
         E agora tampouco a ela.
         Voltou para a casa com os olhos secos e a cabea bem alta. 
         
        Captulo 22
         George Withers se surpreendeu quando o mais velha Digby e o capito Whorsley se apresentaram em seu estudo. deu-se por subentendido que se encontrariam 
sempre em terreno neutro, em algum dos clubes para cavalheiros ou em algum evento social. No queria que ningum tivesse a impresso de que suas relaes eram algo 
mais que casuais.
         mostrou-se amvel com eles, mas em seu interior estava lvido. Algo que pudesse relacion-lo com o Richard Maitland o alarmava, e Digby ainda estava encarregado 
da busca do Maitland. Withers tinha completo com sua parte avisando ao Digby de onde devia procurar e a quem tinha que interrogar, mas o tinha feito aparentando 
ser uma testemunha curiosa que tinha recolhido informaes interessantes nos crculos sociais nos que se movia, e as tinha irradiado como faria qualquer cidado 
cumpridor da lei. Isso tinha funcionado nos dois sentidos. Digby lhe tinha mantido informado do progresso das investigaes, mas o tinha feito mantendo-se tambm 
a distncia, e assim era como preferia ele que seguisse acontecendo.
         Apesar de tudo o que tinha tentado, as investigaes no tinham avanado. Haviam passado trs semanas e ainda no se tinha nenhuma pista do Maitland. Ficar 
oculto sem fazer nada no ia com o carter do Richard Maitland que ele conhecia. Uma vez mais tinha deixado ao Maitland uma pista a partir da qual poderia ser descoberto, 
e se arrependia disso. Tinha sido um parvo ao no aprender a lio a primeira vez.
         -Sentem-se, sentem-lhes disse Withers assinalando umas cadeiras.
         Quando Digby e Whorsley se sentaram, ele se aproximou da janela e olhou fora. Era a ltima hora da tarde, e Bond Street estava repleta de gente. Todo tipo 
de carruagens passavam em direo a Oxford Street ou para o Picadilly. Caminhantes bem vestidos foram de loja em loja. Mas no pde detectar nada que estivesse desconjurado 
ou a ningum que vigiasse sua porta para descobrir que visitantes tinha.
         -Ningum nos viu entrar no edifcio -disse Digby-. utilizamos a porta traseira.
         Withers desenhou um sorriso em seu rosto enquanto se dava a volta da janela.
         -Me alegro de ouvir isso. Sabe voc, mais velha Digby, que comeo a me arrepender de me haver envolto no caso Maitland? Parece-me que no entendo com que 
tipo de homem nos temos isso que ver. Tinha ouvido que era uma pessoa que lutava sem trgua contra qualquer que o trasse; embora claro, isso j sabemos pelo julgamento. 
Espero que tenham sido vocs discretos, pelo amor de Deus. No quisesse que um homem dessa ndole me tivesse por seu inimigo.
         -Fique tranqilo, senhor Withers, nunca fao pblicas minhas fontes de informao, porque, do contrrio, essas fontes se secam em seguida -disse Digby em 
tom distendido.
         Isso era exatamente o que Withers esperava escutar. Olhou fazia Whorsley, quem negou vigorosamente com a cabea.
         -Temos muitas fontes de informao, e todas as mantemos no mais absoluto anonimato -disse.
         -Algum que eu conhea?
         Whorsley riu da piada que acabava de fazer Withers. Digby se manteve indiferente.
         -Desejam tomar algo? -ofereceu Withers-. Caf? Brandy?
         -No, obrigado -respondeu Digby.
         Withers se sentou.
         -Ento, no que posso lhes ajudar?
         Digby respirou profundamente e seu rosto se torceu em uma careta de aborrecimento.
         -Tenho dois dias para encontrar ao Maitland, e se no o consigo me substituiro -disse.
         -Mas isso  absurdo! -exclamou Withers com autntica surpresa.
         -Entretanto, isso  o que acontecer. O viceministro me convocou em seu escritrio faz apenas uma hora e me comunicou isso pessoalmente. Acreditam que no 
estou fazendo bem meu trabalho. -A mo direita do Digby se fechou em um punho como se queria golpear a algum-. O que no querem saber  que estive pressionado por 
muita gente que esperava ver resultados a curto prazo.
         Comeou a respirar com rapidez conforme aumentava seu aborrecimento.
         -Pedi-lhes que levassem a lady Rosamund, e tambm ao Harper, diante os tribunais para ser interrogados, mas Romsey tem ao ministro na palma da mo, e este 
insistiu em que se lhes tinha que interrogar o fizssemos no Twickenham e em presena do duque.
         -voc crie que lady Rosamund e esse tal Harper podem estar tramando algo?
         Digby deixou escapar uma triste gargalhada.
         -Maitland fez um trabalho perfeito ao convencer  garota de que  inocente. Estou seguro de que ela sabe muito mais do que h dito. E quanto a esse renegado 
do Harper, creio que est metido neste assunto at o pescoo.  obvio que foi ele quem ajudou ao Maitland a escapar do Newgate, mas quando ouviu que o duque tinha 
devotado uma recompensa, viu a oportunidade de consegui-la e de limpar ao mesmo tempo sua reputao. No sente saudades que se ps sob o amparo do duque. Teme falar 
muito se por acaso um dia destes tem que enfrentar-se cara a cara com o Maitland.
         Withers assentiu com a cabea mostrando seu acordo. Ele mesmo tinha chegado j a essas concluses, mas, a diferena do Digby, no queria que lady Rosamund 
fora interrogada pelos tribunais. Uma semana antes tinha sido da mesma opinio que Digby, mas agora estava preocupado. Ela estava convencida da inocncia do Maitland. 
O que era o que sabia? O que poderia ter descoberto?
         -ouvi que algum atacou a um dos convidados de lady Rosamund a outra noite -disse Withers-. Pode ter isso algo que ver com o caso Maitland?
         -No acredito. O objetivo era o prncipe Michael. Tudo indica que o atacante deveu ser um campons desencantado.
         Withers no tinha tido nunca uma opinio muito boa dos oficiais da lei, ou da inteligncia de seus agentes, mas nesse momento sua opinio desceu ainda uns 
pontos mais. Ao menos no tinha que preocupar-se com que pudessem estar seguindo a pista a seu menino.
         -O que se sabe do Hugh Temperar? -perguntou Withers.
         -Whorsley? -disse Digby.
         Whorsley se esclareceu garganta antes de comear a falar.
         -Ele e sua esposa se foram a suas propriedades no Oxfordshire. No esto escondidos. Temo-los sob vigilncia, de modo que se derem um passo em falso seremos 
os primeiros em sab-lo.
         Withers assentiu com a cabea. esqueceu-se de que Whorsley estava ali. Este tinha um carter que o fazia desaparecer no ambiente. Ningum lhe via realmente. 
Mas sabia tanto do caso como Digby. Se decidia fazer algo ao em relao ao mais velha, teria que incluir tambm ao Whorsley. Voltou a dirigir-se ao Digby.
         -Aprecio sua franqueza, mas no entendo o que tem que ver tudo isto comigo.
         Digby pareceu no lhe haver escutado. Abriu a palma da mo e a Brandiu no ar.
         -Tinha ao Maitland na palma da mo, mas no ltimo momento me adiantaram Temperar e Harper -disse Digby de uma vez que apertava os dedos da mo.
         -Acredita que deixaram escapar ao Maitland a propsito?
         -Possivelmente, em lembrana dos velhos tempos. -Digby fez uma pausa e a seguir olhou ao Whorsley diretamente aos olhos-. O que preciso  outro Dunsmoor.
         Ao Withers o corao deu um tombo. Isso era precisamente o que se temia. Sua relao com o Richard Maitland estava comeando a sair  superfcie.
         -No tenho outra eleio -continuou Digby-. Tem voc que me contar quem lhe falou da casa do Maitland.
         Withers estendeu as mos abertas.
         -J o disse, ouvi falar dessa casa a algum em um dos clubes que freqento. Que importncia tem isso agora?
         -Importa muito. Preciso saber o nome dessa pessoa.
         -Bem... -Withers desceu a vista para suas mos e ps cara de arrependimento. Voltou a levantar os olhos e olhou ao Digby-. No quero colocar a ningum em 
problemas.
         -Ningum vai meter se em problemas -replicou Digby chiando os dentes-. Quo nico preciso  informao. Se seu amigo conhecia a existncia do Dunsmoor, 
pode que saiba onde mais tenho que procurar para dar com o Maitland. Pelo amor de Deus, compreenda que solo ficam dois dias!
         -Eu gostaria de lhes ajudar, mas lhes dar essa informao seria uma traio. No posso lhes dar o nome de meu amigo sem lhe pedir antes seu consentimento 
-disse Withers encolhendo-se de ombros com um gesto de impotncia.
         -Bem, me escute agora ! -Digby se tornou para diante na cadeira com todo o corpo em tenso-. Estamos falando de minha carreira. Se no encontrar ao Maitland 
posso acabar em algum colocado no estrangeiro, deixado da mo de Deus, na outra ponta do planeta. Isto  muito importante para mim para me andar com sutilezas, entende-o 
voc? -A seguir ficou em p-: Tem at as oito de esta noite. J sabe onde me encontrar. me traga para seu amigo ou venha com algo que possa me servir, mas no se 
presente com as mos vazias.
         As palavras do Digby faziam que ao Withers lhe subisse o sangue  cabea. Desde que era um menino, nunca ningum lhe tinha voltado a falar daquela maneira. 
Digby ia pagar por isso, prometeu-se a si mesmo. Pagaria por sua arrogncia. forou-se a acalmar seu aborrecimento, tentou controlar-se e logo respondeu com suavidade:
         -Quem mais estar com voc?
         -S estaremos Whorsley e eu, assim pode lhe dizer a seu amigo que ningum mais que ns trs conhecer sua identidade.
         depois de despedir-se dos dois agentes, Withers voltou para seu estudo. Respirava irado e seus lbios estavam enrugados em uma careta de raiva.
         Seu plano se estava vindo abaixo por momentos. No tinha tido a inteno de ficar em Londres depois de que Maitland fora executado. Teria que haver-se apertado 
a seu plano originrio e ter zarpado para o Charles Town. Ali teria feito desaparecer qualquer pista que pudesse conduzir at ele, mas agora estava comeando a sentir-se 
apanhado.
         Se seu menino estivesse ali certamente se haveria sentido defraudado com ele.
         Essa idia lhe fez voltar a controlar-se pouco a pouco. Seu menino lhe observava como se fora invencvel. Mas tambm ele estava comeando a converter-se 
agora em um problema. Ao menino lhe estava comeando a vir grande aquela camisa, e alm j sabia muito.
         Respirou lenta e profundamente. O que tinha que fazer era examinar um a um seus problemas, e a soluo de cada um deles viria sozinha: lady Rosamund; Peter 
Dryden; Whorsley; Digby; o menino.
         Isso estava melhor. s oito em ponto na penso do Digby. E alm no haveria testemunhas. A tinha um problema que podia solucionar facilmente.
         
         
         -Acreditas realmente que lhe falou um amigo da existncia do Dunsmoor? -perguntou Whorsley enquanto caminhavam pelo Bond Street em direo ao Picadilly.
         -Do que outra maneira poderia hav-lo sabido? esteve fora da Inglaterra durante muito tempo.
         - estranho, muito estranho -acrescentou Whorsley com cautela.
         -O que? -perguntou Digby ao limite de sua pacincia.
         -Dunsmoor. que Withers conhea a existncia dessa casa que ningum conhece. Estou-me perguntando se acaso esse Withers  algo mais que um simples bisbilhoteiro.
         -Agora  muito tarde para pensar nisso -replicou Digby com aborrecimento-. S ficam dois dias para deter o Maitland. E no se esquea de que, se transladarem 
a algum colocado deixado da mo de Deus, voc vir comigo. -Digby deixou escapar um comprido suspiro e acrescentou-: Olhe, coloquemos primeiro ao Maitland entre 
grades e logo j investigaremos de perto ao senhor Withers.
         
         
         Aquele mesmo dia, vrias horas mais tarde, enquanto a escurido cobria com seu manto a cidade, Richard e Caspar se sentaram a jogar uma partida de xadrez 
esperando a que Harper se reunisse com eles. Estavam no salo da sute que tinham alugado no Black Friar, justo em frente do Covent Garden. A primeira noite que 
passaram na cidade se alojaram em outro hotel, mas ao Richard no gostou da distribuio das habitaes. No havia sada traseira, e se acontecia o pior, disse, 
apanhariam-lhes como ao gado em um curral.
         Caspar estava concentrado no jogo, mas Richard tinha a mente em outra parte e precisava falar.
         -me conte outra vez o que te disse o proprietrio do hotel quando lhe perguntou de noite em que assassinaram ao Lucy Rider -disse.
          -Se no te importar, estou tentando me concentrar na prxima jogada. Alm disso, j te contei tudo o que sei -respondeu Caspar arqueando as sobrancelhas.
         -Caspar, isto no  mais que um jogo. No posso entender que sempre o tenha que levar contigo.
         - um tabuleiro de viagem. Acompanhou-me durante toda a guerra na Espanha, e no vejo por que razo tinha que deix-lo em casa esta vez.
         Richard no podia lhe discutir nada a respeito. Os soldados eram freqentemente supersticiosos com esse tipo de coisas. Ele no era exatamente supersticioso, 
mas sempre levava dentro de uma bota a faca de caa que seu pai lhe tinha agradvel quando fez quinze anos. E tambm estava a pea de xadrez que tinha levado sempre 
consigo e que tinha agradvel ao Rosamund por seu aniversrio. Tambm Richard tinha passeado aquela pea de xadrez pela guerra da Espanha.
         Caspar esboou uma picasse sorriso e moveu a torre de rainha para apoiar a seu cavalo no ataque ao rei do Richard.
         -Toca-te mover -disse. Estava a trs movimentos de ganhar a partida.
         -No at que me diga o que quero saber.
         Caspar deixou escapar um suspiro, olhou ao Richard com o cenho franzido e cruzou os braos sobre o peito. Para que Richard no se deixasse ver no hotel 
onde tinham assassinado ao Lucy Rider, Caspar se tinha ocupado de interrogar ao dono, coisa que tinha feito essa mesma manh. Isso no podia levantar suspeitas, 
porque o hotel se encheu de olheiros e curiosos desde dia em que comeou o julgamento, e ao dono parecia lhe gostar do fato de haver-se convertido em uma celebridade.
         -Pobre Lucy -disse o dono do hotel, e a seguir lhe iluminou a cara-. Mas no posso me queixar do negcio. E bem, o que  o que deseja saber, senhor? -E 
se meteu no bolso o soberano que Caspar tinha deixado sobre a mesa.
         A seqncia de acontecimentos foi exatamente como a tinha relatado o dono do estabelecimento diante o tribunal, mas Caspar tinha uma pergunta que ningum 
lhe tinha formulado.
         -Quem se apresentou primeiro na cena do crime quando soou o disparo?
         -O senhor Frank Smith e seu filho -disse Caspar ao Richard por ensima vez-. Ou ao menos foram dos primeiros.
         O dono fez sair ao menino pensando que a seus poucos anos poderia traumatizar-se se via to horrendo crime.
         -Havia sangre na roupa do menino?
         -Em opinio do dono teria sido difcil no manchar-se de sangre naquela habitao, e o menino se dirigiu direto para a cama. Sim, a roupa do menino estava 
manchada de sangue, mas o dono no pensou que isso fora importante. Disse-lhe ao menino que sasse da habitao, e o pai o conduziu at a porta.
         -Eram inquilinos do hotel?
         -J sabe que sim. J lhe hei isso dito. O pai era um inquilino assduo do estabelecimento. Aquela era a primeira vez que lhe acompanhava seu filho. Mas 
desde dia do assassinato no tm voltado a pr um p no hotel, e no deixaram nenhuma direo. Nunca daremos com eles.
         -Provavelmente no, mas me tivesse gostado de saber tudo isto antes. No te parece que agora tudo tem sentido? Como conseguiram desaparecer da habitao 
sem ser vistos o menino e o homem que estavam comigo? por que ningum os viu sair do hotel? Porque no saram; no abandonaram o hotel. Foram quase os primeiros 
em chegar  cena do crime. Logo, quando o dono lhes ordenou que sassem da habitao, simplesmente voltaram para sua habitao.
         -Hummm,  possvel, supondo. Mas no se estavam expondo muito? E se no tivesse perdido o conhecimento? -disse Caspar.
         -A est a questo. -Richard fez uma careta-. Se trata sozinho de uma teoria neste estdio do jogo. Mas posso imaginar a esses dois correndo riscos.
         -E acreditas que o mesmo aconteceu depois, no ataque  senhorita Dryden, que a pessoa que disparou logo simplesmente voltou de novo para estufa?
         -Reservo-me a opinio a respeito at que tenha falado amanh com a senhorita Dryden.
         Jogou uma olhada ao tabuleiro de jogo, tomou distradamente o bispo de rainha e o moveu seis casinhas para a rainha contrria.
         -O que me diz de...
         Caspar interrompeu suas palavras:
         -No posso acreditar que isto me haja passado como alto. Aqui vai haver um aougue. Onde aprendeu a jogar xadrez?
         Richard sorriu. No era freqente que se sentisse superior a seu elegante cunhado.
         -Creio que  cheque mate em duas jogadas. -Substituiu a torre do Caspar por seu prprio bispo e a colocou entre os bispos e os pees que j tinha capturado-. 
Na Espanha. Meu professor foi nosso descifrador de mensagens, j sabe, o criptgrafo. Ningum era capaz de ganhar. O xadrez corrente era um jogo muito lento para 
ele, assim modificava as casinhas do tabuleiro para convert-lo em um jogo mais rpido. Desse modo o jogo valia mais a pena. J v...
         Richard se calou no ato quando ouviu que golpeavam  porta.
         -Deve ser Harper -disse Caspar.
         Richard abriu a porta com a pistola na mo. Harper entrou na habitao, mas era um Harper difcil de reconhecer. vestiu-se com uma librea carmesim e tinha 
completado sua uniforme com uma peruca branca e luvas bancos. Por sua parte, Caspar e Richard foram vestidos como homens de negcios, bem arrumados, mas no muito 
na moda.
         -Havia alguma mensagem? -perguntou Richard.
         -Um.
         Harper lhe aproximou a nota que tinha recolhido no clube do Caspar, no St. James. Era seu mtodo para estar  corrente do que estava acontecendo no Twickenham 
House e saber se tinha acontecido algo importante.
         Richard rompeu o selo e ficou a l-la imediatamente.
         -A ltima vez que algum abriu meu correio e o leu, eu era ainda um estudante do Eton -disse Caspar lacnico.
         -O que? -Richard estava absorto na nota.
         -Minha carta. Creio que no sobre est escrito meu nome.
         -Uma simples formalidade -replicou Richard-.  do Justin. veio  cidade e est agasalhado no Clarendon. -Olhou ao Caspar e acrescentou-: E Rosamund est 
com ele.
         Caspar lhe tirou a carta das mos e a leu.
         -veio  cidade para preparar o traslado a sua nova casa.
         -Que casa? -perguntou Richard franzindo o cenho.
         -No sabia? Tinha alugado uma casa no Bloomsbury. Mas isso foi converter-se em uma mulher casada. Uma casa muito bonita, por certo.
         -Sim, recordo-o. -Richard assentiu lentamente com a cabea-. O mordomo chefe me comentou isso, mas o tinha esquecido.
         -No lhe far mal dedicar-se a decorar a casa. Isso a manter entretida, e Justin estar ali para cuidar dela.
         -Supondo que tem razo. -Richard fez um esforo por acalmar-se-. De todas formas, estaria mais tranqilo se se tivesse ficado no Twickenham. No quisesse 
que ela...
         -Que ela... o que?
         -entremeta-se, fique em perigo, no sei... -Richard forou um sorriso-. Creio que deveria fazer uma visita a meu recalcitrante algema para tratar de descobrir 
o que  o que realmente se prope.
         Caspar riu, mas Richard distava muito de estar tranqilo. No estavam jogando um jogo de meninos. dentro de uma hora, quando se fizesse de noite, ia pagar 
a dvida pendente que tinha com o mais velha Digby. As coisas comeavam a ficar em marcha, e queria que Rosamund se mantivera afastada do caminho quando comeasse 
a refrega.
         Quando Harper deixou escapar um grunhido, seus companheiros ficaram rapidamente em p.
         -O que acontece? -urgiu-lhe Caspar imediatamente.
         Harper levantou sua mo esquerda. Sua luva branca estava salpicada pelo vinho da Madeira que estava servindo nas taas. Ao Harper gostava do Madeira pelo 
menos tanto como gostava da cerveja.
         -Isso  tudo? -perguntou Richard comeando a rir.
         -No tenho outro par de luvas de reposto -replicou Harper com cara de pena-. OH, j te pode rir, mas o senhor Temperar e eu capturamos a um assassino porque 
desconhecia quo importantes so umas luvas brancas limpas para um criado. Terei que lav-los em seguida ou todo mundo se dar conta de que sou um impostor.
         Harper ainda estava lavando suas luvas quando Richard e Caspar saram para dirigir-se  penso em que vivia Digby. Richard estava agradecido pela ajuda 
que lhe emprestava Caspar, e no tinha nenhum reparo em demonstrar-lhe mas no queria fazer que as autoridades mesclassem tambm a sua famlia em seus assuntos. 
Podiam enviar ao Caspar s colnias por ajudar a um prfugo, ou lhe impor uma pena ainda mais velha.
         depois de que acabasse de falar, Caspar colocou uma mo no ombro do Richard e lhe deu um aperto.
         -Quem se atreveria a afirmar que no  encantador? -disse-lhe, e se ps-se a rir quando Richard lhe devolveu um olhar furioso.
         Quando o carro que tinham alugado entrou na rua onde estava a penso do Digby, viram que grande quantidade de gente se formava redemoinhos na porta.
         -Agentes do Bow Street -disse Richard-. reconheci a um deles, o oficial Rankin. -E dirigindo-se ao chofer-: Siga adiante e detenha-se na esquina.
         Caspar, que no tinha nada que perder se era reconhecido pelos agentes, voltou andando at a entrada do edifcio para tratar de averiguar o que era o que 
havia passado. Aos poucos minutos retornou e se meteu no carro sem dizer uma palavra.
         -trata-se do Digby e Whorsley -disse ao cabo de um momento com voz afetada-. foram assassinados. E h algo mais. encontrou-se no jardim o corpo de um moo 
jovem, um adolescente. Tinham-lhe talhado o pescoo. No sabem de quem se trata.
         Um raio de pura energia transpassou o crebro do Richard, com perguntas e respostas o que se perseguiam umas a outras em rpida sucesso.
         -O que fazemos agora? -perguntou Caspar.
         -vamos recolher ao Rosamund.
         
         
         -No sei quantas vezes tenho que repeti-lo. No penso voltar para o Twickenham, e no h mais que falar -disse Rosamund.
         Os cinco estavam ao redor de uma pequena mesa, agora que Rosamund e Justin se uniram ao grupo, tomando um jantar tardio nas habitaes do Richard no Black 
Friar. Rosamund e Richard s tinham olhos para eles mesmos. Outros estavam concentrados em seus respectivos pratos.
         -dio as couves de bruxelas -disse Justin por dizer algo e romper o incmodo silncio que se havia peneirada sobre eles.
         -Prova a salada, est muito boa -sugeriu seu irmo.
         -Salada com guisado de vitela? Esses dois pratos no vo bem juntos -acrescentou Justin pondo m cara.
         -Ento toma uma fatia de po -concluiu Harper com brutalidade.
         Justin aceitou a fatia de po, meteu-a no guisado e ficou a devorar seu prato alegremente.
         Harper ficou pasmado. Isso era precisamente o que estava acostumado a fazer ele com o po, mas em to deliciosa companhia tinha tentado manter os maneiras. 
Sua cara se iluminou com um enorme sorriso, tomou uma fatia de po e seguiu o exemplo do Justin.
         -Ontem  noite assassinaram ao Digby e ao Whorsley -disse Richard-. Creio que a pessoa que acabou com eles  a mesma que me busca . E o menino que encontraram 
degolado, bom, creio que deve ser o cmplice do assassino. Pode que brigassem, ou pode que o menino j no o fora necessrio. Mas no te d conta do tipo de pessoa 
com a que nos estamos enfrentando?
         -Dou-me conta -disse Rosamund em voz baixa-. Mas eu no tenho nada que ver com nenhum deles. No supem nenhum perigo para mim.
         Ela mesma se surpreendeu de quo tranqilas soaram suas palavras, tendo em conta que seus nervos estavam a flor de pele. levou-se um susto de morte quando 
Richard e Caspar entraram em sua habitao no Clarendon, como se fossem sigilosas panteras em busca de uma prisioneira. Em um primeiro momento tinha pensado que 
se tratava de intrusos, e se teria colocado a gritar se Richard no lhe tivesse abafado a boca com a mo. O segundo susto o levou quando Richard lhe falou do que 
lhes havia passado ao Digby, ao Whorsley e ao menino. No tinha sentido medo por sua prpria vida, mas sim pelo Richard, um medo que lhe gelou o corao. Sabia que 
havia maldade no mundo, mas nunca antes a tinha tido to perto. E alm disso, tinha conhecido ao Digby e ao Whorsley.
         Se agora retornava ao Twickenham, no poderia ter nem um momento de tranqilidade pensando todo o tempo no que poderia lhe passar ao Richard. No lhe tinha 
pedido que a levasse com ele ao Black Friar, mas j que tinha chegado at ali, estava decidida a ficar.
         -No pode ficar aqui. Ponho em perigo a qualquer que possam relacionar comigo -disse Richard-. E no quero que fique em Londres. Posso me distrair, e vou 
estar distrado se tiver que me preocupar com o que te possa passar.
         -Acreditas que Twickenham  um lugar seguro? -Tomou seu garfo, olhou a comida que tinha no prato e deixou outra vez o garfo na mesa-. J esqueceste o que 
aconteceu com Prudence?
         -Tudo o que dizem  muito interessante -lhes interrompeu Caspar suspirando-. Mas pode que algum de ns tenha vontades de jantar tranqilo. Posso lhes sugerir 
que lhes levem sua briga a outra parte?
         Richard ficou em p, agarrou ao Rosamund pelo pulso e a levou quase a rastros  habitao do lado.
         Justin meneou a cabea e, quase em um sussurro, disse:
         -Se se comportarem desta maneira sendo recm casados, como sero dentro de um par de anos?
         -Estaro arrulhando-se como tortolitos em menos do que imagina -acrescentou Harper.
         -E como est to seguro, Harper, voc que  um velho solteiro? -disse Justin lhe olhando com cepticismo.
         -No sei o que  o que te deu essa ideia sobre mim -respondeu Harper indignado-. Em meus bons tempos tive trs vivas, todas elas sem a bno do clero, 
 obvio, e conheo os sintomas. Quer algum a ltima fatia de po?
         
         
         Richard arrastou ao Rosamund at o pequeno dormitrio com uma cama, uma cadeira, um armrio e pouco mais. As cortinas estavam corridas, e a nica luz era 
a das velas que havia sobre a chamin, porque o fogo no estava aceso.
         Fechou a porta de repente e se apoiou contra ela agarrando ao Rosamund pelos ombros. Respirava profundamente e a luz cintilante das velas desenhava sombras 
em seu rosto.
         -Rosamund -disse ele com um tom de voz a meio caminho entre a splica e a recriminao.
         Lhe apartou as mos dos ombros e as colocou ao redor de suas bochechas. Seus olhos se encheram de lgrimas.
         -Lamento a estpida briga do outro dia -disse ela-. Estava equivocada; voc tinha razo. Teria que hav-lo entendido. O que acontece  que se te ocorresse 
algo mau eu no saberia como seguir vivendo. Mas no tinha a inteno de que nos separssemos zangados. A vida  muito curta para isso.
         Todos os argumentos que ele tinha preparados para persuadir a de suas razes se esfumaram em sua mente. Algo selvagem se escondia atrs de sua respirao 
ofegante. Aproximou seus lbios aos dela e seus braos a rodearam atraindo-a fazia ele, como se queria fundir seus dois corpos em um sozinho.
         Pensou que no se poderia acabar com o assassinato, a morte e a maldade que h na alma humana, e se sentiu sujo, pois ele tambm formava parte de todo isso. 
Rosamund era como a gua pura dos mananciais que solo se encontram nos Highlands de Esccia. Quando se introduzia nela, sentia-se limpo de novo.
         Os mesmos sentimentos que o moviam a ele, comoviam-na tambm a ela. Quando estava entre seus braos, ela sentia que o mundo se afastava, e todo o ingrato 
da vida se afastava com ele. Ali se sentia reconfortada e disposta a enfrentar-se a algo.
         Mas ainda no estavam o suficientemente perto um do outro. Sem desfazer seu abrao, percorreram juntos os poucos passos que os separavam da cama e se tombaram 
nela.
         O se colocou sobre o Rosamund, com os olhos abertos para olh-la. Era formosa, pensou, com seu negro cabelo esparramado sobre o travesseiro e seus delicados 
ossos recortando-se como branco mrmore a tnue luz da habitao. Colocou suas mos entre os cabelos dela e os deixou correr entre seus dedos. Era formosa, valente 
e amvel. Sabia que no se merecia uma mulher como aquela, mas no podia deix-la, do mesmo modo que no podia deixar de respirar.
         Quando ela deslizou suas mos pelos fortes msculos das costas do Richard, o desejo comeou a esticar seu corpo. Ela se arqueou quando a boca dele percorreu 
sua garganta. Sentiu seu perfume, uma fragrncia de flores que solo pertencia ao Rosamund, e respirar comeou a fazer-se o mais difcil. Percorreu com beijos suas 
mos e seus lbios, com uma suavidade de veludo, e logo sorveu de sua boca seus leves suspiros de excitao. No se deu conta de que lhe tinha desabotoado a camisa 
at que sentiu as mos do Rosamund deslizando-se por seu peito.
         desfez-se daquele abrao como um homem que se afoga procurando ar. Tinha-a levado at a habitao para falar. Tinham que falar. Mas Rosamund ainda no tinha 
acabado com ele. Seus dedos comearam a desabotoar o fechamento das calas do Richard. Ela estava arregaando-a saia e levantando as pernas para poder rode-lo com 
elas.
         -Isto no me vai fazer trocar de opinio -disse ele com brutalidade.
         Ela o olhou com uma careta de aflio na cara. Quando ao fim pde falar, solo conseguiu dizer:
         -Imagina que vou utilizar isto para... para te controlar?
         Ela levantou os ombros tentando desfazer do abrao do Richard, mas ele no se moveu.
         -Sinto muito. Sou um toco, e todo mundo sabe -disse ele, e a beijou docemente-. Deveria te haver casado com outro, algum capaz de entender s mulheres. 
Eu no tenho soluo.
         As mesmas mos que fazia um momento tentavam separar-se dele agora o agarraram pelos ombros.
         -No diga isso. No  um toco sem remisso -sussurrou ela-.  uma pessoa decente e valente, e o homem mais honrado que conheo.
         -E tambm estou ao lado da loucura, por favor, Rosamund, me deixe a mim.
         Richard lhe apartou a saia, tirou-lhe a roupa interior e lhe levantou os joelhos. Seus olhos se cravaram nos dela, colocou o sexo entre suas coxas e lentamente 
se introduziu nela. Sussurrando seu nome, ela se agitava contra ele em um movimento involuntrio.
         -Ah, Rosamund! -gemeu ele ofegando com fora.
         Manteve-a apertada com paixo contra seu corpo, com os dentes apertados pelo esforo. No queria que seu prazer tivesse fim. Queria faz-la chegar ao xtase 
com ele, desejava sentir esses diminutos tremores que estremeciam todo seu corpo justo antes de que alcanasse o clmax.
         Seus movimentos se fizeram mais suaves, ligeiros, incitantes, prolongando o prazer at que o desejo se fez quase insuportvel. Quando ela deixou escapar 
esse suave lamento intenso que ele j comeava a reconhecer, deixou ir. Agora j sem travas, comeou a mover-se mais rpido dentro dela, empurrando, inundando-se, 
saltando sobre ela cada vez mais rpido e com mais fora. Podia ouvir seus gemidos de prazer, sentir seus msculos esticando-se para compassar seu frentico ritmo. 
E ao final, ela deixou escapar um grito de satisfao quando ele se esvaziou dentro de seu corpo.
         
         
         -De todos os manejos e enganosos truques que conheo, este  o mais obtido. "Sou um toco sem remisso" -brincou ela ao voltar em si-. O dizia para me distrair!
         A cama era to estreita que ele estava ainda mdio convexo sobre ela. Em sua cara se desenhava uma careta de esgotamento.
         -Valia a pena s por te ouvir resmungar -disse ele levantando a cabea-. No vou deixar que te desdiga agora de nenhuma de suas palavras. -E depois de um 
momento de dvida, acrescentou-: De verdade pensava o que dizia?
         A insegurana do Richard Maitland em si mesmo era realmente sedutora.
         -Todas e cada uma das palavras -afirmou ela, e lentamente sorriu.
         Um repentino alvoroo de risadas masculinas que chegava do salo contigo lhes fez olhar para a porta.
         -Deveria voltar com outros -suspirou Rosamund.
         -No. -Richard inclinou a cabea e a beijou com doura-. No sei o que pode acontecer amanh. E no quero falar disso agora. No quero pensar em nada. Quero 
imaginar, embora solo seja por um momento, que no somos mais que duas pessoas correntes. Quero ter um momento s para ns.
         -E eu tambm -acrescentou ela com veemncia.
         Richard se levantou da cama e se colocou bem a roupa.
         -Pode acender o fogo?
         -Se tiver uma caixa de iscas.
         -Esto sobre a chamin.
         -Aonde vai?
         -A procurar vinho e um par de taas. depois de tudo, hoje  nossa postergada noite de npcias.
         Quando Richard entrou no salo, a conversao se interrompeu.
         -Rosamund e eu ainda temos que limar algumas diferencia -disse ele.
         No houve resposta.
         Trs pares de olhos o seguiram enquanto se dirigia ao aparador, tirava dali uma garrafa da Madeira e um par de taas, e voltava a sair por onde tinha entrado.
         Harper foi o primeiro em romper o silncio.
         -Como tortolitos -particularizou-. J lhes havia isso dito.
         
        Captulo 23
         Foi Justin o que retornou ao Twickenham, embora estava pouco disposto a partir, para no perder-se nada do que pudesse acontecer, e prometeu que voltaria 
para ltima hora da tarde. Tinha que informar ao duque dos assassinatos ocorridos na penso do Digby e do resto de novidades, entre elas a incluso do Rosamund no 
grupo. Richard se tinha dado por vencido tratando de convenc-la para que voltasse para casa com o Justin, mas foi inflexvel quanto a mant-la afastada da investigao. 
Deixou-a ficar a contra gosto, mas  primeiro sinal de complicaes deveria fazer a bagagem e partir.
         Tampouco poderia ir e vir a seu desejo. Harper a acompanharia quando queria sair  rua. E como Harper estava aos cuidados de sua segurana, Richard estava 
seguro de que no sairia sozinha.
         -Faremo-lo desta maneira, Rosamund, porque Harper  um soldado experiente e  capaz de cheirar os problemas a quilmetros de distncia -disse Richard.
         -No vou causar nenhum problema -protestou Rosamund-. J te hei dito que tinha ficado hoje com o Callie. Passaremos a manh comprando cortinas e tapearias 
para a casa. Parece-me que isso j ficou claro, e estou segura de que no correrei nenhum perigo.
         Richard no estava de acordo com ela, mas no podia discutir seus argumentos porque seus temores s se apoiavam em dvidas vagas.
         -Olhe, se isso for fazer que se sinta melhor, enviarei-lhe uma nota e cancelarei a entrevista -disse ela.
         Ele deixou escapar um comprido suspiro. No podia mant-la encerrada sempre, e sair s compras com o Callie no parecia ser muito perigoso.
         -Deve estar alerta. No diga nada a ningum que possa dar a entender que sabe onde estou. E recorda que tem que fazer tudo o que te diga Harper -a acautelou 
Richard.
         Pouco depois desta conversao, Richard e Caspar saram em direo  igreja do St. Mark, na Chelsea, onde esperavam poder interrogar ao Prudence Dryden 
e a seu irmo, o proco. Harper se sentou na mesa, com uma coleo de pistolas que se dedicou a limpar e pr a ponto. Ainda era muito logo para ir  entrevista com 
o Callie, assim Rosamund ocupou o tempo livre arrumando as habitaes. deteve-se diante o jogo de xadrez do Caspar e distradamente comeou a mover as peas.
         "Se estes pees pudessem falar -pensou-, quem sabe o que nos poderiam contar." arrastavam-se de um lado a outro do tabuleiro sem ter idia do que acontecia 
o resto da partida. Ela e os pees tinham muitas coisas em comum.
         Quem estava ganhando a partida, Richard ou seu inimigo?
         Essa idia a levou a tomar uma determinao. Ela no era um peo. Era a rainha. E uma rainha no se retira quando o rei est em perigo. Tem que encontrar 
uma fresta no exrcito inimigo e atacar por ali.
         Era possvel que no entendesse a estratgia do inimigo, mas conhecia sua maneira de atuar e sabia de que peas dispunha, e a era onde tinha que comear 
a atuar.
         Sua mente foi para trs e para diante, tentando pr juntos muitos acontecimentos que no pareciam estar relacionados. Tomou o rei negro e tratou de visualizar 
os movimentos do Richard a noite em que assassinaram ao Lucy. Seguiu adiante e chegou ao Newgate. Ali era onde tinha entrado ela no jogo, e estava realmente contente 
de que assim tivesse sido. J no podia imaginar o mundo sem o Richard.
         deteve-se a um momento, olhando fixamente o tabuleiro.
         Havia algo no que aconteceu no Newgate que a incomodava. O que era? Completamente concentrada na cena, comeou a colocar as peas no tabuleiro para representar 
a todos os personagens que estavam no ptio da priso aquele dia. Foi movendo pelo tabuleiro tratando de representar a seqncia dos acontecimentos.
         "escapou-se um prisioneiro! Fechem a priso!", tinha gritado o guardio.
         Viu os carcereiros tratando de separar aos visitantes dos detentos para poder fazer retornar a estes a suas celas. Callie estava convencida de que ningum 
poderia escapar jamais do Newgate. Que o dissesse ao Richard agora! Ele se aproximou diretamente para ela. Ela tropeou com a cesta da comida; ouviu-se um disparo 
e Richard se equilibrou sobre ela.
         Voltou a repassar a cena e ento encontrou, escondido no fundo de seu pensamento, o que at ento lhe havia passado como alto. antes de que se ouvisse o 
disparo, todo mundo estava tranqilo. E os carcereiros estavam a suas costas, enquanto separavam aos visitantes dos detentos. Assim no foi um carcereiro assustado 
o que disparou.
         -Harper -disse ela.
         -O que acontece? -disse ele levantando a vista da mesa.
         -Quem disparou? Quero dizer quando estvamos no ptio do crcere e Richard e voc tentavam escapar do Newgate.
         -Supondo que um dos carcereiros se assustou e abriu fogo.
         -Mas no tinha estendido o pnico ainda, no at depois de que se ouvisse o disparo. E os carcereiros estavam de costas a ns.
         -Creio que tem razo, mas...
         -Mas o que?
         Aquilo no coincidia com a maneira em que ela tinha colocado as peas no tabuleiro. Ento, quem disparou? Richard a tinha acusado de fazer um sinal a um 
cmplice, mas,  obvio, ela no tinha ali nenhum cmplice. Ento recordou algo mais. Charles Tracey tinha ficado separado do resto do grupo. Estava em uma esquina 
do ptio, com as mos levantadas, junto com outros prisioneiros.
         -Bom, vais dizer me quem disparo ou no? -perguntou Harper perdendo a pacincia.
         -No sei, mas vou descobrir o -respondeu ela.
         -Pois me pergunto como o vais conseguir -disse ele em tom de desconfiana.
         -Vamos ao Newgate, e perguntaremos ao senhor Proudie, o guardio. Pode que ele saiba algo -concluiu ela.
         
         
         Harper pensou que deveria fazer que lhe olhassem a cabea. Tinha decidido no voltar a pr os ps nunca mais no Newgate, e ali estava agora, como um boneco 
descerebrado, esperando no corredor do barraco dos guardas enquanto o senhor Proudie conversava com lady Rosamund na habitao contiga.
         No era realmente um barraco, a no ser um conjunto de habitaes situadas ao lado da entrada da priso, mas de ali se controlavam todas as entradas e sadas. 
As portas estavam fechadas e vigiadas por dois guardies. Sabia que no tinha nada que temer do Proudie ou dos carcereiros, embora o reconhecessem. depois de tudo 
tinha sido absolvido e recompensado. Mas o solo feito de estar de novo no Newgate lhe produzia calafrios.
         Tinha tentado fazer entrar em razo ao Rosamund, mas no lhe tinha escutado. Era impossvel faz-la desistir do que lhe colocava entre sobrancelha e sobrancelha. 
Tinham que descobrir quem tinha disparado aquele dia, e a importncia que isso pudesse ter para a investigao era algo que a ele lhe escapava.
         Teria que haver-se negado em redondo, mas possua uma debilidade especial. Qualquer mulher que o propor podia lhe dirigir com um s dedo. Por isso sempre 
se mantinha afastado das mulheres. Todos seus amigos pensavam que simplesmente odiava s mulheres, quando o que lhe acontecia era exatamente o contrrio. Entre suas 
mos se convertia em um boneco. As mulheres s lhe traziam problemas!
         Veio-lhe  memria a esposa do Hugh Temperar. "Abre a porta, Harper", tinha-lhe ordenado ela uma vez, e contra todo sentido comum, ele a tinha aberto e 
os dois juntos tinham estado a ponto de ser assassinados. Outra parecida era a esposa do Jason Radley. Tinha-o convencido com palavras doces para que a levasse ao 
Hampstead, e j v o que se encontraram quando chegaram ali! E agora lady Rosamund.
         J se imaginava o que lhe diria seu chefe quando o descobrisse.
         abriu-se a porta e lady Rosamund saiu da habitao seguida pelo guardio.
         -voc esteja seguro, senhor Proudie, de que meu pai ter notcias de tudo. Sua conduta foi irreprochvel, e eu mesma me encarregarei de dizer-lhe -Qu 
es lo que te preocupa? -pregunt Harper mientras cruzaban la calle para dirigirse al coche de alquiler que los esperaba al otro lado.
         -Se Sua Excelncia pudesse falar em meu favor diante o governador...
         -Conte com isso -E a seguir, dirigindo-se ao Harper- Vamos, hummm... James.
         Quando estiveram fora, Harper soltou um comprido suspiro de alvio. Nunca tinha pensado muito no ar que respirava at o dia em que passou uma temporada 
como carcereiro no Newgate. O ar de Londres no era o mais afresco que existia, mas comparado com o Newgate era to doce como o calda de acar.
         -O que  o que se preocupa? -perguntou Harper enquanto cruzavam a rua para dirigir-se ao carro de aluguel que os esperava ao outro lado.
         -O senhor Proudie -disse ela-. Se est pondo em questo o trabalho do pobre homem, e ele acredita que  possvel que o retirem de seu colocado porque Richard 
e voc lhes escaparam da priso. prometi lhe falar com meu pai em seu nome.
         -E o far?
         -Hei dito que o faria, no  assim?
         Harper sorriu. Isso era o que mais gostava de lady Rosamund, nunca traa uma promessa.
         Rosamund esperou a que estivessem sentados no carro, de caminho para a casa do senhor Tracey, no Manchester Square, para lhe contar o que tinha descoberto.
         -Proudie acredita que dispararam Richard ou voc.  obvio, no pude lhe dizer que estava equivocado, assim que lhe perguntei por que estava to seguro. 
-Falava com entusiasmo, pronunciando as palavras com rapidez, como se tivesse pressa por contar-lhe tudo-. Parece ser que quando se produz um tiroteio na priso 
sempre se faz depois um relatrio por escrito. No se tinha disparado nenhuma das armas dos carcereiros; os prisioneiros no tm armas, e os carcereiros os mantinham 
separados e afastados dos visitantes, assim esto seguros de que nenhum deles disparou. D-te conta do que isso significa?
         -Bom, parece-me que vejo para onde quer ir. Pensa em que solo ficam cinco pessoas que puderam ter disparado, e como sabemos que no foi o coronel Maitland 
nem nenhum de ns dois, solo ficam seu amigo o senhor Tracey e sua cunhada.
         -Charles Tracey -disse Rosamund abrindo desmesuradamente os olhos.
         -Mas no pode chegar to rapidamente a essa concluso. As coisas no sempre so como parecem.
         -Estou convencida de que foi ele.
         -E por que no a senhora Tracey? -adicionou ele teimosamente. sentia-se incmodo com os rpidos saltos lgicos do Rosamund, e temia aonde lhes podia levar 
todo isso.
         -Callie no poderia ter disparado ao Richard -disse ela muito sria-. Est realmente convencida de que  inocente. Alm disso, eu estava entre o Callie 
e Richard, de maneira que no lhe poderia ter alcanado embora tivesse querido. Antes me teria ferido . Mas Charles Tracey sim que pde faz-lo.
         -E onde est a pistola do Tracey?
         -No sei. Mas assim que soou o disparo estendeu o pnico. E na confuso, poderia haver a guardado no bolso, no  assim?
         -E para que incomodar-se? por que no lhe tirar partido para disparo? Lhe teriam aclamado como a um heri se tivesse disparado ao Richard e impedido assim 
escapasse. No era necessrio esconder a pistola.
         -J tinha pensado nisso -Em seu mpeto por tratar de lhe convencer, ps suas mos sobre o brao do Harper-. Ao melhor no queria que ningum lhe expor perguntas 
comprometidas. Provavelmente esteja relacionado com o Richard de algum jeito. No, me escute, Harper, h algo no Charles Tracey que nunca me gostou de muito. O ano 
passado, seu irmo James morreu em um acidente muito estranho; assim  como o definiu o doutor, estranho. James Tracey era um bebedor moderado, mas morreu sozinho, 
afogado em seu prprio vmito, depois de beber uma garrafa de brandy. A tia Fran pensou que sua morte foi algo mais que estranha, disse que lhe parecia suspeita, 
mas estava muito alterada, assim que ningum tomou realmente a srio. Imagina a quem foi parar a mais velha parte do dinheiro?
         -Ao Charles Tracey -resmungou Harper como se lhe estivessem arrancando o nome  fora.
         -Sim. Callie recebeu a parte que correspondia  viva, e isso foi tudo -acrescentou Rosamund-. Mas ainda h algo mais. Charles est apaixonado pelo Callie. 
OH, j sei que no tem nenhum futuro, nunca poder casar-se com a viva de seu irmo. Mas e se se tivesse liberado de seu irmo para poder t-la com ele todo o tempo? 
Embora no quero dizer que tenha funcionado, porque creio que Callie o despreza.
         -E que demnios tem que ver tudo isto com o que aconteceu com Richard? -perguntou Harper lenta e pacientemente.
         -Bom, ainda no o averigei. Espero que Callie possa me dar alguma pista, ou a tia Fran.
         -Mas no pode chegar ali e comear a insinuar que Tracey  um assassino -disse Harper horrorizado.
         -Sei muito bem. Serei muito discreta. No estou interessada absolutamente na morte do James Tracey, a menos que tenha algo que ver com o Richard. Pode que 
antes de morrer, James tivesse falado com o Richard de algo importante. Pode que Charles tivesse medo de que Richard comeasse a investigar. No sei realmente. Mas 
h algo que no me quadra em todo esse assunto. No sei, Harper,  uma intuio. Se Charles Tracey tentou matar ao Richard no Newgate, tem que existir uma razo.
         Harper pensou que ia sendo o momento de pr as coisas em seu stio. Embora, em certo sentido, a idia do Rosamund no era de tudo descabelada. No lhe tinha 
dado muitas voltas ao feito de que algum tinha disparado no Newgate. E se no foi um carcereiro assustado, quem mais poderia ter sido, se no Charles Tracey? por 
que neg-lo?
         -Tomar cuidado, verdade? -disse ele.
         -Dou-te minha palavra.
         - primeiro sinal de complicaes...
         -Chamarei gritos. Mas no vai passar nada, Harper. Manterei os lbios fechados -Lhe apertou o brao de maneira suplicante-. Se isto no o fizer eu, no 
pode faz-lo ningum. Richard no pode deixar-se ver em casa do Callie. E o mesmo no Newgate. Seguro que ao Richard no parecer bem, mas agora tem que confiar em 
seus amigos.
         depois de ouvir isto, Harper ficou completamente convencido. As mulheres no sempre o dirigiam como queriam, algumas vezes tambm falavam com muito sentido 
comum.
         
         
         O estudo do Peter Dryden era to confortvel e desmantelado como seu dono, com livros empilhados pelo cho e todos os rinces cheios de papis. Mas a ele 
parecia no lhe importar essa desordem. O mesmo acontecia com sua roupa. Levava o alzacuellos inclinado e os botes do colete mau grampeados. Embora todo isso concordava 
perfeitamente com aquele homem, pensou Richard. Era um tipo inocente, no melhor sentido da palavra; um beato inocente que tinha visto o pior do ser humano sem jamais 
ter chegado a alterar-se por isso.
         -E ento foi quando se interrompeu minha correspondncia com o primo do Frank Stapleton -disse Dryden-. Depois eu fui ao Liverpool como capelo de uma das 
prises, e aconteceu o que est acostumado a acontecer: ele se mudou, eu me mudei e perdemos o contato.
         Estavam esperando a que Prudence Dryden retornasse de dar um passeio com a esposa do Peter e seus trs filhos. Richard no pde evitar pensar em quo afortunado 
era esse clrigo calvo e com culos. No tinha muito dinheiro, mas era rico em todas as coisas que realmente importavam.
         No se imaginava como poderia ser recebido quando se apresentou em casa do Dryden sem anunciar-se. Dryden poderia ter tentado avisar aos juizes ou procurar 
ajuda. Mas se tinha preocupado sem necessidade. Prudence Dryden no exagerava. Seu irmo estava completamente de seu lado. O gelo se rompeu no momento em que ambos 
comentaram que o tempo lhes havia mudado tanto que dificilmente se teriam reconhecido. Os dois tinham ganho peso, e o cabelo loiro do Richard se obscureceu at fazer-se 
castanho, enquanto que o proco tinha perdido todo o cabelo.
         Richard no viu que houvesse necessidade de lhe mentir, assim que explicou ao Dryden claramente que pensava que devia existir alguma conexo entre os incidentes 
ocorridos anos atrs em Cambridge e o assassinato do Lucy Rider, e Dryden esteve a sua altura respondendo com sinceridade todo tipo de perguntas.
         -Gosta de outro xerez? -perguntou Dryden interrompendo os pensamentos do Richard.
         Richard disse que no, mas Caspar, que estava em p junto  janela que dava ao jardim, aproximou seu copo para que o preenchesse.
         Quando Dryden voltou a sentar-se, Richard disse:
         -Alguma vez escreveu voc diretamente ao Frank Stapleton?
         -No. O no era meu amigo. George sim o era. Mas sempre estive interessado em saber como ia, e creio que ia bastante bem at que aquele trgico acidente 
acabou so sua vida.
         Enquanto os outros dois bebiam seu xerez, Richard ps em ordem em sua mente tudo o que lhe acabava de contar Dryden. Frank Stapleton se partiu da Inglaterra 
pouco depois do incidente em Cambridge, e tinha estado vivendo com um primo longnquo, George Withers, que estava realizando muito bons negcios no Canad. Frank 
tambm tinha feito dinheiro, mas sobre tudo por haver-se casado com a filha de um dos comerciantes de peles independentes mais ricos do norte do Canad. E ento 
ocorreu a tragdia. A senhora Stapleton e seu pai morreram em um acidente de navio, e Frank herdou uma grande soma de dinheiro.
         Mas essa no foi a nica tragdia na vida do Frank. Seu pai tinha morrido em um incndio poucos dias antes de que ele se embarcasse com direo ao Canad. 
Possivelmente algum deveria ter comeado a pensar que tantos "acidente" eram algo suspeitos. Possivelmente por essa razo Frank Stapleton tambm morreu convenientemente 
no incndio de sua casa.
         -Quem herdou as propriedades do Frank? -perguntou Richard.
         -Supondo que George -respondeu Dryden-. Nunca me disse nada a respeito. Mas sei que Frank no tinha mais parentes. Por essa razo George acreditou que tinha 
a obrigao de oferecer alojamento ao Frank. Mas tambm havia outras razes. Frank sempre tinha sido um moo problemtico, e sempre se estava metendo em problemas. 
George culpava disso ao pai do Frank, que tinha sido muito estrito com o moo, e pensou que o Canad poderia ajudar a trocar a sua primo.
         -E foi assim?
         O proco ficou pensativo durante um momento.
         -Bom, Frank prosperou. Disso no h dvida. George no me contava muito, mas eu sempre tive a impresso de que Frank era um problema para ele. E no posso 
dizer que isso me surpreendesse. George era o tipo de pessoa da que  fcil aproveitar-se. Sabe voc?, durante um tempo pensou em fazer-se proco. Assim foi como 
nos conhecemos. Meu pai era seu professor de grego. Mas sua famlia no tinha dinheiro para envi-lo  universidade, de modo que em lugar disso emigrou ao Canad.
         Richard assentiu com a cabea. Todas as peas comeavam a encaixar. George Withers era um homem muito crdulo e sua primo era to pouco digno de confiana 
como um escorpio. Possivelmente George comeou a suspeitar de sua primo, ou acaso comeou a lhe fazer perguntas incmodas. Fora qual fosse a razo, Frank decidiu 
tirar o de no meio e ocupar seu lugar. Dessa maneira poderia ter a fortuna do George e herdar sua prpria fortuna.
         -Quando teve notcias por ltima vez de seu amigo? -perguntou Richard.
         -Hummm. Ah, escreveu-me para me contar que Frank tinha morrido. Parecia estar realmente muito afetado. Contou-me que ficaria ali at depois do funeral, 
e logo tentaria comear de novo em alguma outra parte, provavelmente na Georgia. Dizia-me que o clima do Canad era muito duro para ele. Isso deveu ser faz uns dez 
anos. Aquela foi a ltima carta que recebi -continuou Dryden-. Mas parece ser que agora est na Inglaterra, em Londres, mais concretamente. foi uma estranha coincidncia. 
Prudence se encontrou com ele em casa da senhora Tracey faz trs ou quatro dias. Disse-lhe que estava na Inglaterra por assuntos de negcios e que logo retornaria 
ao Charles Town. O estranho do caso  que parecia no me conhecer. Supondo que no tem vontades de retomar nossas relaes. Pode que eu lhe escrevesse algo nos ltimos 
anos que o ofendeu. Temo-me que no sempre fui o suficientemente pormenorizado com o Frank. Mas no posso deixar as coisas assim. Tentarei emendar essa falta, inclusive 
embora ele me rechace.
         -Estava lady Rosamund naquela reunio?
         - obvio. Prudence no tinha nenhum motivo para ir sozinha a casa da senhora Tracey -Dryden sorriu secamente-. E creio que tambm estava ali um companheiro 
dele, aquele que no foi capaz de lhe apanhar, o mais velha Digby, assim creio que se chama.
         Para ouvir o nome do Digby, Caspar se voltou para ele da janela e Richard levantou a cabea. Ambos intercambiaram um intenso olhar e logo Richard se dirigiu 
ao Peter Dryden.
         -me escute com muita ateno -lhe disse-. Ontem  noite assassinaram ao mais velha Digby, junto com seu companheiro no caso e um moo desconhecido. Lucy 
Rider foi assassinada e algum disparou a sua irm. Creio que todos esses ataques esto relacionados com o George Withers.
         deu-se conta de que tinha sido muito brusco quando viu que Dryden ficava completamente plido. Moderando o tom de sua voz, continuou falando:
         -Lamento ter sido to direto, mas creio que voc mesmo pode estar em perigo. Se for preparado, ser melhor que se esquea de aproximar-se do George Withers. 
Deveria ir-se com sua famlia e esconder-se em alguma parte durante uns dias. No diga a ningum aonde vo, e no retorne aqui at que no tenha lido em quo peridicos 
George Withers morreu ou foi detido.
         Se antes Dryden se ficou surpreso, naquele momento estava completamente mudo. Piscou com energia enquanto tentava encontrar algo que dizer.
         -Como pode voc pensar que George assassinou a todas essas pessoas?  impossvel! Ele jamais poderia fazer tal coisa! Se o conhecesse, daria-se conta do 
absurdo dessa acusao.
         -No creio que George Withers tenha assassinado a ningum -disse Richard ficando em p-. Creio que seu amigo morreu faz dez anos naquele incndio, e que 
Frank Stapleton usurpou sua identidade e todos seus bens. E creio que os negcios que veio a fazer a        Inglaterra tm que ver comigo.
         -Isso possivelmente seja um tanto exagerado, no te parece, Richard? -disse Caspar em voz baixa-. Quero dizer que estou disposto a acreditar que esse George 
Withers  quem diz que , mas no h nada que o relacione contigo, exceto aquele incidente em Cambridge,  obvio, mas isso passou faz muito tempo.
         Richard no tinha pacincia para discutir naquele momento algo que para ele era patente e claro.
         -Reservarei-me a opinio a respeito at depois de ter falado com o George Withers.
         -E o que tem que sua ltima carta? -perguntou Peter Dryden ainda pouco convencido-. George ficou at o funeral. Frank no podia apresentar-se em seu prprio 
funeral. Qualquer poderia lhe haver reconhecido.
         -Mentiu, e a carta era falsa -disse Richard.
         -Ento, por que me mandou essa carta?
         -Para que voc no pudesse suspeitar. Se George tivesse desaparecido sem deixar rastros, voc teria feito averiguaes, no  assim? Ento as autoridades 
se teriam interessado pelo assunto, e Frank no desejava que isso acontecesse. 
         Dryden ainda no tinha terminado.
         -Mas... mas voltar para a Inglaterra como George Withers... E se algum lhe tivesse reconhecido?
         -Acaso nos reconhecemos ns dois hoje, ao nos encontrar aqui depois de dezessete anos? E imagino que Frank Stapleton ter tomado medidas oportunas para 
evitar que lhe reconhea. Mas h muitas maneiras de reconhecer a um homem. Uma histria compartilhada. As lembranas comuns. Uma larga relao. Quo ltimo Frank 
Stapleton deseja  encontrar-se com voc. E isso  o que lhe converte em um perigo para ele.
         -Que demnios est fazendo aqui Rosamund? -exclamou de repente Caspar.
         Richard se aproximou rapidamente at a janela e olhou fora. Acabavam de entrar no jardim duas mulheres jovens pela porta de atrs. Com elas foram trs meninos, 
e suas fortes risadas chegavam at as janelas abertas.
         -No  Rosamund,  algum com quem a pode confundir na distncia -disse Richard.
         Ao igual a nos frondosos jardins do Twickenham House.
         - a senhorita Dryden -disse Caspar.
         Ao cabo de um momento, Richard estava comeando a alinhavar os fios daquela meada. Tudo comeava a lhe parecer claro, e sabia que muito em breve teria entre 
suas mos a soluo de quem era a pessoa que lhe tinha estado causando tantos problemas. Mas conforme via aproximar-se para a casa ao Prudence Dryden, sentia que 
aumentavam nele os temores que lhe avisavam do perigo. Ao igual a lady Rosamund, a senhorita Dryden era alta e de cabelo escuro, e a noite que foi atacada levava 
um xale, igual a agora. A maioria das mulheres daquela noite tinham colocado algum tipo de rebuo, incluindo o Rosamund.
         Sua mente bulia de perguntas quando Dryden chamou a sua irm para que subisse ao estudo. Sabia que deveriam intercambi-los saudaes habituais, e se dava 
conta de que Peter estava tratando de lhe explicar a sua irm por que se encontravam ali, mas a impacincia do Richard interrompeu ao Peter a metade de uma frase.
         -Senhorita Dryden, quero que pense na noite em que foi atacada -disse-. Quem foi a primeira pessoa em aproximar-se depois de que a disparassem? Tome-se 
seu tempo. Pense nisso. Voc estava no cho e o prncipe Michael tentava ajud-la a levantar-se. Viu ali a algum mais?
         Ela olhou nervosa a seu irmo e logo voltou a olhar ao Richard.
         -Havia bastante gente. Lembrana que o prncipe Michael lhes ordenava que se retirassem -respondeu ela gaguejando ligeiramente.
         Richard tentou acalmar-se, e tentou pr uma expresso menos ameaadora.
         -H algum que lhe tenha ficado gravado na memria?
         Ela assentiu com a cabea e esboou um leve sorriso.
         -A senhora Tracey, a amiga de lady Rosamund. Pensou que eu era Rosamund e gritou seu nome, por isso todo mundo pensou que a ferida era Rosamund. Pobre mulher. 
levou-se um bom susto. Ento chegou seu cunhado e a levou dali.
         -Obrigado -disse Richard.
         -Aonde vamos agora? -perguntou Caspar assim que saram da casa.
         -A casa da senhora Tracey, no Manchester Square.
         
         
         Quando Rosamund chegou a casa do Callie, sofreu uma decepo. Callie no estava em casa, mas sim se encontrava ali Charles Tracey, de maneira que no pde 
lhe expor a tia Fran todas as perguntas que estava desejando lhe fazer.
         -OH, querida, Callie no estava segura de se tinham ficado aqui ou em sua casa -disse tia Fran respondendo  pergunta do Rosamund-. foi para te buscar a 
sua casa. Disse-me que se vinha aqui lhe comunicasse isso.
         -Ento, tenho que me encontrar com ela em minha casa?
         -Isso creio -respondeu tia Fran com um tom de voz no muito convencido.
         -Eu te levarei, se quiser -se ofereceu Charles.
         Quando ele deu um passo para ela, Rosamund deu um passo atrs.
         -No ser necessrio, tenho um carro de aluguel me esperando -respondeu ela com rapidez.
         Mas ele a seguiu at a porta, coisa que a ps em guarda.
         -Lady Rosamund, espera um momento -disse ele.
         Rosamund no esperou nem um segundo. Saiu escada abaixo a toda pressa, mas ele a alcanou no patamar. Agarrou-a por brao, fez-a parar em seco e a voltou 
para ele.
         -Charles, o que significa isto? -perguntou ela tentando que sua voz soasse natural.
         Lhe soltou o brao imediatamente.
         -trata-se de um assunto de Estado -disse ele-. Ontem de noite assassinaram ao mais velha Digby, junto com o Whorsley e um menino jovem. Pensava que deveria 
te informar; ou seja, se  que no sabia j.
         Ela ficou em silncio, lhe olhando fixamente e tratando de ler a expresso de sua cara na meia luz do patamar. perguntou-se quantos anos teria. A idade 
do Richard, ou possivelmente um ou dois anos menos? perguntou-se em que universidade teria estudado.
         Os olhos dele se cravaram nela.
         -Est assustada? -Sua voz era quase um murmrio-. Eu em seu lugar sim que o estaria.
         E imediatamente ela se sentiu assustada, mortalmente assustada. Com um ligeiro soluo, deu meia volta e seguiu baixando a escada em direo ao Harper, e 
 segurana.
         
        Captulo 24
         Quando Rosamund contou ao Harper o encontro que tinha tido com o Charles Tracey na escada, ele a olhou com cepticismo.
         -J no nos continua -lhe disse olhando pela pequena janela traseira do carro de aluguel.
         -No, mas sabe para onde nos dirigimos.
         Harper tirou a pistola que levava no cinto das calas.
         -Se voltar a aparecer, encarregarei-me dele. Tenho outra pistola no bolso -Colocou a mo no bolso e extraiu outra pistola-. Se quiser, lhe posso deixar 
isso.
         - muito grande, Harper. No creio que seja capaz de dirigi-la -disse Rosamund enrugando o nariz-. E alm disso, o que pensaria a senhora Tracey se me v 
aparecer com essa arma na mo?
         -Acreditas que se assustaria?
         -ia se rir como uma louca! De todas formas, para que necessita duas pistolas?
         -Se por acaso falha o primeiro disparo e no tenho tempo de voltar a carregar a arma -disse olhando a pistola que tinha devotado ao Rosamund-. Creio que 
assim que tenha uma oportunidade te vou dar de presente uma dessas pistolas francesas que as mulheres podem levar na bolsa.
         Quando voltou a guardar-se no bolso a segunda pistola, Rosamund ficou um momento observando-o. No parecia que ela casse muito bem ao Harper, mas sem dvida 
era uma pessoa de toda confiana. Tinha algo estranho no olhar, mas de todas formas dava confiana. Embora Harper seguia sendo ctico quanto ao Charles Tracey, no 
ia deixar que o pilhassem por surpresa. E com isso j lhe parecia suficiente.
         Chegaram  entrada da casa do Rosamund e pagaram ao chofer.
         -Entra voc -disse Harper-. Eu esperarei aqui fora sem ser visto. E se vejo aparecer ao Tracey, darei-lhe um bom recebimento.
         -No demorarei muito.
         Rosamund entrou no ptio pelo postigo da grade e comeou a percorrer o caminho para a casa. Com solo entrar ali sentiu que seus nimos se relaxavam. Parecia 
como se toda a maldade do mundo tivesse ficado ao outro lado da grade daquela pequena parte de paraso. Podia imaginar-se aos meninos jogando na ampla zona de grama 
e os cavalos pulando no prado ou comendo tranqilamente em seus estbulos. Richard e ela dariam largos passeios pelo bosque que rodeava a propriedade, e se alegrariam 
da sorte que tinham.
         Se ao menos...
         Quando chegou  casa, deu-se conta com surpresa de que a porta da entrada estava aberta. Imaginou que o porteiro teria esquecido fech-la depois de deixar 
entrar no Callie, caso que tia Fran lhe tivesse dado bem a mensagem e Callie estivesse ali.
         -Callie? -gritou Rosamund- Callie?
         Ao cabo de um momento, Callie apareceu no alto da escada.
         -O que te h passado? -perguntou-. J pensava que no foste vir.
         -Atrasei-me. Onde est o porteiro? deixou aberta a porta de entrada.
         -Parece-me que foi aos estbulos a arrumar umas janelas ou algo assim. Estou na sala rosa. Tenho aberto uma garrafa de xerez, supondo que no te importa.
         A hiptese era retrica. Callie voltou a entrar na sala, e Rosamund subiu a escada para encontrar-se com ela. Ao Richard ia gostar daquela casa, pensou. 
Era slida, mas despretensioso, e tinha um ar antiquado, quo mesmo Richard, e admitiu que possivelmente foi precisamente isso o que fez que aquele lugar gostasse 
do primeiro momento.
         Callie estava ao lado de uma das altas janelas, na sala rosa, com um copo de xerez entre as mos. O quadro que formava diante a janela era um conjunto chamativo: 
Callie com seu casaco de plumas de cores emoldurada no veludo rosa das cortinas. A luz se filtrava atravs da janela, recortando suas delicadas curvas e as linhas 
de seu pescoo.
         voltou-se para o Rosamund sorrindo.
         -Vi-te chegar sozinha. No estava segura de que o faria. Nem carruagem ducal, nem lacaios, nem senhorita Dryden. Estou impressionada.
         -A senhorita Dryden est convalescente em casa de seu irmo.
         -Isso ouvi. De todas formas  melhor assim, as duas szinhas e a nossas largas. te sirva um xerez.
         Rosamund negou com a cabea olhando em direo  garrafa e a taa de cristal que havia na mesa ao lado do sof de brocado. No tinha tempo para tomar xerez, 
assim foi direta ao tema que lhe preocupava.
         -Hoje fui ao Newgate para falar com o guardio e me inteirei que algo interessante -Tomou ar profundamente-. Recorda que se produziu um disparo a manh 
que estivemos ali?
         -Sim, claro, recordo-o perfeitamente -respondeu Callie detrs tomar um sorvo de xerez.
         -O guardio me contou que no disparou nenhum dos carcereiros, dos internos ou dos visitantes. Eu sei que Richard... Maitland -acrescentou com atraso- tampouco 
disparou, nem Harper nem eu mesma. D-te conta do que isso significa?
         -Significa que ento tivemos que disparar ou Charles ou eu mesma -suspirou Callie.
         Rosamund ficou surpreendida pela rapidez com a que Callie tinha entendido a lgica da situao. Tinha pensado que teria que lhe desenhar um mapa.
         -Sim, e eu creio que foi Charles quem disparou tratando de matar ao Richard Maitland -disse ela.
         Callie recebeu esse comentrio com uma gargalhada.
         -Charles? -disse Callie rendo de novo-. Charles no poderia disparar nem a um co raivoso embora sua vida dependesse disso. No tem iniciativa.
         -Ento, quem disparou?
         -Quem imagina voc que o fez?
         Depois de um comprido silencio, Rosamund sacudiu a cabea e disse:
         - obvio, voc no. Isso no teria nenhum sentido. Alm disso, eu estava entre o Richard e voc, e o disparo me teria ferido .
         -No. Voc te caiu ao tropear com a cesta e me deixou o campo livre para disparar ao Maitland, e assim o fiz. Estou segura de que falhei por um cabelo.
         Rosamund ficou sem palavras. Quando comeou a gaguejar uma resposta, Callie a interrompeu.
         -Essa era minha obra de caridade. Fui ao Newgate com a inteno de matar ao Richard Maitland, ou de lhe dar a oportunidade de acabar ele mesmo com sua vida.
         Rosamund se deixou cair na cadeira que tinha mais perto. As palavras lhe saram szinhas:
         -Mas por que?
         Callie parecia que se estava divertindo.
         -Se me tivesse escutado quando te falei do julgamento contra Richard Maitland, teria-o entendido. Estive-o seguindo dia detrs dia. No te tinha comentado 
que Richard esteve esplndido? A morte no lhe produzia nenhum medo. A maneira em que desdenhava a seus acusadores, ao fiscal, a todo o tribunal... bom, poderamos 
dizer que isso me deixou bastante impressionada. Pensei que um homem to por cima das pessoas correntes no merecia morrer como um vulgar delinqente. Assim que 
me engenhei isso para lhe ajudar a sair desse apuro. Poderia-lhe ter devotado minha pistola. Estou segura de que ele teria preferido uma morte digna a ser enforcado. 
Mas o destino se cruzou em meu caminho.
         -Que pistola? -perguntou Rosamund.
         -A pistola que tinha escondida no manguito.
         Callie apartou uma das cortinas e assinalou para o branco manguito de pele de coelho que descansava no batente da janela, o mesmo manguito que tinha colocado 
o dia que visitaram Newgate.
         Rosamund ficou olhando o manguito obnubilada, negando-se a aceitar o que Callie acabava de lhe contar. Callie desafiaria ao muito mesmo diabo s pela emoo 
que isso supunha -quantas vezes o tinha pensado?-, mas dance de mscaras subidos de tom e montar em globo eram coisas que estavam muito longe de disparar a um homem 
a sangue frio. Rosamund no era capaz de aceit-lo.
         -No me estar contando tudo isto para proteger ao Charles? -perguntou Rosamund.
         Callie se tomou o ltimo sorvo de xerez e se aproximou aonde estava a garrafa para servir-se outro.
         -Charles  uma mujercita sem carter! -disse Callie com um tom de desprezo-. Sabia que ia deixar minha pistola ao Maitland. Tinha-lhe contado o que pretendia 
fazer. A teve uma oportunidade para me impressionar com seu atrevimento e sua deciso. E sabe o que fez? me tentou impedir isso Recorda que o dia que amos ao Newgate 
no fazia mais que pr problemas? Recorda como choramingava falando dos amotinados? Como te digo,  uma pattica e dbil mujercita.
         Callie voltou para a janela e se sentou no batente. depois de tomar outro gole de xerez, acrescentou:
         -Quando Charles se deu conta de que pensava acabar com o Maitland no ptio, separou-se de ns tanto como pde -Callie riu-. Supondo que tinha medo de que 
disparasse a ele, se tratava de interpor-se em meu caminho.
         -Sim, j imagino por que Charles se separou tanto de ns -disse Rosamund inexpressiva.
         No tinha nenhum sentido perguntar-se por que Charles se manteve to calado durante todo esse tempo. Estava apaixonado pelo Callie, miserablemente apaixonado, 
e tivesse feito algo por ela.
         Rosamund poderia ter estado mais surpreendida do que estava, mas nesse momento se lembrou do pequeno refgio nas colinas, quando Richard e ela pensavam 
que estavam rodeados pela tropa. "Quero morrer como um soldado -disse Richard-. Deixe morrer com um pouco de dignidade."
         Pensar naqueles momentos, nos que acreditou que ia perder ao Richard para sempre, fez que lhe ardessem os olhos.
         Levantou a vista e se cruzou com o olhar do Callie, que a observava. Agora Rosamund sim acreditava o que seu amiga lhe havia dito -embora ainda havia algo 
nela que a inquietava, algo que rondava por debaixo da superfcie. "Uma obra de caridade", assim o tinha chamado Callie. Mas o era realmente?
         Rosamund meneou a cabea.
         -Mas Richard no ia morrer como um vulgar delinqente, no  assim, Callie? Estava tentando escapar. E voc diz que acreditava em sua inocncia, ento por 
que tinha que lhe disparar? A no ser que...
         -A no ser que o que.
         -A no ser que no quisesse que escapasse, que o queria ver morto -Rosamund disse estas palavras sem as pensar, tal e como foram ocorrendo.
         Callie inclinou a cabea.
         -Parece-me que te subestimei. No imaginei que seria capaz de descobrir essa parte da histria. Bom, de todas maneiras lhe pensava contar isso tudo. Quando 
escutei a conversao que voc e a senhorita Dryden mantiveram aqui, nesta mesma habitao, dava-me conta de que teramos que chegar at o final. Voc estava decidida 
a voltar a comear pelo princpio e investigar de novo todo o acontecido. E encontraria algo no que aconteceu Newgate que no te ia quadrar.  obvio, tem muita razo. 
No queria que Maitland acabasse na forca, mas tampouco podia deix-lo escapar. Haveria passado o resto de minha vida olhando por cima do ombro, me perguntando se 
acaso estaria me espreitando em alguma parte.
         Sem dar-se conta do que fazia, Rosamund se levantou da cadeira. Sua mente estava trabalhando a toda marcha; seu sangue corria por suas veias a toda velocidade.
         -Voc no pode ser a pessoa que quer vingar-se do Richard! -gritou Rosamund.
         -Vingar-se! -Os olhos do Callie se iluminaram-. Sim, deste com a palavra perfeita. Porque se trata de uma vingana. Mas no, eu no sou quem quer vingar-se 
do Maitland. Eu no saio em cena at o ltimo ato. E no tenho nada contra... Richard?  assim como lhe chama agora? No, mas meu papel era to interessante que 
no podia deixar de aceit-lo.
         Rosamund tentou dizer algo, mas sua lngua estava imvel dentro de sua boca. Olhou ao Callie fixamente e de repente tudo comeou a cobrar sentido. Se Callie 
no era o inimigo do Richard, ento solo podia estar interpretando outro dos papis. E,  obvio, ela era perfeita para esse papel: de baixa estatura, com uma figura 
delicadamente torneada, e alm sempre lhe tinha encantado o teatro.
         De repente lhe veio  memria uma cena do passado. No teriam ento mais de doze ou treze anos, e cada uma tinha que representar um papel na festa de Vspera 
de natal. Ela tocou o piano; fez-o bastante bem, e recebeu um terminante aplauso atrs de sua atuao. Callie fez uma primeira e rpida sada em cena, e logo voltou 
para a habitao de desenho e fez uma grande entrada vestida com roupas de menino. Ento declamou o famoso monlogo da Porcia no mercado de Veneza, vestida como 
um advogado, com uma pronncia to perfeita que provocou a admirao de todos. O aplauso foi tumultuoso, e,  obvio, Callie o desfrutou.
         Ao Rosamund lhe ocorreu que tambm naquele momento estava atuando. Aquele era o cenrio preparado, Callie estava fazendo uma perfeita interpretao, e ela 
-Rosamund- era o pblico. Callie queria assombr-la com sua brilhante atuao, e o tinha conseguido. Lhe deu vontade de aplaudir.
         Callie acabava de dizer que j estavam no ltimo ato. Como acabaria aquela obra?
         Um terror primitivo fez que Rosamund sentisse calafrios ao longo do espinho dorsal. Callie no podia estar lhe contando todo isso solo para passar o momento. 
Estava saboreando seu momento de triunfo, e logo chegaria o final da cena. Callie estava preparada para isso. Seu manguito branco estava ao alcance da mo, e Callie 
transbordava tanta confiana, que quase estava embriagada de si mesmo.
         Ento se deu conta de que a tinha feito ir ali para convert-la em chamariz. Callie sabia que Prudence estava convalescente em casa de seu irmo e que ela 
-Rosamund- tinha deixado de utilizar a carruagem ducal, os lacaios e toda a pompa de sua elevada posio social. Solo queria viver como uma moa corrente!
         OH, que louca tinha sido! Harper tinha vindo com ela, mas agora estava vigiando fora da casa. Estava ao outro lado do ptio, esperando a que aparecesse 
em qualquer momento Charles Tracey.
         "Onde estava o Inimigo?"
         Esse pensamento fez que os joelhos do Rosamund comeassem a tremer. Tentou controlar-se respirando profundamente. O Inimigo tinha que estar em alguma parte.
         -Est plida. Acaso te surpreendeu o que te contei? -perguntou Callie.
         Surpreendida no era a palavra que melhor definia seu estado de nimo nesse momento. Seu peito se inchou e sentiu que se enchia de medo. "No te aterrorize", 
disse-se a si mesmo. Tinha que tentar controlar-se; tinha que pensar no que devia fazer. Tinha que manter ao Callie entretida at que encontrasse a maneira de escapar 
dali.
         Harper! Tinha que avisar ao Harper.
         Quando voltou a falar, surpreendeu-se a si mesmo de quo tranqilas soavam suas palavras.
         -Foi voc o moo que viu Richard na habitao do Lucy?
         -Sim, era eu.
         -por que o fez? Tanto poder tem esse homem sobre ti? Ou acaso te obrigou a faz-lo?
         -Ningum pode me obrigar a fazer algo que no quero fazer -respondeu Callie olhando-a com ira-.  muito convencional para entend-lo. Matei ao Lucy Rider 
solo pelo prazer de faz-lo.
         -Mas esse homem no assassina pelo prazer de faz-lo -acrescentou Rosamund respirando com dificuldade-. O que quer  vingar-se do Richard, no  assim?
         -Outra vez Richard? -disse Callie entrecerrando os olhos-. Vejo que tambm te causou uma profunda impresso. Mas solo tem razo pela metade quanto ao Frank. 
 obvio que quer vingar-se do Richard, mas isso solo  uma parte do jogo. Poder decidir sobre a vida ou a morte de algum  estar to perto da imortalidade como 
nunca poderemos est-lo. Frank o entende assim.
         -Voc matou a seu marido! -soltou Rosamund quase sem pens-lo.
         Callie parecia que de novo se estava divertindo.
         -Esse solo foi o primeiro. No me olhe com essa cara de horror. Fiz-lhe beber at embebedar-se e depois o asfixiei com um travesseiro. Nem sequer sofreu.        
         O horror do Rosamund no teria sido to profundo se a voz do Callie tivesse divulgado como a mulher desenquadrada que parecia ser. Mas sua voz soava to 
tranqila como se estivesse falando da ltima moda ou de quem ia se casar com quem.
         Quando Callie se levantou e colocou uma mo sobre seu manguito, Rosamund comeou a falar de novo.
         -Callie, voc no  assim. O que  o que te tem feito esse homem?
         -Nunca o entenderia -disse ela rendo-se-. Durante toda sua vida no tem feito outra coisa que seguir as normas. Frank e eu temos nossas prprias regras. 
Ns vivemos no fio da navalha. Atrevemos a algo. A vida ou a morte no significam nada para ns. A primeira vez que nos encontramos, reconhecemo-nos mutuamente imediatamente. 
Quando lhe contei como tinha assassinado a meu marido, ele me aplaudiu. Logo, quando ele me contou como tinha matado a sua esposa, eu fiquei fascinada. Ento me 
dava conta de que por fim tinha encontrado minha alma geme-a.
         -Quem matou ao Digby e ao Whorsley?
         -Fez-o Frank. Eu matei ao menino.
         -Mas por que? O que tinha que ver contigo aquele menino?
         -Nada. Simplesmente passava por ali. Tinha ido cobrar uma dvida de seu senhor, isso  o que me disse antes de que lhe fatiasse o cangote. Bom, tinha que 
faz-lo. Date conta, tinha-nos visto ali.
         Callie apartou o manguito e apareceu em sua mo uma pistola carregada que apontava diretamente ao corao do Rosamund; uma pequena pistola de mulher, uma 
dessas pistolas que podem levar-se facilmente na bolsa ou esconder-se nos manguitos.
         "por que?, por que no fiz caso ao Harper?", pensou Rosamund sem poder dar crdito ao que estava passando.
         -Frank se estar perguntando o que  o que me retm tanto tempo aqui -disse Callie-. Se supunha que solo demoraria um momento. Mas no pude resistir a tentao 
de te pr  corrente de umas quantas coisas, e agora que j nos havemos isso dito tudo, chegou o momento...
         -Como  capaz de me fazer isto? -gritou Rosamund-. crescemos juntas. Somos como irms.
         -Irms! -exclamou Callie incrdula- Eu era a parente pobre! Voc foi a menina dos olhos de seu pai! Sabe o que me dizia meu pai? Que devia demonstrar sempre 
um respeito e uma gratido adequadas ou me jogariam daquela casa e acabaria em um asilo para moas pobres. De modo que tinha que sorrir com afetao e fazer ver 
que me caa bem. Mas sabe uma coisa? Eu no gosto absolutamente. Desprezo-te, e por fim lhe posso dizer isso.
         Agora a figura do Callie j no formava um conjunto chamativo com o entorno. Sua arrogncia lhe tinha dado um aspecto horrvel e um olhar malicioso. Rosamund 
se deu conta de que em sua prpria cara se deviam estar refletindo sua dor e sua surpresa. "Mais tarde, sente pena por ti mesma mais tarde -disse interiormente com 
convico-. Pensa agora em como pode avisar ao Harper." Onde se teria metido o porteiro?
         Rosamund percorreu a habitao com o olhar procurando uma maneira de escapar ou algo que pudesse utilizar para defender-se. A garrafa de xerez estava ao 
alcance de sua mo, e ela sozinho se encontrava a um par de passos da porta, mas estaria morta antes de chegar ali.
         Rosamund se estremeceu quando Callie levantou a pistola.
         -Se for morrer, eu gostaria de saber por que -gritou Rosamund.
         -Porque h dito que foste demonstrar que Maitland  inocente -respondeu Callie baixando um pouco a pistola-. Sabia que no foi dar por vencida, e j v 
que tinha razo. Comeou por ir ao Newgate, mas no te foste deter a. Inclusive de menina foi inamovible quando te colocava algo na cabea. Sabia que no poderia 
te deter. Enganou-me uma vez, mas no me voltar a enganar agora.
         -Que eu te enganei?
         -Rosamund, ainda no o tem descoberto? -disse Callie como se a estivesse repreendendo-. A noite do baile confundi ao Prudence Dryden contigo. Fui eu a que 
disparou desde fora da pracinha.
         Rosamund j no se podia surpreender por nada do que lhe dissesse aquela enlouquecida mulher. Estava concentrada em aproxim-lo mximo possvel  mesa em 
que se encontrava a garrafa de xerez.
         -No conseguir te salvar esta vez -disse-. Tia Fran sabe que vim aqui para me reunir contigo. Charles tambm sabe, e Harper, Y... e o porteiro tambm sabe.
         -Fenton? -perguntou Callie sorrindo-. OH,  obvio, mas ele confirmar minha histria. Disse-lhe que me tinha cansado de esperar, e ele me viu sair pela 
porta. Pouco depois, Frank chegou, golpeou-lhe na cabea e o encerrou na carvoeira. Logo voltei, e aqui estamos agora. As autoridades pensaro que entraram ladres 
em sua casa, que voc os descobriu e eles lhe mataram. Ao Frank e a mim no viu ningum. Esta casa est bastante se separada dos principais caminhos. No tem vizinhos 
que lhe possam ver entrar ou sair. J te tinha advertido disso, no o recorda?
         Todas as dvidas do Rosamund se esclareceram, exceto uma.
         -Quem  Frank? por que odeia tanto ao Richard?
         - uma velha histria. Entender-o tudo se te disser seu nome completo. No creio que haja nenhum perigo em lhe dizer isso trata-se do Frank Stapleton.
         No foi uma revelao deslumbrante. J o tinha comeado a suspeitar desde muito antes. Agora tinha chegado o momento de sair dali.
         -Frank Stapleton! -Rosamund olhou para a porta do pequeno balco e voltou a gritar- ouviu voc isso, oficial Walters? Ser melhor que venha aqui antes de 
que me voem os miolos.
         A pistola do Callie apontou para o balco, e aquilo foi suficiente para o Rosamund. Agarrou a garrafa da mesa e a lanou contra a cabea do Callie com todas 
suas foras. Callie esquivou ao vo a garrafa, mas esta se estrelou contra a pistola. Rosamund chegou de um salto  porta que dava ao corredor e ali se parou em 
seco. Um cavalheiro que reconheceu em seguida estava subindo nesse momento pela escada: George Withers, e levava na mo uma pistola.
         "Frank se estar perguntando o que  o que me retm aqui."
         Frank Stapleton. George Withers?
         Com essa horrvel ideia na mente, Rosamund deu meia volta e ps-se a correr pelo corredor para a escada de servio.
         Quando j esteve ao outro lado da porta traseira, apoiou-se contra o muro. Ouviu que Callie gritava ao Frank que devia vigiar a escada principal enquanto 
ela corria detrs o Rosamund. Esperou que imaginassem que se escondeu na cozinha. Isso lhes reteria acima durante um momento e daria tempo a ela para avisar ao Harper, 
o qual no ia ser fcil, porque agora se encontrava no outro lado da casa.
         O lugar mais prximo no que esconder-se era o estbulo, mas para chegar at ali tinha que percorrer um dos lados da casa e depois caminhar atravs da grama. 
Se Stapleton saa pela porta principal, descobriria-a. Mas tinha que faz-lo, no havia outra escapatria.
         Quando chegou  grama, tirou-se os sapatos e ps-se a correr como uma flecha. Agora toda a propriedade lhe parecia diferente. As distncias se feito de 
repente maiores. O terreno j no era uma pequena fazenda, mas sim se estendia ao longe at o infinito.
         Um disparo a sua direita a alertou de que tinha sido descoberta pelo Stapleton, e um grito de resposta a suas costas disse que Callie ia atrs dela. Rosamund 
podia correr mais rpido que Callie, mas com o Stapleton no teria tantas possibilidades. Se ao menos Harper se aproximasse da porta da casa e pudesse v-la! No 
podia gritar, e j logo que tinha flego para seguir correndo.
         "Isto no me pode estar acontecendo de verdade", disse-se para tranqilizar-se. O sol brilhava, as rvores refulgiam de tudas as cores, o entorno pastoril 
era to formoso como um quadro. E dois loucos estavam tentando acabar com ela.
         Quando chegou ao edifcio do estbulo, deteve-se um momento para tomar flego. Sabia que no poderia correr at muito mais longe. Ali ia terminar tudo. 
Possivelmente Harper teria ouvido o disparo e se apresentaria ali correndo, mas ela tinha que fazer algo enquanto isso. Algo, embora no servisse para nada.
         Callie no lhe tinha mentido. O porteiro tinha estado arrumando as janelas. E tinha deixado o trabalho pela metade. Rosamund agarrou um tabln que estava 
no cho e se escondeu detrs da esquina do estbulo esperando ao Callie, ou a qualquer outro que dobrasse a esquina.
         Cada som parecia estar amplificado milhares de vezes: as suaves pisadas de algum avanando pela grama; uma respirao agitada; o zumbido de uma abelha; 
seu prprio corao acelerado.
         Lhe acabava o tempo. Golpeou com todas suas foras ao Callie no meio do peito com o tabln, e o ar saiu a presso de seus pulmes. Quando Callie se desabou 
de costas, lhe caiu a pistola da mo e ficou fora de seu alcance. Rosamund atirou o tabln e correu para a pistola, mas retrocedeu ao ver que Stapleton dobrava a 
esquina do edifcio nesse momento.
         Stapleton a olhou sorrindo, como se em realidade estivesse tratando de cortej-la, e a seguir se trocou a pistola de mo e recolheu do cho a do Callie.
         -E agora vem a pior parte -disse ao Rosamund estalando a lngua.
         Callie estava comeando a recuperar o flego, e se incorporou no cho at ficar sentada. Sua cara estava vermelha de ira.
         -Voc, zorra -bramou, e dirigindo-se ao Stapleton- Frank, me d minha pistola.
         - obvio, querida.
         Gritar  o nico que fica por fazer, pensou Rosamund. Abriu a boca, mas o que rompeu o silncio no foi um grito, a no ser um disparo. Frank Stapleton 
tinha apoiado a pistola contra a cabea do Callie e tinha apertado o gatilho.
         Rosamund se estremeceu horrorizada. Callie morreu no ato com uma fria expresso de surpresa na cara. A boca lhe tinha ficado aberta formando uma "ou" e 
as sobrancelhas estavam arqueadas ao redor de seus negros olhos. O pequeno orifcio de uma bala desfigurava sua tmpora direita. Quando Stapleton a empurrou, Callie 
caiu de costas, com seus olhos j sem vida olhando ao cu.
         Rosamund se tampou a boca com uma mo. No podia mover-se, no podia falar, no podia apartar os olhos do Callie. "te levante! -tinha vontades de gritar-, 
basta j de comdias! Este jogo j durou muito!"
         Mas aquilo no era um jogo. Aquilo era mortalmente real.
         Seus olhos se moveram para cima quando notou que Stapleton se aproximava dela. Sem pressas, Stapleton arrojou a pistola do Callie ao cho, junto ao cadver, 
e se passou sua prpria pistola  mo direita.
         -Ela dizia que foram almas as gema -conseguiu balbuciar Rosamund com um rouco assobio.
         O se encolheu brandamente de ombros.
         -A senhora Tracey no significava nada para mim. Eu queria ao moo, ao Sebastion. Assim foi como ela mesma se apresentou quando nos conhecemos em um baile 
de mscaras. Isso aconteceu vrias semanas antes de que me contasse seu segredo. Nunca pude pensar realmente no Sebastion como a senhora Tracey.
         Fez um gesto de impotncia em direo ao corpo do Callie.
         -E por que o tenho feito?, estar-te perguntando. Tinha que acabar com isto. Se no a tivesse matado eu, algum dia poderia me haver matado ela . Estava 
comeando a me perder o respeito. Fecha os olhos, lady Rosamund. Posso-te prometer que no te vai doer.
         Aquele homem no tinha perdido nenhuma pingo de seu encanto, e isso a fez ficar doente. Mas Rosamund no tinha perdido ainda as vontades de viver. Tinha 
que tentar algo. Harper teria ouvido o disparo. Certamente j estaria muito perto. Mas muito perto no era suficiente.
         Fez um gesto com as mos.
         -Pelo amor de Deus, lhe feche os olhos. Ela te amava. lhe mostre um pouco de respeito.
         Quando ele se deu a volta e olhou ao Callie com indiferena, Rosamund aproveitou a oportunidade. lanou-se contra ele. Caram os dois ao cho, e a pistola 
escapou das mos do Stapleton, escorregou pelos paraleleppedos e foi parar junto a uma urna de pedra. Rosamund o golpeou, arranhou-o, atirou-lhe do cabelo com as 
mos, mas a luta era desigual. Stapleton a esbofeteou com fora e, antes de que ela pudesse dar-se conta, ele j tinha recuperado a pistola.
         Nesse momento chegou Harper correndo em direo a eles e empunhando sua pistola. O primeiro que fez foi olhar para o Rosamund, e isso foi sua perdio. 
Stapleton disparou e Harper caiu ao cho.
         Rosamund e Stapleton tiveram a mesma idia, mas ela estava mais perto e chegou antes a alcanar a pistola do Harper. Deveria ter disparado ao Stapleton 
sem escrpulos, mas este conseguiu escapar antes de que ela pudesse chegar a lhe apontar.
         Harper se incorporou no estou acostumado a agarrando-se com uma mo o ombro.
         -Por todos os demnios! Como pude ser to estpido?
         -Pensei que te tinha matado -disse Rosamund sorvendo-as lgrimas.
         -Nem muito menos. O que  isso? Parecem cavalos -disse Harper fazendo caretas enquanto conseguia ficar em p.
         Ouviram um disparo e a seguir vrios disparos mais. Rosamund ps-se a correr e Harper saiu atrs dela.
         -Volta aqui! Volta aqui! Esse assassino j teria voltado a carregar sua pistola! No pensaste nisso? E ainda no me explicaste que demnios est acontecendo 
aqui!
         Rosamund no chegou muito longe. deteve-se o final do edifcio dos estbulos. Trs homens a cavalo acabavam de entrar no prado e galopavam atravs da grama 
perseguindo o Stapleton, que quase tinha conseguido refugiar-se entre as rvores.
         -So meu chefe e seu irmo -disse Harper.
         -E Charles Tracey.
         Ao cabo de um minuto j lhe tinham dado alcance. Richard foi o primeiro em equilibrar-se sobre o Stapleton. Saltou do cavalo e os dois rodaram pelo cho. 
Caspar e Tracey tinham chegado j a sua altura, mas no desmontaram. Richard mantinha no cho ao Stapleton com um joelho sobre suas costas, e com um brao lhe rodeando 
o pescoo e atirando de sua cabea para trs.
         -Richard no quer lhe fazer danifico, no muito -disse Harper olhando com desassossego ao Rosamund.
         -Espero que lhe rompa o pescoo! -replicou Rosamund sem piedade.        
         Mas Richard no o fez. Ps ao Stapleton em p e disse algo ao Caspar, que imediatamente desmontou e apontou ao Stapleton com sua pistola. Richard voltou 
a montar a cavalo, e ele e Tracey se dirigiram para o edifcio dos estbulos.
         Quando chegaram junto a eles, Richard perguntou em voz baixa:
         -Esto bem os dois?
         -Sim, solo  um arranho -respondeu Harper sujeitando o ombro com a mo.
         -Estou bem -disse Rosamund.
         Mas no estava absolutamente bem. Olhava ao Charles Tracey tentando fazer uma idia do que imaginava que ia passar a seguir. O pano de fundo do ltimo ato 
estava comeando a cair, mas a cena final no ia ser absolutamente como Callie a tinha imaginado.
         Tracey desmontou de seu cavalo. Plido e com expresso preocupada, perguntou:
         -Onde est? Onde est Callie?
         -Charles, te prepare para o pior... -disse Rosamund.
         -J sei que est morta!
         -lhe leve at onde est -disse Richard ao Rosamund em voz baixa.
         Rosamund acompanhou ao Charles at o Callie. Quando a viu, no disse nenhuma palavra, simplesmente tomou entre seus braos e ficou a chorar como um menino.
         
        Captulo 25
         Rosamund estava em seu dormitrio no Twickenham House, sentada no batente da janela que dava ao caminho. Havia passado uma semana desde que Frank Stapleton 
fora detido, uma das piores semanas de sua vida, no por culpa do Frank Stapleton, mas sim porque tambm Richard se entregou s autoridades e estava no crcere.
         Poderia ter sido pior. Poderiam haver enviado ao Newgate ou ao Fleet, mas o Servio de Segurana tinha intervindo e tinham enviado ao Richard a uma confortvel 
cela no Richmond, a s cinco minutos do Twickenham,  espera de que terminasse a investigao. Aquele dia lhe tinha convocado para um encontro com o primeiro-ministro, 
e Caspar e seu pai estavam com ele.
         O que a inquietava era que a verdade do caso jamais sairia  luz. Frank Stapleton no podia negar quem era, no ao menos depois de ter declarado diante 
os juizes e ter sido identificado pelo Peter Dryden, mas o nico assassinato que tinha admitido cometer foi o do Callie. Sabia que podiam envi-lo  forca, mas parecia 
to disposto como antes a ver tambm ao Richard na forca.
         O senhor Massie, a pessoa que substitua ao Richard no Servio de Segurana, havia-lhe dito que Stapleton no parecia sentir nenhum remorso pelo que tinha 
feito. Tinha declarado que assassinou  senhora Tracey em um ataque de cimes, e que todos outros mentiam por razes que ele mesmo no era capaz de entender.
         -crie-se muito preparado e pensa que outros so estpidos. Sua arrogncia no conhece limites -havia dito Massie.
         Recordou essas palavras no funeral do Callie. Foi uma cerimnia simples, com apenas uma dzia de pessoas. No pde dar um psames adequado a tia Fran e 
ao Charles porque se sentia muito fria por dentro. E perplexa. Ainda no era capaz de aceitar que a Callie que ela conheceu nunca tinha existido.
         Ao menos a pena do Charles Tracey era verdadeira. Tambm ele teve que declarar diante os juizes, mas tudo o que pde dizer foi o que sabia da visita ao 
Newgate e do ataque ao Prudence Dryden. Tambm disse que Callie retornou a casa cheirando a plvora, mas que nunca pensou que se tratasse de um pouco mais srio 
que outra de suas extravagantes brincadeiras.
         Quando ele a ps a prova, ela o admitiu. Disse que a festa ia ser muito aborrecida e que tinha levado sua pistola s com a inteno de oferecer um pouco 
de diverso. E riu, porque nada gostava tanto como conseguir desconcert-lo.
         Mas quanto mais pensava nisso, mais incmodo se sentia. A bala tinha ferido ao Prudence Dryden e podia hav-la matado. E havia outra coisa que lhe inquietava: 
no tinha nenhuma dvida de que Callie tinha confundido  senhorita Dryden com o Rosamund.
         Isso era o que tinha tratado de dizer ao Rosamund quando esta saiu correndo de sua casa para encontrar-se com o Callie. Estava j disposto a sair atrs 
dela, e tinha o cavalo selado, quando chegaram a sua casa Caspar e Richard. De modo que foram juntos a casa do Rosamund e chegaram bem a tempo para deter o Stapleton.
         Desde aquele dia, Rosamund no tinha voltado a falar com o Richard, nem o tinha voltado a ver, no porque as autoridades o tivessem impedido, mas sim porque 
Richard lhe havia dito que quando se voltassem a encontrar ele teria que ser de novo um homem livre, um homem que pudesse apresent-la acima de tudo o mundo como 
sua esposa.
         Tinha colocado o aliana de casamento, embora fora solo para reforar sua confiana. "Richard ficar livre de cargos e logo estar a meu lado." Rosamund 
se repetia freqentemente essa letana, como se  fora de desej-lo pudesse fazer que acontecesse em realidade.
         Esteve a ponto de no ver entrar no caminho a carruagem do duque porque seus olhos estavam alagados de lgrimas. Quando se deu conta de que j estavam ali, 
saltou de seu assento pensando que no se havia equivocado e se precipitou para a porta.
         -Justin, j esto de volta! -gritou.
         Enquanto ela descendia a escada, Justin saiu da biblioteca e se dirigiu a seu encontro.
         -te acalme, Roz -lhe disse com uma voz irregular pela excitao-. Todo vai sair bem, j o ver.
         Tirados da mo, caminharam para a entrada de mrmore, onde j estava o mordomo chefe. Turner no parecia muito mais tranqilo que Rosamund ou Justin. movia-se 
de um lado a outro diante da porta, jogando uma olhada ao relgio que levava em seu colete cada vez que completava uma volta.
         -Agora! -disse de repente aos porteiros.
         Estes abriram as portas da entrada principal e correram escada abaixo, justo no momento em que a carruagem de Sua Excelncia se parava diante a porta.
         O primeiro em entrar foi o duque. Sua expresso era inescrutvel.
         Rosamund o observou enquanto passava a seu lado. Tambm viu o Caspar, mas a ningum mais.
         -Pai, o que h passado? -gritou ela- perdoaram ao Richard?
         -No -disse o duque.
         Ela ficou sem flego, e Justin lhe apertou a mo.
         -foi completamente exonerado -acrescentou o duque com um sorriso de satisfao-.  obvio, deveremos passar pelos trmites habituais, mas isso  sozinho 
uma formalidade. Enquanto isso,  um homem livre. Turner, traga champanha  biblioteca, por favor, e assegure-se de que haja cerveja para todos os homens que esto 
a meu servio e xerez para as senhoras.
         Richard e Caspar entraram no vestbulo, com o Harper lhes seguindo os passos. Os serventes, que um momento antes no pareciam estar ali, apareceram por 
toda parte. O recebimento que Rosamund ofereceu ao Richard se afogava entre o alvoroo das ovaes. Todo mundo ria e sorria exceto Rosamund. Enquanto caminhava agarrada 
do brao do Richard as lgrimas lhe alagavam as bochechas.
         Mas essa no era uma ocasio para lgrimas, e ao cabo de um momento ela tambm estava rendo, enquanto estreitava as luvas de quo serventes queriam felicitar 
ao Richard por sua boa sorte.
         Caspar foi o ltimo em entrar na biblioteca. Fechou a porta e se apoiou contra ela.
         -Nunca tinha visto nada igual -disse-. Nossos criados revistam ser muito formais.
         -So circunstncias excepcionais -replicou o duque-. Que um membro de nossa famlia se salve pelos cabelos de ser pendurado na forca no  algo que acontea 
cada dia.
         Este ltimo comentrio fez que as lgrimas aflorassem de novo aos olhos do Rosamund. Estava comeando a ficar nervosa consigo mesma. Durante toda a semana 
tinha sido valente, e naquele momento se estava comportando como uma pusilnime.
         Quando j todos estavam sentados, Justin disse:
         -Bom, o que h passado ento? No nos deixem em suspense. Rosamund e eu nos estivemos mordendo as unhas at os cotos enquanto lhes espervamos.
         Todos riram, e a seguir o duque disse:
         -Conta, Richard, esta  sua histria.
         Richard olhou para baixo enquanto Rosamund entrelaava os dedos de sua mo com os dele.
         -O que h passado  que o Servio de Segurana acumulou evidncias suficientes para convencer ao primeiro-ministro de que a justia tinha cometido um grave 
engano, e que minha condenao devia ser anulada -disse Richard-. Como certo, Massie, que est agora  frente do Estado Mais velha, chegou com a magnfica idia 
de que Stapleton deveria estar presente quando o primeiro-ministro anunciasse a boa notcia. J vem, no havia evidncias para poder condenar ao Stapleton de nenhum 
assassinato, exceto o da senhora Tracey, e Massie queria ver qual seria sua reao. E  obvio, reagiu tal e como ele esperava.
         -Explorou -acrescentou Caspar-. No h outra maneira de descrev-lo. E a seguir toda a amargura e o dio acumulados foram saindo dele como se se tratasse 
de uma maldita erupo. Foi um bonito espetculo.
         -No foi -replicou Richard.
         O dio do Stapleton ia muito mais  frente do desafortunado incidente em Cambridge. Parecia que Richard se converteu no centro de qualquer tipo de humilhao 
que durante toda sua vida tivesse sofrido. Seu pai, sua me e seus companheiros em Cambridge o tinham convertido em uma vtima, e no menos tinha feito Richard Maitland, 
quem tinha engenhado uma terrvel vingana por algo que no tinha sido mais que uma travessura de moos.
         -Nunca mais! -disse Stapleton cuspindo saliva por entre os lbios-. Se algum mais tiver que ser a vtima, no vou voltar a ser eu!
         Aps, qualquer pessoa que acreditasse que lhe tinha falhado, ou qualquer que lhe fizesse sentir-se inferior, convertia-se em seu inimigo -sua mulher, seu 
sogro, Digby, e o ltimo, mas no o menos importante, o menino, Sebastion.
         Uma vez comeou a falar, j no pde deter-se. Enquanto isso, comeava-se a dirigir a todos eles como se se tratasse de uma classe de meninos torpes. Afirmou 
que jamais lhe tivessem podido apanhar se no tivesse sido pelo menino. Sebastion se tinha voltado muito temerrio e frio, e ele j no o podia controlar. Ir ao 
Newgate para realizar uma obra de caridade tinha sido idia dela, o mesmo que disparar ao Prudence Dryden, pensando que era Rosamund,  sada da pracinha. Mas ainda 
havia algo mais. Tracey estava desejosa por casar-se, mas a senhora Tracey no significava nada para o Withers. Por essa razo tinha que morrer. E por isso o menino 
tinha que morrer com ela.
         Se no tivessem estado todos  corrente de que a senhora Tracey e Sebastion eram a mesma pessoa, no teriam sabido o que pensar.
         -Cantou como um pintassilgo -disse Richard resumindo seu pensamento, e concluiu- Mas em minha opinio foi muito fcil. No creio que esse homem necessite 
nenhum motivo para matar. Creio que para ele assassinar se converteu em um esporte. No estou nada convencido de que a ferida que eu lhe infligi (segundo suas palavras) 
possa ter seguido aberta durante dezessete anos. Creio que voltou para a Inglaterra a comprar cavalos, e quando se inteirou de que eu tinha prosperado, decidiu que 
o prazer de acabar comigo era uma nova provocao ao que no podia resistir.
         Rosamund sentiu um calafrio recordando as palavras do Callie.
         -E o que me diz do Lucy Rider? -perguntou ela em voz baixa.
         A mo do Richard se fechou apertando os dedos dela, mas Rosamund nem se alterou. Conhecia a dor que atendia ao Richard, e s desejava compartilh-lo com 
ele.
         Caspar tomou a palavra pensando que ningum se daria conta da angstia que sentia Richard naquele momento, embora todos o tinham feito.
         -Ela se apaixonou por ele, e ele a utilizou. Assim de simples. Era uma moa muito inocente para tomar a iniciativa. Mas quando Stapleton entrou em sua vida, 
comeou a trocar. A pobre garota no sabia realmente onde se estava colocando.
         -Mas como a encontrou Stapleton? -perguntou Rosamund.
         -Travou amizade com o Digby, e se dedicou a falar com ele sobre mim -disse Richard- Parece ser que o mais velha no confiava em mim e se mantinha informado 
de todos meus movimentos. Em certa ocasio, este mencionou que eu comia assiduamente no George and Drago, e Stapleton comeou a me seguir at ali.
         Richard respirava profundamente recordando como Stapleton tinha alardeado sobre o fcil que lhe tinha sido ter ao chefe de Estado Mais velha do Servio 
de Segurana a sua merc. No sentia nenhum remorso, nenhuma pingo de arrependimento pelo que tinha feito ao Lucy Rider. Richard se esclareceu garganta.
         -Como h dito Caspar, Lucy se apaixonou por ele, e Stapleton a utilizou. Ela sabia que Stapleton (ou Withers, como lhe tinha conhecido) queria me desacreditar, 
mas este lhe contou que a razo era que eu tinha violado a sua irm, fazia anos, quando os duas estvamos em Cambridge. Como vem, ela se acreditou tudo o que lhe 
contou, e seguiu suas instrues ao p da letra.
         "O que pretendia era convencer a todo mundo de que eu era um amante ciumento que a tinha agredido em um ataque de ira. supunha-se que ela devia ficar a 
gritar no momento em que eu entrasse na habitao. Stapleton lhe havia dito que ele estaria ali e que me golpearia na cabea com um candelabro. Depois chamariam 
 polcia, acusariam-me de intento de assassinato e eu ficaria completamente desonrado. E aquilo seria o final de minha carreira no Servio de Segurana. Isso era 
tudo o que Lucy imaginava que seria meu castigo.
         -Mas isso  incrvel! Ningum pode ser to estpido! -exclamou Justin.
         -Hei aqui um homem que no esteve nunca apaixonado -sublinhou o duque.
         -Pobre Lucy -acrescentou Rosamund com um calafrio.
         Richard apertou sua mo. No podia lhe contar o resto da histria. Que Lucy se despiu confidencialmente antes de tombar-se na cama. Que nem sequer se questionou 
a presena do menino na habitao, de to grande que era sua confiana no Stapleton. Duas testemunhas seriam mais convincentes que um sozinho, havia-lhe dito ele. 
E logo Stapleton se ficou ali, olhando enquanto o moo a esfaqueava. depois de assassin-la, o menino se tirou tranqilamente a jaqueta, coberta do sangue do Lucy, 
tinha voltado para sua habitao e se ps outra poda. Pouco depois tinha ido ao final da escada, esperando a que aparecesse Richard.
         Mas no se tratava de um menino. Era Callie Tracey, a amiga do Rosamund. E aquilo punha doente ao Richard. Rosamund e Callie tinham crescido juntas. Uma 
corrupo a tal escala no  algo que se encontre freqentemente na vida.
         Isso no se poderia esquecer em muito tempo.
         Olhou ao Rosamund e agradeceu a Deus que a enfermidade do Callie no a tivesse contagiado a ela, sua amada e inocente Rosamund.
         -Supondo que Stapleton lhe teria prometido que se casaria com ela, e que assim desfrutaria de uma vida de luxo com a que solo podia sonhar, no  assim? 
-disse Rosamund.
         -Algo assim.
         Depois de um comprido silencio, Justin disse:
         -No averiguaste como soube Digby que poderia te encontrar no Dunsmoor?
         -Sim. Porque fui pouco cuidadoso -respondeu Richard-. Porque fui completamente estpido. Porque, por puro sentimentalismo, tinha um quadro do Dunsmoor pendurado 
na parede de meu estudo.
         -Isso no  exatamente assim -recalcou Caspar-. Stapleton se deu conta em seguida de que aquele quadro do estudo do Richard estava pintado por um artista 
bastante medocre, enquanto que o resto dos quadros poderiam ter sido expostos na Real Academia. E  obvio, isso foi o que chamou sua ateno. O nome da casa estava 
escrito, com letras bem claras, no frontispcio da entrada: Dunsmoor. E isso ps em marcha a memria do Stapleton.  realmente um tipo inteligente. Esteve seguindo 
os movimentos do Richard e em seguida se deu conta de que seu destino final era Dunsmoor, ou algum lugar prximo.
         -Foi um golpe de sorte -disse Richard irritado.
         -Quem era esse artista medocre que pintou Dunsmoor? -perguntou Justin inocentemente.
         -Richard,  obvio -respondeu Caspar, e todos puseram-se a rir.
         Nesse momento chegou o mordomo com dois criados que distriburam entre os reunidos taas altas de champanha.
         -E na despensa h duas garrafas mais, Sua Excelncia -disse Turner-. Se as necessitar toque o sino.
         Quando os trs voltaram a sair da habitao, o duque ficou em p.  obvio, todos outros ficaram tambm em p.
         -Querem lhes sentar! -exclamou o duque-. Vo dar uma impresso equivocada a meu genro. No estamos em uma cerimnia oficial. Aqui no fazem nenhuma falta 
as formalidades.
         Todos se voltaram a sentar, e Caspar e Justin fizeram o possvel por no olhar-se mutuamente de reojo.
         O duque levantou sua taa para pronunciar um brinde, e ento seus olhos se posaram no Harper, que estava sentado em uma esquina da sala, afastado do resto.
         -Sargento Harper, faria-nos voc a honra de pronunciar o brinde? -disse o duque.
         Harper ficou em p com reticncia.
         -No sei muito dessas coisas -disse Harper-. Sou uma pessoa corrente, Sua Excelncia. No tenho o dom da palavra como vocs, os cavalheiros.
         -Por isso precisamente deve pronunciar voc o brinde -respondeu o duque.
         -De acordo -disse Harper-. Acima, abaixo, ao centro Y...
         -Harper! -interrompeu-lhe Richard com tom de advertncia.
         Harper rebuscou em sua memria, no passado, no que tinha aprendido nos joelhos de sua me. Ao cabo de um momento, levantou sua taa.
         -Lutemos a boa batalha! -disse simplesmente.
         O duque sorriu e todos ficaram em p.
         -Lutemos a boa batalha! -responderam todos ao unssono.
         
         
         Umas horas mais tarde, Richard e Rosamund se foram  cama. retiraram-se antes, mas os criados estavam desfazendo a bagagem com as pertences do Richard que 
tinham trazido de suas habitaes no Jermyn Street, e algumas coisas que tinha deixado no Black Friar. Por fim todos se retiraram e eles dois estavam szinhos de 
novo.
         -Quer que chame  donzela para que te ajude a te despir? -disse Richard.
         Rosamund se ps-se a rir e se meteu os dedos entre o cabelo. Tinha tomado bastante champanha, e este lhe tinha subido  cabea da melhor maneira possvel.
         - verdade o que dizem dos homens, que nunca se do conta de nada. Hei mudado de vesturio, assim agora posso me vestir e me despir eu sozinha. Callie diz... 
-Rosamund se interrompeu.
         O sorriso do Richard desapareceu de seu rosto. No estava muito seguro do que tinha que fazer ou dizer, assim que se sentou no lado da cama e disse carinhosamente:
         -Sinto o que lhe h passado a seu amiga.
         Ela se deu a volta e o olhou aos olhos.
         -Eu no. Bom, sinto que se deixou arrastar por tanta maldade, mas o que fez  horrvel. E o fez sem remorsos, sem que lhe estremecesse a conscincia.
         -O mesmo se pode dizer do Stapleton.
         -Sua alma geme-a, assim o chamou ela -disse Rosamund, e sentiu um calafrio-. J no sinto por ela nada mais que desprezo. destruiu tudas as formosas lembranas 
de nossa vida juntas. Sempre me odiou. Mas o pior de tudo  que parecia me culpar a mim e a minha famlia por hav-la convertido no que era.
         Quando Richard deu uns toques na cama com a palma da mo, ela cruzou a habitao e se sentou a seu lado.
         -Quando a gente se volta malote se tenta justificar -disse ele-. Sempre encontram a algum a quem lhe jogar a culpa. Distorcem os acontecimentos. me acredite, 
Callie e Stapleton escolheram seus prprios caminhos. Ningum os converteu no que eram.
         -OH, j sei! Se estou afligida  por algo que nunca existiu. Mas o vou esquecer -Lhe tocou a cara com uma mo-. Graas a Deus h pessoas como voc, que 
escolheste dedicar sua vida a desmascarar a todos os Stapleton e as Callie do mundo.
         Era o que Richard estava esperando ouvir. Tomou as mos do Rosamund entre as suas e as beijou.
         -Queria te comentar uma coisa. Parece-me que chegou o momento de fazer uma mudana -disse Richard.
         -Uma mudana? -perguntou ela com cautela.
         Ele assentiu com a cabea e disse tentando aparentar iluso:
         -Agora que sou um homem casado, j  hora de que tenha uma vida mais tranqila. Dunsmoor me proporciona suficientes rende, mas creio que as poderamos aumentar 
se nos fssemos viver ali. Possamos fazer dinheiro com as ovelhas, e tambm possamos criar cavalos. Parece-me que pode ser uma boa idia, embora no sei muito de 
gado. Mas posso aprender. Creio que possamos ser muito felizes ali, no te parece?
         Rosamund ficou pasmada.
         -Voc boiadeiro? Um fazendeiro? -Comeou a rir- OH, claro, j o estou vendo!
         Richard lhe soltou as mos.
         -Nego-me a viver do dinheiro de minha esposa como se fora um parasita! -disse ele.
         -Ento possamos viver sem meu dinheiro. Como voc h dito, Dunsmoor te proporciona suficientes ganhos. Eu posso viver com a mesma simplicidade que voc, 
Richard. E no penso deixar que te sacrifique sozinho para me manter no luxo.
         -OH, seguro que isso adoraria a seu pai. Seu genro perseguindo assassinos e delinqentes. Quando me casei contigo, j sabia que deveria abandonar essa vida. 
Isso  o que espera sua famlia.
         -Assim disso se trata -Ela se levantou da cama e comeou a caminhar pela habitao-. Pensei que voc estava por cima desses estpidos prejuzos. No se 
trata de viver com meu dinheiro! trata-se de manter as aparncias! -voltou-se para ele com as mos em jarras e jogando fogo pelos olhos-. Me decepcionaste, Richard. 
Em primeiro lugar, porque insultaste a minha famlia ao pensar que lhes importa como ganhe a vida. De fato, meu pai est orgulhoso de ti. Mas embora toda minha famlia 
fora to pretensiosa como voc imagina, isso no  razo para baixar a cabea diante eles. Pensei que foi um lutador.
         Richard estava comeando a divertir-se. Quando ela fez uma pausa para tomar flego, disse:
         -E em segundo lugar?
         Rosamund tinha perdido o fio de seus pensamentos.
         -O que?
         -Recordo-te que estava enumerando meus defeitos.
         Ela deixou escapar um suspiro zangado.
         -Em segundo lugar, a uma esposa gosta que a consultem nesse tipo de coisas. Se pensar que me vais enterrar no campo enquanto voc vive suas aventuras, j 
pode ir trocando de opinio. No, no me interrompa. Isso  o que vai passar. J o estou vendo. O Servio de Segurana te chamar para que lhes ajude em um caso 
particularmente difcil, e logo em outro, e em outro, e antes de que nos demos conta estar acontecendo a mais velha parte do tempo na cidade enquanto eu fico no 
Dunsmoor criando ovelhas.
         Richard se ps-se a rir.
         -Vem aqui -lhe disse levantando os braos. Quando ela estava sentada de novo a seu lado, na cama, acrescentou- De acordo, estou-te consultando: o que quer 
fazer voc?
         -Quero que volte para seu trabalho como chefe de Estado Mais velha do Servio de Segurana -disse ela muito sria-. Sei que o primeiro-ministro lhe ofereceu 
isso. H-me isso dito Caspar. Richard, isso no  sozinho um trabalho para ti,  sua vocao. Sem pessoas como voc, a gente como Callie e Stapleton acamparia pelo 
mundo a suas largas, e no possamos deixar que isso acontea.
         -No sou a nica pessoa que pode desempenhar esse cargo.
         -Pode que no. Mas  o que voc quer fazer, e se houver algo que aprendi que esta horrvel experincia  que devemos fazer o que acreditam que  justo, 
no o que outros pensam que temos que fazer. Toda minha vida fui a filha de um duque. Hei-me sentido afogada nesse papel. Assim se se trata disso, se for abandonar 
o Servio de Segurana por mim,  melhor que lhe pense isso duas vezes.
         Richard lhe dirigiu uma de seu clidas e fugazes sorrisos.
         -Caso que retornasse ao Servio de Segurana, voc o que foste fazer? Onde foste viver?
         -Eu estaria no Woodlands.  ideal para criar aos meninos, e possivelmente uns quantos cavalos, e voc estaria em casa todas as noites. E quanto ao que poderia 
fazer -acrescentou com um brilho nos olhos-, poderamos repassar seus casos juntos, e eu te ajudaria a resolv-los. No pode negar que tenho um dom para resolver 
crimes.
         Richard introduziu os dedos entre o cabelo dela sorrindo.
         -Se fosse um homem, nomearia-te segundo no mando -disse ele.
         -Se eu fosse um homem, solicitaria o cargo de chefe de Estado Mais velha -se burlou ela.
         Richard se ps-se a rir e rodou com ela na cama. depois de um comprido e lento beijo, lhe ocorreu uma idia e disse:
         -No acreditas que no te poder sentir cmoda no Woodlands depois do que h passado com o Callie e Stapleton?
         -O que h passado? salvei a vida milagrosamente; Harper e o porteiro se esto repondo de suas feridas; voc vingaste a morte do Lucy Rider e ao fim pudeste 
limpar sua reputao. E dois desumanos assassinos a sangue frio receberam seu castigo. Se fosse supersticiosa, diria que Woodlands  uma casa que traz boa sorte, 
para ns e para as pessoas s que queremos.
         Ela se levantou da cama, foi procurar sua bolsa e voltou com a pea de xadrez chamuscada que Richard lhe tinha agradvel por seu aniversrio.
         -Ou  possvel que devamos nossa boa sorte a isto. Vai sempre comigo a qualquer parte que v.
         -Voc  minha boa sorte -disse ele com convico-. Mida historia que poderemos contar algum dia a nossos netos.
         Ele agachou a cabea at que seus lbios se uniram aos dela.
         -Voc vai mais longe que eu. Eu estava pensando em nossos filhos; por a  por onde devemos comear.
         Rosamund se estremeceu quando lhe rodeou o peito com as mos.
         -Sempre admirei sua inteligncia -disse ele, e ela aproximou a cabea at que seus lbios se juntaram.
         
         
         Rosamund despertou com um grito de pnico. As lgrimas corriam por suas bochechas. Richard despertou imediatamente e a rodeou com seus braos.
         -Tranqila -lhe disse em voz baixa-. No  mais que um sonho.
         -Era Callie -soluou ela, e se aferrou a seus braos.
         -Agora j no pode te fazer danifico.
         -No. No o entende. Estvamos nadando no mar, no muito dentro. Eu queria voltar para a borda, mas Callie seguia nadando por volta de alta mar. Chamei-a 
gritos para que voltasse comigo, mas ela no me ouvia. ria e seguia nadando. Ento, no sei como, chegou uma grande onda, e depois j no vi nada mais.
         Os ombros do Rosamund comearam a estremecer-se entre soluos.
         -Chamei-a uma e outra vez, mas Callie j no estava ali. J no voltar! J no voltar jamais!
         Richard a agasalhou com os lenis e a estreitou entre seus braos lhe sussurrando palavras que poderiam servir para tranqilizar a um menino assustado. 
Ao cabo de um momento, ela se voltou a dormir.
         
         
         Vrios dias mais tarde j estavam fazendo a bagagem e preparadas para mudar-se ao Woodlands. O dormitrio estava cheio de caixas. Enquanto Rosamund acabava 
de vestir-se, Richard lhe leu alguns pargrafos das cartas que tinha recebido dos amigos e de pessoas que lhe apreciavam.
         -H uma do Hugh -disse ele-. Ele e Abbie voltam para a cidade a semana prxima e querem dar uma festa em nossa honra. E outra do Jason Radley. J te falei 
que ele e de sua esposa, Gwyneth, no  assim? Acabam de retornar de sua lua de mel -Richard sorriu-. V, parece-me estranho que o papel da carta no esteja chamuscado. 
Jason me envia umas quantas palavras escolhidas para falar dos amigos que no contam com os amigos quando esto metidos em problemas. Tambm querem dar uma festa 
em nossa honra.
         Rosamund estava procurando suas luvas. Ao no encontr-los pela habitao, aproximou-se de uma das caixas, colocou-a no cho a seu lado e abriu o ferrolho.
         -Parece-me que seus amigos so pessoas muito sensveis -disse ela-. Os amigos devem contar com os amigos quando tm problemas.
         -E esta  de meu pai -Richard ficou um momento em silncio, e logo acrescentou- Quer saber por que hei passado mais de um ms sem lhe escrever. Obviamente, 
no parece que tenha recebido a carta em que lhe falava do julgamento e de que no s tudo tinha sado como foi pedido, mas sim tambm sou um homem casado... -calou-se 
ao ver o que tinha tirado Rosamund da caixa.
         -Como demnios chegou isto aqui? -perguntou ela.
         Sustentava em uma mo um sapato feminino, de couro rosa, decorado com miangas de cristal, com uns quantos arranhes por causa dos quais se cansado os miangas. 
A correia estava rota e a pele salpicada de barro.
         -A ltima vez que vi este sapato foi na cabana da Chelsea, quando me deu a roupa do Harper para que me vestisse -disse ela dando voltas ao sapato na mo.
         Rosamund lanou um olhar interrogativo ao Richard, que estava observando fixamente o sapato como se o odiasse. Este se levantou de repente e lhe arrancou 
o sapato das mos.
         -No h nenhuma mulher que esteja contente at que no tem descoberto todos os segredos de um homem -Richard colocou de novo o sapato na caixa e a fechou 
de repente-. Esta  minha caixa, no a tua.
         -Richard, esse sapato  um traste velho -disse ela desconcertada-. No tem acerto, e embora o tivesse, perdi o outro par. No o recorda? Perdi-o no motim. 
dem-me isso j saberei eu o que fazer com ele.
         -OH, no. Nada disso.
         -Mas por que? No serve para nada -disse ela baixando as mos-. Acaso acreditas que os adornos so verdadeiros diamantes? So de cristal. Venha, me d esse 
sapato.
         -Hei dito que no!
         De repente ela comeou a compreender.
         -Richard, no estar guardando esse sapato velho e quebrado por razes sentimentais, verdade?
         -E o que passaria se assim fora? -respondeu ele cruzando-se de braos.        
         Ela ficou pensativa um momento, logo sacudiu a cabea e disse:
         -Mas isso significa que o guarda desde dia que me seqestrou. E voc ento me desprezava, ria-te de mim, tinha-me aterrorizada.
         -Existem muitos tipos de terror -disse ele com um ligeiro tom de brincadeira.
         -Isto no penso deix-lo assim -disse ela ficando em p-. Quero saber por que guardas este sapato.
         -Se te rir de mim, zangarei-me -disse ele olhando-a muito srio.
         -Prometo-te que no me rirei -respondeu ela apertando os lbios, enquanto os olhos lhe saam das rbitas.
         -Como imagina que me sentia quando, s poucas horas de te seqestrar, estava desejando possuir seu formoso corpo como se fora um adolescente? -disse ele 
suspirando-. Estava zangado comigo mesmo. E ao final daquele dia te admirava mais do que jamais admirei a nenhuma mulher. As coisas foram de mal em pior. Estava-me 
apaixonando por ti, embora,  obvio, no era capaz de reconhecer os sintomas. O que podia fazer? Nunca antes me tinha apaixonado. Quo nico sabia era que voc te 
tinha convertido na fonte de minha irritao. "A princesa perfeita", assim  como lhe chamavam os peridicos. Sabia que te foste casar com um tal prncipe Michael, 
e que jamais poderia ser minha. E o que sentia por ti me tinha petrificado.
         Ela deu um passo para ele, logo outro, e ao momento estava j em seus braos. Sua cara irradiava felicidade.
         -Richard, est dizendo que me ama?
         -No sabia? No era bastante bvio? O mundo inteiro sabe: seu pai, seus irmos, Harper, os criados.
         - obvio que sei. Mas pensava que voc no sabia.
         O emitiu um som a meio caminho entre a risada e o grunhido, e a sacudiu entre seus braos.
         -Quero-te -disse Richard-. por que outra razo teria guardado esse sapato? Se soubesse quantas vezes tentei me desfazer dele. Mas no podia. Era o smbolo 
de algo formoso e de grande valor que tinha aparecido em minha vida por ti.
         -Mas, Richard, esse sapato  horroroso.  uma runa. No podia ter guardado um de meus lenos ou algo pelo estilo?
         -No queria nada que fora perfeito. Queria esse sapato pelo que significava.  voc perfeita? Sou-o eu?
         -No, no somos perfeitos -disse ela docemente-. Solo somos perfeitos o um para o outro.
        * * *
         
        RESENHA BIBLIOGRFICA
         Elizabeth Thornton
         
         
         Elizabeth Thornton nasceu e se educou no Aberdeen, Esccia, onde exerceu como professora durante vrios anos. Em 1969, ela e seu marido emigraram ao Canad 
com seus trs filhos pequenos. Trabalhou em um jardim de infncia e como professora no Winnipeg, Manitoba, durante oito anos, quando, em 1977, demitiu para trabalhar 
como ministro auxiliar em uma Igreja Presbiteriana no Winnipeg. 
         Em 1986, leu sua primeira novela romntica, uma obra do Georgette Heyer e ficou cativada pelo gnero. A partir de ento, escrever se converteu em seu hobby. 
Em 1987, seu primeiro livro, uma histria curta ambientada na Regncia e titulada Bluestocking Bride, foi publicado pela editorial Zebra. Dois anos e quatro livros 
mais tarde, Elizabeth demitiu de seu colocado na Igreja para fazer-se escritora a tempo completo.
         Elizabeth  a autora de cinco novelas ambientadas na Regncia e de quatorze histricas. Nomearam-na e recebeu muitos prmios incluindo o prmio Romantic 
Teme Trophy ao melhor novo autor histrico e tambm o de melhor autor histrico. Sua novela, Scarlet Anjo, foi finalista nos prmios Romance Writers' of America 
na categoria de melhor romance histrico do ano. Seus livros apareceram em listas do Best-Seller e se traduziram a muitos idiomas. 
         
         Uma Princesa Perfeita
         A lady Rosamund Devere no interessa converter-se na esposa de um prncipe torpe, d-lhe igual quo idnea a imprensa a encontre para esse papel. Mas nem 
sequer a pouco convencional Rosamund podia imaginar o que muito em breve estaria em todos os titulares de imprensa: que ela era a complacente encobridora de um condenado 
por assassinato.
         Richard Maitland no  um criminoso ordinrio. Olhos frios, arrogante e perigosamente atrativo, o ex-chefe do servio secreto do rei  o branco de uma conspirao 
que lhe levou a priso. Para escapar a uma morte segura, seqestra ao Rosamund, que muito em breve se d conta do verdadeiro carter deste lobo solitrio e quer 
lhe ajudar a limpar seu nome. Mas muito mais perigoso que o compl que rodeia ao Richard  a paixo que prende rapidamente entre eles, uma paixo incontrolvel, 
imprudente e impossvel de resistir.
        * * *
        
        
         (c)2001, Mary George
         Publicado por acordo com o The Bantam DELL Publishing Group
         Uma diviso do Random House, Inc. 
         Ttulo original: The Perfect Princess
         (c)2005, David Cifuentes Camacho, pela traduo
         
         Desenho da capa: Departamento de desenho do Random House Mondadori 
         Fotografia da capa: (c) Franco Accornero/via Agentur Schlck GmbH
         
         (c)2005 pela presente edio para todo mundo:
         Random House Mondadori, S. A.
         Primeira edio: setembro, 2005
         ISBN: 84-9793-729-5 (vol. 61/2) 
         Depsito legal: B. 31.586 - 2005
         
         Fotocomposicin: Revertext, S.L.
